Em abril, o Intercept contou como as milícias já dominam as denúncias contra o crime no Rio de Janeiro. Agora, dois fatos independentes mostram que os grupos paramilitares chegam ao final de 2018 mais sofisticados e fortalecidos.

O primeiro veio quando o general Richard Nunes, atual secretário de Segurança Pública do Rio, me confirmou que os assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes lançaram mão de uma estratégia frequente em ataques terroristas: as células. A suspeita vem sendo reforçada a cada passo da investigação da morte da vereadora do PSOL e seu motorista pela Delegacia de Homicídios, que completa nove meses nesta sexta. As células agem como grupos independentes, rompendo a cadeia hierárquica vertical, com o objetivo de criar obstáculos à identificação dos mandantes ou financiadores de um atentado.

O segundo veio quando a justiça do Rio autorizou que Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, e Natalino José Guimarães saíssem da prisão no último dia 18 de outubro. Os dois são os criadores da Liga da Justiça, a maior milícia do Rio de Janeiro.

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Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, um dos fundadores da Liga da Justiça, deixou a cadeia depois de passar dez anos preso.

Foto: Reprodução

1. As células

Quem aperta o gatilho, nesses casos, não tem contato com o mandante e tampouco sabe a motivação do crime. O matador apenas cumpre uma etapa de um plano que envolve outras células. A tática é considerada sofisticada e seu emprego no caso Marielle e Anderson pode ser efeito do aprendizado com as execuções da juíza Patrícia Acioli e Amarildo de Souza. Ambos mortos por policiais militares, que acabaram identificados, condenados e presos. A participação de policiais e milicianos nos assassinatos da vereadora e de seu motorista já vem sendo confirmada pelas autoridades.

O problema para os investigadores, no caso Marielle, é ligar as células para enfim enxergar a teia em torno do crime. Sobretudo, o envolvimento de políticos como financiadores. Em nove meses, as investigações chegaram a três nomes, mas sem nenhuma prova substancial para garantir a condenação. O mais perto que se chegou foi ao local de onde saiu o Cobalt usado no crime. A região está sob influência de paramilitares chefiados por um “caveira”, os policiais que passam pelo curso do Batalhão de Operações Especiais, o Bope.

Enquanto a Delegacia de Homicídios patina para obter provas no caso Marielle e Anderson, as milícias em atividade no estado se organizam e, atualmente, estão mais semelhantes às narcomilícias, que espalharam o terror na Colômbia pós-cartéis de Cáli e Medellín, do que aos supostos agentes da lei aposentados ou em horário de folga que cobravam por serviços e, em troca, combatiam o tráfico. A associação entre milicianos e traficantes vem ganhando terreno por todo estado, em especial, na zona oeste e Baixada Fluminense. O que se deve à expansão da Liga da Justiça, chefiada atualmente por um ex-traficante: Wellington da Silva Braga, o Ecko. O general Richard Nunes confirma a mudança na forma de atuação das milícias e diz ser falso discurso de combatentes do tráfico em troca de lucro.

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O miliciano e e ex-traficante Wellington da Silva Braga, o Ecko.

Foto: Reprodução

O secretário interventor acrescenta ainda que a participação de policiais nesses grupos paramilitares vem diminuindo. Dados da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança mostram que, de janeiro até setembro, 370 suspeitos de envolvimento em milícias foram presos no Rio, sendo que apenas 39 deles eram policiais militares, civis, ex-policiais, bombeiros, militares e agentes penitenciários. No relatório final da CPI das Milícias, de 2008, por exemplo, dados da Inteligência da Secretaria de Segurança Pública identificavam 521 milicianos, sendo 191 agentes da lei.

Assim como no tráfico, os grupos paramilitares também passaram a recrutar jovens de baixa escolaridade e com histórico criminal para atuarem na ponta do esquema, como na cobrança de taxas de segurança.

