Eu fui uma adolescente ignorada, depressiva, que sofri bullying, e vou contar por que não devemos divulgar a identidade nem as histórias de como e por que esses adolescentes se tornam atiradores em massa. E também por que armar as escolas não resolveria o problema.

Para começar, eu tenho depressão desde muito nova. Os primeiros sinais começaram aos 11 anos, quando eu descobri que tinha fibromialgia, uma síndrome que causa dores crônicas por todo corpo. Aos 14 anos, durante o 9º ano do colégio, os sintomas pioraram muito, talvez pela pressão de passar em uma escola técnica.

Em 2008, eu pensava em morte o dia todo e todos os dias, em como a minha vida não fazia nenhum sentido, e em como ninguém reparava que eu precisava de ajuda. Passei um ano inteiro chorando diariamente no colégio. Alguns dias simplesmente voltava para casa, pois era impossível disfarçar.

Era uma sensação de vazio. As coisas que eu gostava antes não eram mais prazerosas. Eu não sentia ânimo para sair da cama, muito menos pra ir ao colégio. Meus pais não entendiam o que eu tinha, meus professores também não, muito menos meus colegas.

Um dia, um aluno da minha série descobriu por alguém que eu pensava em suicídio e resolveu postar no Orkut que eu era tão imprestável que não conseguia nem me matar. E, a partir daquele dia, ele começou a me perseguir: ele e uma menina criaram boatos, falavam mal de mim até para alguns professores que, às vezes, compravam a história deles. Os outros colegas começavam a rir quando eu saia da sala chorando. A minha única amiga estava em outra sala – cheguei a implorar à coordenadora para nos colocar na mesma sala.

Eu via filmes do tipo e sempre torcia para os atiradores.

Mas tudo que um adolescente fala é sempre tomado como birra, como mimo ou rebeldia. As coordenadoras que me viam sair chorando do colégio nunca nem sequer ligaram pros meus pais para perguntar o motivo. Eu só queria ter alguém do meu lado naquele momento, mas ninguém era capacitado a compreender o que eu passava, e olha que eu estudei em escola particular. Não tinha ninguém com qualquer capacidade profissional para me ajudar naquele lugar.

Foi aí que eu um dia vi um caso de um atirador desses dos EUA, que me deixou fascinada. Eu passava dias e dias lendo coisas sobre o caso e pensando naquilo. E imaginando como seria bom ver o menino que falou que eu não prestava para nada sofrendo na minha frente. Eu finalmente iria ser vista, ele ia ver que eu prestava para alguma coisa – nem que essa coisa fosse matar.

Sim, por muito tempo eu pensei isso. Eu via filmes do tipo e sempre torcia para os atiradores. Eu sentia na pele a dor de sentir um sofrimento tão, mas tão profundo que não existia nenhuma saída senão a morte. E se eu iria morrer mesmo, por que não levar comigo quem me fazia mal?

Tornar a imagem desses meninos famosa só faz deles um exemplo.

Jovens como os meninos que mataram alunos numa escola em Suzano, São Paulo, não são parados com armas. Eles não estão nem aí pra vida deles. Eles estão em uma missão suicida e não vai ser o medo de morrer que vai afastar essa ideia da cabeça deles. Isso só facilita todo o processo, inclusive, pois o medo de não conseguir se matar depois pode ser a parte mais assustadora para essas pessoas.

O que os adolescentes precisam urgentemente é de acompanhamento psicológico nos colégios. Mais armas não vai adiantar porra nenhuma. O que esses adolescentes precisam é serem ouvidos, é ter alguém, pelo menos uma pessoa, que os escute nas escolas. Na maioria das vezes, os professores só cobram, os colegas só pioram a situação, e os pais estão ocupados demais tendo que ralar para poder dar uma vida para eles.

Tornar a imagem desses meninos famosa, divulgando a forma como aconteceu, como eles agiram, só faz deles um exemplo para quem está mal e tem pensamentos do tipo. Imagina só, você é ignorado pelo mundo num dia e, no outro, todo mundo te conhece, criam fãs clubes, reportagens e filmes sobre você.

Não façam esses meninos famosos!

É só isso que eles buscavam: a tão sonhada atenção. Cuidem dos seus adolescentes, pois essa é uma fase da vida que pode construir pessoas completamente danificadas psicologicamente, às vezes pra sempre.

Eu tive a sorte, e digo de novo, a sorte de, em 2008, ser obrigada pelos meus pais a ir na viagem de formatura do meu colégio – lembro de chorar no colo do meu pai no aeroporto por que não queria ir.

Como eu não tive saída, resolvi dar uma chance para os meus colegas que atualmente eu não falava havia um ano, pois eu sempre estava chorando sozinha em algum canto. Fiz um amigo, conversei com ele pela primeira vez, e ele me apresentou quem seria o meu namorado pelos próximos oito anos e todo o meu círculo de amigos dos meus próximos oito anos – alguns amigos até hoje.

Chega de tratar nossas crianças e adolescentes como frescos por sofrerem.

Com a ajuda do meu namorado, tornei-me capaz de pedir ajuda e entrar para terapia. E, a partir do tratamento psicológico, eu consegui entender que o que eu tinha era uma doença e que eu poderia ter esperanças de melhorar. Se não fosse pelos meus pais me obrigaram a ir naquela viagem, ou pelos amigos e namorado, eu poderia acabar como os jovens de Suzano.

Eu sei que poderia. E não, não sou uma psicopata. Muito pelo contrário eu sou uma pessoa empática que sinto por todos os lados: pelos mortos e pelos assassinos.

Eu não sei se abrir isso na internet foi uma boa escolha, mas eu espero de coração que as pessoas entendam de uma vez por todas que armas não vão ajudar. A única coisa que salva é uma sociedade menos desigual e desprezível é acompanhamento psicológico.

Chega de armas e chega de tratar nossas crianças e adolescentes como frescos por sofrerem. Ninguém sabe quem pode ser o próximo atirador. Esse não foi o último caso e vão continuar acontecendo mais e mais se as pessoas não perceberem isso.

Eu tenho 25 anos e até hoje tenho um pesadelo recorrente e assustador pelo menos duas vezes por mês. Sonho que não completei meu ensino médio e que sou obrigada a voltar para o meu colégio. Cada azulejo daquele lugar me faz mal, cada centímetro daquele prédio me lembra todo o sofrimento e raiva que senti.