“Com apenas uma bolacha no bucho”, Viviane, 33, sai para limpar a casa dos outros. Desde que o marido foi assassinado, em 2013, essa é sua rotina. Quem cuida da casa são suas filhas mais velhas, de 15 e 16 anos, que têm de deixar tudo limpo antes da mãe chegar. A rotina dessa família que mora em uma casa recém alugada no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, carrega marcas de uma chacina do dia 4 de janeiro de 2013, no bairro vizinho Jardim Rosana, quando policiais mataram sete homens dentro do Bar do Rob. Um dos mortos era João, então com 34 anos, marido e pai de quatro filhos de Viviane.

João era um homem negro, baiano, alto e esguio. Naquela sexta-feira, o pedreiro saiu de casa às 5h para o trabalho em São Bernardo do Campo. Ao voltar, parou no bar para tomar uma cerveja com seu irmão. Quando já estavam na porta de saída, por volta das 23h, cerca de 14 pessoas encapuzadas saltaram de três carros atirando e gritando “polícia, polícia!”. Ao todo, sete pessoas, com idades entre 17 e 41 anos, foram mortas. Entre elas, João e seu irmão, Edilson, então com 26 anos.

Retaliação da polícia

A tensão no Jardim Rosana havia começado em novembro de 2012. Naquele mês, circulava no bairro um vídeo com o assassinato do pedreiro Paulo Nascimento. O boato era de que o rapper Laércio Grimas, o DJ Lah, de 33 anos, seria o responsável pela gravação e divulgação do vídeo. Conhecido na região, Lah era integrante do grupo Conexão do Morro, famoso pela crítica à ação ostensiva e violenta da polícia nas periferias de São Paulo.

A gravação, feita por um cinegrafista amador, mostra o pedreiro tirado à força de casa, sendo agredido e assassinado a tiros por policiais militares. O vídeo teve uma enorme repercussão e chegou a ser exibido no programa Fantástico, da Rede Globo, colocando holofotes no modo como a polícia operava. Cinco PMs do 37º Batalhão do Campo Limpo, responsável pela região, acabaram presos.

Dois meses depois, no dia 3 de janeiro de 2013, por volta das 23h, Rodrigo Barbosa, que era cego, foi abordado em frente de casa e morto com um tiro na nuca por homens que se identificaram como policiais, segundo testemunhas. A morte do jovem de 27 anos era um prelúdio do que estava por vir.

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O filho mais novo não tem fotos com o pai. O celular dele, onde estavam os únicos registros, foi roubado depois de seu assassinato.

Foto: arquivo pessoal

Naquela noite seguinte à morte de Rodrigo, outros sete homens foram assassinados no bairro, no crime que ficou conhecido como chacina do Rosana. Além de João e Edilson, DJ Lah estava entre eles. A chacina foi uma das 86 que aconteceram no estado de São Paulo entre 2013 e 2017. No total, 340 pessoas morreram nesse período – a maioria em bairros periféricos da cidade. Os dados foram coletados em um relatório de 2017 do Instituto Sou da Paz.

Por ser a primeira chacina do ano, logo depois da virada, o crime teve uma enorme repercussão. Na manhã do dia 5 de janeiro, o delegado geral da Polícia Civil, Maurício Blazeck, disse a jornalistas que uma das vítimas era autor do vídeo de denúncia contra policiais. O tucano Geraldo Alckmin, então governador, se apressou em dizer que ainda era cedo para afirmar o envolvimento da polícia e que tudo seria investigado “com profundidade e rigor”. Naquele mesmo dia, a Secretaria de Segurança Pública também negou a possibilidade de o crime ter sido uma retaliação.

Eles estavam errados. Cápsulas de estojo calibre .380 e .40, armas de uso exclusivo das forças de segurança, foram encontradas no local. Rastreadas, as munições apontaram o soldado Gilberto Eric Rodrigues, PM do 37º Batalhão.

A partir disso uma rede de contatos do soldado foi traçada, apontando 10 policiais como suspeitos. O inquérito, que antes circulava no Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa, ligado à Polícia Civil, passou ao Ministério Público. Oito policiais foram denunciados, mas o juiz Alberto Anderson Filho, do 1° Tribunal do Júri de São Paulo, só acatou uma das denúncias. O soldado Rodrigues foi único preso pela chacina, mas ele não chegou a passar nem dois anos na cadeia. Rodrigues fugiu do presídio militar Romão Gomes em 2015, enquanto aguardava o julgamento, e permanece foragido.

Seis dos outros policiais denunciados continuam exercendo a função.

Herança da chacina

Para as vítimas, no entanto, a vida nunca mais foi a mesma. Só a chacina do Jardim Rosana deixou pelo menos 15 crianças órfãs. Quatro eram de João. O mais novo, hoje com seis anos (e oito meses na época), é o único que não tem fotos com o pai. O celular onde estavam as poucas fotos que tinham foi roubado de João depois de morto, assim como seus documentos, apagando as memórias da breve relação que filho e pai tiveram.

W., que hoje tem 14 anos, é quem mais sentiu o impacto da morte do pai. Sua mãe conta que “a ficha demorou a cair”. Conforme o tempo foi passando, o menino ficou bastante estressado e precisou de acompanhamento psicológico. Ele é quem mais fala sobre o pai e também quem mais sente revolta pela forma violenta como João morreu.

