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Foto: Reprodução/Instagram

Há duas semanas, uma repórter da Folha foi até à gráfica utilizada por uma candidata-laranja do PSL e constatou que não havia nada funcionando no endereço. O partido despejou R$ 380 mil de dinheiro público nessa gráfica fantasma. Confrontado, o presidente do partido de aluguel Luciano Bivar contestou a reportagem: “Mas se ela for lá, ela vai ver as máquinas todinhas. Se não tiver máquina, você pode escrever que eu sou um mentiroso amanhã”. A Folha foi e não encontrou nem um cartucho de tinta. Mesmo autorizado, o jornal elegantemente se absteve de chamá-lo de mentiroso.

A mentira sempre esteve presente na política brasileira, mas pela primeira vez alcançou a condição de método, de estratégia política. A escola Steve Bannon, o estrategista de Trump, é uma realidade. A verdade não importou durante a eleição e continua não importando no início do governo. Por isso foi engraçado ver o vereador carioca Carlos Bolsonaro que, por um acaso é filho do presidente, acusando o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, de ser um mentiroso. Logo ele, o comandante das redes sociais bolsonaristas que funcionavam como fábricas de mentiras e boatos.

Com a sapiência e a delicadeza de um garoto criado por Jair Bolsonaro, Carluxo ajudou seu pai a transformar uma crise em estágio inicial, que ainda rondava apenas o PSL, em uma grave crise do governo. Foi uma situação bizarra. O presidente se recusou a falar com um ministro que estava sendo acusado de corrupção e o acusou publicamente de mentir ao povo brasileiro. O vereador carioca vazou trecho de conversa entre um ministro e o presidente. O presidente não demitiu imediatamente o ministro no qual ele demonstrou publicamente não ter nenhuma confiança. Bizarro é um adjetivo fraco pra qualificar essa sequência de fatos. A nova era há de inventar um termo adequado para classificar o estilo bolsonarista de governar.

Mas há quem ache tudo lindo nisso, quase revolucionário. O Delegado Waldir, líder do PSL na Câmara, não viu nada de mais nessa sequência de trapalhadas. Para ele, isso tudo é fruto da transparência e da modernidade: “Nossos debates não são atrás das portas. Brigamos na frente de todo mundo. É um novo modelo que muita gente não está acostumado. Somos da era digital.” Entenderam? Não foram eles que armaram um circo constrangedor para lavar roupa suja em público. Somos nós que ainda não evoluímos o suficiente para acompanhar esse novo jeito de fazer política.

Em entrevista para a emissora do seu aliado Edir Macedo, Jair Bolsonaro mandou um recado para o ministro com o qual ele se recusa a conversar pessoalmente. Disse que se Bebianno for responsabilizado pelos crimes, “lamentavelmente o seu destino não pode ser outro a não ser voltar às suas origens.” Aproveitou também para lançar o seu super trunfo moral: o ministro Sergio Moro. Disse que ordenou que ele abrisse um inquérito para investigar o caso. Quase senti firmeza.

É a primeira vez que o presidente mostra algo parecido com indignação em um caso de corrupção envolvendo o seu governo. Ele já passou pano para o caixa 2 em dose dupla de Onyx Lorenzoni — com o apoio de Sergio Moro — e também para o laranjal do ministro do Turismo, suspeito de participar de um esquema de laranjas idêntico ao de Bebianno. Isso para não falar das suspeitas envolvendo ele próprio e sua família. Por que essa indignação repentina apenas com Bebianno? Ele fez algo mais grave do que distribuir tetas públicas para parentes do chefe do crime organizado? Emprestou dinheiro para miliciano de forma suspeita? Algum criminoso depositou um cheque na conta da sua esposa?

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(Foto: Agência Brasil)

É estranho que justamente Bebianno tenha sido o único companheiro largado ferido na estrada. O advogado sempre foi um soldado linha de frente do bolsonarismo. Durante a campanha, ele se apresentava como tesoureiro, presidente do PSL e assessor de imprensa de Bolsonaro. Mesmo sem ter nenhuma experiência com política, Bebianno foi escolhido pelo presidente para ser o principal articulador político durante a campanha. Os dois eram bastante próximos e mantinham confiança mútua. Foi de Bebianno a ideia de lançar a candidatura bolsonarista pelo PSL, partido que presidiu por escolha do próprio Jair Bolsonaro e que alcançou a segunda maior bancada da Câmara. O presidente está pagando com traição.

