Pelo segundo ano consecutivo, a Coca-Cola foi apontada como a marca mais poluidora por uma auditoria internacional sobre lixo plástico, conduzida pelo movimento Break Free From Plastic (“Liberte-se do Plástico”). A gigante do ramo de refrigerantes foi responsável pela produção de mais lixo plástico que o total dos três poluidores que aparecem logo abaixo no ranking.

Em setembro, no dia determinado para a realização da limpeza que serviu de base para a auditoria, mais de 72 mil voluntários se espalharam por praias, remaram em cursos d’água e caminharam pelas ruas ao redor de suas casas e escritórios, coletando garrafas, copos, embalagens, sacolas e fragmentos de plástico. Depois de fazer uma seleção nas pilhas de lixo, eles verificaram que o plástico coletado podia ser classificado em 50 tipos diferentes, e correspondia a cerca de 8 mil marcas. A Coca-Cola foi responsável por 11.732 unidades de lixo plástico, encontradas em 37 países de quatro continentes. Depois da Coca, os maiores causadores de poluição por plástico, segundo a auditoria, foram Nestlé, PepsiCo, Mondelez International – a empresa por trás de marcas de guloseimas como Oreo, Ritz, Nabisco e Nutter Butter – e Unilever. Mais da metade do plástico coletado estava deteriorado a ponto de não ser mais possível distinguir quem o teria produzido.

A Coca foi a principal fonte de plástico na África e na Europa e a segunda maior na Ásia e na América do Sul. Na América do Norte, a empresa responsável pelo maior volume do plástico encontrado durante a limpeza foi a Nestlé, seguida pela Solo Cup Company (uma subsidiária da companhia Dart Container) e pela Starbucks. A Coca-Cola ficou em 5º lugar entre as empresas produtoras de lixo plástico na América do Norte.

A multinacional respondeu às perguntas sobre a auditoria com uma declaração por e-mail: “Cada uma de nossas embalagens que chega aos oceanos – ou a qualquer lugar a que não pertença – é inaceitável para nós. Por meio de parcerias, estamos trabalhando para lidar com essa questão global crítica, tanto para ajudar a restringir o volume de resíduos plásticos que chegam aos oceanos, quanto para ajuda a limpar a poluição já existente.”

A declaração da Coca-Cola dizia ainda: “Estamos investindo de forma local em todos os mercados para aumentar a taxa de recuperação de nossas latas e garrafas, e anunciamos recentemente a criação, com apoio da indústria, de uma organização no Vietnã para recuperação de embalagens, bem como o investimento de US$ 19 milhões, pelos engarrafadores, para a construção de instalações de reciclagem de nível alimentício nas Filipinas. Estamos também investindo para acelerar o desenvolvimento de inovações fundamentais que nos ajudarão a reduzir o volume de lixo, incluindo novas tecnologias aprimoradas de reciclagem que permitem reciclar plástico PET de baixa qualidade – um material que hoje é incinerado ou levado para os aterros sanitários – e obter novamente material de embalagem de alta qualidade.”

A duvidosa honraria recebida pela Coca-Cola, de figurar por dois anos seguidos como a maior responsável global pela produção de resíduos plásticos, vai de encontro à imagem de liderança ambiental cuidadosamente construída pela empresa. No começo do mês de outubro, a Coca apresentou uma garrafa feita de plástico retirado do mar e reciclado e, no ano passado, se comprometeu a coletar e reciclar “o equivalente a cada lata ou garrafa vendida por ela no mundo.”

Juntamente com o imenso rastro de lixo deixado pela empresa, porém, outros indícios comprometem a imagem ecológica da Coca-Cola. Áudios vazados, obtidos há pouco tempo pelo Intercept, mostraram como organizações patrocinadas pela Coca sabotam a regulação sobre as garrafas plásticas. Enquanto isso, ambientalistas europeus, alinhados aos ativistas que conduziram a auditoria global da marca, declaram que a empresa tem interferido em seus esforços para combater a poluição por plásticos.

Centenas de cidades recentemente aceitaram o compromisso de se tornarem “lixo zero”. “Criamos um plano diretor muito detalhado, com uma visão de conjunto sobre as medidas que um município precisa tomar para reduzir sua produção de resíduos”, explica Alexandra Aubertin, fundadora da organização Zero Waste Montenegro (Montenegro Lixo Zero) e membro do conselho da Zero Waste Europe (Europa Lixo Zero). “Olhamos para tudo que já foi feito em uma cidade, mas também observamos, num âmbito local, como as coisas podem ser reutilizadas.” O movimento lixo zero se baseia numa hierarquia que coloca a redução e a conservação do plástico e de outros materiais num nível acima da reciclagem, e enfatiza a redução, na origem, do lixo produzido.

Em outubro do ano passado, os ativistas do lixo zero perceberam que havia surgido um outro movimento com o mesmo nome, mas com objetivos bem diferentes. O novo movimento lixo zero não tinha, como eles, uma abordagem abrangente da redução de lixo, e parecia pensado para “confundir as pessoas quanto à hierarquia do lixo zero”, declarou Aubertin. Eles “diziam às pessoas que a reciclagem é a solução. Mas não é essa a ideia da hierarquia de lixo zero.”

Aubertin ficou consternada ao descobrir que a nova mensagem enfraquecida “lixo zero” estava sendo veiculada, na realidade, pelo maior poluidor mundial no ramo de plásticos: a Coca-Cola. Ela ouviu falar da campanha pela primeira vez por intermédio de um de seus colegas gregos, quando a empresa anunciou um plano para transformar “”Tessalônica, a segunda maior cidade da Grécia, na primeira do país com potencial para ser um município lixo zero.”

Na sequência, em março, a Coca anunciou o patrocínio a outra iniciativa “lixo zero” no país da própria Aubertin, na cidade de Budva. De acordo com o anúncio no site sérvio da Coca-Cola, a empresa está patrocinando uma organização sem fins lucrativos de Montenegro, cujo nome pode ser traduzido como “ONG Eco Centro de Budva”, “com o objetivo de torná-la a primeira cidade do litoral do mar Adriático sem produção de lixo”. Os recursos estão sendo usados para criar um “centro interativo”, onde os visitantes poderão aprender mais sobre ecologia, e para financiar um programa chamado “Capture the Clean Wave” (Capture a Onda Limpa), que irá “contribuir para a coleta de resíduos de embalagens em mais de 40 praias da Riviera de Budva.”

O dinheiro também está sendo empregado para financiar a conscientização porta-a-porta sobre a reciclagem e para instalar cestos de coleta de garrafas PET, segundo a Zero Waste Montenegro, que considera a iniciativa financiada pela Coca-Cola lamentavelmente inadequada.

“Mesmo que fosse possível coletar todas as garrafas PET comercializadas em Budva”, escreveu a organização em seu site, “isso seria apenas uma pequena parte do lixo produzido na cidade a cada ano. Budva não se tornaria uma Cidade Lixo Zero.”

Tradução: Deborah Leão