Para ler com ‘sofrência’

Vamos falar a verdade. Marília Mendonça é a rainha do Brasil.

Quem não entende o que é sofrer por amor? Ser traído? Ver o carinha que você gosta ficando com sua amiga? O apelo de suas músicas é universal.

Ela é a principal representante do “feminejo”, tipo de música sertaneja feita por mulheres e voltada para mulheres. A diferença para o sertanejo tradicional é que, pela primeira vez, elas estão no papel principal. Também não querem mais saber de homem machista e são companheiras umas das outras.

Repare nessa letra:

“O cara que eu tava deu em cima de você, foi?

E aí você ficou com ele, mas foi uma vez, ok

Do que cê tá com medo? De estragar a amizade?

Nem fica preocupada, a gente resolve mais tarde

 

Se quem tava comigo era ele, a culpa é dele

Quem fez essa bagunça na nossa amizade é ele

Eu não vou deixar de ser sua amiga por causa de um qualquer

Que não respeita uma mulher”

“A culpa é dele”, Marília Mendonça

 

Como os colegas sertanejos, Marília, Simone e Simaria, Naiara Azevedo e Maiara e Maraísa cantam sobre amor, traição, festa e bebedeira. Elas conseguem falar sobre empoderamento de mulheres – jargão esquerdista detectado – sem nunca dizer que estão falando disso.

Quer uma prova?

“Tá pra nascer alguém que manda em mim

Que possa me impedir de ser feliz

Tá pra nascer e não vai ser você

Sou vacinada e mando em meu nariz”

“Chora Boy”, Simone e Simaria

Quando completou 22 anos, em 2017, Marília se tornou a artista mais ouvida do país. É uma das mais vistas no YouTube. Fatura mais de R$ 10 milhões por mês com shows e direitos autorais. Sua música chega a lugares que, aceitemos, esse texto dificilmente vai conseguir chegar.

As mulheres do feminejo não costumam se considerar abertamente feministas. Pelo contrário, rejeitam esse título que tão bem lhes cabe, mas que, para elas e para muitas brasileiras, soa mal. Algumas das maiores representantes do gênero –  Maiara e Maraísa, Naiara Azevedo e Simone e Simaria – só admitem ter “dez centavos de feminismo”.

E daí que elas não levantam a bandeira? Marília e suas amigas do feminejo são feministas sem dizer que são. A maneira simples e despretensiosa que elas têm de se expressar é uma lição valiosa para os movimentos de esquerda. Talvez seja a hora de repensarmos o vocabulário e seus símbolos – e é aí que o feminejo pode trazer lições importantes.

Fora jargão

A direita foi eficiente em emplacar uma conotação negativa para chavões repetidos pelos movimentos progressistas. O feminismo virou “abortismo” e sinônimo de mulheres feias e mal amadas. A defesa dos direitos humanos se tornou a defesa de bandidos.

Com isso, esquerda, feminismo, patriarcado, empoderamento e machismo, por exemplo, são termos que repelem boa parte do público e podem impedir o avanço do diálogo.

Na maior parte dos casos, insistir em explicações não resolve a questão. A vitória de Bolsonaro para a presidência da República nos mostra isso. Venceram aqueles que conseguiram emplacar a versão de que a esquerda e o feminismo são abortistas, bandidos ou sinônimo de mulheres feias e mal amadas.

Marília Mendonça deu várias entrevistas negando que é feminista. “Se minhas letras se encaixam, não é proposital. Apenas sou uma mulher que defende a igualdade por merecimento”, disse ela ao jornal O Dia. E complementa: “Não somos melhores e nem piores que os homens. Somos capazes”.

À Folha de S.Paulo, ela falou que seu feminismo não é feito de teoria, textos ou protestos. “Protesto com minha vida, ao bancar tudo isso e falar que ia ser do jeito que sou e que ia conseguir o que consegui”.

Em entrevista no Domingão do Faustão ela falou sobre sororidade (o companheirismo e a união entre as mulheres), mas sem usar o jargão: “O que eu sonho de verdade é que as mulheres se unam, que elas jamais abaixem a cabeça. Porque a gente vem conquistando as coisas na raça”.

Marília Mendonça canta seu feminismo sem jargão no dia 21 de dezembro de 2018, no Espaço das Américas em São Paulo.

Marília Mendonça canta seu feminismo sem jargão no dia 21 de dezembro de 2018, no Espaço das Américas em São Paulo.

Foto: Agatha Gameiro/FramePhoto/Folhapress

Marília não está nem aí de ser chamada de “gordinha”, de ser julgada por fumar um maço de cigarro em quatro horas e por encher a cara de vodka. Não tenta se enquadrar em padrões. É como várias mulheres que lutam para ter controle sobre a própria vida, se sentem representadas por outras mulheres e questionam injustiças ainda muito comuns, como continuarem a receber salários menores que os de homens na mesma função. Buscam, à sua maneira, a igualdade entre homens e mulheres. Elas não se consideram, mas são feministas, embora ajam diferente da esquerda, que se apega a expressões que pouco ou nada dizem para a maioria das pessoas fora da bolha. O feminejo agrega, enquanto a esquerda perde aliados importantes.

