O resultado da eleição presidencial ainda estava sendo digerido pela esquerda quando Ciro Gomes, derrotado no primeiro turno, ofereceu uma explicação simples para o sucesso da extrema-direita: o foco dos setores progressistas nas pautas identitárias. “A moral popular é diferente da moral dos setores ilustrados da sociedade”, argumentou em entrevista à GloboNews em 11 de novembro. “Você explorar essa tolerância generosa que nosso povo tem com políticas públicas para afirmar um identitarismo de minorias que são mais próximas do pensamento progressista é falta de respeito.”

A afirmação foi controversa. Há anos os movimentos identitários, que se organizam coletivamente em torno de identidades individuais – como a mulher, no caso do feminismo, ou o negro, no do movimento negro –, vêm reforçando que o desequilíbrio de direitos e de poder entre homens e mulheres, brancos e negros, héteros cis e LGBTs deve ser encarado como um problema tão importante quanto os causados pelas diferenças de base econômica. Não seria coincidência, afinal, a pobreza no Brasil ser majoritariamente negra, as mulheres em idade reprodutiva terem maiores dificuldades para encontrar emprego e conseguir cargos mais elevados, ou as mulheres trans dificilmente conseguirem trabalho fora do mundo da prostituição.

Mas o que é identitarismo?

Segundo o sociólogo Stuart Hall, as feministas dos anos 60 e 70, que tinham como mote “o pessoal é político”, deram início à políticas identitárias ao negar que os membros de uma mesma classe social teriam os mesmos direitos. O identitarismo vem da ideia de que há uma identidade para cada movimento. O feminismo para lutar pelas demandas das mulheres; a política sexual pelas dos LGBTs, a luta racial pelas dos negros. E esses movimentos se cruzam: uma mulher negra, por exemplo, pode se sentir representada pelo feminismo e pelas lutas raciais.

De alguns anos para cá, parte da esquerda passou a reconhecer que a desigualdade econômica precisa ser combatida junto a essas outras formas de desigualdade, que se entrecruzam. Mas a centralidade que vem ganhando as pautas dos movimentos identitários ainda é incômoda. “Tentar enfiar as narrativas identitárias pela goela abaixo do pobre só vai continuar dando errado”, opinou via Twitter a cantora lolly Amâncio, ao comentar a entrevista de Ciro Gomes. Vocalista da banda de rock Banda Gente, baseada na Baixada Fluminense, região da área metropolitana do Rio historicamente abandonada pelo poder público, ela declarou com firmeza: “Aceitem os fatos, deu merda e isso ajudou a eleger um Fascista.”

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Fotos: Reprodução/Twitter

O foco nas pautas identitárias foi responsável pela derrota da esquerda? Ou seria o identitarismo o bode expiatório escolhido pelos progressistas que nunca o engoliram diante da onda reacionária que lhe deu um caldo nessas eleições?

Conversamos sobre o assunto com a relações públicas e escritora Gabriela Moura, parte do coletivo feminista Não me Kahlo. Para ela, é um erro acreditar que as pautas identitárias devam ocupar um lugar secundário na agenda de esquerda. O problema não estaria na atenção reservada ao tema, mas sim na incapacidade dos movimentos de comunicarem direito suas pautas a quem está fora da bolha. “Você tem que adequar seus discursos e se fazer entender”, defende Moura.

A ativista critica ainda o crescimento de uma representatividade vazia – a eleição de mulheres com bandeiras antifeministas, por exemplo –, fruto dessa dificuldade de comunicação da esquerda, e a falta de cruzamento entre os movimentos identitários com a questão de classe. “Para mim não existe nenhuma defesa identitária válida que não passe pela questão de classe”, resume. “Assim como eu não acredito em uma luta de classes descolada das questões identitárias.”

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“Toda vez que a gente tem uma onda minimamente progressista que seja, a gente tem um efeito rebote muito intenso”, argumenta a escritora feminista Gabriela Moura.

Foto: Arquivo Pessoal

Intercept – Em 2019, vamos ter 77 mulheres na Câmara, 26 a mais do que em 2014. Serão três negras a mais além de nossa primeira deputada federal indígena. Até agora, 23 já declararam parte ser da base aliada de Bolsonaro e 32 não declararam de que lado vão estar, ainda que entre essas mulheres tenhamos figuras reconhecidamente conservadoras, como Clarissa Garotinho. Isso tem como ser considerado uma vitória? 

