“O nacionalismo é o último refúgio dos canalhas”. Como toda a frase de efeito que resiste à força destruidora da passagem dos séculos, essa sentença proferida em 1775 pelo pensador inglês Samuel Johnson encerra uma pequena e importante lição histórica. Outra frase desgastada, porém profética, é a de Karl Marx no primeiro parágrafo do seu livro “O 18 de Brumário”: a história se repete “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.”

No Brasil, a história da canalhice travestida de patriotismo já se repetiu como tragédia, como farsa, como picaretagem, como safadeza, em um moto-contínuo de altíssima velocidade. Agora, no governo Bolsonaro, vemos o nacionalismo canalha voltar à moda com toda força. Ao ouvir um par de verdades de Emmanuel Macron, o presidente que bate continência para a bandeira e para funcionários do governo americano se enrolou na bandeira nacional e saiu gritando “colonialista”!

Quando a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, comissária dos Direitos Humanos na ONU, chamou atenção para as violações ocorridas no Brasil, o Bolsonaro também reagiu atacando a memória do pai dela, morto pelo ditador psicopata Augusto Pinochet, com a justificativa que era uma intromissão “na soberania brasileira”.

O apelo à retórica nacionalista é um recurso antigo usado por políticos brasileiros. Não foram raras as situações  em que nossas elites fizeram uso de argumentos patrióticos e anti-colonialistas para justificar a realização ou manutenção de calhordices e crimes de proporções homéricas.

Se tivéssemos obedecido aos imperialistas em 1830, teríamos poupado mais de 1 milhão de vidas.

Após o “brado retumbante” em 7 de setembro de 1822 de Dom Pedro I, começaram as tratativas entre Brasil, Portugal e Inglaterra – grande potência econômica e militar da época – para acertar as bases desse divórcio. Uma das imposições da Inglaterra para nos reconhecer como país independente era de que puséssemos fim do tráfico de africanos escravizados. Negócio abjeto que era a fonte de fortuna para os ricaços e abastecia de mão de obra barata para as cidades e o campo. A sociedade brasileira transpirava escravidão.

Em 1826, negociamos um tratado com a Inglaterra, cujo primeiro parágrafo era cristalino:

“Não será lícito aos súditos do Império do Brasil fazer comércio de escravos na costa da África, debaixo de qualquer pretexto”.

A imposição britânica foi imperialista? Foi uma ingerência sobre nosso ordenamento jurídico? Violou nossa soberania? Sim, sim e sim. E bendito seja esse imperialismo. Se tivéssemos obedecido aos imperialistas em 1830, teríamos poupado mais de 1 milhão de vidas, número próximo aos que aqui desembarcaram entre 1830 e 1850.

No parlamento brasileiro, logo apareceram os escravocratas travestidos de patriotas para criticar o acordo. Defendiam a continuidade do tráfico de gentes, o mais vil e abjeto negócio da história do capitalismo. Em 1827, um deles, o deputado Cunha Mattos, denunciava:

Trecho de discurso do deputado Cunha Mattos, em 1827.

Cunha Mattos ainda disse: “Senhores, é moda do dia falar contra o tráfico de escravos: o abandonemos, mas que seja abandonado com honra, com dignidade, e sem intervenção da força armada inglesa”.

O também deputado Joaquim Ledo se enrolava na bandeira nacional e bradava: “Que vemos no tratado para a abolição do tráfico de escravos? Eterna vergonha, eterno opprobio, submettendo-se os brazileiros a penas cominadas por uma nação estrangeira (…).”  No Brasil, como vemos nos discursos de Mattos e Ledo, não nos curvamos aos modismos bobos, como à civilização.

Trecho de discurso do deputado Ledo, em 1828.

Reprodução: Annaes do Parlamento Brasileiro

Durante a ditadura militar, quase um século e meio adiante na história, era notório o uso da tortura, o assassinato e o desaparecimento de adversários políticos como política de estado. Em 1972, a Anistia Internacional, agência ligada à ONU, produziu um documento em que relatava “surras severas, choques elétricos nos órgãos sexuais … de homens e mulheres, simulação de execuções e outros métodos de tortura psicológica”, como também relatos de “uma mulher estuprada por um de seus torturadores na frente de seu marido, e de crianças torturadas na frente de seus pais e vice-versa”. Tudo isso foi relatado em reportagem do New York Times. Por aqui, imperava o silêncio perturbador da censura.

A Comissão Internacional de Juristas, também ligada à ONU, denunciou, em 1970, o Brasil como um lugar em que a tortura se transformara em “arma política”. O relatório da comissão afirmava que, entre os métodos de tortura, havia o de “afundar a cabeça do prisioneiro em um balde cheio de água suja ou excremento” de forma a quase sufocá-lo.

O Papa Paulo VI também discursou contra a barbárie cultivada pelos militares brasileiros em discursos de sua janela no Vaticano, em 1970. O então ditador-presidente Emílio Garrastazu Médici respondeu às críticas do pontífice alegando que os que diziam tais coisas sobre o Brasil eram“maus brasileiros, comunistas e subversivos”. Maus brasileiros… Os militares brasileiros se agarraram com unhas, dentes, coturnos e óculos escuros ao patriotismo e às patriotadas.

Reportagem do New York Times, 22 de outubro de 1970.

Campanha publicitária do período ditatorial.

Durante o governo nos Estados Unidos de Jimmy Carter (1977-1981), as críticas ao regime brasileiro subiram de tom. Tanto pela defesa dos direitos humanos, que marcaria a trajetória de Carter, quanto pelo temor de que o Brasil caminhava para desenvolver tecnologia nuclear para fins militares. Ernesto Geisel, então ditador-presidente do Brasil, pôs fim ao acordo militar entre Brasil e EUA, assinado por Getulio Vargas nos anos 1950. Tudo isso em resposta a um relatório escrito por Carter com críticas ao Brasil por conta das violações dos direitos humanos.

Notícia publicada no NYT em 1977 na qual relata que Rosalynn Carter, esposa do presidente dos EUA, “encontrou-se hoje com dois missionários americanos que disseram ter sido ‘tratados como animais’ em uma prisão brasileira.”

Hoje, graças a documentos americanos, sabemos que Geisel deu seu aval à política de “execução sumária” de adversários do regime. Que bom foi esse imperialismo americano que jogou luz nos crimes cometidos pelo regime autoritário brasileiro.

Hoje, vemos o bolso-olavismo se apoderar dos símbolos pátrios. A bandeira do Brasil pendurada na janela e a camisa da CBF ostentada pelas ruas não significam amor ao país, mas amor a um projeto autoritário e retrógrado de país. O patriotismo se degenerou em bolsonarismo.

Bolsonaro, que nutre evidente desprezo pelas populações indígenas brasileiras, pela ciência, Ibama, ONGs, mas que ama madeireiros, grileiros, garimpeiros ilegais e produtores rurais de hálito medieval, é culpado, por ação e por omissão, pelas queimadas na Amazônia. Culpa que ele tenta encobrir apelando à soberania nacional. 

Como bem disse o ex-chanceler do Chile Juan Gabriel Valdés, Bolsonaro repete o velho rosário dos ditadores, dos autocratas, dos autoritários, que diante de qualquer crítica, berram: “isso ameaça a minha soberania nacional!” Nacionalismo é o refúgio preferido dos canalhas políticos.