Alguns afegãos temem que uma menor presença de soldados americanos leve a mais violência, enquanto outros esperam que a retirada dê ao país uma chance maior de paz.

Alguns afegãos temem que uma menor presença de soldados americanos leve a mais violência, enquanto outros esperam que a retirada dê ao país uma chance maior de paz.

Foto: Sebastiano Tomada/Sipa USA via AP

Políticos e líderes mundiais têm falado muito a respeito do recente anúncio do presidente Donald Trump de que os EUA vão retirar cerca de 7 mil soldados do Afeganistão, reduzindo a presença militar americana no país pela metade. Mas pouco se tem ouvido daqueles que têm mais em jogo: os próprios afegãos.

O Intercept conversou com homens e mulheres afegãos de cidades e áreas rurais sobre o que a retirada de tropas poderia significar para eles e suas famílias. O anúncio de retirada ocorre em um momento perigoso para o governo do Afeganistão, que tem lutado contra uma insurgência talibã cada vez mais poderosa que controla mais território do que nunca. As forças de segurança afegãs, cuja maioria dos integrantes vem de aldeias e áreas rurais, sofreram um número recorde de baixas durante os combates do ano passado, e poucos estão se inscrevendo para substituí-los. O país também enfrenta sua pior seca em uma geração, levando a escassez severa de alimentos, especialmente nas áreas rurais.

A notícia da retirada provocou uma variedade de reações, de receio a otimismo cauteloso. Entrevistas em Cabul foram realizadas pessoalmente, enquanto pessoas de outras partes do país foram entrevistadas por telefone. As respostas foram editadas para duração e clareza.

Wais Azamkhel, 27, estudante de medicina, Jalalabad

Se os americanos e as forças estrangeiras partirem e houver paz, será bom. Acho que o único pretexto para os talibãs e outros países continuarem lutando aqui é a presença das forças estrangeiras. Se as forças estrangeiras forem embora, o talibã não poderá provocar ou recrutar pessoas para lutar contra os afegãos. Como muitos afegãos, eu era favorável à presença americana. Mas, veja bem, nós temos mais insegurança, mais derramamento de sangue e mais cemitérios. Eu me preocupo com a próxima geração.

Eu tinha 10 anos quando o talibã foi removido do poder. Nós podíamos brincar. Havia mais segurança. Não havia bombas ou explosões. Hoje, temos algumas liberdades, mas não há garantias em cidades ou aldeias de que não se pode ser morto a qualquer momento, seja pelas forças afegãs ou pelos talibãs. Houve um casamento no bairro onde nasci há alguns anos. O talibã entrou à força, alguém avisou o governo local e, de repente, o casamento se transformou em um banho de sangue. Essa não é uma história isolada. Massacres e funerais são a nova normalidade em Cabul e nas províncias.

Nós queremos paz, um fim para o derramamento de sangue. Queremos acabar com o assassinato de afegãos por afegãos. Talvez fiquemos mais pobres, mas queremos sobreviver.

Membro da Força Aérea dos EUA vigia a pista em 9 de setembro de 2017 no campo aéreo de Kandahar, Afeganistão.

Membro da Força Aérea dos EUA vigia a pista em 9 de setembro de 2017 no campo aéreo de Kandahar, Afeganistão.

Foto: Andrew Renneisen/Getty Images

Sadya Mahboobyar, 29 anos, professora de escola particular, Cabul

Eu tinha 12 anos quando o talibã foi forçado a sair do poder em 2001. Antes disso, não podíamos ir à escola, não podíamos fazer compras sozinhas, televisão e música eram banidas. Hoje, vivemos em um Afeganistão diferente. Eu terminei meus estudos, trabalho e sou uma mulher independente.

Não tenho certeza se confio no talibã. Eles serão capazes de tolerar todas as mudanças e transformações ocorridas? Eles me aceitarão como um ser humano igual? Tudo o que tenho visto são derramamento de sangue e ataques contra civis em Cabul e outras cidades. E se eles voltarem e começarem a lutar como os mujahidin faziam nos anos 90? Então eu tenho meus medos. Acho que os americanos e os outros vão embora e, quando o fizerem, tudo, inclusive os direitos das mulheres, será comprometido em nome da paz e da política.

Nazaka Bibi, 69, avó, distrito de Deh Rawood, província de Uruzgan

Precisamos de um fim para a guerra, um fim para o derramamento de sangue. Nossas áreas foram invadidas muitas vezes pelo governo e por forças estrangeiras, e também somos pressionados pelos talibãs. Nos últimos vários anos, vi quantos talibãs foram mortos. Eles são principalmente homens mais jovens das áreas rurais. Certa vez, assisti a um funeral de um combatente talibã morto em Helmand. Ele deixou para trás uma jovem viúva e dois filhos.

Viajei a Cabul para um tratamento no ano passado e descobri que as pessoas também estão morrendo de ataques na cidade. Às vezes, quando há um casamento, as pessoas ficam com medo por causa de helicópteros e aviões. Uma vez, houve um tiroteio comemorativo, e as pessoas ficaram muito assustadas por causa dos helicópteros pairando acima. Então, acho que, se as forças estrangeiras partirem, será pacífico. O Afeganistão precisa de paz.