Gabriela Moura – Vitória é uma palavra meio forte. Quando a gente pega esse número isolado, de 26 mulheres a mais do que na antiga bancada, parece, sim, uma evolução da representatividade política das mulheres. Ao colocarmos um zoom na situação, vemos que não é bem assim. Quando a gente tem mulheres que são declaradamente pró-Bolsonaro, obviamente isso muda muito pouco a situação das mulheres no tocante a políticas do gênero, do ser mulher. Então é uma pegadinha. Uma cilada que pode ser usada como um grande cala boca, porque aí as pessoas que vão falar assim: “Não, não pode reclamar, porque tem, sim, mulher na jogada, então vocês estão representadas.” Mas a representatividade não se dá meramente por termos mulheres no Congresso, mas pela posição política que elas defendem e pelas ideias que vão colocar lá dentro.

Foi a extrema-direita que elegeu a deputada estadual mais votada na história do Brasil, Janaína Paschoal, e que no Rio elegeu como deputado federal mais votado neste ano Hélio Bolsonaro, um homem negro. Gritamos por representatividade, mas a direita ultraconservadora já pode gritar: “ok, mas fomos nós que conseguimos mais votos pros grupos que vocês querem defender.” A centralidade dada às pautas identitárias pela esquerda é um problema? 

Isso põe um bom pé no peito na esquerda, que era necessário. Quando os caras da direita chegam para a gente e falam: ‘A gente elegeu muito mais mulheres do que vocês’, eles têm um ponto, de fato.

A direita ganhou nas redes sociais

Ao longo de meses em 2018, as pautas da esquerda, em especial as ligadas aos movimentos identitários, foram ridicularizadas pelos militantes da direita. E a lógica das bolhas criadas pelas redes sociais só ajuda a manter as críticas dos conservadores longe dos olhos e ouvidos dos progressistas. Sem enxergar o que estava acontecendo, a esquerda permitiu que a direita se apropriasse de suas pautas nas eleições e as ressignificasse. Ao longo dessa matéria, veja os memes que a direita usou para ganhar esse jogo.
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Foto: Reprodução/Facebook

A questão do identitarismo fica confusa quando a gente não intersecciona os assuntos. Eu não queria usar o termo “interseccional” para as pessoas não confundirem, não acharem que eu estou falando de feminismo em si. Estou falando do cruzamento das problemáticas sociais. Se tem a Janaína Paschoal, que é uma mulher declaradamente de direita – e ela na verdade passeia por diversos vieses, porque ela se coloca, sim, como uma representante das mulheres em diversos momentos, até pela condição que ela já exercia antes de entrar na política, de ser professora da USP, de ter um bom cargo, ser muito respeitada na instituição – então é um fato. A direita tem razão quando coloca que elegeu mais representantes de minorias do que a esquerda.

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Fotos: Reprodução/Facebook

Mas o que a esquerda vai fazer então já que a gente se coloca numa situação de oposição? Como a gente vai fazer esse debate e entender as questões identitárias não como um problema, mas como algo que não pode ser apresentado sem um aprofundamento? Ou seja, não é sobre eleger mulheres e ponto final. É sobre quais mulheres serão eleitas, porque se você tem uma Janaína Paschoal e um Guilherme Boulos, que é um homem, branco, de classe alta etc., como você faz a defesa de que prefere um homem do que uma mulher?

Foto: Reprodução/Facebook

A direita só alçou a condição que eles conseguiram alçar, porque eles estavam sim junto do povo.

Não vamos ter as respostas na ponta da língua. É preciso pegar essa provocação e fazer uma autocrítica para entender como a política pode ser feita em todos os períodos, não só no período eleitoral. Bem ou mal, a direita só alçou a condição que eles conseguiram alçar, porque eles estavam sim junto do povo, levando o discurso que o povo gosta, que são respostas muito mais práticas, muito mais rápidas, a curto-médio prazo. Enquanto a esquerda – e eu obviamente me coloco nisso, numa autocrítica, também –, fica nessa masturbação mental de levar o pensamento para esferas que às vezes nem a gente consegue alcançar. E obviamente assim não vamos conseguir afetar as massas positivamente.

