IMAGINE ESTA CENA: um funcionário cheio de culpa que trabalhou para o presidente Donald Trump senta-se à noite para confessar sua agonia. “Qual é o preço das mentiras?”, diz o funcionário cansado a um gravador, sentado em sua cozinha escura. “Não é o caso de confundi-las com a verdade. O perigo real é que, se ouvirmos mentiras suficientes, não mais reconheceremos a verdade. Então, o que podemos fazer?”

Esta confissão não é um artefato da era Trump, mas a abertura de “Chernobyl”, um drama magistral da HBO que transforma a história em profecia. A série de cinco partes começa com um cientista soviético, interpretado por Jared Harris, descrevendo sua consternação com a cultura do sigilo e das mentiras que levaram ao quase derretimento de um reator nuclear em Chernobyl, em 1986, seguido pelo encobrimento das reais consequências da catástrofe. Depois de gravar sua confissão, o cientista Valery Legasov alimenta seu gato, apaga o cigarro, pisa em uma cadeira e se enforca.


O tema das mentiras – a destruição da verdade por um regime dedicado à autopreservação – permeia “Chernobyl” de uma maneira extremamente relevante para os Estados Unidos na era do birtherism (movimento nos EUA que duvida que Barack Obama seja de fato cidadão americano e, por isso, seria inelegível), Sarah Sanders, e “pessoas muito boas” que são neonazistas. O corolário é inconfundível.

Em certo ponto, um engenheiro que é parcialmente culpado pelo acidente nuclear diz a um investigador que sua busca por honestidade e seu desejo de evitar um pelotão de fuzilamento são fúteis. “Você acha que a pergunta certa vai te dar a verdade?”, ele diz. “Não há verdade. Pergunte aos chefes o que você quiser. Você vai receber a mentira e eu vou receber a bala.”

“Chernobyl” pode ser considerada a melhor obra fílmica de nosso tempo porque esclarece um problema central da era Trump: o martelar sem tréguas de informações falsas que abafam o que é verdade. O risco é que os americanos que são inundados com o lixo moral da Casa Branca e da Fox News possam perder a vontade de se importar com a diferença entre o certo e errado, ecoando o que aconteceu na União Soviética. Quando tudo se torna cinzento e débil, não há uma batalha que valha a pena ser lutada.

A arte por trás de “Chernobyl” é transportadora – o diálogo, o visual, a atuação, a música. Ela se destaca como um filme de terror, filme de ação, thriller político, documentário e fábula. Você mal percebe a eviscerante mensagem da série até o episódio final, que é como uma adaga que você não sente até que entre em seu peito e lhe faça arquejar.

Mas o criador e escritor da série, Craig Mazin, foi, como seu personagem central, explícito em dizer o que significa. “Nós estamos vivendo em uma guerra global sobre a verdade,” disse ao Los Angeles Times. “Nós vemos este presidente que mente, não mentiras pequenas, mas mentiras completamente absurdas. A verdade sequer está na conversa. É apenas esquecida ou obscurecida ao ponto de não podermos enxergá-la. Chernobyl é sobre isso.”

A reação da direita à “Chernobyl” provou o ponto de Mazin sobre a América e a negação. Os conservadores elogiaram a série a princípio, pois acreditavam que era o retrato da falsidade do “esquerdismo”. Mas as coisas mudaram rapidamente.

Você deveria assistir a CHERNOBYL. É notável e suas lições são absolutamente relevantes hoje. Esquerdismo é contaminação.
@KurtSchlichter

Quando Mazin comentou que “Chernobyl” também era sobre a contaminação de Trump, eles responderam que Mazin não sabia do que estava falando, apesar de ter criado o programa que eles celebravam. Houve uma troca particularmente bizarra de tuítes que começou com Stephen King. “É impossível assistir Chernobyl, da HBO, sem pensar em Donald Trump”, tuitou o escritor.

É impossível assistir a Chernobyl, da HBO, sem pensar em Donald Trump; como os responsáveis pelo reator russo destruído, ele é um homem de inteligência medíocre com um grande poder nas mãos – econômico, global – que ele não compreende.
@StephenKing

Então Dan Bongino, colaborador da Fox News que concorreu ao Congresso três vezes e perdeu em todas, insistiu que os “elitistas de Hollywood” estavam muito, muito errados.

Por que os elitistas de Hollywood continuam a se humilhar publicamente no twitter? Chernobyl foi um fracasso do socialismo (onde o governo controla os meios de produção), exatamente o oposto da agenda de desregulamentação e corte de impostos de Trump.
@dbongino

Mazin, que tem 130 mil seguidores no Twitter, não hesitou em corrigir o registro. Chernobyl foi um fracasso de seres humanos cuja lealdade para (ou medo de) um partido governista quebrado anulou seu senso de decência e racionalidade”, respondeu ele.

Chernobyl foi um fracasso de seres humanos cuja lealdade para (ou medo de) um partido governista quebrado anulou seu senso de decência e racionalidade. Você é o homem velho com a bengala. Você apenas adora o retrato de um homem diferente.
@clmazin

Para os críticos da direita, não importou que Mazin tenha dedicado anos de sua vida pesquisando o desastre e fazendo a série, que recebeu uma imensa quantidade de elogios. Mesmo que seus detratores provavelmente tivessem dificuldade em localizar Chernobyl em um mapa, Mazin não tinha direito, em sua opinião, de fazer qualquer afirmação sobre o seu significado. A verdade era o que eles dissessem que era. A revista online The Federalist chegou a publicar uma reportagem que parabenizou o programa por alertar sobre o mal da China e da Coreia do Norte – a manchete era “‘Chernobyl’, da HBO, mostra os perigos mortais do estatismo.

No final, “Chernobyl” não é apenas sobre o custo das mentiras políticas: é sobre a mudança climática e o fato de que não podemos traçar nosso caminho fora das leis da ciência. Foi o que aconteceu na União Soviética. Uma falha de projeto no reator de Chernobyl já havia sido identificada por pesquisadores, mas suas descobertas foram tratadas como um segredo de estado que não podia ser compartilhado com as pessoas que operavam a usina.

Hoje, não há mais dúvidas científicas sobre o fato que nosso planeta está aquecendo e que uma catástrofe se avizinha se não reduzirmos as emissões. Mas a maioria das pessoas encarregadas de operar o planeta – nossos líderes políticos – estão ignorando as advertências, particularmente nos Estados Unidos. Recentemente, o Departamento de Energia descreveu os combustíveis fósseis como “moléculas da liberdade dos EUA” e, claro, o presidente Trump planeja retirar os EUA do acordo climático de Paris.

“Ser cientista é ser ingênuo”, observa Legasov, o herói da série, em sua gravação final. “Estamos tão focados em nossa busca pela verdade que não consideramos quão poucos realmente querem que a encontremos. Mas ela está sempre presente, quer vejamos ou não, quer escolhamos ou não. A verdade não se importa com nossas necessidades ou desejos. … Ela ficará ali, à espera, todo o tempo.”

Tradução: Maíra Santos