Menina afegã ferida recebe tratamento no hospital Ali Abad depois de um ataque de homens armados dentro do santuário Kart-e-Sakhi, em Cabul, em 11 de outubro de 2016.

Menina afegã ferida recebe tratamento no hospital Ali Abad depois de um ataque de homens armados dentro do santuário Kart-e-Sakhi, em Cabul, em 11 de outubro de 2016.

Foto: Wakil Kohsar/AFP/Getty Images

Mohammad Ibrahim, 50 anos, lojista e pai de quatro filhos, Cabul

O talibã assumiu o controle de grandes cidades algumas vezes. Eles são mais fortes, mais brutais. Ouvi no rádio que Trump disse que não levaria tropas em breve, depois, a retirada foi anunciada à noite. Eu tenho um filho servindo como comando no Exército Nacional Afegão em Helmand, e ele está preocupado. Jatos e apoio americanos são o motivo pelo qual os comandos afegãos são bem-sucedidos. Todo mundo sabe que o Afeganistão ainda não tem uma força aérea. Ainda somos totalmente dependentes dos americanos em logística, inteligência, apoio aéreo e dinheiro.

O talibã está agora atacando mesquitas, clínicas e salões de casamento. Eles não se importam que mulheres ou crianças se machuquem. Meu filho me contou que os militantes talibãs e paquistaneses incendiaram toda a cidade de Ghazni. Casas foram alvejadas. Pessoas fugiram.

Meu filho perdeu muitos de seus amigos. Toda vez que ele sai de casa, sinto medo. A mãe dele está preocupada. A mulher e os filhos dele estão preocupados. Às vezes, queremos impedi-lo de fazer seu trabalho, mas ele ama o que faz. Eu sempre rezo por sua segurança e bem-estar.

Um dia, os americanos irão embora, como os russos fizeram. Mas temo que, se os americanos saírem agora, o talibã assumirá, e teremos uma guerra civil. Tenho visto Trump no TOLO [canal de notícias de TV], e ele é um louco. Com ele, tudo é possível.

Alam Yar, 54, comerciante de tapetes, Mazar-i-Sharif

O anúncio sobre a saída das forças americanas é preocupante. Isso sugere que os EUA não têm mais nada com o Afeganistão. Agora, querem trabalhar com o talibã, para entregar o Afeganistão ao talibã. Na verdade, os americanos foram derrotados pelos paquistaneses e os talibãs. Agora, estão fazendo um acordo com as pessoas que mataram americanos, primeiro em Nova York e depois no Afeganistão, nos últimos 17 anos. A retirada dos EUA pode encorajar o talibã e os terroristas de muitos países estrangeiros que ainda estão aqui e que não foram derrotados.

As pessoas têm más recordações em Mazar. Eu me lembro do banho de sangue em cada rua nesta cidade, em 1998. Eu vi como os combatentes do general Abdul Rashid Dostum lutaram contra o talibã aqui. Se aquela situação se repetir, teremos um massacre. O que os afegãos querem é uma garantia de que não haverá combates rua-a-rua. Ninguém quer um único dia de guerra.

Eu não posso fugir desta cidade. Aqui é a minha casa. É aqui que meus cinco filhos moram. Os talibãs estão no campo da província de Balkh, não muito longe de Mazar. Acho que a decisão de retirar tantas tropas dos EUA assustou muita gente.

Shazia, 35 anos, professora do ensino médio, distrito de Andarab, província de Baghlan

Em nosso distrito, a maioria dos homens está nas Forças de Segurança Nacional do Afeganistão, a maioria das pessoas está armada e há rivalidades. Dificilmente há um dia, uma semana ou um mês sem funerais no distrito. Há muitas viúvas, e muitas pessoas perderam familiares. Não tenho certeza do que o talibã faria com as pessoas em Andarab e outros lugares. Também me preocupa como seria viver sob o talibã. Antes, eles governavam com muita rigidez, então, espero que as forças estrangeiras possam ficar no Afeganistão para sempre, como uma garantia de que não voltemos aos dias do talibã ou, Deus me livre, tenha uma guerra civil. Veja o que aconteceu quando os russos deixaram o Afeganistão. O governo afegão entrou em colapso e tivemos caos e combates.

Meninos afegãos jogam futebol no cemitério de Kart-e-Sakhi, em Cabul, em 30 de dezembro de 2018.

Meninos afegãos jogam futebol no cemitério de Kart-e-Sakhi, em Cabul, em 30 de dezembro de 2018.

Foto: Wakil Kohsar/AFP/Getty Images

Major General Manan Farahi, 51, ex-chefe de inteligência do ministério da defesa afegão, em Cabul

Essa decisão terá um impacto negativo. Os afegãos pensavam em uma transição autocentrada, mas não tinham interesse nela. O terrorismo e o extremismo não terminaram aqui. A posição dos afegãos está mil vezes pior do que em 2001.

O primeiro impacto negativo da decisão será a ocorrência de baixas e mortes nas Forças Nacionais de Defesa e Segurança do Afeganistão – tanto em vidas quanto em equipamentos. Do ponto de vista do governo, há desorganização e instabilidade, e estamos caminhando para mais instabilidade. Paquistão, Irã, países árabes, russos e outros estão interferindo. Se isso for implementado apressadamente, perderemos mais recursos e não seremos capazes de oferecer segurança.

Tradução: Cássia Zanon