O YouTube teve um papel crucial na eleição de Jair Bolsonaro. Não é mais especulação afirmar que a rede social aumentou a audiência da extrema-direita – e ajudou a formar o público que refletiria esse ideário nas urnas. Agora, uma análise inédita dá a dimensão do problema: dos dez canais que mais cresceram no YouTube Brasil no segundo semestre de 2018 – época das eleições –, metade era dedicada a promover Bolsonaro e extremistas de direita como ele. E isso aconteceu com uma mãozinha do algoritmo do YouTube que recomenda conteúdo na seção “Em Alta”, área nobre do site que mostra os canais e vídeos que estão bombando no momento.

O Intercept e o Manual do Usuário se debruçaram sobre mais de 17 mil rankings “Em alta” do YouTube no Brasil veiculados durante o segundo semestre de 2018, coletados e organizados pela empresa de análise de dados Novelo. Descobrimos que canais até então irrelevantes – que nunca tinham aparecido no ranking – explodiram no período eleitoral, recomendados milhares e milhares de vezes pelo algoritmo do YouTube que seleciona conteúdos possivelmente interessantes para os usuários.

O “Em Alta” do YouTube destaca vídeos que “podem interessar a vários espectadores” – nele, figuram conteúdos previsíveis, como músicas novas e trailers de filmes muito esperados, mas também “surpreendentes, como um vídeo viral”, de acordo com a rede social. O Google afirma que entram no ranking vídeos que tenham um grande número de visualizações, viralizem rápido, sejam “surpreendentes ou novos” e que não sejam “enganosos, sensacionalistas ou induzam a cliques”.

Não é bem assim. O canal que mais apareceu no “Em alta” na última metade do ano passado foi o Folha Política. Notório produtor de fake news de direita, como teorias da conspiração envolvendo Adélio Bispo e urnas fraudadas, ele foi de zero aparições no ranking em julho e agosto para um pico de 2.747 em outubro, mês das eleições, e 2.556 em dezembro, último mês da análise.

O canal está ligado ao site Folha Política, do casal Ernani Fernandes Barbosa Neto e Thais Raposo do Amaral Pinto Chaves, que também administrava a rede de dezenas de páginas e perfis falsos que o Facebook derrubou em outubro por comportamento inautêntico. O Folha Política já recebeu verbas do deputado federal Fernando Francischini, do PSL, partido de Jair Bolsonaro, e do PRTB, sigla do vice-presidente Hamilton Mourão.

Entre os vídeos mais populares da história do Folha Política, chama a atenção a presença de vários publicados no segundo semestre de 2018, quando ele ganhou uma forcinha do algoritmo do YouTube.

Reprodução: YouTube

O padrão do crescimento dos canais de extrema direita se repete: até julho e agosto, eles eram irrelevantes – não tinham tido nenhuma aparição no ranking. A partir de setembro, explodem.

Até agosto, os canais de extrema-direita eram irrelevantes. A partir de setembro, explodem.

Foi o que aconteceu com o Giro de Notícias, em que o apresentador Alberto Silva comenta notícias sob um viés bolsonarista. O GDN, como é conhecido, foi o canal que mais cresceu, com 2.899 aparições no ranking em outubro e 2.521 em dezembro. O quarto maior crescimento foi o do Mega Canais 2.0, de teor nacionalista e conspiratório, que já chegou até a ser punido e desmonetizado pelo Google por usar indevidamente imagens de TV.

O comentarista político conservador do Estadão José Nêumanne Pinto também decolou de zero aparições até outubro para 2.268 em dezembro. Foi o sétimo na lista dos que mais cresceram. E os noticiosos BrasilAgora e Seu Tube, que basicamente compartilham apenas conteúdo noticioso pró-Bolsonaro, tiveram o oitavo e o novo maior crescimento, respectivamente.

Fora do ranking – mas ainda com um crescimento assombroso – estão outros dois importantes influenciadores de direita. O canal d’O Antagonista deu um salto de 247 aparições em julho ao pico de 2.481 em outubro (foi o 17º canal que mais cresceu). E o Morning Show, da rádio JovemPan, teve 541 aparições no “Em alta” em julho, mas fechou o ano com 1.518.

Sensacionalismo e radicalismo

Do outro lado do espectro político, à esquerda, há apenas um representante entre os dez maiores crescimentos: é o terceiro lugar, ocupado pelo canal de comentários políticos do filósofo e professor da Universidade Estadual Paulista, a Unesp, Paulo Ghiraldelli. Teve zero aparições entre julho e setembro e chegou atingiu 2.432 em dezembro.

Entre os 100 canais que mais cresceram, o único de esquerda que aparece no ranking, junto com Ghiraldelli, é o Aquias Santarem – CRITICA BRASIL. O canal, que emula um telejornal com comentários críticos a Bolsonaro, subiu de zero aparições em julho para 1.487 em dezembro.

