O Mediapart, uma potência emergente na imprensa da França, vive basicamente do apoio de seus 150 mil assinantes mensais. O site progressista jamais pensou que a bonança financeira trazida pelos leitores poderia dar origem a uma campanha difamatória lançada por um site de fake news mantido por um militante de extrema direita alinhado a Jair Bolsonaro. Mas foi justamente o que aconteceu durante o fim de semana.

No domingo pela manhã, a repórter Constança Rezende, do jornal O Estado de S. Paulo, viu seu nome subir nos trending topics do Twitter por causa de uma notícia publicada no site do Mediapart.

No texto, o autor, um obscuro Jawad Rhalib – que antes se dedicara principalmente a falar sobre um documentário de sua própria autoria – dizia que Rezende tinha admitido que a intenção da série de reportagens que ela produziu sobre as suspeitas que pairam sobre Fabrício Queiroz “é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”.

O post de Rhalib, publicado em 6 de março, começou a ser espalhado no Brasil no domingo depois de postado pelo site de ativistas de extrema direita e apoiadores de Jair Bolsonaro Terça Livre, que garantiu:

“O jornalista francês Jawad Rhalib fez uma grave denúncia sobre o caso envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PSL) e seu assessor Fabrício Queiroz, em seu blog Mediapart. No artigo, Rhalib revela áudios de uma conversa com a jornalista do Estadão Constança Rezende. Segundo o francês, a jornalista, que foi a primeira a denunciar o filho de Jair Bolsonaro, atacou Flávio apenas para atingir o presidente e arruinar seu mandato.”

O presidente Jair Bolsonaro repercutiu a mentira na sua conta no Twitter, incluindo trechos dos áudios publicados por Rhalib. “Querem derrubar o governo, com chantagens, desinformações e vazamentos”, vociferou o capitão reformado.

Mas os textos de Rhalib, do Terça Livre e o tweet de Bolsonaro são repletos de erros. Ao contrário do que o portal de fake news afirmou, Rezende não foi a primeira jornalista a tratar das suspeitas que envolvem Fabrício Queiroz. E Rhalib, de acordo com biografias publicadas online, nem é francês como eles alegam — é cidadão belga nascido no Marrocos.

Mais importante: nos áudios que acompanham o post, em nenhum momento a repórter do Estadão diz querer “arruinar” Bolsonaro ou “derrubar” seu governo. É claro para qualquer um que os ouça sem pré-julgamentos que ela diz — em um idioma que não é o seu — que recebeu indícios de um relevante escândalo de corrupção envolvendo o filho do presidente, trabalhou sem parar no caso e teme – por razões políticas, não por falta de provas – que o caso que ela ajudou a desvendar pode eventualmente dar em nada.

Como aconteceria com qualquer bom repórter, Rezende pareceu empolgada com a história que tinha em mãos. Ao dizer que os fatos poderiam arruinar o governo, ela apenas quis dar a dimensão deles. Só quem existe para defender políticos em vez de apurar fatos – como é o caso de quem está por trás do Terça Livre – pode interpretar que ela inventou algo com a intenção de arruinar. Não há nada de errado no procedimento de Constança Rezende. Mas isso não importa para quem existe para difamar e espalhar mentiras.

Mas a farsa não para por aí.

‘Ele [Jawad Rhalib] não é um jornalista da Mediapart. Não tem nada a ver com o nosso portal.’

Eu conversei com Ludovic Lamant, editor da seção “Internacional” do Mediapart, que me garantiu: “Ele [Jawad Rhalib] não é um jornalista da Mediapart. Não tem nada a ver com o nosso portal”. Sim, isso mesmo: Rhalib não trabalha no Mediapart, e a redação do site não sabe se o nome é real ou um pseudônimo ou mesmo se é jornalista.

