A indicação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada dos EUA não deveria causar surpresa por dois motivos. O primeiro é que distribuir cargos para parentes no serviço público é uma das marcas da vida política da família Bolsonaro. Flávio Bolsonaro, por exemplo, estreou carreira política aos 19 anos como funcionário-fantasma. Ele era assistente técnico de gabinete do partido do seu pai na Câmara, mas nunca apareceu para pegar no batente. Há muitos outros casos de parentes de Bolsonaro que ganharam empregos públicos, fantasmas ou não.

O segundo motivo é que, após 200 dias, está claro que estamos diante de um governo com perfil populista, autocrático, que rejeita os ritos democráticos. Portanto, ver papai indicando seu filhinho para o principal cargo do governo brasileiro no exterior é o mínimo que se pode esperar. Ou alguém ainda tem dúvidas de que nos tornamos uma república de bananas? O deputado mais bem votado da história do país não tem as credenciais para ser embaixador do Brasil, mas tem para ser embaixador do bolsonarismo. E é assim que Bolsonaro enxerga o país: uma empresa sob nova direção.

Enquanto o currículo e o inglês de Eduardo Bolsonaro estão sendo ridicularizados, um fato importante aparece apenas lateralmente no debate sobre sua indicação: o filho do presidente é o principal representante na América Latina de Steve Bannon, o ultranacionalista católico que se vê numa insana luta em defesa da cultura judaico-cristã no Ocidente.

Bannon foi diretor-executivo do Breitbart News, um site de extrema direita dedicado a publicar conteúdo racista, xenófobo, mentiras e teorias da conspiração nos EUA. Ele também foi um dos fundadores da Cambridge Analytica, a consultora de análise de dados que ajudou a eleger Trump violando a privacidade de milhões de usuários do Facebook. Hoje, Bannon está dedicado a usar essa experiência no ramo da picaretagem para alavancar políticos populistas de extrema direita em todo o mundo. É esse o contexto da possível nomeação do filho do presidente como embaixador nos EUA.

Eduardo Bolsonaro é hoje o principal nome da política internacional brasileira. Ficou tão influente que ganhou dos funcionários do Itamaraty o apelido  de “chanceler sombra”. Foi ele quem participou da reunião a portas fechadas com Trump no Salão Oval, por exemplo, e não o ministro Ernesto Araújo. Eduardo foi assumindo esse papel de articulador internacional ainda durante a campanha presidencial. Em uma das viagens que fez aos EUA nesse período, recebeu a benção de Steve Bannon e saiu do encontro dizendo que ambos iriam “manter contato para unir forças, especialmente contra o marxismo cultural”. Para Bannon, até mesmo a investigação contra Flávio Bolsonaro faz “parte da guerra do marxismo cultural”. A luta contra esse espantalho ideológico é o que fundamenta os delírios geopolíticos do guru de Eduardo Bolsonaro.

Na América Latina, o deputado foi o idealizador da Cúpula Conservadora das Américas, que teve como objetivo traçar estratégias para combater a esquerda no continente latino-americano. O evento foi organizado pela Fundação Indigo, que é financiada pelo PSL, e resultou num documento que representa os princípios dos reacionários na América Latina. O fortalecimento dos valores da cultura ocidental e a defesa de Deus, pátria, família e propriedade são alguns deles. Bannon deve ter ficado satisfeito em ver um dos seus pupilo propagando o radicalismo da direita ultracristã no continente.

A intenção do evento foi dar início a uma frente no continente semelhante à “internacional nacionalista” — segura essa contradição! —, que uniu a extrema direita nacionalista europeia. Em 2017, líderes dos principais partidos nacionalistas de Holanda, Alemanha, França e Itália se reuniram pela primeira vez publicamente para celebrar a vitória de Trump e do Brexit e construir suas estratégias contra a União Europeia e os ideais progressistas. “2016 foi o ano em que o mundo anglo-saxão acordou”, disse Marine Le Pen, líder do partido de extrema direita francês Frente Nacional, que ano passado teve a presença de Bannon em seu congresso.

Bannon, depois que foi demitido do cargo de estrategista-chefe da Casa Branca, passou a se dedicar a articular a extrema direita na Europa e a fomentar a “internacional nacionalista”. Ele criou o The Movement, grupo baseado em Bruxelas que articula uma rede de partidos extremistas no mundo. O americano está morando na Itália, onde construiu uma escola para formar políticos de extrema direita e mantém uma relação próxima com Matteo Salvini, o vice-primeiro ministro que hoje é o principal nome da extrema direita italiana. Bannon considera Salvini, junto com Bolsonaro e o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, um dos melhores representantes do seu movimento.

Em fevereiro deste ano, Steve Bannon escolheu Eduardo Bolsonaro para ser o representante do seu grupo na América Latina. O garoto prodígio das relações internacionais brasileiras não poderia ficar mais orgulhoso.

Bannon se entusiasmou com a possibilidade de Eduardo virar embaixador nos EUA. Considerou um “movimento muito inteligente” do seu pai. Ele até chegou a lamentar o fato de que o cargo “irá tomar 100% do seu tempo” e atrapalhará seu trabalho como líder do Movimento na América do Sul. Mas avalia que isso pode ser bom para os planos do grupo: “É ótimo, porque agora terá alguém que realmente entende o movimento em Washington. Eduardo é um indivíduo extraordinariamente talentoso”. O lunático está feliz em saber que um cargo do estado brasileiro nos EUA poderá ser útil para os seus planos de dominação global. As peças do tabuleiro do WAR estão se mexendo em seu favor.

Um outro integrante da rede de extremistas de Bannon foi acionado para comemorar a indicação que ainda nem aconteceu oficialmente. Matteo Salvini, que costuma se engajar em campanhas políticas de radicais de direita em outros países da Europa, se apressou em parabenizar Eduardo. Provavelmente este é o único caso na história em que o ministro de um país parabeniza uma indicação de um embaixador estrangeiro em outro país. O time de Bannon está entrosado.

O ex-embaixador brasileiro Rubens Ricupero, que ocupou o cargo entre 1991 e 1993, demonstrou preocupação com a nomeação do seguidor de Bannon: “Um dos graves inconvenientes de Eduardo Bolsonaro consiste no fato de que ele dirige na América do Sul o movimento de extrema direita de Steve Bannon, uma seita de extremistas que os americanos chamam de lunatic fringe (seita lunática). Como poderia representar todos os brasileiros se já é o representante de uma seita?”

As demandas de um embaixador brasileiro nos EUA são complexas. Ele deve estar preparado para transitar entre políticos da situação, da oposição e em todas instâncias da política americana. Não basta ser coleguinha de Trump. Mas, como sabemos, não se cobra o óbvio de extremistas que estão fora da casinha. A principal preocupação não são os interesses do Brasil, mas o cumprimento de um plano internacional que pretende pulverizar pelo mundo uma ideologia fundamentalista — a mesma que costuma flertar com o terraplanismo, com o negacionismo climático e o movimento antivacina. Eduardo Bolsonaro será o embaixador da escuridão.