Já à direita, há 15 entre os 100 com maior crescimento – sendo que oito estão entre os 10 principais:

1. Folha Política, 9.071
2. O Giro de Notícias, 8.678
4. MEGA CANAIS 2.0, 8.616
7. José Nêumanne Pinto, 4.149
8. BrasilAgora, 2.497
9. Seu Tube, 4.034
12. Folha do Brasil, 2.041
16. O Antagonista, 9.683
49. Universo, 11.282
53. Diego Rox Oficial, 8.480
55. O Jacaré de Tanga, 5.345
59. CRISTALVOX, 15.662
65. Morning Show, 6.538
69. André Guedes, 3.229
73. MBL – Movimento Brasil Livre, 7.582

O segredo é quantidade, não qualidade

Uma análise dos números absolutos – a quantidade de vezes que um canal apareceu no “Em alta” – também dá pistas sobre o tipo de conteúdo destacado pelo YouTube no segundo semestre de 2018.

O canal que apareceu mais vezes no ranking foi o “Troom troom PT” [o PT vem de “português”], uma fábrica obscura de virais que emplacou seus vídeos 15.992 vezes no “Em Alta”. À primeira vista, parece um canal de faça-você-mesmo. Um olhar mais atento, no entanto, revela que seu forte são as pegadinhas envolvendo a ingestão de coisas estranhas que as personagens fabricam em cena – e seus maiores sucessos são caça-cliques, com imagens apelativas que não correspondem ao conteúdo dos vídeos. Algo que, vale lembrar, o YouTube diz que não permite.

O segundo lugar é ocupado pelo “Você Sabia?”, um canal de curiosidades que costuma espalhar alarmismo pseudo-científico, como a notícia falsa de que um asteroide que estaria em rota de colisão com a terra.

O termo ‘Bolsonaro’ se mantém em alta nos vídeos destacados pelo YouTube desde a facada.

E o terceiro, com 15.662 aparições no ranking, é de política: o CRISTALVOX, do advogado Leudo Costa. Relativamente pequeno, o canal tem 289 mil inscritos e nenhum grande hit. Só um de seus vídeos quebrou a barreira dos milhões – “José de Abreu chama o povo brasileiro de ladrão no Faustão”, vídeo de um minuto crítico ao ator declaradamente de esquerda. Sua estratégia é o volume: Costa tem uma produção maciça e consistente de vídeos, quase sempre lives de mais de uma hora com o advogado falando sozinho.

Até setembro, véspera das eleições, o canal era desconhecido e não havia figurado nem no top 20 do YouTube – até ser descoberto pelo algoritmo. No período eleitoral, estourou: a cada dez vídeos publicados, sete entraram no ranking “Em Alta”. No total, 383 vídeos do canal – 26% do total – receberam o empurrão do Google para ampliar sua audiência.

Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante entrevista para Bloomberg

Foto: Alan Santos/PR

Bolsonaro, do zero ao topo

Antes de agosto, o termo “Bolsonaro” era irrelevante entre os títulos dos vídeos que bombavam na época. Ele começou a despontar no início daquele mês e teve seu auge no semestre foi em 6 de setembro, quando o então candidato foi esfaqueado. Dali até a sua vitória no segundo turno, no dia 28 de outubro – quando alcançou o segundo maior pico –, ele só cresceu.

Mesmo após as eleições e a natural perda de interesse em política, o termo “Bolsonaro” se manteve em destaque nos vídeos escolhidos pelo algoritmo do YouTube, com um volume que supera de longe o dos demais termos ou candidatos e muito superior ao observado no período anterior à corrida eleitoral.

Ao todo, 248.652 vídeos com o termo “Bolsonaro” no título estiveram no “Em alta” no semestre, publicados por 488 canais. Muitos dos hits vêm de contas obscuras como a Bolsonaro TV, que emplacou vídeos mais de seis mil vezes no “Em Alta”. Os 15 canais de direita que mais cresceram são responsáveis por 19% das aparições de vídeos com “Bolsonaro” no título – 47.243 delas.

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Em todo o segundo semestre, apenas dois outros termos se destacaram. Um deles foi “Haddad”, que despontou em meados de setembro, quando foi confirmado como candidato do PT em substituição a Lula. Em outubro, após passar à disputa do segundo turno com Bolsonaro, Haddad cresceu ainda mais, embora jamais tenha ultrapassado o adversário em aparições nos rankings.

O outro termo é “Lula”, que tem vários pequenos picos ao longo de todo o período, reflexo da sua conturbada trajetória. Um deles ocorreu já em julho, quando o Superior Tribunal de Justiça negou 143 pedidos de liberdade ao ex-presidente. Outro foi no fim de agosto, quando o Tribunal Superior Eleitoral barrou sua candidatura com base na Lei da Ficha Limpa. E a última foi em novembro, quando Lula depôs à Justiça Federal do Paraná no processo do sítio de Atibaia.

Mas a disparidade dos números absolutos é grande: foram promovidos 83.962 vídeos com “Lula” e 51.314 com “Haddad”. Com “Bolsonaro”, foram 248.652.

