Você sabe o que realmente me irrita na cobertura da mídia sobre a política americana e, principalmente, sobre o Partido Democrata?

Busque no Google as palavras “moderado” ou “centrista” e um pequeno grupo de nomes aparecerá instantaneamente: Michael Bloomberg, Amy Klobuchar, Joe Biden e, sim, Howard Schultz.

Bloomberg é considerado um “líder do pensamento centrista” (Vanity Fair). Klobuchar é a “pragmatista direta” (Time). Biden é o “o mais puro centrista” (CNN) e o “último grito de alegria para democratas moderados” (New York magazine). Schultz é talentoso com entrevistas de alto escalão para assentar o seu tom de “centrista independente” aos eleitores.

Agora busque no Google a jovem democrata Alexandria Ocasio-Cortez. Ela tem sido apresentada como membro da “esquerda lunática” (Washington Post), uma “agitadora progressiva” (Reuters), e uma “lançadora de bombas liberal” (New York Times).

Entendeu? Biden, Schultz e companhia, conforme nos é dito, ocupam de forma inequívoca o centro da política americana; Ocasio-Cortez está longe, ocupando as beiradas.

Esta é uma distorção descarada da verdade, uma mentira visível e vergonhosa que é repetida dia após dia em editoriais de opinião em jornais e manchetes de canais de tv a cabo.

“É fácil chamar o que Ocasio-Cortez está fazendo de extrema-esquerda, mas nada poderia estar mais longe da verdade,” disse Nick Hanauer, capitalista de risco e ativista progressista, ao MSNBC, em janeiro. “Quando se defende políticas econômicas que beneficiam a grande maioria dos cidadãos, esse é o verdadeiro centrismo. O que Howard Schultz representa, o centrismo que ele representa, é apenas economia de gotejamento (teoria econômica segundo a qual, quando os ricos ganham mais dinheiro, os demais setores começam a se beneficiar também, inclusive os pobres)”.

“Ele não é o centrista”, continuou Hanauer. “Ocasio-Cortez é que é a centrista.”

Hanauer está certo. E Bernie Sanders também é um centrista – difamado como um “ideólogo” (The Economist) e como sendo “perigosamente da extrema-esquerda” (Chicago Tribune). Assim como Elizabeth Warren – descartada como uma “extremista radical” (Las Vegas Review-Journal) e uma “lutadora de classes” (Fox News).

A verdade inconveniente que nossas preguiçosas elites midiáticas tanto buscam ignorar é que Ocasio-Cortez, Sanders e Warren estão muito mais próximos em suas visões da vasta maioria dos americanos comuns do que os Bloombergs e os Bidens. Eles são os verdadeiros centristas, os moderados reais; eles representam o centro político de fato.

Não acredita em mim? Veja a questão chave de Ocasio-Cortez: o New Deal verde. O antigo redator de discurso – e defensor da tortura – de George W. Bush, Marc Thiessen, afirma que o New Deal verde “tornará os democratas inelegíveis em 2020.” A The Economist concorda com ele: “O audacioso plano poderá tornar o partido impossível de eleger em estados com tendências conservadoras.” O New Deal verde “não passará no Senado e você pode repetir isso para quem quer que tenha te mandado aqui”, disse uma mal-humorada Diane Feinstein, senadora sênior e supostamente “moderada” do Partido Democrata da Califórnia, a um monte de crianças em um vídeo viral.

Mas aqui está a realidade: o New Deal verde é extremamente popular e tem um enorme apoio dos dois partidos. Uma recente pesquisa do Yale Program on Climate Change Communication e da Universidade George Mason descobriu que 81% dos eleitores disseram que ou “apoiariam fortemente” (40%) ou “apoiariam parcialmente” (41%) o New Deal verde, incluindo 64% de republicanos (e até mesmo 57% de republicanos conservadores).

O que mais Ocasio-Cortez, Warren e Sanders têm em comum entre si – e com os eleitores? Eles querem explorar os ricos. Ocasio-Cortez sugeriu uma alíquota da faixa superior de renda de 70% sobre rendimentos acima de 10 milhões de dólares – algo condenado pelo “centrista” Howard Schulz como “antiamericano” mas apoiado por uma maioria (51%) dos americanos. Warren propôs uma taxa de riqueza de 2% sobre bens acima de 50 milhões de dólares – tendo sua proposta criticada pelo “moderado” Bloomberg e definida como socialismo ao estilo venezuelano, mas apoiada por 61% dos eleitores, incluindo 51% dos republicanos. (Como meu colega Jon Schwarz já demonstrou, “jamais, na história recente, os americanos foram contra maiores impostos aos mais ricos.”)

