Os democratas estão se preparando para arrancar a derrota das garras da vitória? O anúncio da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, na terça-feira, 24 de setembro, de que realizaria um “inquérito oficial de impeachment” sobre o telefonema de Trump para o presidente da Ucrânia e seu pedido de investigação sobre Joe Biden e seu filho Hunter, foi bem recebido. Na quarta-feira, porém, de acordo com vários relatos, “Pelosi e democratas veteranos da Câmara concordaram em uma reunião privada… que deveriam restringir a investigação de impeachment do presidente Trump às negociações dele com o presidente da Ucrânia”.

Para ficar claro: agora existe uma maioria na Câmara pelo impeachment, especialmente com a publicação da acusação do denunciante na quinta-feira, revelando como “o presidente dos Estados Unidos está usando o poder de seu cargo para solicitar interferência de um país estrangeiro nas eleições de 2020 nos EUA”. Os democratas da Câmara – mesmo os ocupantes de assentos que podem ser perdidos para a oposição – se uniram quanto à questão e veem Trump como uma clara ameaça à segurança nacional. Parece um golpe de peso.

Então, como isso pode acabar sendo uma derrota, e não uma vitória? Pense bem. Os democratas da Câmara esperarem tanto tempo para então buscar o impeachment de um presidente negligente, desregrado, racista e sonegador de impostos apenas por suas interações com o presidente da Ucrânia seria efetivamente dar a Trump um atestado de que tudo está bem em todo o resto. Entrando em um ano eleitoral, os democratas estariam se desarmando unilateralmente – sem poderem oferecer mais críticas relevantes aos crimes e aos abusos de poder de Trump em geral. “Por que vocês não o depuseram por isso?”, perguntarão os republicanos.

Peço perdão por não ter fé na liderança democrata da Câmara, que nunca perdeu uma oportunidade de perder uma oportunidade. Os mesmos gênios políticos que se arrastaram em relação ao impeachment até poucos dias atrás, depois de ridiculamente sugerir que o presidente estava “instigando” os oponentes a acusá-lo, agora estão nos dizendo para confiar neles, que eles sabem o que estão fazendo, que a Ucrânia é a totalidade dessa investigação de impeachment.

Felizmente, nem todos os democratas concordam com isso. No podcast Deconstructed nesta semana, Julián Castro – que em abril se tornou o primeiro candidato presidencial democrata a pedir o impeachment de Trump – me disse que quer ver os democratas do Congresso realizando um amplo inquérito de impeachment por conta de “provas claras de que pode haver outras violações da lei”. Segundo Castro, o objetivo final do impeachment não é marcar uma posição política ou partidária, mas “mostrar ao povo americano que ninguém está acima da lei”.

Então, qual é o motivo para restringir a abrangência do que deveria ser uma investigação histórica? “Acho que precisamos nos concentrar em qual é essa clara ameaça à segurança nacional e à nossa Constituição”, disse a deputada Debbie Dingell, aliada próxima de Pelosi, ao Washington Post, referindo-se à questão da Ucrânia. “Acho que precisamos nos concentrar em algo que todo mundo entende.”

“Vamos nos concentrar neste assunto em particular”, anunciou o líder da maioria na Câmara, Steny Hoyer, acrescentando que “não é algo difícil de entender”. Esses democratas acham que o público é idiota? Poucos contestariam a singularidade ou a seriedade dessas revelações na Ucrânia. Mas eles estão realmente dizendo que “todo mundo entende” o quid pro quo de Trump com o presidente de um país estrangeiro e os detalhes do caso específico envolvendo Hunter Biden, mas não o pagamento ilegal de suborno para calar uma estrela pornô? Ou todos os comportamentos corruptos em exibição diante de seus olhos? A autonegociação descarada? A violação diária da cláusula emolumento?

Leia o resultado de uma pesquisa. Uma maioria de americanos casualmente concorda com (literalmente) mil ex-promotores federais que o presidente obstruiu a justiça e não acredita que o relatório Mueller isentasse Trump. Uma maioria também concorda que Trump é racista e mentiroso, e que a corrupção aumentou em sua administração. Trump é um presidente historicamente impopular e detestado – e por diversos motivos.