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O ex-policial militar Ricardo Teixeira da Cruz, conhecido como Batman, está entre os nomes citados com prontidão pelos moradores de áreas comandadas por milícias no Rio.

Foto: Rafael Andrade/Folhapress

2. Reforços na Liga da Justiça

Quando se pergunta a um morador da zona oeste do Rio os nomes de integrantes da Liga da Justiça, a resposta imediata pode surpreender. Jerominho, Ecko, Leandrinho Quebra Ossos e Batman são citados de pronto, com a ressalva de que o homem morcego está preso. Se você não entendeu nada é sinal de que a sua realidade está mais próxima dos quadrinhos da DC Comics. Para quem vive a rotina de medo nas regiões sob domínio da Liga da Justiça, esse é o nome do maior, mais lucrativo e violento grupo paramilitar em atividade no estado.

Uma década após a CPI das Milícias lançar luz sobre o envolvimento de agentes da lei e políticos nessas organizações criminosas, os irmãos responsáveis pela criação do bando voltaram às ruas. Jerônimo e Natalino ganharam liberdade no fim de outubro, depois de passarem dez anos presos.

 

 

Integrantes da Liga da Justiça, inclusive, são suspeitos de envolvimento no plano para assassinar o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL. Eleito para o Congresso na última eleição, Freixo seria assassinado neste sábado em Campo Grande, um dia após as mortes de Marielle e seu motorista.

O plano para tocaiar Freixo durante uma reunião marcada para acontecer no bairro considerado reduto do grupo paramilitar teria sido tramado na primeira quinzena de novembro, dias depois de os irmãos Jerominho e Natalino Guimarães terem voltado às ruas. Os dois foram condenados após denúncias da CPI das Milícias, presidida por Freixo.

Nesse período, a liga passou por rachas internos, ampliou o domínio territorial e, atualmente, sob o comando de um ex-traficante se assemelha mais a uma narcomilícia. Com o retorno dos antigos chefes uma guerra pelo comando do grupo é iminente, acreditam autoridades.

Ex-inspetores da Polícia Civil, os irmãos Jerônimo Guimarães Filho e Natalino José Guimarães ganharam notoriedade na esteira da CPI das Milícias. A partir da criação da Liga da Justiça, a dupla ganhou dinheiro e poder. Sobretudo, depois de terem sido eleitos vereador e deputado estadual, respectivamente.

Jerominho e Natalino acabaram presos em 2008 e condenados posteriormente por crime de formação de quadrilha armada. À época, as milícias ainda não eram tipificadas no Código Penal como organização criminosa. Mas, no último dia 18 de outubro, após terem sido absolvidos de um processo onde eram acusados de tentativa de homicídio, os dois irmãos foram soltos. Jerominho deixou a carceragem de Bangu 8 e foi buscar Natalino na Penitenciária Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

Os assassinatos na região vêm sendo monitorados pela Secretaria de Segurança. No último dia 19, por exemplo, o dono de um depósito de gás na rua Rochedo de Minas, em Campo Grande, maior bairro da zona oeste do Rio, foi morto a tiros ao chegar ao local. A vítima, que não teve o nome divulgado, já havia denunciado a cobrança de taxa de segurança por milicianos da Liga da Justiça.

O caso que absolveu os milicianos tratava de uma tentativa de assassinato contra o motorista de van Rodrigo Silva da Costa, em junho de 2005, também em Campo Grande. De acordo com a denúncia do Ministério Público estadual, Natalino e Jerominho foram os mandantes do crime.

Rodrigo foi baleado quando passava com sua Kombi pela Estrada do Mendanha, perto da avenida Brasil, mas conseguiu sobreviver. Leandro Paixão Viegas, conhecido como Leandrinho Quebra-Ossos, foi acusado de ser o executor do crime, mas acabou absolvido em 2016. Ainda de acordo com a denúncia do MP, o crime teria sido cometido por causa da disputa pelo controle dos transportes alternativos na zona oeste do Rio.