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Com a morte do pai, a mãe foi trabalhar fora e as filhas mais velhas assumiram as tarefas da casa.

Foto: Vinícius Cordeiro/Énois

As meninas, B. e D., com 15 e 16 anos, entraram em estado de choque na época. Mas os impactos psicológicos foram abafados pelas obrigações que assumiram após a perda do pai. A mais velha ficou com a responsabilidade de cuidar dos irmãos e da casa quando a mãe precisou, ainda de luto, começar a trabalhar.

Mais segurança, mas só no centro

Durante o final da década de 90 e início dos anos 2000, as brigas entre grupos rivais nas periferias, disputando territórios e o controle do tráfico, eram os principais motivos das chacinas. Hoje, a ideia de periferia contra periferia já não prevalece mais – principalmente porque o Primeiro Comando da Capital, o PCC, facção hegemônica em São Paulo, criou uma série de regras para regulamentar os crimes na periferia, seu próprio “tribunal”, segundo o pesquisador Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos de Violência da Universidade de São Paulo.

No ano 2000, São Paulo tinha uma taxa de homicídios maior que a média nacional. De acordo com o relatório de 2012 do Mapa da Violência, eram 64,8 homicídios a cada 100 mil habitantes no estado (no Brasil, 26,7). Segundo o Atlas da Violência 2018, no ano de 2016, o número de homicídios no país chegou a 30a cada 100 mil habitantes, e São Paulo registrou três vezes menos do que isso. Foi a maior queda da última década entre os estados brasileiros.

Mas os números não mostram o que acontece perto de famílias como a de Viviane.

O Capão Redondo, onde fica o Jardim Rosana, já foi considerado pela ONU o bairro mais violento do mundo. A alta taxa de violência, que atingiu o seu auge em 1996, fez com que o bairro ficasse estigmatizado – e a sua população, majoritariamente negra, também.

A Associação de Moradores do Campo Limpo lançou em fevereiro de 2013 uma carta sobre o alto número de chacinas naquele período. A entidade contou 118 mortos – e a contagem, se contemplasse também os bairros vizinhos, poderia chegar a 250.

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Aos 34 anos, João saiu às 5h para trabalhar. Nunca mais voltou.

Foto: arquivo pessoal

Os índices de homicídio na região melhoraram, mas o estigma persiste. A má-fama legitima a ocorrência de intervenções violentas da polícia e também o abandono do estado, que se reflete em casos nunca solucionados e em famílias destruídas pela ação violenta do poder público.

Segundo o Instituto Sou da Paz, 366 pessoas foram mortas em 2017 por policiais na cidade de São Paulo, 28,9% do total. No Capão Redondo e Campo Limpo, a taxa é ainda maior: A polícia foi responsável por 33,3% de todas as mortes.

O 37º BM, onde trabalhavam os PMs investigados pela chacina do Rosana, foi um dos mais letais na cidade de São Paulo entre 2013 e 2014. Nesse período, os policiais mataram 19 e 21 pessoas, casos classificados como “autos de resistência” pela polícia, casos onde a vítima supostamente entrou em confronto com os agentes. Homens, negros e jovens, com idades entre 15 e 29 anos, são as vítimas mais comuns. Nenhum policial do batalhão morreu no mesmo período.

Das 224 mortes registradas, 90% foram na periferia, segundo a Secretaria de Segurança Pública.

A chacina do Rosana não fugiu à regra: em São Paulo, um estado em que a maior parte da população é branca, 66,5% das pessoas assassinadas por policiais são negros, segundo um estudo da pesquisadora Samira Bueno, doutora em administração pública e governo pela FGV e pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Isso significa que, no estado mais rico do Brasil, a chance de um negro morrer nas mãos da polícia é o dobro de um branco.

Extermínio como política pública

As chacinas têm caído nos últimos anos, segundo a polícia. Mas pesquisadores dizem que o número de casos deve ser subnotificado. “Chacinas chamam muita atenção. Uma morte pode ser registrada como resistência seguida de morte, e se torna legalizada”, diz. Vale lembrar: 90% dos casos de assassinatos cometidos por policiais em São Paulo terminam arquivados, sem punição aos envolvidos, segundo a Defensoria Pública do estado.

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Nenhum policial envolvido na chacina do Rosana está preso.

Foto: Vinícius Cordeiro/Énois

E essa política de extermínio pode se tornar mais comum. O presidente eleito, Jair Bolsonaro, defende o “excludente de ilicitude”, ou seja, a possibilidade de policiais cometerem crimes sem responder por eles. E o governador eleito de São Paulo, o tucano João Dória, já importou o discurso da esfera presidencial. “A partir de janeiro a polícia vai atirar para matar”, declarou, ignorando o fato de que esse tipo de coisa já acontece nos bairros distantes do centro.

Ainda impune, a chacina do Rosana destruiu pelo menos sete famílias. E não há indícios de que o genocídio da população negra, pobre e periférica – que é a que mais morre nas mãos do estado – vai acabar.

Colaboraram: Erick Araujo, Leonardo Heckmann e Muryel Euzébio.