O assessor de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, em um programa de TV na Casa Branca, no dia 9 de maio de 2018, em Washington, D.C.

O assessor de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, em um programa de TV na Casa Branca, no dia 9 de maio de 2018, em Washington, D.C.

Foto: Mark Wilson/Getty Images

Quem subestima John Bolton acaba se dando mal.

Lembra quando ele foi preterido para a vaga de secretário de Estado porque, segundo informações, Donald Trump não gostava de seu “bigode que mais parece um pincel”? Como a gente riu! Porém, menos de 18 meses depois, tendo aparecido várias vezes na rede de TV americana Fox News, ele foi nomeado assessor de Segurança Nacional, com direito a um gabinete bem pertinho do presidente.

Lembra quando o então secretário de Defesa, James Mattis, encontrou o recém-empossado Bolton na escadaria do Pentágono e brincou dizendo que ele era “o diabo em pessoa”? Mattis se foi. E Bolton continua firme e forte.

Lembra quando o então chefe de gabinete da Casa Branca, John Kelly, se envolveu em um “bate-boca recheado de palavrões” sobre imigração com Bolton do lado de fora do Salão Oval? Kelly se foi. E Bolton continua firme e forte.

Lembra quando Trump anunciou a retirada dos 2 mil soldados americanos da Síria poucas semanas depois de Bolton ter dito que os EUA permaneceriam no país até que as tropas iranianas e milícias apoiadas por Teerã se retirassem? Disseram que Bolton havia sido ignorado, desconsiderado e até deixado de lado. Mas não: no início de janeiro, em visita a Israel, o assessor de Segurança confirmou não haver um prazo para a retirada, que dependeria de uma garantia do governo turco para a segurança dos combatentes curdos. “John Bolton freia a retirada de Trump da Síria”, dizia a manchete do Financial Times.

É difícil impedir o assessor de Segurança Nacional de Trump de conseguir o que quer.

Em 2003, Bolton obteve a guerra que tanto queria contra o Iraque. Como alto funcionário do governo Bush, ele se aproveitou da influência que tinha para pressionar analistas de inteligência, ameaçar representantes internacionais e mentir descaradamente sobre as armas de destruição em massa. Ele nunca se arrependeu de ter apoiado a invasão ilegal e catastrófica do Iraque, que deixou centenas de milhares de mortos.

E agora Bolton quer uma guerra contra o Irã. É o que dizem, segundo o Wall Street Journal, funcionários do Departamento de Estado e do Pentágono que teriam ficado “inquietos” com seu pedido “de planos de ataque contra o Irã”, no ano passado. De acordo com o New York Times, “altos funcionários do Pentágono estão cada vez mais preocupados” com a possibilidade de Bolton “precipitar um conflito com o Irã”.

Deveríamos ficar surpresos? Em março de 2015, quando ainda não estava no governo, Bolton escreveu um artigo de opinião no New York Times intitulado “Para evitar a bomba do Irã, bombardear o Irã”. Em julho de 2017, oito meses antes de entrar para a equipe de Trump, Bolton disse a membros do grupo Mujahedin-e-Khalq, uma espécie de seita de exilados iranianos, que “o objetivo declarado dos EUA deveria ser a derrubada do regime dos mulás no Irã” e que “antes de 2019 estaremos comemorando em Teerã”.

Apesar do que parecem indicar esses vazamentos de funcionários “inquietos”, porém anônimos, Bolton está longe de ser a única pessoa próxima a Trump que defende um conflito com o Irã. Ele tem diversos aliados no governo. Como informou o portal Vox no dia 14 de janeiro, “Bolton levou pessoas que pensam como ele para o Conselho de Segurança Nacional (NSC, na sigla em inglês). Na semana passada, ele contratou Richard Goldberg, notório linha-dura quando se trata do Irã, para comandar a campanha do governo contra o país.”

Além de um NSC dominado por Bolton, outro “falcão” do governo é o secretário de Estado Mike Pompeo, que já defendeu o lançamento de “2 mil ataques aéreos para destruir as capacidades nucleares do Irã”. Como informei no dia 11 de janeiro, em um discurso no Cairo sobre a política americana para o Oriente Médio, Pompeo fez mais de mais de 20 alusões à “malevolência” e “opressão” iranianas, tendo criticado a “expansão” e “destruição regional” perpetrada por Teerã, ao mesmo tempo em que mandava um beijo metafórico à Arábia Saudita. “Cada vez mais países estão percebendo que precisamos confrontar os aiatolás, e não afagá-los”, declarou. Antes de deixar o Cairo, Pompeo disse à Fox News que os Estados Unidos organizariam, no mês seguinte, um encontro internacional na Polônia para tratar do Irã.

E como esses falcões pretendem conseguir uma guerra com Teerã? Bolton parece ter duas alternativas. A primeira tem a ver com a questão nuclear: “Estamos praticamente convencidos de que a liderança do Irã está determinada a desenvolver armas nucleares”, disse ele a outro inimigo do Irã, o primeiro-ministro israelense Benjamin Natanyahu, em Jerusalém, no início de janeiro. Não há, porém, nenhuma prova que corrobore a afirmação de Bolton. Pelo contrário, a própria comunidade de inteligência americana já desmentiu essa ideia várias vezes. “Não sabemos se o Irã vai decidir fabricar armas nucleares algum dia”, disse Dan Coats, diretor de Inteligência Nacional dos EUA, em um relatório de 2017 intitulado “Avaliação de ameaças mundiais da comunidade de inteligência dos EUA”.

A segunda opção de Bolton tem a ver com as atividades de grupos financiados pelos iranianos no Iraque, na Síria e no Líbano. Segundo o New York Times, o pedido de planos militares contra o Irã feito por Bolton “aconteceu depois que milícias apoiadas por Teerã lançaram três morteiros ou foguetes contra um terreno baldio pertencente à embaixada dos EUA em Bagdá, em setembro”. O ataque não deixou mortos nem feridos.

Mas até que ponto essa lógica de retaliação é válida? Os Estados Unidos já foram acusados de apoiar grupos extremistas e dissidentes no Irã e ataques israelenses contra posições iranianas na Síria. Isso quer dizer que Teerã tem o direito de retaliar com bombardeios em território americano? Será que os cubanos têm o direito de bombardear Miami, onde vários grupos anticastristas residem e operam com apoio americano?

A lógica, porém, nunca foi o forte de Bolton. Ele é um fanático. “É um grande erro aceitarmos as leis internacionais, mesmo que, no curto prazo, isso pareça ser do nosso interesse. Isso porque, no longo prazo, o objetivo daqueles que acham que as leis internacionais são válidas é reprimir os Estados Unidos”, disse ele em 2005.

Que se danem as leis internacionais. E o Tribunal Penal Internacional. E as vidas civis. O belicoso Bolton vai passar boa parte de 2019 fazendo campanha, tanto em público quanto por trás dos panos, por uma guerra contra o Irã – um conflito que faria a invasão do Iraque parecer um passeio no parque. É isso que faz desse assessor bigodudo, em seu gabinete a poucos passos de Donald Trump, o homem mais perigoso desse governo tão imprudente. “O diabo em pessoa”? Talvez isso seja até um eufemismo.

Tradução: Bernardo Tonasse