Que trágica ironia o fato de, para combater a esquerda, a extrema-direita brasileira estar imitando os piores métodos já empregados por aqueles que mais repudiam.

O bolsonarismo, encarnado no projeto Escola Sem Partido, repete linhas de ação da Revolução Cultural, movimento chinês igualmente obcecado com o fantasma da doutrinação ideológica e que, por isso, perseguiu professores, intelectuais e jornalistas entre 1966 e 1969.

Estou convencida que, para analisar o bolsonarismo, precisamos olhar não apenas os regimes fascistas do Ocidente, mas igualmente para o autoritarismo da própria esquerda – uma tarefa tão incômoda quanto necessária e que muitos analistas têm evitado de fazer.

A formação de “trabalhador-máquina”, a guerra ao conhecimento e o desprezo pelo fomento de uma massa crítica nada mais são do que uma tática comum – e eficiente no curto prazo, mas catastrófica no longo prazo – de regimes e racionalidades autoritárias à esquerda e à direita, do stalinismo ao neoliberalismo.

A revolução cultural à brasileira está acontecendo com os sentidos invertidos em relação à chinesa.

A lógica maniqueísta é simples: nós somos vítimas e estamos do lado do bem; e vocês são os algozes, que comem metafórica ou literalmente criancinhas e, portanto, precisam ser destruídos. Diante de um iminente fracasso político ou econômico, os culpados já estão ali bem definidos, transferindo-lhes a responsabilidade dos erros de gestão e autorizando maior repressão. Combate-se a ideologia do inimigo não por medo dela, mas para gerar distração.

O bolsonarismo tem sido, sobretudo, um movimento obcecado pelo revisionismo que persegue intelectuais e professores como “inimigos” ideológicos e doutrinadores, e que despreza os canais consagrados de comunicação, arte e cultura. Tem incentivado, assim, uma guerra cultural que joga os cânones no lixo, sem oferecer algo para colocar no lugar daquilo que despreza. Existe hoje uma revolta profunda contra a cultura liberal burguesa, entendida como fundamentalmente elitista.

A revolução cultural à brasileira está acontecendo com os sentidos invertidos em relação à chinesa. Alteram-se os significados, mas mantém-se a estrutura: os objetos de discurso, os modos de autoridade e os métodos de intervenção e punição para atingir a unidade nacional. Se trocarmos as cores do inimigo e a palavra direitista por esquerdista, por exemplo, podemos descrever processos muito similares. Refiro-me, claro, aos métodos da prática e não aos valores, os quais não são nem comparáveis nem opostos simétricos. O maoísmo, no discurso, travou uma luta contra a opressão e a favor do amor universal, da liberação das mulheres e da igualdade social. O bolsonarismo é o oposto disso tudo: é a tentativa de supressão da autonomia e a valorização do amor particularista.

Morte aos direitistas!

Na China, a Revolução Comunista de 1949 tinha o culto à personalidade como um eixo fundamental, valorizando a simplicidade de Mao Zedong. Isso era fundamental para estancar a polarização entre as áreas brancas e vermelhas, que crescia desde a queda da dinastia Qing na virada do século 19. Por décadas, invasões imperialistas e colapsos políticos e econômicos acirraram a divisão nacional. Como já relatei em texto sobre o atentando contra Bolsonaro, lunáticos e salvadores se espalhavam por todos os cantos agindo em nome de seitas ou individualmente em nome de Deus. Quando os chineses “acordaram”, para usar as palavras de Mao sobre o triunfo revolucionário, era preciso estampar a imagem do líder e da bandeira para produzir unidade nacional.

Se o culto à personalidade e nacionalismo são características comuns a muitos regimes autoritários, é no campo da educação que temos visto o Brasil repetir a história chinesa.

