A aula magna proferida pelo ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo aos alunos do Instituto Rio Branco é uma das páginas mais vistosas da lisergia intelectual de nossa pátria, um documento a ser lido às gargalhadas durante os séculos por historiadores das ideias.

O diplomata, num acesso de empáfia digna do olavismo, afirma que muitas pessoas no Itamaraty “estavam no fundo da caverna, vendo as sombras, se relacionando com essas sombras”. Mas que ele e sua equipe estão “tentando puxar essas pessoas para fora”, para a “luz do dia”, numa alusão ao Mito das Cavernas de Platão.

Pois bem, vejamos o que disse o iluminado na aula magna. Araújo listou os “problemas” da diplomacia brasileira em sua intervenção:

A indiferença moral

Para o chanceler, o país pratica uma diplomacia sem “bússola moral”, desconhecendo que existe um “norte moral e um sul moral” – será que há um oeste imoral e um leste amoral?

Ou seja, existe o bem e o mal no mundo, materializado por estados e governos, bons e ruins. E que nós deveríamos nos relacionar apenas com os “bons”. Certamente o Brasil não deveria manter relações amistosas com regimes racistas – como o da África do Sul nos tempos de apartheid – ou genocidas. O problema é que, para além desses exemplos óbvios, as coisas se complicam.

O próprio chanceler se embananou todo quando afirmou que a Coreia do Norte não é tão ruim como a Venezuela. O que ele diria quando Benjamin Netanyahu diz que Israel é um estado apenas para os judeus? Qual a posição do chanceler em relação à Arábia Saudita, cujo governo assassinou um jornalista dissidente dentro de uma embaixada na Turquia?

Para onde aponta a bússola de Araújo nestes casos? Em qual aula do curso online de Olavo esses meandros são abordados? Não sabemos.

A indiferença civilizacional

Segundo o chanceler, nossa diplomacia não reconhece que “nós fazemos parte de uma determinada civilização, e que isso nos impõe um legado e uma responsabilidade”. Trata-se de um trecho vago, mas apoiando-se no ponto anterior, somos levados a concluir que existem civilizações boas e ruins, melhores e piores. Espero que não seja esse o caso, pois o ranqueamento de culturas, povos e tradições é algo que só gera racismo e violência. Coisas que certamente passam longe de nosso chanceler.

O comercialismo

Seria a “tendência de ver a política externa como política comercial”. Há uma tradição no Brasil de realizar trocas comerciais com os mais diversos países, colocando a busca por mercados acima de ideologias pessoais. Por exemplo, Médici e Geisel, dois militares inimigos do comunismo no Brasil, jamais tiveram pudores de fomentar as trocas entre o Brasil e os países do bloco soviético. Isso se chama “pragmatismo”.

Agora, na era Ernesto, para ser parceiro comercial do Brasil é preciso não apenas ter dólares para comprar nossos produtos, é preciso também ser bom, é preciso estar no “norte” (ou seria “sul”) moral do chanceler.

Conhecendo-se o pensamento de Olavo e de seu seguidor, isso é uma crítica às relações entre Brasil e China. A China não é “boa”, não é “ocidental”, então não é nosso parceiro preferencial. Especulo, apenas.

O nominalismo

Sua preocupação é com “caráter redondo da expressão”. O leitor me perdoe, mas não sou capaz de analisar essa afirmação.

Isolamento do Itamaraty em relação à sociedade brasileira

Araújo afirma que o “Itamaraty é um escritório da ONU no Brasil, com o papel de disciplinar essas massas ‘ignorantes’”. Conhecendo o pensamento de Olavo, sabemos o que Araújo entende por “sociedade brasileira”. Essa se resume àquela fração do Facebook, do Twitter e do WhatsApp que apoia de maneira tresloucada as ações do “Capitão” e seus amigos.

Araújo deveria saber que a sociedade brasileira depositou 57 milhões de votos em Bolsonaro, mas também 47 milhões em Fernando Haddad. E que atualmente 24% da sociedade julga o governo Bolsonaro ruim/péssimo, segundo pesquisa Ibope do dia 20 de março. Muito cuidado, então, quando falar em “sociedade brasileira” – ela está longe de ser o bloco homogêneo que o séquito olavista está acostumado a tratar.

Isolamento da política externa em relação às demais políticas nacionais

Novamente, Araújo fala do isolamento do Itamaraty em relação à mítica “sociedade”, ente jamais definido pelo chanceler. Talvez objetivo seja substituir o paradigma da P.E.I (Política Externa Independente) pela P.E.Z. (Política Externa do Zap).

