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Foto: Bert Hardy/Picture Post/Getty Images

Logo depois de saber que seu filho havia matado oito pessoas e se suicidado, Tatiana foi perseguida na rua por um repórter do Brasil Urgente. Bastante incomodada, ela escondeu o rosto e tentou escapar das perguntas. A dor que ela estava sentindo parecia irrelevante para o jornalista. Ele continuou a perseguição pela calçada com uma abordagem inacreditável:

“Você se sente culpada de alguma forma?”
“Você quer ajuda, Tatiana? Vamos conversar um pouquinho”.
“Ele é uma criança ainda pra você?”
“Isso poderia ser evitado de que forma?”
“É importante você falar para defender a honra da sua família”.

No estúdio, Datena narrou aos berros as imagens de terror registradas pelas câmeras de segurança do colégio onde ocorreu o atentado. Ao fim da narração, o apresentador vaticinou: “Eu nunca vi uma cena tão canalha e covarde como essa. Esse moleque deve tá queimando no inferno”.


O Brasil já se acostumou a acompanhar violência explícita na TV. Quase todas as emissoras têm em sua grade de programação um jornal policial vespertino que traz diariamente as novidades do mundo cão. Há quase três décadas, empresas privadas se utilizam de concessões públicas para fomentar uma cultura de ódio, vingança e violência. Chavões como “bandido bom é bandido morto” e “direitos humanos para humanos direitos” vem sendo exaustivamente repetidos pelos apresentadores desses programas. Ali a violência policial é reverenciada, suspeitos são tratados como culpados e os direitos humanos servem apenas para proteger bandido. Pobres, negros e gays têm seus estereótipos negativos reforçados todos os dias. Qualquer semelhança com o bolsonarismo não é mera coincidência.

O ideário reacionário que gestou a candidatura de Bolsonaro foi disseminado com uma contribuição importante da grande mídia. Quando o candidato que faz gesto de arminha apareceu, já havia uma massa habituada a desprezar os direitos humanos e a valorizar soluções simples para problemas complexos. O caldo cultural já estava fervendo no caldeirão.

Desde a estreia do Aqui Agora, em 1991, as crianças brasileiras têm acesso a imagens de sangue, perseguições policiais, tiroteios e cadáveres em plena luz do dia. O formato foi replicado em todo o país e hoje pelo menos toda capital brasileira tem o seu programa.

Um dos precursores do formato é o falecido jornalista Luiz Carlos Alborghetti, apresentador de um jornal policial em Curitiba que também era transmitido para outros locais do país. Com uma toalha pendurada sobre os ombros, condenava bandidos ao inferno aos berros enquanto batia com um porrete na mesa. Era um ultrarreacionário que fazia apologia da tortura e chegou a destruir o cenário do estúdio em certa ocasião. Virou referência desse tipo de jornalismo. Alborghetti talvez seja o pioneiro na fórmula ódio + humor que pariu Carlos Massa, o Ratinho, que hoje caracteriza parte dos programas policiais. Em nome de denunciar crimes e apresentar “a realidade como ela é”, esses programas transformam tragédias sociais em produtos de entretenimento bastante lucrativos. Fazem apologia da barbárie com pitadas de humor — uma tática bastante usada pelo bolsonarismo durante a campanha.

O Estado de direito requer uma frieza incompatível com a sede de vingança imediata que os apresentadores incitam na audiência.

Esses apresentadores se portam como justiceiros e acabam construindo uma imagem de autoridade. Apontam rapidamente as causas dos crimes e decretam sentenças de imediato. Ali a justiça nunca falha, e a audiência se sente vingada. Por outro lado, o sistema de justiça real tem outro tempo e nem sempre atende aos desejos da população, aumentando a frustração e a sensação de impunidade. O Estado de direito requer uma frieza incompatível com a sede de vingança imediata que os apresentadores incitam na audiência.

Datena, o maior expoente nacional do jornalismo mundo cão, costuma apresentar diagnósticos simplistas para crimes bárbaros, como “falta Deus no coração dessas pessoas”. Chegou até a ser processado por isso. É um jornalista medindo o caráter do cidadão pelo grau de fé em Deus que ele tem. É como se ateus fossem potenciais criminosos. “Deus acima de tudo” não é mesmo?

Muitos desses apresentadores se permitem xingar entrevistados e brigar com colegas ao vivo. A grosseria faz parte do show. Eles são carismáticos, e a presença diária na TV fazem deles figuras muito populares. Não é raro vê-los virando candidatos. Pelo contrário, é uma tendência. Primeiro ajudam a instalar o alarmismo na sociedade, depois se apresentam como parte da solução. Wagner Montes (RJ), Carlos Viana (MG), Laudívio Carvalho (MG), Mauro Tramonte (MG), Hélio Costa (SC), Amaro Neto (ES), Ely Aguiar (CE), Joaquim Campos (PA), Silas Freire (PI), Wilson Lima (AM), Paulo Wagner (RN) são alguns dos nomes que migraram de jornais policiais sensacionalistas para a política.

Mas esses são só alguns exemplos. Há uma infinidade de outros apresentadores catapultados para cargos públicos. Não preciso dizer que todos os citados (exceto Wagner Montes, falecido em janeiro) fazem parte da base de apoio do governo ou estão alinhados aos valores bolsonaristas.

Como é de se esperar, nem todos os justiceiros televisivos têm moral para se arvorar como paladinos dos bons costumes. Um bom exemplo é o amazonense Wallace Souza. Ele era um policial civil que foi expulso por roubar gasolina da corporação. Em 1996, tentou ser vereador, mas obteve apenas 898 votos e não se elegeu. Nesse mesmo ano, ele virou apresentador do sanguinário Canal Livre em Manaus, que lhe rendeu fama e o ajudou a se tornar o deputado estadual mais votado do Amazonas em 1998 pelo PL. Em 2009, uma investigação da Polícia Civil descobriu que Wallace não só comandava uma quadrilha de traficantes como também ordenava assassinatos de traficantes rivais para poder dar com exclusividade em seu programa de TV. Era chefe de uma milícia com conexões nas polícias, no Ministério Público e na política. O ex-apresentador teve o mandato cassado, foi preso e faleceu em 2010 de infarto.

E quem mata bandido simplesmente porque acha que é o certo a se fazer está cometendo um crime.

Destaco que essa não é uma questão que opõe a esquerda e a direita, mas a civilização e a barbárie. Liberais de verdade não desprezam os direitos humanos e o estado de direito. Não saem por aí repetindo que “bandido bom é bandido morto”, porque este não é um valor democrático, mas de uma ideologia reacionária, de gente extremista que despreza as conquistas civilizatórias. Criminosos devem ser tratados com o rigor e a frieza da lei. E quem mata bandido simplesmente porque acha que é o certo a se fazer está cometendo um crime. O bordão, tão caro ao presidente, é uma apologia ao crime.

É curioso ver como a grande mídia tem dado destaque para a hipótese de que games violentos teriam influência na tragédia de Suzano, como se ela própria não vendesse violência como entretenimento para crianças todos os dias da semana há quase três décadas. Em qualquer birosca de qualquer lugar do Brasil, você encontrará um televisor escorrendo sangue enquanto passa um Brasil Urgente, um Cidade Alerta ou um Balanço Geral da vida. Não estou insinuando que esses programas são responsáveis pela eleição de um presidente extremista ou pelas mortes em Suzano. Essa também seria uma resposta simples para problemas complexos. Mas não dá para negar a simbiose entre esses agentes propagadores da cultura de violência. Até quando a sociedade vai tolerar que concessões públicas sejam utilizadas para disseminar uma ideologia reacionária?