Sofri um aborto em março de 2018. E foi muito doloroso. A gestação já havia passado das 12 primeiras semanas mais delicadas, que foi quando contamos para grande parte dos familiares e amigos sobre a chegada do nosso segundo filho. Ansiosa, fiz o exame que permite descobrir o sexo do bebê logo no comecinho da gravidez. Um menino. Até então, todos os exames perfeitos. Mas, no final da décima terceira semana, numa ultrassonografia de rotina, sem sentir nenhum sintoma, descobrimos que o feto estava morto.

O que veio depois disso foi um longo processo de espera (minha médica recomendou a chamada “conduta expectante” – esperar o aborto acontecer naturalmente). E também de incompreensão, de luto. Nunca na vida me senti tão cansada, física e emocionalmente. Acho que estou cansada até hoje. A princípio, é um acontecimento absolutamente natural, mas que duvido que alguém, em algum momento, fique feliz em revisitar. Quando tudo isso aconteceu, eu já era mãe de uma menininha, que hoje tem dois anos. A gente toca a vida. E, para tocar a vida, a gente tenta esquecer.

O problema é quando os anunciantes não deixam.

Sete meses depois do meu aborto espontâneo, ou um mês depois daquela que seria minha data prevista de parto, caso a gravidez tivesse sido bem-sucedida, recebi um e-mail da Pampers. Ou melhor: mais um e-mail da Pampers. Um e-mail que furou o bloqueio da minha caixa de spam, que jogava todos os outros e-mails da Pampers em um limbo digital nunca acessado, em algum canto dos servidores do Google.

O assunto era esse: “Ainda tem tanto para descobrir sobre seu bebezinho”. Meu bebezinho que não chegou a nascer.

Mães são um bom negócio

Quando fiquei grávida pela primeira vez, me dei conta do interesse voraz das empresas de dados sobre as informações das gestantes. Mulheres que, ao estarem esperando uma nova pessoa chegar ao mundo, se tornam, aos olhos dos anunciantes, um pote de ouro pronto para ser convertido em fraldas, roupinhas e brinquedos.

Monitorando nosso comportamento na rede – leituras, buscas, likes e mesmo mensagens e e-mails trocados – as redes sociais automaticamente nos enquadram em um perfil de “grávida”, mesmo quando a gente ainda não tenha contado a novidade para ninguém.

No modelo de negócios atual da internet, em que pessoas são cada vez mais transformadas em “alvos” para anunciantes, estima-se que identificar uma grávida vale pelo menos 15 vezes mais do que atingir uma pessoa que não espera um bebê. Essa estimativa vem de um cálculo da socióloga americana Janet Vertesi, que em 2014 tentou esconder sua gravidez do mercado de dados na internet.

Para uma mulher que quer preservar sua privacidade, não existe a opção de simplesmente ‘sair’ deste mercado.

Durante o experimento, Vertesi se esforçou para não demonstrar que estava grávida na internet – nem em conversas particulares, nem em buscas no Google, nem em compras. Para navegar, ela usava apenas o Tor, browser que permite navegação totalmente anônima. Para falar com amigos e famílias, só cartas. Enquanto tentava comprar, em dinheiro, cartões de presente da Amazon suficientes para adquirir um carrinho de bebê (sem precisar revelar seus dados para a empresa), o marido de Vertesi foi informado de que sua ação era considerada suspeita e poderia ser informada às autoridades caso ele insistisse.

A conclusão de Vertesi no seu estudo é clara: para uma mulher que quer preservar sua privacidade, não existe a opção de simplesmente “sair” deste mercado – que inclui não apenas redes sociais, mas também bancos, operadoras de cartão e grandes empresas de varejo. Não quando o custo de saída, em termos de energia e tempo, é tão alto.

Somos mais alvo de vigilância comercial por sermos mulheres e por sermos mães. O custo dessa discriminação aparece quando ela limita nossas oportunidades, exibindo para nós apenas o conteúdo que os anunciantes acham que pode nos interessar, e começa a determinar a forma como lidamos com assuntos tão nossos, tão íntimos. Assim que eu descobri a primeira gravidez, fui bombardeada com propagandas do tipo “mamãe sarada” e “reconquiste seu marido após o filho” no Facebook, como se esses fossem os únicos assuntos interessantes para mim, e logo minha timeline ficou monotemática. Me tornei mãe, e a internet, que mostra conteúdo levando ao extremo nossos próprios interesses, passou a exibir quase que exclusivamente conteúdos relacionados a mães e bebês.

Depois que virou bit não tem volta

Fui eu mesma que informei, voluntariamente, pelo site da Pampers, a data prevista do parto da minha segunda gravidez. Fiz isso porque a empresa oferece uma ferramenta gratuita de escolha de nomes de bebês, que permite salvar uma lista e compartilhar essa lista com alguém. Mesmo sendo uma pessoa relativamente bem-informada sobre o mercado de dados digitais e crítica a esse mercado, eu aceitei ceder meus dados para a Pampers para poder utilizar essa ferramenta. Hoje, me sinto um pouco boba por ter feito isso, mas, infelizmente, depois que virou bit, não tem volta.

A Pampers automaticamente começou a usar as três informações que compartilhei (meu primeiro nome, a data prevista do parto e meu e-mail) para me enviar informações semanais sobre a minha gestação. Lembro-me vagamente de ter visto algum desses e-mails na minha caixa postal assim que a gravidez foi interrompida. Entrei no site procurando alguma forma de reportar meu aborto – outros sites e aplicativos para gestantes oferecem esse serviço e, dada a sensibilidade do tema, normalmente o botão é bem fácil de encontrar. Não foi o caso. Mandei uma mensagem para o “Fale Conosco” fazendo essa sugestão, coloquei a Pampers na caixa de spam, não pensei mais no assunto. A gente toca a vida, lembra?

Até que o último e-mail furou o filtro de spam. “Ainda tem tanto para descobrir sobre seu bebezinho”. Foi difícil. De novo.

Empresas de dados precisam formar ou contratar equipes formadas por mulheres, capazes de incorporar essas questões nos produtos e ações de comunicação.

Achei que era o momento de, finalmente, retirar meus dados do serviço. E aí percebi que, para me descadastrar de uma newsletter que eu nem lembro se assinei (no meu perfil, a caixa para “receber updates” está desmarcada), a Pampers pede meu nome, número de telefone e endereço completo. E exige duas semanas de prazo para finalizar a ação. Como se eu estivesse pedindo um grande favor de não ser mais importunada com e-mails de acompanhamento de uma gestação e uma infância que não aconteceram.

Resolvi revisitar o limbo digital onde foram parar os e-mails da Pampers para mim. São dezenas, da 24ª à 40ª semana de gestação. No meio deles, e-mails contando quantos pontos eu tinha acumulados no site de fraldas, para ganhar muitos prêmios. No momento, claro, tenho zero pontos.

Empresas de dados que lidam com gestantes precisam criar consciência sobre as altas taxas de aborto – um tema que já é tabu – e adaptar as suas ferramentas para a realidade. Precisam formar ou contratar equipes de desenvolvimento formadas por mulheres, capazes de incorporar essas questões nos desenhos de produto e ações de comunicação. E enxergar além do potencial de mercado para pensar nas pessoas por trás das contas de e-mail.

E nós, mulheres, precisamos lembrar que o mercado de dados não é nosso aliado. Precisamos proteger nossos dados. Precisamos nos proteger.