O educador Paulo Freire (1921-1997).

O educador Paulo Freire (1921-1997).

Foto: Sérgio Tomisaki/Folhapress

Recentemente, fiz um relato no Twitter sobre a importância da pedagogia crítica na formação de professores da Universidade de Oxford, e o tema despertou tanto o interesse de professores quanto raiva de haters, me chamando de mentirosa. Achei prudente, então, contar um pouco mais aqui da minha experiência.

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É claro que uma grande parte do público mais engajado de Bolsonaro acha que o jornal norte-americano The New York Times ou as universidades de Oxford ou Harvard estão minadas pelo “marxismo cultural” – e ter Paulo Freire na formação de professores seria apenas a prova cabal disso. Só que ainda existe uma grande parte das elites brasileiras que, mesmo sendo bolsonarista e adepta ao projeto Escola Sem Partido, sonha que seus filhos estudem nas melhores universidades norte-americanas ou europeias. Ou seja, em universidades cuja a formação dos professores se dá em grande parte por meio da pedagogia crítica.

Infelizmente, ainda prevalece no Brasil uma profunda ignorância e uma obsessão quase fantasmagórica sobre a obra Paulo Freire – o suposto guru da doutrina satânica gayzista, feminista e marxista que reina em nosso sistema educacional. Quando era candidato à Presidência, Bolsonaro prometeu “entrar com um lança-chamas no MEC e tirar Paulo Freire lá de dentro”. Sobre tal doutrinação, no entanto, não há qualquer evidência empírica.

Paulo Freire é muito mais celebrado lá fora do que no próprio país de origem: ele é terceiro autor mais citado no mundo na área de ciências humanas, superando Karl Marx e Michel Foucault. O livro A Pedagogia do Oprimido (1968) tem 75 mil citações no Google Scholar e é a única obra brasileira que está entre as cem mais lidas nas disciplinas de países de língua inglesa.

Dito isso, é possível que cientistas sociais no Brasil – como eu – passem sua formação inteira sem serem confrontados como a obra de Paulo Freire. O mesmo dificilmente irá acontecer nos principais centros de excelência acadêmica no mundo. Ou seja, o problema da educação no Brasil, ao contrário da fantasia que assombra as mentes bolsonaristas, é justamente a falta de uma educação que incentive a autonomia e o pensamento crítico.

Os 12 anos do PT certamente fizeram muito pela educação brasileira, especialmente no que se refere ao acesso ao ensino superior. Mas ao contrário do que muitos acreditam, não houve (por falta de vontade ou de tempo) a tão necessária transformação da estrutura pedagógica do sistema educacional, capaz de fomentar o espírito democrático de sujeitos críticos. As eleições de 2018, aliás, comprovam  isso.

Formação de professores na Universidade de Oxford

Quando assinei meu contrato para trabalhar na Pós-Graduação em Desenvolvimento Internacional, o Oxford Learning Institute começou imediatamente a me contatar para que eu me inscrevesse no curso de um ano de formação de professores – o que era “altamente recomendado”.

Matriculei-me, então, no curso, cujo resultado final era a elaboração de um portfólio de ensino que, se aprovado, nos daria o título de membro vitalício (fellow) da Academia de Ensino Superior, cujo diploma certifica que você é um professor universitário que segue os principais padrões de excelência de ensino no Reino Unido.

Na minha turma estava toda uma leva de novos professores na área de humanidades e ciências sociais (as ciências exatas tinham uma turma separada, mas o programa era o mesmo).

Mas o que, exatamente, eles chamavam de excelência de ensino?

No primeiro dia de aula, o professor nos alertou: “Se vocês estão em busca de dicas de técnicas didáticas, aqui é o lugar errado. Cada professor tem seu estilo. Um bom professor é o que consegue ser claro e sabe refletir sobre o seu entorno e, ao mesmo tempo, é capaz de estimular a reflexão ao seu entorno”.