Leia um livro de história. Em 1868, Andrew Johnson tornou-se o primeiro presidente a sofrer impeachment nos EUA e, no seu caso, a Câmara dos Deputados adotou 11 artigos de impeachment, desde a violação do ato de posse do cargo até a tentativa de “desonrar” o Congresso. Um pouco mais de um século depois, em 1974, o Comitê Judiciário da Câmara aprovou três longos e detalhados artigos de impeachment contra Richard Nixon, abrangendo obstrução de justiça, abuso de poder e desprezo pelo Congresso. O primeiro desses artigos chegou a citar as “declarações públicas falsas ou dolosas de Nixon com o objetivo de enganar o povo dos Estados Unidos” e seus esforços “para fazer com que possíveis réus e indivíduos devidamente julgados e condenados esperassem consideração e tratamento favorecido em troca de silêncio ou falso testemunho ou por recompensar indivíduos por seu silêncio ou falso testemunho.” (Parece familiar?)

Leia os tweets de Trump. Desde a tarde de 24 de setembro, o presidente que supostamente iria fazer o “auto-impeachment” vem reclamando e divagando online, chamando o anúncio de Pelosi de uma “total caça às bruxas”, “embuste”, “lixo”, e “assédio presidencial”. Trump, que tinha 17 anos quando John F. Kennedy foi assassinado, alegou que “não houve nenhum presidente na história de nosso país que tenha sido tratado tão mal quanto eu sou”.

Isso parece um presidente que quer ser impugnado? Ou melhor, um presidente que está (com razão) preocupado com o fato que uma ampla investigação de impeachment possa descobrir uma ampla variedade de novos escândalos e crimes?

“Ele parece estar se sentindo perseguido”, escreveu Chris Hayes, do MSNBC. Então, por que se conter agora? Por que colocar todos os ovos do impeachment no cesto da Ucrânia? Por que não tornar o caso mais forte possível e vasculhar o histórico de Trump nos últimos dois anos e meio como um todo? Os democratas não aprenderam nenhuma lição com a investigação da Rússia? “Estamos aqui em primeiro lugar porque a abordagem exclusiva falhou com Mueller”, tuitou Osita Nwanevu, no New Republic.

E qual é a pressa de fazer tudo “até o final do ano ou até mesmo antes”, conforme reportagem do Politico? Existe algum outro lugar em que os democratas da Câmara precisam estar? Eles estão com pressa de voltar a aprovar leis que depois são barradas pelo mesmo Senado controlado pelos republicanos que votará seus artigos de impeachment? Por que não tirar uma lição do manual do Partido Republicano? Durante a presidência de Obama, o comitê sobre Benghazi, liderado pelos republicanos realizou “33 audiências ao longo de mais de dois anos sobre um tema que já havia sido investigado por sete outras comissões do Congresso”.

O ponto do impeachment, lembre-se, é a Câmara dos Deputados indiciar Trump estrondosa e publicamente por seu conjunto de crimes e contravenções. Ele ser ou não afastado do cargo não vem ao caso. A questão é o Congresso responsabilizar o presidente exigindo documentos e agendando audiências televisionadas sobre uma série de ofensas que podem resultar em impeachment – e conquistar a opinião pública no processo.

Os democratas da Câmara tentarem apartar o comportamento corrupto, desregrado e autoritário de Trump quanto à Ucrânia e Biden do comportamento corrupto, desregrado e autoritário dele quanto a seus impostos, Mueller, Stormy Daniels, Porto Rico, o Esquadrão ou a Amazônia – é possível seguir continuamente – é loucura. Citando Brian Beutler do Crooked Media: “É TUDO UMA COISA SÓ, PORRA!”

Os democratas só têm uma chance de impeachment. Uma chance de lembrar ao público que existe um criminoso sentado no Salão Oval. Eles não podem apressar – ou detonar – essa chance.

Tradução: Cássia Zanon