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Foto: Reprodução/Facebook

Em resumo, a resposta é trabalho de base?

Basicamente.

Como a gente volta para esse trabalho de base, que historicamente já foi muito forte na esquerda e agora está muito nas mãos das igrejas e da direita?

Eu não sei te explicar como nos afastamos, porque é todo um processo. A esquerda é fragmentada, não no sentido de “a esquerda não se une”. Existem diversas linhas de pensamento na esquerda. A intelectualização da esquerda é muito boa, eu acho necessária e acredito sim que as ciências devem ser usadas a nosso favor. Só que essas mesmas ciências têm que ser popularizadas. É aquilo que as pessoas falam: você joga um debate na USP, que é longe para caramba, não é fácil de chegar, às 15h. Quem você espera receber? Enquanto isso, a direita está usando o Whatsapp, está conversando com o tiozinho da esquina, está conversando com o cara que foi assaltado e está puto, porque foi assaltado, sabe?

É você adequar o seu discurso. Quando eu me formei em comunicação, isso foi uma coisa que me tocou e que eu tento policiar muito, que é a adequação do discurso. A gente tem uma mania arrogante de dizer: “Eu sou responsável pelo que eu falo, não pelo que você entende”. Não é isso, é o contrário. Se eu estou te passando uma mensagem, eu sou sim responsável pelo que você entende se eu quero que você me compreenda. E aí, mais para frente, se quisermos levar isso para outras esferas, podemos levar. Mas não vou conseguir isso se não fizer o trabalho de base levando o bê-a-bá. A esquerda ficou tão estigmatizada que qualquer mínimo ato humano que seja é tido como comunismo. E o comunismo é visto praticamente como um crime, não como um viés político que pode ser estudado, pode sim ser contestado. Mas [é visto] como crime. Então se você é minimamente simpático [a ideias comunistas], você é tido como um criminoso. As pessoas não sabem, elas não gostam, elas não querem saber. Então a direita ganhou muito bem essa parcela da população, eles souberam fazer esse trabalho e a gente se fudeu.

Apesar de os conservadores oficialmente rechaçarem a ideia de identitarismo, nos EUA, crescem com força os grupos de supremacistas brancos que se disfarçam como grupos identitários. Aqui no Brasil, o Bolsonaro foi criticado pela ausência de mulheres em sua equipe de transição e escreveu no Twitter que não se importa com a cor ou o sexo de ninguém, desde que seja competente, mas em seguida colocou quatro mulheres na equipe. Todas militares e alinhadas o suficiente com o discurso dele para aceitarem o convite. Caímos numa armadilha discursiva.

Reprodução/Facebook

Exato. A população tem que entender o que é ser identitário. A questão dos supremacistas brancos… a história é cíclica. Voltamos a um ponto perigoso. Acredito que, em breve, a gente possa ter que enfrentar os mesmos tipos de manifestações que acontecem nos Estados Unidos. Talvez de uma forma um pouco mais sutil, porque esse tipo de manifestação nos Estados Unidos não é criminalizada, é tida como uma forma de direito à expressão. Temos que entender primeiro o que é ser identitário e quais são as identidades que vamos trabalhar e como. Para mim, particularmente, não existe nenhuma defesa identitária válida que não passe pela questão de classe. Essa é uma opinião pessoal minha. Assim como eu não acredito em uma luta de classes descolada das questões identitárias – de raça, de gênero, de sexualidade.

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Antifeministas declaradas, aliadas de Bolsonaro se apropriam de termos e discussões do movimento para negar a necessidade do feminismo.Foto 1: Reprodução/Facebook | Foto 2: Reprodução/Twitter

Quando o Bolsonaro chega e fala: “Tem essa ministra aqui que é mulher”, mas o apelido dela é Musa do Veneno, alguma coisa está muito errada e isso devia ligar o pisca-alerta. É sim uma armadilha discursiva, porque quando a gente reivindica: “Eu quero mulher, quero negro, quero LGBT”, não especifica as pautas que são defendidas.

Foto: Reprodução/Facebook

Eu quero um negro, mas não que me dê veneno. Eu quero mulher que defenda o direito ao aborto, os direitos reprodutivos. Também estamos falhando nessa comunicação sobre o que nós estamos reivindicando, o que é necessário para a nossa população agora.

