MAIS OU MENOS na metade do discurso da vitória de Alexandria Ocasio-Cortez, na noite de terça-feira, a multidão começou a vaiar.

A energia na sala até aquele momento tinha sido de muita alegria. Ao contrário do que ocorreu nas primárias, quando a candidata então com 28 anos de idade soube de sua impressionante vitória sobre o veterano de 10 mandatos Joe Crowley, o evento esteve lotado desde o começo, com uma fila na porta. O grande espaço no bairro de Woodside, no Queens, em Nova York, estava cheio de jovens sorridentes vestindo as agora icônicas camisetas brancas e roxas de Ocasio-Cortez, complementadas com acessórios típicos da geração millennial: mangas enroladas, brincos enormes e, é claro, batom vermelho. Uma banda de flamenco ao vivo inspirou a dança. Mais tarde, integrantes da multidão acabaram formando pares ao som da música latina. A certa altura, enquanto eu conversava com a membro fundadora da Justice Democrats, Alexandra Rojas, a música mudou, e ela fez uma pausa, examinando o público. Sua mãe, comentou, provavelmente estava dançando em algum lugar. Aquela era uma música à qual ela não conseguia resistir.

Mas, na metade do discurso de vitória de Ocasio-Cortez, a política do mundo externo rompeu o fervilhante santuário do partido. A CNN havia anunciado a derrota de Beto O’Rourke para Ted Cruz, cujo rosto aparecia pendurado acima da sala em telas grandes, desviando temporariamente a atenção dos comentários de Ocasio-Cortez.

Demorou um pouco para Ocasio-Cortez perceber o que havia acontecido. Ela estava prestes a atingir um de seus pontos mais populares – destacando a lacuna entre a riqueza sem precedentes dos Estados Unidos e o apoio insignificante oferecido aos mais pobres da população – quando resmungos começaram a escapar da plateia.

“Neste momento, na nação mais rica da história do mundo, nossa maior escassez não é a falta de recursos…”, Ocasio-Cortez fez uma pausa e repetiu a fala antes de perceber que a multidão desanimada não estava reagindo às suas palavras, mas à tela acima de suas cabeças. “Ah, desculpe pessoal. Eu estava pensando tipo, ‘Nossa! O ambiente mudou rápido!’”

A multidão riu, aparentemente agradecida por um pouco leveza diante de uma derrota difícil. “Mas, sabem o quê?”, Ocasio-Cortez improvisou, sensível ao fato de que os presentes precisavam de consolo antes de continuar com o discurso que havia preparado. “O que precisamos fazer também é perceber que essas perdas de curto prazo não significam que perdemos a longo prazo. Não significam. Em 2018, deixamos o estado do Texas roxo. Foi o que fizemos este ano.”O público se animou novamente.

“Nós vamos virar aquele estado em nossa geração, posso dizer isso a vocês agora. Vamos virar o Texas. É só uma questão de tempo. Não devemos nunca ter medo. Nunca há qualquer luta que seja grande demais para ser lutada. Nós provamos isso este ano.” Ela continuou. “Quando defendemos as causas de nossos vizinhos e nossa dignidade econômica e apresentamos planos inovadores e ambiciosos para nosso futuro, não há estado além de nosso alcance e nenhuma comunidade além da vitória. Nós só precisamos continuar com isso.”

Depois disso, ela retornou ao discurso de vitória com mais facilidade do que políticos que têm feito discursos durante todo o tempo que Ocasio-Cortez tem de vida.

Apoiadores de Alexandria Ocasio-Cortez aplaudem enquanto ela fala no palco durante sua festa eleitoral no Queens, em Nova York, em 6 de novembro.

Apoiadores de Alexandria Ocasio-Cortez aplaudem enquanto ela fala no palco durante sua festa eleitoral no Queens, em Nova York, em 6 de novembro.

Foto: Don Emmert/AFP/Getty Images

O QUE PODERIA ser visto como uma platitude vazia ressoou, ao contrário, como uma perspectiva muito necessária. Em uma noite cheia de duras derrotas, incluindo três corridas de governadores de alto nível com candidatos negros convincentes, era fácil esquecer que chegar tão perto da vitória em partes do país, antes consideradas impossíveis, representava um progresso em si mesmo.

