As mensagens chegaram de repente, e então ele ficou quieto. “Minha identidade vazou”, disse ele. “Estou preocupado com a minha segurança.”

O artista dissidente chinês Badiucao estava ocupado preparando uma exposição em Hong Kong para celebrar a Semana de Livre Expressão, uma série de eventos organizados por grupos de direitos humanos. Seu material era em parte inspirado pelo plano do Google de criar um mecanismo de busca censurado na China e incluiria o trabalho que o artista havia criado para alfinetar a gigante de tecnologia norte-americana por cooperar com a supressão da liberdade na internet promovida pelo regime do partido comunista.

Mas apenas alguns dias antes da data prevista para a estreia da exposição no ano passado, em um evento digno de nota com membros do grupo punk-ativista russo Pussy Riot, a mostra foi cancelada pelos organizadores. Badiucao recebeu ameaças do governo chinês e logo se escondeu.

Foi como um pesadelo para o artista, um dos mais prolíficos satiristas políticos da China, que nunca revelou seu nome verdadeiro. De alguma forma, a polícia chinesa descobriu quem ele era e estava tentando localizá-lo.

“A China está tentando impedir qualquer chance de resistência para as pessoas em Hong Kong.”

“O governo chinês mandou dois policiais fazerem uma visita à minha família na China. Eles levaram um de meus familiares para uma delegacia e o interrogaram por três ou quatro horas”, disse Badiucao ao Intercept. “Estavam mandando um recado para que meu programa fosse cancelado e disseram que não teriam mais misericórdia por mim. Foi intimidação, uma tática de terror para me forçar a calar a boca.”

Badiucao – que atende pelo nome de “Buddy” – nasceu em Xangai e estudou direito na China antes de se mudar para a Austrália, onde viveu no exílio nos últimos 10 anos. Usando máscaras ou travestido em aparições públicas, ele fez de tudo para esconder sua identidade, temendo represálias do governo chinês por conta de seu trabalho, que regularmente ironiza e critica as políticas autoritárias do presidente Xi Jinping e de seu regime.

Em um frame de “China’s Artful Dissident” (Habilidoso dissidente da China), Badiucao aparece em Melbourne, na Austrália, com uma peça que ele criou em resposta a uma alteração feita em 2018 na constituição chinesa, permitindo que o presidente Xi Jinping permanecesse no poder pelo resto da vida.

Em um frame de “China’s Artful Dissident” (Habilidoso dissidente da China), Badiucao aparece em Melbourne, na Austrália, com uma peça que ele criou em resposta a uma alteração feita em 2018 na constituição chinesa, permitindo que o presidente Xi Jinping permanecesse no poder pelo resto da vida.

Imagem: arquivo pessoal/Badiucao

Depois de ficar sabendo que a polícia chinesa havia descoberto sua identidade, Badiucao desapareceu da internet. Por seis meses, suas páginas extremamente ativas do Twitter e do Instagram ficaram em silêncio. Mas, depois de fazer uma pausa para avaliar seu futuro e sua segurança, o artista de 33 anos decidiu que está pronto para retornar. Seu mais recente projeto, “China’s Artful Dissident”, é um documentário que foi exibido na Austrália na terça-feira, no qual ele revela seu rosto ao público pela primeira vez.

“A única maneira de manter minha segurança é me mostrar ao mundo e contar o que aconteceu em Hong Kong”, disse Badiucao em uma entrevista por telefone de Melbourne. “Para muita gente, foi uma grande derrota dos direitos humanos e da liberdade de expressão o fato da minha exposição ter sido cancelada. Eu quero ter certeza de que as pessoas saibam que isso não é o fim. Eu não estou afastado. Eu estou de volta. Eu estarei de volta com vocês. E nós vamos lutar juntos.”

Hong Kong é uma região administrativa especial na China e tem um grau de independência do continente, com poderes judiciais descentralizados e mais proteções aos direitos humanos. No entanto, o regime de Pequim vem afirmando cada vez mais o controle sobre Hong Kong, e nos últimos anos tem havido uma constante repressão sobre eventos políticos, liberdade de imprensa, livrarias independentes e ativismo pró-democracia.

“A situação está ficando cada vez pior”, disse Badiucao. “A China está tentando impedir qualquer chance de resistência para as pessoas em Hong Kong. É uma cidade diferente agora. Não é mais a Hong Kong que conhecemos.”

O cancelamento forçado da exposição de Badiucao em Hong Kong foi um exemplo absoluto do aperto das garras de Pequim sobre a região. O evento havia sido intitulado “Gongle”, um jogo de palavras com Google, baseado em uma frase em chinês que significa “cantar pelo comunismo”.

Outro frame de “China’s Artful Dissident” mostra uma parte de uma exposição que Badiucao planejava lançar em novembro de 2018 em Hong Kong, inspirada pelo plano do Google de desenvolver um mecanismo de busca censurado na China.

Outro frame de “China’s Artful Dissident” mostra uma parte de uma exposição que Badiucao planejava lançar em novembro de 2018 em Hong Kong, inspirada pelo plano do Google de desenvolver um mecanismo de busca censurado na China.