Na China, o antielitismo intelectual endureceu nos anos da Revolução Cultural e se tornou um movimento que tinha a educação como alvo principal, estimulando a denúncia dos professores pelos próprios alunos. Produziu-se uma verdadeira caça a mestres e artistas, jornais e universidades. Acusava-se de haver “direitismo” em todas as matérias e tradições. O legado artístico imperial foi questionado e revisado, tendo sua importância reduzida a pó. Escritores, pintores e músicos: todos “direitistas” e ponto final.

As ciências humanas e seus mestres eram um alvo decisivo. A Antropologia foi extinta; a História, revista. Seguindo o modelo soviético, muitas universidades foram fechadas e apenas 1% da população chinesa matriculou-se na universidade nos anos mais duros (lembrando que Bolsonaro disse que cursar universidade era uma “tara” dos brasileiros). Priorizaram-se as ciências naturais ou exatas e os cursos técnicos que pudessem achar soluções econômicas para a nação, contribuir com mão de obra e formar bons trabalhadores.

Livros didáticos e ementas de disciplinas foram todas revisitadas. No total, contabiliza-se que 300 a 700 mil intelectuais foram demitidos por viés ideológico. Os professores tiveram sua imagem pública destruída: eles foram expostos e humilhados.

Muito antes de o Twitter existir, no quesito “incentivar o ataque ao establishment”, Mao foi um precursor da tática de detonar a imprensa, jornalistas e editores com frases de impacto. Dizia que os intelectuais do país eram ignorantes. No lugar do vazio deixado pelo aniquilamento de todos os cânones culturais, que se transformaram em inimigos, doutrinadores e direitistas, restaram apenas palavras de ordem, o discurso de combate à corrupção da burocracia (guanxi) e uma estética artística – balés, óperas, pinturas e poemas – que valorizava símbolos nacionalistas, militarismo e armas apontadas para cima.

O auge da histeria coletiva veio justamente com o estímulo das denúncias entre professores, colegas, amigos e conhecidos. Famílias inteiras e relações de amor foram destroçadas em nome do amor universal da camaradagem. A violência interpessoal só aumentava, levando ao colapso mental e social. A corrupção não diminuiu – ao contrário, ela foi renovada porque tinha que assegurar a produtividade das comunas –, e as pessoas começaram a ficar neuróticas com o terror provocado por um tipo de perseguição molecular que dispensa censores oficiais, pois a denúncia vem do colega ao lado.

A Revolução Cultural foi genocida: assassinou e estuprou em massa, uniformizou as pessoas e aniquilou o “eu” dos sobreviventes. O Partido Comunista Chinês se envergonha até hoje dessa fase de sua história.

Lições

A Revolução Cultural nasceu para conter as críticas, especialmente após o fracasso do Grande Salto Adiante, a política comunista de aceleração econômica que trouxe resultados catastróficos.

Uma reportagem recente da revista The Economist alertou para a possibilidade de, se o governo do presidente eleito for um fracasso, o bolsonarismo irá caçar culpados para distrair o foco.

Eu aposto todas as minhas fichas que é isso que tende a acontecer no Brasil: conforme o governo desvela sua total debilidade – aumentando, assim, o risco de indignação popular –, vai aumentar a perseguição moral e ideológica para apontar culpados e desviar atenção.

Fiquemos atentos.

O bolsonarismo contra “tudo o que está aí” não tem absolutamente nada para oferecer em troca do que contesta.

O problema não é – e nunca foi – questionar o conhecimento consagrado, seja ele liberal, elitista, burguês ou progressista. O problema tampouco é questionar as universidades, a Folha de S.Paulo, Caetano e Chico. Todos os cânones e todas as instituições podem (e devem) ser revistas.

O problema que aprendemos com a Revolução Cultural é que jogar o bebê com a água no banho nos leva a um deserto de ideias, de alma e de expressão de vida, restando apenas a violência das palavras de ordem e a reprodução sádica do ódio pelo ódio. O bolsonarismo contra “tudo o que está aí” não tem absolutamente nada para oferecer em troca do que contesta – e uma sociedade que cresce nesse vazio intelectual é, em última instância, uma sociedade miserável.