Uma crítica recorrente ao identitarismo é a fragmentação da esquerda em microgrupos e uma consequente individualização das pautas progressistas. Para os críticos isso acaba transformando grande parte da população em inimiga, de certa forma. Como culpar todos os brancos pela escravidão. Você compartilha dessa visão?

Eu concordo muito com a primeira parte, não concordo com esse final. Acho que podemos sim prosperar com essas pautas, desde que haja essas premissas que você falou no começo. Se a gente simplesmente joga as pautas identitárias isoladas, de fato elas não vão fazer sentido e a gente vai formar pequenas microbolhas: a população negra, a população LGBT, a população X, Y, Z. Temos que encontrar nosso denominador comum, o tronco que nos une em relação a isso. Qual o histórico dessas lutas? Se você pega a história do feminismo, do movimento negro, do movimento LGBT, cada um tem uma gênese. A gente tem que resgatar essa gênese e recontextualizar com o que estamos vivendo agora.

Foto: Reprodução/Twitter

Você deu um exemplo mais consensual, vou ser um pouco mais polêmica. Você pega um adolescente negro que não tem consciência de classe, consciência histórica. Mas o cara está construindo uma autoestima em cima de uma lógica de consumo. Ele quer ser lacrador, ele quer ser muito foda, imitar a Beyoncé, a Djamila [Ribeiro]. Isso é totalmente individual e pode fazer muito bem para ele enquanto indivíduo. O macro vai continuar intacto, porque a estrutura não vai ser mudada em nível nenhum. Ele vai continuar sendo discriminado na rua, na faculdade, no trabalho, se ele conseguir trabalho. Eu concordo sim que as lutas identitárias têm que ser vistas com muita delicadeza, muito cuidado. Só que eu não descartaria elas, não colocaria em segundo lugar, como muitas pessoas colocam. Para mim é um erro.

Vamos a um exemplo. Depois da entrevista do Bolsonaro no Roda Viva, em que ele engoliu os jornalistas, nós perguntamos à pessoa que faz faxina aqui na redação: “A senhora está preocupada se os arquivos da ditadura vão ser abertos ou não?” Ela disse que não. “A senhora está preocupada com o quê?” Ela falou que com emprego, saúde, educação. A pergunta poderia ter sido sobre representatividade feminina ou negra e a resposta, suponho, teria sido parecida. Como mostrar que as pautas identitárias e essas preocupações andam juntas?

Se eu tivesse essa resposta eu ganharia de pronto um Nobel. Na época da eleição eu ouvi um jornalista que falou exatamente isso: “Cara, a população não está nem aí para machismo e homofobia. Não é que machismo e homofobia não sejam um problema extremo, é sim. Só que a população está muito mais preocupada com os problemas imediatos.” O cara tem fome, o cara precisa de emprego, ele tem que pagar conta. É isso que ele quer. Ele vai virar a atenção dele para quem promete para ele isso, para quem promete que ele vai conseguir voltar para a casa à noite vivo, sem ser assaltado. Para quem promete que a carteira de trabalho dele vai ser assinada. É isso.

Foto: Reprodução/Facebook

Aí todo o resto fica muito em último lugar, porque as pessoas simplesmente não têm tempo para pensar sobre isso. Essa é uma lógica capitalista cruel. Ela te coloca sempre ocupada, com problemas muito básicos, que não deviam nem existir, que são passar fome e ter onde morar, para você não ter tempo para pensar em outras coisas que formam as relações humanas. Então para você quebrar esse ciclo cruel, você tem primeiro que questionar todo o sistema econômico que está cristalizado há séculos e que está sendo colocado como normal.

A nova onda do backlash

A cada onda do movimento feminista se segue imediatamente uma onda extremamente conservadora, que procura demonizar o feminismo e afastar dele as mulheres. Essa onda reacionária foi batizada em 1991 pela jornalista Susan Faludi de “backlash”. No livro de mesmo nome, ela analisa os efeitos do contra-ataque nos anos 80 à terceira onda do feminismo. Se a década de 2010 é tida como o início da quarta onda feminista, a reação ultraconservadora ao progresso das minorias não é nenhuma surpresa.

Muitas pessoas têm dito que o identitarismo elegeu o Bolsonaro. Isso me parece um exemplo de backlash. Minha impressão é que de forma parecida com o que acontece com o feminismo, o identitarismo está sendo demonizado como o responsável pelas mazelas dos grupos identitários.