Imagem: arquivo pessoal/Badiucao

O trabalho de Badiucao para a mostra incluía desenhos comemorando a Revolução dos guarda-chuvas, uma série de protestos de rua contra a interferência da China no sistema eleitoral de Hong Kong, ocorridos entre setembro e dezembro de 2014. A exposição também contou com retratos de Xi como o personagem de desenho animado ursinho Pooh, uma referência a um meme, desprezado pelo regime, zombando da aparência gorducha do líder chinês, Agora, imagens e menções ao ursinho Pooh são rotineiramente bloqueadas nos sites de mídia social chineses.

Antes da exposição planejada, Badiucao havia criado várias peças satirizando mecanismo de busca censurada planejada do Google para a China. Ele desenhou imagens do CEO da empresa, Sundar Pichai, usando um boné de beisebol dizendo “Make Wall Great Again” (algo como tornem o muro grande novamente), referindo-se ao sistema de censura na internet da China, conhecido como “Great Firewall”. O artista também organizou um protesto na sede do Google na Califórnia, onde distribuiu alguns dos bonés vermelhos aos funcionários do Google antes de ser retirado pela segurança.

O Google afirmou que não está mais desenvolvendo o mecanismo de busca, conhecido como Dragonfly, mas se recusou a descartar o lançamento dele no futuro. Badiucao disse que ficou irritado com o plano do Google, descrevendo-o como “totalmente inaceitável” e simbólico de uma maior batalha entre a liberdade de expressão e a censura na China. “Desenvolver um novo mecanismo de busca que ajudaria o governo chinês a perseguir os dissidentes e aumentar o controle sobre a liberdade de expressão… isso é simplesmente uma vergonha”, disse ele.

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Topo/esquerda: Um retrato feito por Badiucao de Joshua Wong, líder preso nos protestos da Revolução dos guarda-chuvas de 2014 em Hong Kong, que se manifestaram contra a interferência da China no sistema eleitoral da região. Embaixo/Direita: Badiucao criou uma imagem do CEO do Google, Sundar Pichai, depois que este defendeu a decisão da empresa de construir um mecanismo de busca censurado na China.Imagens: arquivo pessoal/Badiucao

Nas últimas semanas, Badiucao voltou sua atenção para os negócios do Twitter com a China. O artista apresentou um projeto para a empresa de mídia social, oferecendo a criação de um emoji especial “hashflag” para comemorar o 30º aniversário do massacre da Praça Tiananmen, em 1989. Toda vez que uma pessoa usasse a hashtag #Tiananmen30, um dos emojis de Badiucao – como a imagem do homem que ficou famoso por bloquear a passagem de um tanque durante os protestos – apareceria ao lado dela. O Twitter respondeu a ele alegando que só poderia usar “um número limitado de emojis” na plataforma e dizendo não estar interessado na colaboração.

Em 23 de maio, mais ou menos na mesma época da correspondência com Badiucao, o Twitter organizou uma conferência “Twitter para comerciantes” em Pequim. Para Badiucao, isso destacou que, embora a empresa não opere sua plataforma na China por ser proibida lá, ela ainda consome uma enorme quantidade de receita publicitária do país – e, portanto, tem grande interesse em permanecer do lado do regime do Partido Comunista.

“Estou esperando por uma vingança do governo chinês. No entanto, às vezes as ideias exigem sacrifício, e precisamos de pessoas que as defendam.”

“Se eles colaborassem comigo, isso agitaria as empresas chinesas que colocam anúncios no Twitter”, disse ele, observando que o Twitter aceita dinheiro publicitário de veículos de propaganda do governo chinês, como a Xinhua News, promovendo seus artigos para milhões de usuários em todo o mundo.

Badiucao está planejando lançar uma campanha de protesto contra a posição do Twitter em relação à China – um dos vários novos projetos que está desenvolvendo depois que as ameaças forçaram sua saída da vida pública. Ao se recusar a ficar quieto, ele enfrenta o risco de a polícia voltar a perseguir os membros de sua família que permanecem no continente chinês. Ele disse se tratar de uma tática comum. “Eles acham que talvez você seja próximo daquela pessoa e então podem machucar essa pessoa para chegar até você.”

Badiucao acredita talvez jamais possa retornar à China ou aos territórios ao redor, a menos que a situação política no país mude drasticamente, o que parece altamente improvável em um futuro próximo. Mesmo a milhares de quilômetros de distância, na Austrália, onde obteve cidadania, ele diz que não se sente seguro e teme que seu computador, os telefones e a conexão com a Internet que usa tenham sido submetidos a repetidas tentativas de invasão. Por conta disso, muda regularmente os aparelhos eletrônicos e números de telefone. Badiucao ainda não tem certeza de como o governo chinês descobriu sua identidade, levando-o a questionar se alguém que ele conhece possa tê-lo exposto. “Talvez alguém tenha vazado isso acidentalmente”, disse ele, “ou alguém que eu tenha constatado tenha sido comprometido pelo governo chinês e esteja espionando para eles.”

Porém, Badiucao agora está conformado com o fato de que seu anonimato não existe mais e afirma estar pronto para enfrentar as consequências. “Se encontrar minha família não funcionar, eles tentarão me encontrar pessoalmente, mesmo que eu esteja na Austrália”, disse ele, referindo-se a acusações de que a China já sequestrou dissidentes vivendo no exterior. “Eu não sou ingênuo em relação a isso. Estou esperando por uma vingança do governo chinês. No entanto, às vezes as ideias exigem sacrifício, e precisamos de pessoas que as defendam. Eu sinto que preciso fazer isso. Se eu não falar e defender minha própria liberdade de expressão, não posso mais ser artista.”

Tradução: Cássia Zanon