Quando o carro em que eu estava parou à margem da BR-463, no dia 26 de maio, em Dourados, Mato Grosso do Sul, Damiana Cavanha, líder indígena Guarani Kaiowá, ficou apreensiva. Disse à freira do CIMI, que a visitava: “olha lá, é fazendeiro”. Foram muitas as investidas de produtores rurais à aldeia Apyka’i, onde Damiana vive, hoje representada por ela, sua nora, uma neta e dois netos, que resistem, naquela beira de estrada, na esperança de retornarem para o seu tekoha (“lugar em que se é”, em guarani). Qualquer estranho, de início, é um suspeito.

A senhora de 80 anos vive numa casa de sapê com o neto Sandriel, de 13 anos, que adotou após o seu pai, filho dela, morrer atropelado na rodovia. Sem luz, é durante o dia que as tarefas são feitas. À noite, não há mais o silêncio da floresta. Segundo Damiana, o som dos carros em alta velocidade na estrada amenizam por volta de 1h da madrugada, mas nunca para. Há também o som da água vinda de um riacho próximo ao acampamento, que corta parte da plantação ao redor. Quando agrotóxicos são lançados na terra, não é incomum eles passarem mal ao beberem do único lugar acessível para matar a sede. Ela conta que não foram poucas às vezes em que tiveram diarreia, dores de cabeça e enjoo.

A luta dos Guarani Kaiowá, da aldeia Apyka’i, é contra a Usina São Fernando, do Grupo Bertin, um dos maiores frigoríficos produtores e exportadores de carne das Américas, e da Agropecuária JB, ligada ao Grupo Bumlai. Fundada em 2009, a usina arrenda as terras da Fazenda Serrana para o plantio de cana, lugar reivindicado como território dos indígenas. O empreendimento está em processo de falência desde 2017.

Da esquerda para a direita, a neta e dois netos de Damiana posam para foto após brincarem de gol a gol, única diversão possível no pequeno terreno à margem da rodovia, em Mato Grosso do Sul. A criança do meio é o neto criado como filho por ela – o pai da criança morreu atropelado.

Da esquerda para a direita, a neta e dois netos de Damiana posam para foto após brincarem de gol a gol, única diversão possível no pequeno terreno à margem da rodovia, em Mato Grosso do Sul. A criança do meio é o neto criado como filho por ela – o pai da criança morreu atropelado.

Foto: Leandro Barbosa/The Intercept Brasil

De acordo com a Funai, o procedimento de identificação e delimitação da terra indígena Apyka’í foi autorizado por meio da portaria nº 560, de 29 de junho de 2016. Desde então, encontra-se em fase de estudos. No que se refere aos atuais ocupantes do território, o órgão afirmou: “que os estudos de natureza fundiária, acerca da ocupação não indígena na TI, ainda não foram realizados, estando previstos para o ano corrente”.

A resposta do órgão vai de encontro às declarações do presidente Jair Bolsonaro que afirmou que, em seu governo, não haverá demarcação de terras. A bancada ruralista tem buscado controlar a Funai e, recentemente, indicou o delegado da Polícia Federal Marcelo Augusto Xavier da Silva, para assumir a presidência do órgão, após a demissão do general da reserva Franklimberg Ribeiro de Freitas, em junho. Conhecido como Delegado Xavier, sua trajetória é marcada por sua proximidade com ruralistas e grupos que fazem lobby pela exploração de mineração em terras indígenas.

Segundo o Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul, a comunidade Apika’i de Damiana já foi atacada algumas vezes por seguranças privados contratados pelos produtores da região. Em 2014, a Gaspem, principal empresa que prestava serviços de segurança de áreas rurais e reintegração de posse informal, teve as suas atividades encerradas por conta de um processo instaurado pelo órgão. Nos autos, a empresa foi classificada como milícia privada que disseminava “violência contra os Guarani Kaiowá do cone sul do Estado de Mato Grosso do Sul por meio de pessoas brutais nominadas ‘vigilantes’”. Apesar de tudo, os indígenas resistem.

Visitei a Damiana três vezes para ouvir a sua história. Levando em conta sua trajetória difícil, com a autorização dela, escrevi o seu relato com a ajuda dos registros do CIMI, com o objetivo de detalhar os acontecimentos com precisão. A organização presta assistência aos Guarani Kaiowá e acompanhou as entrevistas que fiz com Damiana.

Damiana em frente a casa em que mora.

Damiana em frente a casa em que mora.

Foto: Leandro Barbosa/The Intercept Brasil

Eu já fui expulsa da minha terra seis vezes. Nesse mundaréu de cana e milho que me cercam, já corri de tiros, vi o fogo destruir casas e vi gente morrer. Depois do último despejo da aldeia Apyka’i, fazem quase quatro anos que moro, outra vez, à margem da BR-463, em Dourados. Sempre que me expulsam é pra cá que eu venho. É onde eu aguardo o dia em que voltarei para a minha tekoha.

Aqui não tem luz, pego água em um córrego próximo, mas nem sempre a água é boa. Nos dias que jogam agrotóxicos nas plantações, por exemplo, beber dali é inviável, mas é a única opção. São muitos os desafios e dores que enfrento nessa beira de estrada. Já morreram oito Kaiowá nessa rodovia, seis eram da minha família: marido, nora, três filhos e um neto. As autoridades chamam isso de acidente, mas eu não acredito. Os motoristas nunca prestaram socorro, e os policiais nunca identificaram ninguém, embora o caminho para as plantações tenha sido o lugar de fuga e testemunhas tenham feito a descrição dos carros.