A sessão em que Rhalib publicou a “bomba” revelada pelos militantes bolsonaristas, na verdade, não é sequer a parte editorial do site, mas um espaço chamado “Le Club” em que qualquer assinante do Mediapart pode manter um blog pessoal ou postar histórias. Lamant explicou: “[Rhalib] É apenas um dos 150 mil assinantes do Mediapart, e está autorizado a publicar posts e histórias [no Le Club] como qualquer um deles.” O blog dele, aliás, tem cinco seguidores.

À tarde, o Mediapart publicou no Twitter um post se solidarizando com a repórter do Estadão e dizendo – em bom português – que as informações usadas pelo Terça Livre “são falsas”. Até ontem, o post tinha apenas o anúncio padrão, de pé de página, sobre os textos assinados por leitores. Com a repercussão, o site decidiu reforçar  a mensagem logo depois do título: “Postagem no blog por Jawad Rhalid. Seu conteúdo não envolve a redação do Mediapart.”

Outra fonte usada pelo site de fake news Terça Livre para dar credibilidade (sic) à notícia falsa que tentou difamar Constança Rezende é o jornal norte-americano The Washington Times. O nome pode levar um leitor distraído a pensar no tradicional The Washington Post. Mas um e outro nada tem a ver.

O Washington Times, na verdade, é um tabloide de direita fundado por Sun Myung Moon, mais conhecido no Brasil como Reverendo Moon, morto em 2012. Moon, que teve negócios no Brasil, foi preso nos EUA na década de 1980 por corrupção, fraudes fiscal e no mercado de capitais e, anos depois, proibido de entrar no Reino Unido.

O Times tem uma longa história de promover teorias de conspiração — como a mentira de que Barack Obama nasceu no Quênia – e atacar consensos científicos — como o aquecimento global os danos do fumo passivo –, além de assumir posturas racistas e xenofóbicas. Seu rol de colunistas é o suprassumo da extrema direita norte-americana.

O Southern Poverty Law Center, uma ONG que monitora grupos de ódio nos EUA, escreveu o seguinte a respeito do jornal: “O Washington Times tem um longo histórico de histórias sensacionalistas, reportagens de má qualidade e falhas na correção de erros”.

Não que faça alguma diferença, já que a postagem do Times que embasou a fake news do Terça Livre sequer é uma notícia ou reportagem, mas um texto de opinião assinado por um ex-militar e ex-investidor de Wall Street.

A onda de comentários sobre a repórter do Estadão é parte da estratégia de Jair Bolsonaro para atacar seu inimigo número um, a imprensa. Factoides como esse também ajudam a militância de extrema direita a se manter coesa nas redes sociais e a desviar o foco de assuntos que são potencialmente danosos ao governo – como o caso Queiroz.

Na semana a passada o TIB provou que Nathalia Queiroz, filha do ex motorista e amigo da família Bolsonaro por décadas jamais pisou na Câmara dos deputados em Brasília mesmo tendo sua ficha de ponto preenchida sem nenhuma falta pelo gabinete do então deputado Jair Bolsonaro. Nathalia, a PGR agora suspeita, era funcionária fantasma.

Além de Constança Rezende, o ataque promovido pelo Terça Livre tem outro alvo óbvio: Chico Otávio, pai dela e repórter investigativo de O Globo, que apura a ação de milicianos no Rio de Janeiro.

Mas parece haver estratégia na ação. Ainda durante a campanha eleitoral, a então candidata a deputada federal Joice Hasselmann sacou da cartola uma delirante história de que a revista Veja havia recebido 600 milhões de dólares para falar mal de Bolsonaro dias antes da publicação de uma reportagem com acusações feitas por uma ex-mulher do capitão reformado.

Como agora, a intenção é minar a credibilidade de jornalistas – e das reportagens que eles produzem – que cobrem as várias suspeitas que rondam os Bolsonaro e o partido do presidente, o PSL. A estratégia é tosca – opor jornalismo feito com responsabilidade com factoides que não resistem à mais simples das checagens, como o post do Terça Livre. Com os fãs incondicionais do bolsonarismo nas redes sociais – e os robôs, é claro –, têm dado certo.