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Protesto na Avenida Paulista em São Paulo durante a #GreveGeralpeloClima em 20 de setembro.

Foto: Miguel Schincariol/AFP/Getty Images

Enquanto 60 países se encontram na Cúpula do Clima para discutir o futuro do planeta, o Brasil está na contramão da proteção ambiental. Está também na contramão da redução da desigualdade. Isso importa, e muito, porque as duas coisas estão fortemente relacionadas.

Os limites para o crescimento já estão dados. É inviável crescer nos próximos 50 anos como crescemos nas últimas cinco décadas. No período de uma vida humana, causamos transformações no planeta que não podem ser repetidas. Se tentarmos repetir a história, haverá colapso geral.

É altamente improvável que os pobres do mundo se aproximem dos padrões de consumo dos ricos. Isso implicaria triplicar, talvez quadruplicar a produção econômica global. Além disso, exigiria uma produção fortemente baseada em serviços, grandes mudanças nos padrões alimentares, pouca expansão da indústria e da agricultura, e uma completa modificação na geração de energia. Nada disso é trivial.

É verdade que países ricos conseguiram crescer sem aumentar suas emissões de carbono. É uma ótima notícia. Mas isso ocorreu apenas recentemente, tem forte relação com a substituição de carvão por outras fontes de energia, e exige consumo de outros recursos. É remota a possibilidade que o mundo inteiro consiga repetir e manter esse padrão por muito tempo. Além disso, não basta frear o crescimento das emissões, é preciso diminuí-las em um cenário de população crescente.

Esse obstáculo não poderá ser superado nas próximas três décadas. Uma aposta na tecnologia é uma aposta no fracasso. Praticamente nenhuma mudança tecnológica, no padrão que tivemos no último século, será capaz de reverter esse problema. Sozinhas, ciência e tecnologia não irão nos salvar. Mesmo os maiores saltos de produtividade dependeriam hoje de recursos que são limitados.

A maior parte de nossa prosperidade é baseada na ideia de crescimento. Nosso discurso político é focado no crescimento. Nossas teorias de desenvolvimento são obcecadas com o crescimento. Podemos chamar isso de crescimentismo, uma ideologia centrada no desenvolvimento pela via do crescimento. Nós já estamos em um ponto em que o crescimentismo é insustentável para guiar nosso futuro.

Os mais ricos do mundo são responsáveis por uma parte grande da crise climática atual.

É impressionante que exista gente importante que se omite em relação ao assunto. No Brasil, há aqueles que acusam os outros de terraplanistas porque não se preocupam com o futuro da previdência, mas fazem precisamente o mesmo quando o assunto é conservação ambiental. Defender que é necessário um ajuste fiscal, porque os recursos serão inexoravelmente escassos, mas não um ajuste ambiental, porque os recursos não serão sempre escassos, é de uma incoerência óbvia. O crescimentismo é apenas uma forma intelectualizada de negacionismo climático.

Em qualquer tipo de futuro viável, a prosperidade dependerá cada vez mais de distribuição do que de crescimento. Mais exatamente, a prosperidade dependerá mais da apropriação do que já existe do que da criação de novas coisas.

Na verdade, isso foi a regra, não uma exceção, na história. Distribuição, não o crescimento econômico, foi o motor da prosperidade durante séculos. A violência, a opressão e a fraude foram os mecanismos dessa distribuição. Até a revolução industrial, o crescimento mundial foi muito baixo. Mesmo depois dela, colonialismo e imperialismo foram formas importantes de se aumentar a riqueza de um país. Dentro das fronteiras, guerras, expulsão de indígenas de suas terras, repressão dos trabalhadores e captura do estado para beneficiar interesses privados são apenas alguns dos exemplos. É sempre bom lembrar que distribuição não significa igualdade.

Pelo contrário, as condições necessárias para a produção da igualdade são muito particulares. Seja ela econômica ou política – a democracia. A igualdade é apenas um dos resultados possíveis dos conflitos distributivos. Ao que parece, é um dos mais difíceis de se obter.

É por isso que igualdade será cada vez mais importante na história daqui em diante. As alternativas são sombrias demais para servirem de esperança para o futuro. Mas a mensagem é certa: precisamos investir em justiça social para obter justiça ambiental.

A crise ambiental é lenta, mas sem mudanças radicais agora, será inevitável. O pesado da conta será pago por quem é criança hoje.

Isso porque a renda está concentrada nos mais ricos e, consequentemente, o consumo também. Os mais ricos do mundo são responsáveis por uma parte grande da crise climática atual. Ocorre que o planeta é uma propriedade coletiva. Os ganhos dos ricos são privados, mas os danos são coletivos. Logo, é justo e correto exigir de todos uma redução progressiva do consumo, mas o comprometimento dos ricos tem que ser bem maior do que o dos pobres.

No ponto em que estamos não é mais uma questão de se tentar conscientizar pessoas. É preciso realmente usar um conjunto maior de ferramentas, coerções e incentivos para frear o crescimento da renda dos ricos e mudar o padrão de consumo dos demais. Sem regulação mais forte, a renda continuará sendo um determinante maior do impacto ambiental do que as atitudes em relação ao problema, como mostrou um estudo sobre o assunto. Simplesmente não existe a alternativa de crescer infinitamente em um planeta finito.

Os problemas de desigualdade não param aí. Há uma segunda desigualdade relevante em jogo: a desigualdade entre gerações. A crise ambiental é lenta, mas sem mudanças radicais agora, será inevitável. O pesado da conta será pago por quem é criança hoje.

Há um conflito distributivo entre jovens e velhos. Não é sem razão que a preocupação ambiental é muito maior entre jovens. Sua maturidade é impressionante. Eles são os filhos dos adultos que acham que está tudo sob controle, porque uma solução cairá do céu. Mas se os pais de hoje querem proteger seus filhos mais do que a si mesmos, é hora de dar ouvidos a eles.