Aqui o chanceler reclama da falta de “pensamento analógico” (?!?) no Itamaraty, e condena o que chamamos de “políticas de estado”, que são posições e defesas mantidas pelo ministério ao longo de todos os governos das últimas décadas. Por exemplo, a prioridade dada à integração regional ou o não reconhecimento do território obtido por Israel através de conquistas militares. Tudo isso seria lixo para o nosso ministro.

O tematismo

Termo que na definição de Araújo é, simplesmente, a chamada “especialização do trabalho”. Algo louvado por Adam Smith em 1776 e por Platão em 380 a.c. como crucial para o desenvolvimento das sociedades. É um problema para Araújo, que inclusive mudou a grade curricular do curso preparatório no Instituto Rio Branco. Tirou a cadeira que tratava da história da América Latina, e reduziu a carga de outras, como a de economia. Em troca, foram criadas as cadeiras de clássicos I e II. Essas duas últimas disciplinas incluem em suas ementas textos de autores como Homero, Tucídides, Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Kant, Hobbes e Rousseau.

Os jovens diplomatas receberão salários de R$ 18 mil para lerem a Íliada, poema épico escrito no século 8 a.C.. Uma torre de marfim para ninguém botar defeito.

O objetivo da criação dessas disciplinas parece ser o de colocar em marcha o projeto de Olavo de Carvalho de defesa da “civilização ocidental”. Ou ainda, emular o conteúdo do “curso de filosofia” online do astrólogo da Virgínia, guru intelectual do chanceler. Não há dúvidas que o Itamaraty é formado, em sua esmagadora maioria, por indivíduos de grande inteligência e erudição.

O sonho do intelectual erudito completo, que entende desde metafísica até física quântica, é o desvario que faz com que Olavo de Carvalho se sinta capaz não só de discutir toda a filosofia, mas também tenha tempo para refutar as teorias de Einstein.

A agenda globalista

Araújo acha perniciosos os conceitos de universalismo e multilateralismo que são pilares da tradição do Itamaraty. O multilateralismo diz respeito à busca de soluções negociadas, baseadas no direito internacional, no debate, no consenso. O Brasil, há mais de século, busca participar ativamente dos fóruns internacionais. A definição de nossas fronteiras, desde o Tratado de Madri (1750) passando pela compra do Acre (1903), foi obra de diplomatas, não de militares.

O universalismo seria “a doutrina da indiferença, o apagamento das nossas identidades”, segundo Ernesto. Na sua visão, sem qualquer base real, o chanceler afirma que, no nosso caso, o “universalismo” significa que “pode tudo, menos cooperar com os Estados Unidos”.

Mas nessa cooperação com os EUA, Araújo fala explicitamente da questão venezuelana. O chanceler parece realmente disposto a apoiar uma aventura militar no país vizinho, liderada pelo insano presidente Trump, numa repetição tragicômica da episódio de 1965, quando o Brasil enviou tropas para apoiar os EUA na sua invasão à República Dominicana.

Araújo tem os atributos dos olavistas: adora conspirações e despreza a realidade concreta. O chanceler afirma que o Brasil errou na escolha de seus parceiros comerciais a partir dos 1950 e, principalmente, a partir dos anos 1970:

“…por causa dessa aposta equivocada é que talvez se explique que o Brasil, que foi o país que mais cresceu no mundo, mais ou menos 1900 e 1975, quando seu principal parceiro de desenvolvimento eram os EUA, depois estagnou, quando desprezou essa parceria e começou a buscar a Europa, ou uma integração latino-americana e mais recentemente a aposta no mundo pós-americano dos BRICS”.

Trata-se de um argumento tão surreal, tão sem base empírica, sem qualquer evidência ou teoria que o suporte, que alguém deveria ter tirado o microfone do chanceler neste momento, evitando que essa vergonha ficasse registrada nos anais da casa de Joaquim Nabuco.

O que parece evidente a partir desses episódios é que falta a Ernesto Araújo não só a experiência necessária como o preparo intelectual e acadêmico para servir em tão nobre e disputada função. Para evitar suas sandices em relação à Venezuela, General Mourão foi colocado como sua babá na última cúpula de Lima.

O próximo passo seria devolver Araújo para o segundo escalão da burocracia do ministério, trazendo para o cargo alguém que saiba juntar lé com cré. Algo certamente facilmente encontrado nos corredores do Itamaraty.

Araújo, se tudo der certo, será lembrado como “o breve”.