Moldando a nova política

O YouTube tem vários sistemas de recomendação de vídeos. Um deles é o dos “vídeos relacionados”, que indica ao espectador conteúdo parecido (e quase sempre mais extremista) com o que acabou de assistir. O outro é o “autoplay”, que roda automaticamente um vídeo parecido no final do que acabou de ser visto.

O “Em alta” é diferente porque é dedicado aos vídeos recentes, que estouram no momento. Não se sabe qual a relação entre os “vídeos relacionados” e o “autoplay” – e o Google não explica –, mas é mais provável que o mesmo algoritmo ou dois muito similares operem em ambos os mecanismos de indicações.

Um algoritmo é um conjunto de instruções criado para resolver um problema computacional. Em plataformas de conteúdo, como o YouTube e o Facebook, algoritmos complexos classificam as reações dos usuários para determinar quais conteúdos são mais interessantes para ele. É um sistema que se retroalimenta, ou seja, quando detecta sinais que indicam preferência por certo tipo de conteúdo, o algoritmo indica mais conteúdo daquele tipo.

O algoritmo não é neutro. Objetivos bem definidos moldam sua construção e, embora eventualmente ele tenha consequências não previstas, no geral ele entrega o que foi feito para fazer.

O YouTube não estava refletindo tendências políticas, mas moldando-as através de seu algoritmo.

No YouTube, a explosão de vídeos apelativos decorre de um objetivo bem definido. Em 2014, a direção da empresa estabeleceu como meta que os usuários assistissem a um bilhão de horas por dia na plataforma. O desafio dos engenheiros foi, então, criar um algoritmo eficiente para prender ao máximo a atenção dos usuários. Na época,
funcionários alertaram sobre a ascensão de canais extremistas e a viralização de informações falsas, mas foram ignorados. Em 2016, o YouTube atingiu sua meta.

Há duas semanas, o jornal The New York Times publicou uma grande reportagem sobre a influência do YouTube na radicalização de extrema direita no Brasil. Embora não seja um fenômeno restrito ao país, os jornalistas Max Fisher e Amanda Taub escolheram o Brasil por ser o segundo maior em uso do YouTube e ter um caso para estudo recente e acentuado — a eleição de Jair Bolsonaro e a de muitos políticos adeptos à sua ideologia para cargos legislativos e para governadores.

A análise deles se embasa em estudos como o da pesquisadora Zeynep Tufekci, professora da University of North Carolina at Chapel Hill, que chamou o YouTube de “um dos instrumentos de radicalização mais poderosos do século XXI”, e de Jonas Kaiser e Yasodara Córdova, da Universidade de Harvard, e Adrian Rauchfleisch, da Universidade de Taiwan, que programaram um servidor para se passar por um brasileiro que acessa o YouTube e aceita as recomendações do algoritmo milhares de vezes.

O trio descobriu que “após os usuários assistirem a vídeos de política ou até mesmo entretenimento, as recomendações do YouTube com frequência favoreciam canais de inclinação à direita e conspiratórios”, diz a reportagem. “Mais importante, usuários que assistiam a um canal de extrema-direita eram quase sempre apresentados a muitos outros”. Yasodara Córdova já explicou como isso funciona no Intercept.

Outros pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, liderados por Virgilio Almeida, analisaram transcrições de milhares de vídeos do YouTube e milhões de comentários. Eles descobriram que os canais de direita no Brasil viram suas audiências se expandirem muito mais rapidamente do que outros, desequilibrando o conteúdo de cunho político disponível na plataforma de vídeos.

A reportagem do New York Times afirma que mudanças no algoritmo do YouTube fizeram as menções positivas a Bolsonaro explodirem, bem como as das teorias conspiratórias que o então pré-candidato veiculava. O descompasso com as primeiras pesquisas de intenção de voto sugere, ainda segundo o jornal, que a plataforma não estava exatamente refletindo tendências políticas, mas moldando-as através de seu algoritmo.

A nossa análise, baseada no “Em Alta”, reflete o conteúdo que viraliza no YouTube. E os números desse ranking corroboram teorias de que a plataforma foi “armorizada”, ou seja, transformada em arma por uma parcela dos atores políticos que, até então, não encontrava espaço em mídias tradicionais, salvo se como alvos de chacota ou exemplos do absurdo.

O YouTube informou, pelo Twitter, que implementará no Brasil até o fim do ano uma atualização que reduz as recomendações para vídeos que “passam perto” de violarem suas diretrizes e que “desinformam de uma maneira potencialmente danosa”.

Entramos em contato com o YouTube Brasil pedindo explicações sobre a aparição de vídeos de canais sensacionalistas nos rankings “Em alta” e o crescimento do Folha Política nesses rankings durante o período eleitoral. A empresa disse, por meio de sua assessoria, que o conteúdo destacado no ranking “é avaliado individualmente com base nas nossas regras”. E mandou o link para uma carta de Susan Wojcicki, CEO do YouTube, que afirma que o ranking foi criado para refletir o conteúdo que os usuários podem achar interessante e que a empresa tem filtros para impedir a ascensão de determinados vídeos (como conteúdo adulto ou violento). Aparentemente, vídeos de extrema-direita não são considerados um problema.