OS ELEITORES DE ISRAEL endossaram o status quo de maneira esmagadora ao reeleger o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Ele prometeu simplesmente ignorar a pressão internacional cada vez menor para acabar com o domínio militar israelense sobre uma população cativa de milhões de palestinos, que vivem sem direitos civis nos territórios ocupados por Israel em 1967.

Com quase todos os votos da eleição de terça-feira apurados, Netanyahu estava em uma posição privilegiada para montar uma coalizão de partidos nacionalistas étnicos no Knesset, o parlamento de Israel, incluindo extremistas abertamente racistas que querem tirar a cidadania de não-judeus e expulsar palestinos dos territórios ocupados.

Assim que as pesquisas de boca de urna sugeriram que o Likud do primeiro-ministro estava no caminho de ser um dos dois maiores partidos do Knesset, permitindo que Netanyahu permanecesse no cargo, ele liderou uma multidão de apoiadores agitando cartazes do Likud e pôsteres de Donald Trump ironizando a “mídia tendenciosa”.

Cartazes de seus próprios fãs entre os eleitores de seu aliado Netanyahu não escaparam à atenção de Trump.

Na véspera da eleição, Netanyahu apelara aos eleitores ultranacionalistas, prometendo anexar grandes partes da Cisjordânia ocupada, onde mais de 400 mil israelenses vivem em assentamentos apenas de judeus que são ilegais segundo as leis internacionais. Também prometeu manter o controle militar de Israel sobre aqueles centros populacionais palestinos com autogoverno limitado.

A garantia do primeiro-ministro pareceu formalizar o que ficou claro na última década de seu governo: que Israel não tem intenção de honrar seus compromissos com os Acordos de Paz de Oslo para facilitar a criação de um estado palestino. Em vez disso, planeja continuar governando o que na prática é um estado único em que quase metade da população tem a cidadania ou o direito de voto negados com base em sua etnia.

O tamanho dessa vitória pode ser julgado pelo fato de que o partido que representava a maior ameaça à continuidade era liderado por ex-generais que se gabavam do papel que tiveram em atacar Gaza e não ofereceram nenhum plano para acabar com a ocupação.

Como o jornalista israelense Noam Sheizaf explicou na semana passada no podcast da revista +972, tanto o Likud de Netanyahu quanto seu principal rival, o partido Azul e Branco liderado por Benny Gantz, ex-chefe do Estado-Maior do Exército, ofereceram aos judeus israelenses o mesmo. Ambos votos representariam uma opção pelo status quo – no qual poderiam continuar desfrutando dos benefícios da segurança garantidos por um poderoso exército – em troca de nenhum dos sacrifícios necessários para acabar com a ocupação e produzir a paz.

“Se olharmos para a ocupação e o tipo de soluções que estão sendo oferecidas aos israelenses, a mais óbvia é a solução de dois estados, e a menos popular é a solução de um estado”, disse Sheizaf. “Normalmente, tratamos isso como uma escolha binária: se não fizermos a solução de dois estados, acabaremos com a solução de um estado.”

Como a população de árabes e judeus é quase igual em todo o território agora sob o controle de Israel, alcançar a paz através de um único estado binacional em que árabes e judeus gozariam de direitos civis e políticos iguais asseguraria a democracia. Mas isso acabaria com o centenário projeto sionista de criar um estado judeu que seria, como Netanyahu disse recentemente, principalmente para os cidadãos judeus e ninguém mais.

“Mas acho que, no plano real, e é aí que as decisões políticas são tomadas, tanto pelos eleitores quanto pelos líderes, há uma terceira opção: manter as coisas como estão”, disse Sheizaf. “Vamos chamar isso de status quo.”

“Quando olham para a solução de dois estados no estilo que estava sendo promovido nos anos 90”, continuou Sheizaf, “israelenses entendem como sendo a sua retirada da Cisjordânia e de Gaza e, obviamente, o desmonte de todos os assentamentos que são agora na Cisjordânia. Isso é uma enorme batalha interna, com custos financeiros significativos e, precisamos admitir também, um importante risco militar, porque ninguém pode prever o que acontecerá cinco, 10, 15 anos a partir do dia em que a paz for acordada ou do dia em que Israel deixa a Cisjordânia.”

“A solução de um único estado, do ponto de vista israelense, é ainda pior, porque isso significa a anexação da Cisjordânia e de Gaza e, em teoria, direitos totais de voto para toda a população entre o rio Jordão e o mar”, disse Sheizaf. “Então, na melhor das hipóteses, haverá um sistema político diferente, que estará em uma espécie de empate. Na pior das hipóteses, do ponto de vista israelense, será dominado pelos palestinos.”

“Netanyahu e a direita têm dito aos israelenses”, acrescentou, “não apenas que o status quo é significativamente melhor do que a solução de um estado ou de dois estados, mas também que algumas das coisas que se disse ser possível alcançar apenas através de um acordo de paz podem ser alcançadas dentro do status quo.”