Parece que o maior problema de Bebianno é não contar com a simpatia dos filhos do seu chefe, principalmente com a do Carlos. Não é de hoje que o “pitbull” — apelido dado por papai — vem vociferando contra Bebianno. Durante a campanha, Carluxo não conseguia esconder a insatisfação com a proximidade do pai com o advogado. Segundo a Gazeta do Povo, o filho do presidente não gostava das alianças propostas por Bebianno e achava que ele se aliou ao pai apenas por interesses próprios. A desavença se tornou insuportável durante a transição do governo, quando o pitbull do presidente abandonou a equipe e latiu muito no Twitter.

Segundo Maurício Lima, da revista Veja, não foi apenas a influência familiar que fez Bolsonaro passar a desprezar seu ex-braço direito. A gota d’àgua pode ter sido a reunião que Gustavo Bebianno marcou com o vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo, Paulo Tonet Camargo, no Palácio do Planalto. A intenção era abrir um canal de diálogo com a emissora depois do caso Queiroz, mas Jair Bolsonaro gravou um áudio indignado para Bebianno: “Como você coloca nossos inimigos dentro de casa?”

O presidente da Câmara Rodrigo Maia fez comentários bastante duros sobre o caso, sem poupar o presidente. “A impressão que dá é que o presidente está usando o filho para pedir para o Gustavo Bebianno sair. E ele é presidente da República, não é? Não é mais um deputado, ele não é presidente da associação dos militares”. É inacreditável que o presidente da Câmara tenha que vir a público passar o pito no presidente da República e pedir para ele tomar as rédeas da nação das mãos do filho. Não posso imaginar nada mais vergonhoso para alguém que se elegeu sendo chamado de capitão.

Gustavo amava Jair de um jeito louco. Era amor verdadeiro mesmo. Quando Bolsonaro levou a facada, era ele quem decidia quem entrava e quem saía do quarto do hospital. No meio de uma entrevista ao UOL no Albert Einstein, Bebianno colocou as mãos no rosto, abaixou a cabeça e chorou: “hoje que eu estou conseguindo chorar porque o sentimento de ódio estava muito grande. Posso dizer que eu tenho amor por ele.”

Mesmo depois da pressão, Bebianno se recusou a se demitir. Bolsonaro ficou irritado e se viu numa sinuca de bico. Se o demitisse, criaria um inimigo com alto potencial de destruição. Se o mantivesse no cargo, ficaria com a imagem do presidente bunda-mole que não teve coragem de mandar um funcionário mentiroso embora.

A confiança dos demais ministros no presidente também fica abalada, já que ficou claro que até um vereador tem acesso às conversas entre eles, podendo vazá-las em um momento de raiva. O baixo clero que ascendeu ao poder está completamente perdido.

Depois de fazer o ministro passar por uma humilhação nunca antes vista na história da República, Bolsonaro decidiu pela demissão. Em reunião com Bebianno e os generais Mourão e Heleno, argumentou que perdeu a confiança. Para tentar amansar o espírito vingativo do ex-braço direito, ofereceu um cargo de diretor em Itaipu. Isso garantiria um rendimento de R$ 67,6 mil mensais para o homem que conhece cada galho do imenso laranjal do PSL. Segundo relato da Veja, Bebianno ficou irritado com a proposta. Lembrou dos serviços prestados ao presidente e encerrou dizendo que não aceitaria prêmio de consolação.

Parece que a pressão do seu pitbull impediu Bolsonaro de enxergar o óbvio. Bebianno é conhecido por gritar, xingar e ameaçar em discussões com correligionários. Esse não é o perfil de quem vai aceitar tudo tranquilamente depois de tanta dedicação e lealdade. O amor se transformando rapidamente em ódio é um clichê infalível. Se uma investigação como a da Lava Jato pega Bebianno sem foro privilegiado, as chances de uma delação premiada não respingar no presidente são mínimas. Ou será que o presidente tem certeza de que não correrá esse risco? Bastará pedir perdão a Sergio Moro?

Bebianno foi o homem forte da campanha. É o cara que tinha as chaves do cofre do PSL e acesso total à informações sigilosas e estratégicas. Convenhamos, a possibilidade dessa grana do laranjal ter abastecido a campanha presidencial não parece ser remota. A um interlocutor, Bebianno chamou Bolsonaro de “ingrato” e ameaçou: “se isso acontecer na segunda (exoneração), o Brasil vai tremer”

O deputado Alexandre Frota (PSL-SP) deu uma declaração sobre os casos de corrupção envolvendo seus correligionários que é a síntese perfeita do que é o PSL, o bolsonarismo e a nova era: “Se tá em crise ou não, eu não sei, porque estou muito feliz no PSL. E eu não quero saber da briga desses caras porque o PSL nunca fez nada pra mim a não ser me dar a legenda. (…) Então, se Bebianno tá brigando com Carlos Bolsonaro, se Eduardo briga com Joice…eu não quero saber. Eu quero que se fodam todos eles, entendeu?”