O curso tinha uma metodologia tão simples como profunda. Líamos textos diversos, mas fundamentalmente os de pedagogia crítica sobre a importância de os professores refletirem sobre as relações de poder em sala de aula. A principal obra do curso era o famoso livro de Stephen Brookfield, Becoming a critically reflective teacher, que tem influências de Paulo Freire e Antonio Gramsci.

O curso não doutrinou ninguém.

Fazíamos debates profundos em pequenos grupos sobre o papel dos professores, exercícios autobiográficos críticos (quais relações de opressão e ou emancipação que tínhamos experimentado no passado e que estávamos reproduzindo como professores?), reflexão crítica de nossas avaliações por alunos. Observamos e fomos observados em sala de aula por nossos pares (o que é muito desafiador!) e, por fim, formulamos nossos valores enquanto professores.

O curso não doutrinou ninguém. Eu era uma das únicas pessoas de esquerda na turma. Meus colegas liberais, de centro ou de direita, continuaram liberais, de centro e de direita. Mas todos nós entendemos e discutimos com seriedade as formas de opressão que existem em uma sala de aula, bem como sobre nossa atuação e clareza em sala de aula.

Observei a aula de meu colega liberal, que era professor do curso de Políticas Públicas. Ele também assistiu minhas aulas e me ajudou a ser mais clara em minha comunicação (eu tendo a ter um pensamento circular que pode prejudicar a atenção de alunos, especialmente em língua estrangeira). Foi ele que me alertou para o fato de que eu deixava que a discussão fosse dominada pelos dois únicos homens na sala de aula, em contraposição a 16 alunas mulheres.

Eu também aproveitei o método crítico reflexivo para refazer meus questionários de avaliação, possibilitando e encorajando meus estudantes a serem mais críticos. Descobri, por meio das avaliações dos alunos, que eu poderia ser mais direta nas minhas aulas, o que confirmava a observação de meu colega. Na avaliação seguinte (monitorada pelos meus pares e pelos tutores do curso), os estudantes apontaram que havia tido um salto qualitativo na qualidade de minhas aulas.

Todo o grupo de novos professores refletiu criticamente sobre sua própria postura em sala de aula, seja como técnica didática, seja como relação de poder. Após um ano de encontros do curso, nos foi colocada a seguinte pergunta: “qual o papel do professor?”

Apenas uma parte da turma escolheu “mudar o mundo”, e a outra metade disse que era fornecer instrumentos técnicos para os estudantes resolverem problemas. Estava tudo bem. Não havia uma resposta correta: o correta era o próprio diálogo entre os pares.

O curso também ajudou a desconstruir o mito da genialidade, de que existiriam alunos “fracos” e “fodas”.

Eu, particularmente, aprendi a me colocar como professora mulher, jovem e latina e a detectar e desarmar o machismo implícito e inconsciente de alunos.

Não sei se eu me tornei uma professora melhor desde então. Mas espero que sim. Aprendi a dar mais atenção ao estudante quieto, às mulheres e minorias em sala de aula. Aprendi a me colocar em uma posição de quem erra em sala de aula, mas está aberta mudar e ouvir críticas. Aprendi a falar menos e ouvir mais e, principalmente, desenvolvi minhas habilidades de ensinar via métodos dialógicos de conversa e debates.

O curso também me ajudou a desconstruir o mito da genialidade, de que existiriam alunos “fracos” e “fodas” (e isso até gerou meu texto mais lido até hoje, O Precisamos Falar sobre Vaidade na Vida Acadêmica). Com o método da pedagogia crítica e da “autocrítica reflexiva” eu apenas me tornei mais sensível a minha própria postura e ao meu entorno.

A única coisa que eu, infelizmente, não aprendi a fazer neste um ano de curso foi revolução. Também não foi me dado o super poder da doutrinação. Qualquer pessoa que encara uma sala de aula sabe que esse não é um dom que temos: nossa realidade é muito mais burocrática do que deveria ser. Se tivéssemos o dom de mudar as pessoas, é bem provável que teríamos um outro cenário político – e não este afundado na mediocridade, nas notícias falsas e no obscurantismo.