Entre os benefícios que Israel conseguiu acumular através da política do poder absoluto estão relações estreitas e cada vez menos secretas com a Arábia Saudita e operações militares conjuntas com o Egito na península do Sinai.

Apesar de alguns sucessos notáveis e da histeria alimentada pelo governo de Israel, o esforço liderado pelos palestinos para isolar Israel através do movimento de boicote, desinvestimento e sanções até agora não conseguiu torná-lo um estado pária como era a África do Sul na época do apartheid. Às vésperas da eleição de Israel, os organizadores do concurso de canto Eurovision, marcado para ocorrer em Tel Aviv em maio com apoio do governo, anunciaram Madonna como principal atração.

“Então, pegamos tudo isso junto”, concluiu Sheizaf, “e um israelense diz: ‘Existe uma opção onde eu não pago nada e recebo alguns dos benefícios do processo de paz. E, se entendemos isso, percebemos por que o status quo, do ponto de vista israelense, é muito superior às outras duas opções.”

Em resposta à mais recente vitória de Netanyahu e à ameaça de anexação, Saeb Erekat, um veterano negociador de paz palestino, disse que estava claro que os israelenses haviam escolhido um caminho longe da solução dos dois estados.

A explícita falta de preocupação com os direitos de não-judeus vivendo em áreas governadas por Israel ficou clara no dia da eleição, quando o Likud, partido de Netanyahu, enviou voluntários para instalar câmeras escondidas em 1.200 locais de votação usados por cidadãos árabes.

Na manhã seguinte à eleição, os palestinos na vila de Ein Yabroud, na Cisjordânia, que não têm direito de voto, ao contrário de seus vizinhos no assentamento israelense de Ofra, acordaram e encontraram grafites israelenses triunfalistas espalhados por suas propriedades. Pneus de carros foram cortados, e portas e paredes foram cobertas com símbolos da estrela de Davi e a palavra hebraica para “vingança”.

A disparidade entre os direitos dos palestinos que vivem sob ocupação militar em Ein Yabroud e os que têm seus vizinhos judeus em Ofra talvez seja mais bem ilustrada pelo fato de que as casas nesse assentamento, residências construídas em terras palestinas roubadas e desobedecendo a legislação internacional, estão atualmente listadas para alugar no Airbnb.

Em outro sinal do quanto a ocupação atual custa pouco aos israelenses, a empresa anunciou na terça-feira que decidiu reverter uma decisão anunciada em novembro para remover cerca de 200 registros em assentamentos na Cisjordânia, devido à pressão de ativistas do BDS. “O Airbnb não avançará com a implementação da remoção de listagens na Cisjordânia da plataforma”, escreveu a empresa. “Todos os lucros gerados pelo Airbnb por qualquer atividade de hospedagem do Airbnb em toda a Cisjordânia serão doados para organizações sem fins lucrativos dedicadas à ajuda humanitária que atendem pessoas em diferentes partes do mundo.”

A reversão do Airbnb, que foi denunciada como “repreensível e covarde” pela Anistia Internacional, ocorreu depois de um acordo judicial com dois colonos israelenses de ascendência americana cujas listagens foram removidas e com possíveis locatários que entraram com uma ação em um tribunal norte-americano.

O centro de direitos constitucionais apresentou recentemente uma reconvenção no tribunal federal, acusando os colonos de violar a lei de habitação justa (Fair Housing Act, FHA). Um dos demandantes palestino-americanos naquele processo, Ziad Alwan, nasceu em Ein Yabroud depois da ocupação e agora vive em Chicago.

Como Mairav Zonszein relatou em The Nation no mês passado, Alwan “não pode alugar a propriedade Ofra porque é palestino; ele não pode colocar os pés nele, mesmo que sua família seja a dona legítima da terra com que os colonos e o Airbnb agora estão lucrando. Ele possui a escritura da terra, que está listada sob o nome do pai dele e registrado pelo registro de terras em Israel.

Hagai El-Ad, diretor executivo do grupo de direitos israelenses B’Tselem, observou em uma coluna do New York Times nesta semana que os dias de eleições na Cisjordânia são a mais clara mostra do caráter antidemocrático do governo de Israel, pois os israelenses “votam para um parlamento que governa tanto cidadãos israelenses quanto milhões de palestinos que têm esse mesmo direito negado”.

“Os colonos israelenses na Cisjordânia não precisam sequer ir a um local de votação dentro de Israel para votar no destino de seus vizinhos palestinos”, escreveu El-Ad. “Mesmo os colonos no coração de Hebron podem votar ali mesmo, com 285 eleitores registrados (de uma população total de cerca de mil colonos), cercados por cerca de 200 mil não-votantes palestinos. Ou, como Israel chama essa situação, “democracia”.

Tradução: Cássia Zanon