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The Michelangelo Hotel em Johannesburgo: Raissa esteve lá, você pagou.

Foto: Reprodução

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Lembram da Raissa? A mulher do ex-vice presidente de jornalismo da Rede Record (hoje na CNN Brasil), Douglas Tavolaro, tinha um belo Instagram. No ano passado nós demos uma olhada por lá (uma pena que foi deletado) e vimos fotos em viagens maravilhosas: Lisboa, Joanesburgo, Moçambique. O problema é que Raissa deveria estar trabalhando enquanto estava turistando. Trabalhando para o cidadão de São Paulo, no caso. Ela era funcionária da Assembleia Legislativa do Estado. Salário bruto: R$ 15,08 mil.

No dia 26 de outubro de 2016, por exemplo, data de uma das sessões da CPI que investigou a Máfia da Merenda, Raissa estava em Lisboa, curtindo a vista para o Rio Tejo de seu quarto no Myriad by Sana Hotel (diária de 200 doletas).

Em 22 de novembro de 2016, quando o então governador Geraldo Alckmin sancionou a lei que criou o Dia da Mulher Cristã Evangélica, Raissa não apareceu para comemorar a vitória dos partidos evangélicos como o PRB, braço político da Igreja Universal do Reino de Deus – liderança para a qual Raissa, em tese, trabalhava. Seu Instagram era muito mais interessante do que as paredes da Alesp: Joanesburgo, África do Sul, foto do hall do The Michelangelo Hotel (mais salgado, 300 doletas).

29 de novembro de 2016, prestação de contas do então secretário do Meio Ambiente Ricardo “Yale” Salles. Raíssa publicou uma foto de um garotinho em Moçambique e escreveu: “Foi uma honra conhecer pessoas de tanta fé, sede de viver e amor para dar!”. Nós bem que tentamos descobrir o que estava, afinal, acontecendo. Porque Raissa seguia recebendo salário, mesmo longe. Estaria ela em alguma missão secreta da Alesp pelo mundo? O repórter Ricardo Chapola escreveu à época:

“Reunimos todas essas datas em que Raissa publicou as fotos e procuramos a liderança do PRB na Alesp para perguntar o que constava nos cartões de ponto da funcionária nesses dias. A primeira vez que pedimos informações ao PRB na Assembleia foi em 6 de março, depois que fui pessoalmente até a Assembleia para levantar informações sobre a servidora. Era uma uma terça-feira: dia de reunião do colégio de líderes e de uma votação importante que decidiria o reajuste salarial de várias categorias do funcionalismo público paulista. Nesse dia, ligamos para o gabinete à procura de Raissa e ela não estava. Foi então que ela restringiu o acesso público ao seu perfil do Instagram, meia hora depois de termos perguntado por seu nome. Insistimos por três dias para saber se havia alguma justificativa para as viagens. Eram oficiais? Ela estava viajando a trabalho? Eram folgas combinadas com o partido? Se sim, por que ela recebeu salário integral?”

Obviamente fomos enrolados e ficamos sem resposta digna de nota.

Mas alguém resolveu ir a fundo. No caso, o Ministério Público de São Paulo, que agora acusa Raissa Caroline Lima Tavolaro de “enriquecimento ilícito” por ter recebido grana pública sem trabalhar. Ela virou ré, na quinta, também por improbidade administrativa. Disse o MP – que pediu a indisponibilidade de bens da requerida até o limite de R$ 163.991,32 (cento e sessenta e três mil, novecentos e noventa e um reais e trinta e dois centavos) – que o valor “corresponde ao por ela recebido ilicitamente somado ao valor de três vezes a multa a ser imposta”.

O MP começou a investigação “a partir de reportagem do Jornal on line The Intercept Brasil do dia 14/03/2018, em que se noticiou que a requerida publicara em sua rede social Instagram diversas imagens de viagens realizadas para o exterior entre os anos de 2016 e de 2017, inclusive em dias em que deveria estar no exercício de suas funções como assessora especial parlamentar na Assembleia Legislativa de São Paulo.” Sobre as belas fotos, nenhum comentário.

O MP conseguiu informações com a PF sobre o uso do passaporte dela e confirmou suas viagens em dias de trabalho. Em depoimento, a ex-servidora confessou que “registrou sua frequência entre 1º/09/2016 a 23/04/2018 como se houvesse comparecido regularmente ao seu local de trabalho, apesar de estar ausente em parte dele. E essa situação ocorreu porque ela (requerida) realizou os registros retroativamente”. Deu uma canetada, mas justificou nos autos do inquérito civil que “as ausências tinham por base permissões informais, sem precisar qual superior dera as autorizações”. Ela já não era mais servidora desde junho do ano passado, quando pediu pra sair depois que a reportagem foi publicada aqui no TIB.

A juíza do caso não engoliu, e R$ 59.973,22 já foram bloqueados, valor que a ex-servidora tinha em uma conta bancária. Faltam R$ 104.018,10 – umas 132 diárias no hotel de Lisboa, ou 88 no de Joanesburgo.

Devolve, Raissa.