Capitalizando com a rejeição

Durante as eleições, a campanha de Jair Bolsonaro tinha o desafio de reverter a enorme rejeição que ele tinha entre o público feminino. Foi bem sucedida com uma estratégia de dividir as mulheres em dois tipos: as que o apoiam e rejeitam o feminismo; e as femininas.

O discurso foi repetido de diferentes formas entre seus apoiadores. Joice Hasselmann, a mulher com maior votação para a Câmara, diz que “feministas são vexaminosas e deselegantes”.  O deputado eleito Eduardo Bolsonaro costuma dizer que “mulher que se dá ao respeito” não entra em movimento feminista.

As manifestações do #elenão, como a de 29 de setembro, que levou milhares de pessoas às ruas de 26 estados, foram desqualificadas pelo grupo bolsonarista justamente por serem ligadas ao feminismo. Circularam notícias falsas de que os atos tiveram orgias e até satanismo.

Depois do protesto, pesquisas indicaram que Bolsonaro cresceu em intenções de voto. Em parte, segundo analistas, porque o movimento foi classificado como de esquerda, elitizado e que não conseguiu furar a bolha do público que já não votava no militar. E aí começaram comparações entre o que seriam “mulheres de direita e de esquerda”.

Imagens: Reprodução/Twitter

Logo depois do protesto, Eduardo Bolsonaro resumiu a lógica que a direita tentava colar às feministas. Disse, sem nenhum pudor, que “mulheres de direita são mais bonitas e higiênicas”. Nos grupos de WhatsApp, a máquina de memes da campanha bolsonarista não economizou criatividade para divulgar montagens comparando os dois tipos de mulheres. Funcionou.

Quando um tipo de discurso não funciona mais, a direita é eficiente ao praticar o desapego. Ela está constantemente se reinventando para continuar existindo.

Vejamos o exemplo do Democratas, o DEM. Hoje ele se vende como “o partido das novas ideias”. Mas o DEM  existe desde 1965 e foi criado para dar apoio à ditadura. Chamava-se Arena até 1980, quando foi rebatizado de PDS. Cinco anos depois, mudou para PFL e, em 2007 – quando estava desgastado demais para eleger algum dos seus membros – passou a se chamar DEM. Atualmente, o partido das novas ideias já tem três ministros indicados para o governo de Jair Bolsonaro, um grande defensor da ditadura militar. As ideias são as mesmas do passado – só o marketing que mudou.

Não queremos dizer que os defensores de causas progressistas devem abandonar seus ideais. Só precisamos encontrar o melhor tom para comunicá-las, especialmente em um contexto de guinada à direita na política e nos costumes.

Derrube os muros ao redor

A quarta onda feminista, pautada em grande medida pela internet, não chega para uma boa parcela da população. Por isso é preciso repensar estratégias. Não faz sentido falar sobre #8M (o movimento que começou na Argentina e ficou famoso nas redes sociais) com mulheres que não entram em greve em 8 de março sob o risco de perderem o emprego.

Alguns coletivos de mulheres já adaptam o discurso quando abordam temas feministas em eventos nas periferias ou nas escolas. Elas falam em movimento de mulheres em vez de dizer feminismo, por exemplo. Isso ajuda a romper a resistência das ouvintes e facilita a transmissão da mensagem. O que nós precisamos é aprender com esses coletivos e com a Marília Mendonça.

A artista consegue envolver uma parcela imensa da população com a sua música. Mesmo homens. Isso quer dizer que essas pessoas se sentem representadas, de algum jeito, com o que está sendo dito. E o que ela diz é, na base, feminismo – mesmo rejeitando o rótulo.

Quando Marília Mendonça se preocupa com a esposa do homem com quem ela fica, a mensagem é clara: esta outra mulher não é necessariamente sua inimiga. Pode parecer óbvio, mas é o oposto do que costuma ser dito em músicas populares. Ela resolveu, de uma forma popular e acessível, a questão da rivalidade entre mulheres, muito discutida em movimentos feministas.

E a música faz isso sem palavras difíceis, textões, lacração ou jargões esquerdistas. A mensagem foi passada adiante de um jeito que faz sentido para a vida real das pessoas. Quem se identifica com os valores propagados pelo feminejo também provavelmente se identifica com os valores do movimento feminista – só não sabe disso ainda.

A esquerda precisa escutar as necessidades do público que ela quer alcançar. Caso contrário, continuará cercada pelos seus próprios muros.