Total.

Como a gente sai desse ciclo quando a história nos mostra que estamos repetindo isso há, no mínimo, um século e meio?

A gente volta para a questão do trabalho de base. Se a população tivesse um conhecimento mínimo do que é feminismo, eles não iam acreditar em corrente de WhatsApp que mostra mulher defecando em frente à igreja católica falando que isso é feminismo.

Foto: Reprodução

Toda vez que a gente tem uma onda minimamente progressista que seja, a gente tem esse efeito rebote muito intenso. Porque, óbvio, a camada que detém o poder entende bem isso, eles vão se armar dos ardis mais sujos que puderem. Toda ala da esquerda, sejam feministas, comunistas, anarquistas, ecologistas, o que seja, são vilões. São pessoas que trabalham temas que as fazem ser vistas como destrutivas para a sociedade.

Foto: Reprodução/Facebook

A gente precisa mostrar para a população o que são essas pautas. O que significa ser feminista, o que significa a luta indígena, a luta negra, a luta LGBT. Porque não se sabe, isso ainda é uma coisa muito presa a poucas pessoas que têm acesso a essas informações, como eu e você. A gente sabe que nós duas podemos ter uma conversa tranquila, mas se for falar [nesses termos] com a senhora que faz faxina aí que você falou, não vai rolar. E também o contrário, eles não conseguem se fazer entender. Então a gente fica sempre nadando no mega raso.

O historiador Asad Haider escreveu um livro sobre identitarismo nos EUA e afirmou que a política identitária passou de uma prática política revolucionária para uma ‘ideologia liberal individualista’. Acho que entra um pouco no que você estava falando sobre o adolescente negro que quer imitar a Beyoncé, por exemplo. Você acha que isso aconteceu no Brasil também?

Esse movimento é natural. A gente entraria talvez até numa questão psicológica disso que é da construção da autoestima dos grupos marginalizados. Ninguém gosta de ser marginalizado. Não é legal e você luta o tempo todo para ser parte de um grupo maior. Esse grupo dominante, que são esses grupos liberais, que prezam o prazer individual e o imediatismo, ditam o que é ser legal, o que é ser aceito. É normal que essa pessoa que está nessa situação de construção de autoestima queira seguir muito mais esse caminho do que outro que não tem incentivo nenhum. Não é porque essa pessoa é fraca, é porque ela só tem isso como referência.

E para sair desse processo voltamos a tudo que já foi dito.

Exatamente [risos].

Mulher de direita é mais higiênica

Um dia depois de as mulheres tomarem as ruas com o grito #EleNão, Eduardo Bolsonaro afirmou que as mulheres de direita são mais “bonitas” e “higiênicas” do que as de esquerda. Talvez sem saber, o deputado federal recorreu a uma tática centenária. As sufragistas do início do século XX, mulheres que garantiram a deputadas antifeministas do PSL o direito de votarem e serem votadas, já eram caracterizadas como feias e porcas pelos Bolsonaros da época.

Como fazer para reverter esse aparente esvaziamento das pautas identitárias e fazer com que elas retornem à sua origem?

Isso vai ser difícil, porque quando você questiona isso, você está mexendo justamente com o brio, o ego das pessoas. E chega nesse momento de falar: “Cara, não é assim, você está errado.” Não com essas palavras, mas você tem que mostrar que esse caminho está errado e que outro tem que ser tomado. Você acaba arranjando mais um problema que precisa ser contornado, que é a construção do eu de todo mundo que forma esse coletivo. Mas acaba que para a gente poder reverter esse quadro – óbvio, isso não vai acontecer em um ano, cinco anos, dez anos – isso perpassa esse caminho doloroso, tanto da descoberta quanto de você ficar o tempo todo fora da zona de conforto. Então você está o tempo todo em uma situação que é incômoda, que é ruim, que é desagradável, mas que é necessária para que haja essa reversão.

Você se refere a falar que é preciso tomar outro caminho para as pessoas que estão envolvidas nas lutas identitárias ou para as pessoas em geral?

Todo mundo. Você não vai falar da mesma forma, porque nem todo mundo vai entender. Você tem que adequar o seu discurso e se fazer entender.