A luta que os Guarani Kaiowá enfrentam é contra poderosos, e eles estão nos matando.

Quando meu neto Gabriel, de quatro anos, morreu atropelado, a força do carro quebrou o seu corpo. Ajudei a juntar as partes dele que se espalharam pelo asfalto, a cabeça dele foi longe. Seu enterro foi cercado pela violência que interrompe os nossos dias. Pistoleiros armados estavam em nosso território. Eles só permitiram a nossa entrada no cemitério quando viram o caixão pequenininho. Tivemos que sair tão rápido de lá, que colocamos ele em uma cova rasa. Aquele dia foi tão angustiante. Eu só pensava que meu neto havia sido enterrado sem todos os seus brinquedos. Como seria a sua passagem? Como ele iria brincar no pós-vida?

É duro contar isso, mas é necessário. A luta que os Guarani Kaiowá enfrentam é contra poderosos, e eles estão nos matando. Nos matam quando nos afastam da nossa tekoha e nos condenam à miséria. Nos matam quando ocupam nossas terras com milho, cana, soja e lançam sobre nós agrotóxicos. Nos matam quando destroem a natureza e todo alimento e bem-estar que ela nos oferece.

Antes de meu pai morrer, ele me disse: “Damiana, minha filha, não deixa a minha luta parar. Seja forte. Lute pela nossa tekoha”. Eu prometi que faria. E morrerei lutando por isso. Essa terra pertence aos Guarani Kaiowá. E nós vamos entrar, vamos voltar. Que o governo, pistoleiros, fazendeiros nos matem nela e nos enterrem ali. Assim, ao menos, estaremos com nossos antepassados e no lugar que nos pertence.

O túmulo do meu pai está no meio do canavial, e não me deixam entrar, não me deixam fazer as rezas. Meus filhos e netos estão em um lugar que, às vezes, consigo entrar escondida, na madrugada, e rezar. Minha parente, Cláudia Benite, foi enterrada na beira da rodovia, porque não nos permitem ir ao nosso cemitério. Nos roubaram tudo, mas ainda tenho esperança de voltar para o meu lugar.

Foto: Leandro Barbosa/The Intercept Brasil

Damiana aponta para o neto Gabriel, atropelado na rodovia. O homem de verde ao lado da criança é o filho dela, que também morreu atropelado.

Foto: Leandro Barbosa/The Intercept Brasil

A terra onde se é

O karaí só pensa em dinheiro, e por ele mata a terra. Ele ignora que é a terra que dá tudo o que a gente precisa. Para nós, Kaiowá, a terra é o sangue do índio. Ela produz o alimento, ela mata a nossa sede. É nela que somos o que somos. Aprendemos a viver com ela, e ela nos abençoa. Quando acontecem pragas, temos rezas para afastá-las. Os brancos têm venenos que destroem as pragas, mas também a terra, água, além de adoecer e matar as pessoas e os animais.

Invadiram o nosso tekoha para alimentarem a ganância. Vivem pelo dinheiro. Eu cresci aqui, e é impossível não lembrar da mata, dos bichos. Não faltava alimento, porque tinha caça, pesca. Hoje em dia, só existe lavoura. Diante disso, meu povo vive na miséria. Falta comida, água potável. Recebemos cestas básicas da Funai, que nem sempre chegam em dia. Pra cuidar dos meus netos e nora que moram nessa beira de estrada comigo, uso os pedaços de terra possíveis para plantar. Quando a colheita é boa, ainda consigo dividir com algumas famílias. Tem diversos tipos de feijão, mandioca, batata, o espaço é pequeno, mas a gente se vira como pode.

Matam o meu povo para plantarem cana, milho, para ocuparem o nosso território com bois.

Depois do último despejo em 2016, no mesmo dia em que nos expulsaram o fazendeiro fez um portão no lugar onde dava acesso à nossa terra, a partir da BR-463. Fora do lugar que nos pertence, alguns indígenas foram para outras aldeias, em Caraapó, cidade vizinha, também em terras que ainda não foram demarcadas. No Mato Grosso do Sul, um Guarani Kaiowá nunca está de fato seguro. Onde quer ele vá, sempre haverá alguém para dizer que ali não é o lugar dele, embora as terra deste estado sejam o nosso sangue.

Não foram poucas as vezes que eu ouvi da Funai que o processo de demarcação estava para acontecer, que em breve uma solução iria chegar, mas já são mais de 20 anos que meu povo espera. E, neste tempo, fomos imersos em inúmeras situações de violência. Assassinatos, fome, prisões, espancamentos, não faltam notícias para retratar o que o meu povo sofre nas mãos do estado que não age de acordo com a urgência necessária, para acabar com tantas tragédias.

Me entristece lembrar de tudo isso. Contar essa história doí. São meus familiares, é o meu povo, é gente que morreu porque nos arrancaram da nossa terra. E nos tiraram de lá pra quê? Por dinheiro. Matam o meu povo para plantarem cana, milho, para ocuparem o nosso território com bois. Vivíamos bem. Tínhamos tudo o que precisávamos. E agora o que nos resta é aguardar uma decisão judicial, um pedaço de papel que garanta que esse lugar é nosso, enquanto, na verdade, nós, Guarani Kaiowá, somos o documento dessa terra.