E os serviços de saúde? A vasta maioria (70%) dos eleitores, incluindo uma maioria dos republicanos (52%), apoiam um sistema nacional de saúde pública, o chamado Medicare para Todos. Seis em dez dizem que é “responsabilidade do governo federal” assegurar que todos os americanos tenham acesso ao sistema de saúde.

Isenção de dívidas e universidades gratuitas? Uma clara maioria (60%) do público, incluindo uma significante minoria (41%) dos republicanos, apoiam ensino universitário gratuito “para todos que tiverem os níveis de renda compatíveis”.

Salário mínimo mais alto? Conforme o centro Pew, quase 6 em cada 10 (58%) americanos apoiam o aumento do salário mínimo nacional de 7,25 dólares/hora para (o valor recomendado por Sanders) 15 dólares/hora.

Controle de armas? Quase seis em cada 10 (61%) dos americanos apoiam leis mais restritas sobre o controle de armas, conforme a Gallup, “a percentagem mais alta a favor de leis mais rígidas sobre armas de fogo em duas ou mais décadas.” Quase todos os americanos (94%) apoiam a universalização da checagem de antecedentes criminais em todas as vendas de armas – incluindo quase três quartos dos membros da National Rifle Association.

Aborto? O apoio ao direito legal de realizar aborto, conforme uma pesquisa de junho de 2018 realizada pela NBC News e o Wall Street Journal, está em “número recorde”. Sete em cada 10 americanos dizem crer que o caso Roe contra Wade (caso judicial pelo qual a Suprema Corte dos Estados Unidos que reconheceu o direito ao aborto ou interrupção voluntária da gravidez nos EUA) “não deve ser revertido”, incluindo a maioria (52%) dos republicanos.

Legalização da maconha? Dois em cada três americanos acham que a maconha deveria ser legalizada. De acordo com uma pesquisa da Gallup de outubro de 2018, isso marca “mais um aumento na tendência observada pela Gallup na última metade do século.” E aqui uma surpresa: a maioria (53%) dos republicanos também apoia a legalização da maconha!

Encarceramento em massa? Cerca de 9 em cada 10 (91%) americanos dizem que o sistema de justiça criminal “tem problemas que precisam ser resolvidos”. Cerca de 7 a cada 10 (71%) dizem que é importante “reduzir a população carcerária nos Estados Unidos”, incluindo a maioria (52%) dos eleitores de Trump.

Imigração? “Um recorde de 75% dos americanos”, incluindo 65% de republicanos e republicanos com tendências independentes, disseram à Gallup em 2018 que a imigração é uma “coisa boa para os EUA”. Seis em dez americanos se opõem à construção de um muro na fronteira sul do país enquanto massivos 81% apoiam a cidadania para imigrantes sem documentos vivendo nos Estados Unidos.

No entanto, quanto dessas pesquisas se reflete nas coberturas de notícias dos democratas, que buscam colocar ativistas “esquerdistas” contra eleitores “centristas” e “liberais” contra “moderados”?

Como rótulos como “centrista” e “moderado”, que o senso comum nos diz que deveriam refletir a visão da maioria dos americanos, acabaram por ser aplicados a aqueles que representam interesses e opiniões de uma minoria?

Quantos repórteres políticos estão dispostos a dizer a seus leitores ou telespectadores o que o cientista político David Broockman, da Universidade Stanford, disse ao jornalista Ezra Klein, do Vox, em 2014: “Quando dizemos ‘moderados’ o que realmente queremos dizer é ‘o que as corporações querem’. Dentro dos dois partidos há essa tensão entre o que os políticos que recebem mais dinheiro corporativo e tendem a fazer parte do sistema querem – e isso é o que geralmente chamamos de ‘moderado’ – versus o que o Tea Party e membros mais liberais querem”?

O caminho do meio – se é que ele existe – não pode ser encontrado em um mapa; ele não é uma localização geográfica fixa. Você não pode entrar no carro, digitar o endereço no GPS e então dirigir até lá.

Ele se move, se modifica, e reage a eventos. O centro de 2019 não é o mesmo centro de 1999 e nem sequer o de 2009. Você quer saber onde ele está agora? Você quer encontrar o centro moderado? Então ignore as invenções da direita, os sabe-tudo convencionais, a “classe das doações”. Busque conhecer as plataformas políticas de Alexandria Ocasio-Cortez, Bernie Sanders e Elizabeth Warren.

Tradução: Maíra Santos