O que a noite passada revelou foi que as trincheiras vermelhas e azuis que definem o campo de batalha político dos Estados Unidos são escavados superficialmente. No meio-oeste industrial, o recém-criado interior de Trump, os democratas em exercício chegaram à vitória. Sharice Davids, uma nativa-americana lésbica que também é lutadora de MMA, destituiu um republicano no Kansas profundamente conservador. Ocasio-Cortez e o senador Bernie Sanders foram ridicularizados por visitar, alguns meses atrás, aquele mesmo estado, que agora tem uma governadora democrata. Eles não azularam, mas estados como o Texas, o Mississippi e a Georgia ficaram roxos. E, como Ocasio-Cortez apontou, isso não é pouca coisa.

Na verdade, com muita frequência, os políticos falam sobre estados vermelhos e estados azuis – o interior de Donald Trump e os subúrbios de Hillary Clinton – como se a política de pessoas dessas comunidades fosse tão fixa quanto os distritos manipulados em que vivem. Desafiando essa lógica, o eleitor Obama-para-Trump se torna uma quimera despachada com o truísmo de que “é possível ser racista e votar em Obama”, enquanto a verdade inversa – que os eleitores racistas do Trump poderiam ser convencidos a votar novamente nos democratas – é repudiada por grande parte da classe de especialistas como uma tentativa de ceder aos fanáticos. Enquanto isso, apesar das pesquisas mostrarem o contrário, democratas brancos são enquadrados como sendo além do racismo: votar por um democrata parece absolvição suficiente.

Os não-brancos são achatados ao ponto da caricatura. A diversidade de um distrito torna-se uma abreviatura de seu progressismo – como se mais de um terço dos texanos latinos não votasse em Cruz – e as necessidades dos eleitores minoritários são percebidas como profundas, mesmo quando causas universais como “Medicare para todos” beneficiam muito mais alguns de nós.

Essa compreensão da política carece de imaginação e percepção. E, o mais importante, não funcionou. O trabalho da política não é apenas realizar prognósticos com base em pesquisas ou deduzir o que devemos acreditar de quem somos e favorecer adequadamente. É o trabalho de comunicação, de persuasão, de ouvir as pessoas e elaborar uma agenda que atenda às suas necessidades – e depois de transmitir esse plano em um nível humano que suplante o partidarismo. Este é talvez o trabalho mais singular e importante de um político: relacionar uma compreensão empática das preocupações do povo; não apenas respondendo às pesquisas, mas provocando um movimento que mude completamente os resultados.

Ouvir Ocasio-Cortez ser bem-sucedida nessa tarefa política essencial deve nos lembrar de como são poucos os políticos que estão à altura da tarefa.

Como ela me disse em entrevista ontem à noite: “Eu acho que quando ouvimos verdadeiramente as comunidades em que estamos concorrendo, [quando] estamos realmente nos conectando com as pessoas comuns no local, precisamos de uma mensagem progressiva para animar um eleitorado descontente que historicamente não votava. E então, o que espero que aprendamos, e o que espero que adotemos no futuro, é não ter medo de nossos valores – não ter medo de nos diferenciarmos do Partido Republicano e realmente nos comprometermos com a nossa visão”.

NA RAIZ da mensagem de Ocasio-Cortez sempre esteve o entendimento de que o que temos em comum é mais significativo do que o que nos divide. Esta não é uma observação banal de escoteiros destinada a descrever diferenças reais que exijam soluções políticas reais, mas sim uma visão baseada na realidade de que, apesar de nossa política, os americanos entendem intuitivamente que a dignidade humana deve ser inalienável. Como Ocasio-Cortez observou, depois de suas observações improvisadas sobre a vitória de Cruz: “Neste momento, na nação mais rica da história do mundo, nossa maior escassez não é a falta de recursos, mas a ausência de coragem política e imaginação moral.”

É preciso coragem política para pedir a abolição da Agência de Imigração de Alfândega dos EUA [ICE, na sigla em inglês] em um momento em que a imigração é o tema explosivo mais perigoso do país. E é preciso que a imaginação moral use o inegável poder da dignidade humana para alavancar o apoio à saúde universal e a um salário digno.

Se Trump nos ensinou alguma coisa, é que a ousadia é recompensada e a convicção pode ser sua própria moeda. Ontem, a autenticidade esteve na votação com todos os candidatos que renunciaram ao dinheiro da ação política corporativa, desafiaram a ortodoxia partidária com posições políticas progressistas e ousaram articular uma visão do futuro enraizada em valores em vez de pesquisas. O dia de ontem demonstrou que autênticos valores progressistas podem ajudar a redefinir nossa realidade política. E se Ocasio-Cortez pode mudar o espírito da Câmara da maneira como levantou os espíritos em Queens na noite passada, talvez acabe ficando tudo bem.

Tradução: Cássia Zanon