Era difícil imaginar, apenas um mês atrás, que a Bolívia chegaria a meados de novembro com a segunda vice-presidente do Senado se autoproclamando chefe de Estado com uma Bíblia na mão e diante de um Congresso vazio. E que o poder, na prática, estaria entregue às mãos de militares e policiais. Já Evo Morales sequer está no país – após manobrar para atropelar a Constituição que ele mesmo promulgou e o resultado de um referendo popular que lhe negou a quarta candidatura consecutiva, o agora ex-presidente está no México como asilado político.

Deposto, Evo assistiu a milhares de quilômetros de distância de La Paz à adversária Jeanine Áñez assumir o país de forma provisória na terça-feira, 12, à noite, prometendo convocar novas eleições “o mais rápido possível” após a renúncia de toda a linha sucessória definida pela Constituição. O mais longevo presidente boliviano voara horas antes para o México, onde o presidente Andrés Manuel López Obrador lhe concedeu asilo diante das ameaças de morte que recebeu.

O governo de extrema-direita brasileiro rapidamente endossou a autoproclamação de Áñez. Já Evo e seu grupo político denunciam os novos capítulos de mais um golpe de estado na América Latina.

Entender como Evo passou de primeiro presidente indígena da história boliviana – com um legado de bons resultados econômicos, eleitores fiéis e uma inclinação tipicamente latino-americana a perpetuar-se no poder – a líder destituído e perseguido pode parecer um desafio à primeira vista. A situação boliviana se transformou rapidamente e tornou protagonistas líderes políticos que até outubro, na campanha eleitoral, estavam em segundo plano.

É o caso do líder oposicionista Luis Fernando Camacho, um empresário de Santa Cruz de la Sierra que surge como o “presidente moral” aos olhos da direita radical. Embora seja do mesmo partido de oposição, o Comitê Cívico, pouco tinha a ver com Carlos Mesa, candidato à presidência derrotado por Evo em 20 de outubro numa eleição com fortes suspeitas de fraude.

Mesa, penúltimo presidente boliviano antes de Evo assumir, em 2006, era um nome tradicionalmente associado à centro-esquerda e visto como defensor de um “evismo moderado”. Sua eventual passagem ao segundo turno, resultado mais provável além da vitória do próprio presidente, não trazia a mudança almejada pelo grupo conservador e ultrarreligioso de Camacho – mais próximo ideologicamente do pastor Chi Hyun Chung, coreano radicado em Santa Cruz de la Sierra, que ficou em terceiro lugar com menos de 9% dos votos.

“Dr. Chi” beneficiou-se de uma mudança constitucional de 2009 – comandada por Evo, interessado à época em disputar a reeleição – que eliminou a necessidade dos candidatos serem nascidos no país. Ele ficou conhecido por dizer que os incêndios na região amazônica seriam uma “punição divina” pela existência da população LGBT.

Conforme os protestos cresceram, o setor que ganhou mais força foi justamente o ultraconservador, que clamava por “nem Evo, nem Mesa”. Se vive na prática sob comando militar, hoje a Bolívia também tem “El Macho” Camacho como seu personagem político mais proeminente: um homem que não concorreu no pleito de 20 de outubro e, consequentemente, não teve um único voto em seu nome.

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Manifestantes contrários ao governo Evo chegaram a atear fogo a sessões eleitorais em Sucre no fim de outubro.

Foto: Jose Luis Rodriguez/AFP via Getty Images

O 20 de outubro

No fatídico dia das eleições, os favoritos Evo Morales e Carlos Mesa protagonizavam o que parecia ser apenas mais uma disputa pela presidência. Mas não era só isso. Evo concorria graças a uma polêmica decisão do Tribunal Constitucional da Bolívia que, em 2017, lhe deu direito a buscar mais um mandato por entender que o limite às reeleições não incluía o primeiro mandato do presidente, anterior à Constituição de 2009.

A medida judicial foi o que restou após Evo fracassar na tentativa de aprovar num referendo popular em 2016 uma reforma constitucional que lhe permitisse concorrer a um novo mandato.

Apesar das críticas de que estaria tentando se eternizar no poder à revelia da lei, Evo Morales mantinha grande apoio. Num paralelo com a história do Brasil, a melhor figura para explicá-lo não é Luiz Inácio Lula da Silva, de quem é amigo, mas Getúlio Vargas, que modernizou a economia e criou um ferramentas de proteção a trabalhadores que sobrevivem até hoje mas não tinha grande apreço pela democracia.

Segundo todas as pesquisas, o único candidato capaz de ameaçar a quarta reeleição de Evo era Carlos Mesa. Os outros candidatos – inclusive o pastor Chung, fã de Bolsonaro – não tinham qualquer chance. A Bolívia caminhava, então, para algo entre a continuidade do Movimento ao Socialismo, o MAS, e a oposição de centro-esquerda do Comitê Cívico, o CC – guarde esta sigla.

Mesa deu a Evo a disputa mais acirrada de sua longa carreira eleitoral. Ele havia vencido as três últimas eleições no primeiro turno, o que parecia que não iria se repetir agora. Durante a maior parte da contagem dos votos impressos, feita em tempo real pelo sistema de Transmissão de Resultados Eleitorais Preliminares, Evo não abriu a vantagem necessária para vencer em primeiro turno – 50% dos votos mais um, ou ao menos 40%, desde que com dez pontos percentuais de diferença para o segundo colocado.

A apuração, no entanto, foi interrompida de forma repentina e sem grandes explicações na noite do domingo das eleições: àquela altura, com 83% dos votos contabilizados, Evo ainda não levava na primeira rodada. Quando a contagem voltou, no dia seguinte, a apuração estava 95% concluída e o mandatário já contava com a diferença necessária para triunfar. Ao fim, Evo Morales registraria 47,1% dos votos contra 36,5% de Carlos Mesa.

As acusações de fraude, que vinham desde antes da votação, ganharam peso com o misterioso sumiço e em seguida o salto dos números. Imediatamente, a violência tomou conta das ruas das principais cidades do país, com conflitos entre partidários de Evo e opositores, e ataques aos tribunais eleitorais regionais. As suspeitas de que algo estava errado aumentaram ainda mais após a renúncia do vice-presidente do tribunal eleitoral boliviano, Antonio Costa.

A Organização dos Estados Americanos mostrava-se preocupada e se reuniu dias depois com o ministro de Relações Exteriores de Evo, Diego Pary, para discutir o andamento das eleições. Motivado pelos protestos nas ruas, o adversário Carlos Mesa rejeitou a ajuda da OEA, dizendo-se favorável a um novo processo eleitoral.

Racismo e violência

O ponto de virada da tensão ocorreu ainda em 20 de outubro, em meio à paralisação da contagem de votos. Nas primeiras horas após o início dos tumultos, dezenas de pessoas ficaram feridas e pelo menos 27 prisões foram decretadas. O quadro seguiu se agravando nas semanas seguintes e, na madrugada de 31 de outubro, a onda de manifestações registrou também os seus primeiros mortos.

Foi em novembro, na última semana do governo Evo, porém, que a situação ganhou seus episódios mais dramáticos, com imagens que correram o mundo. Políticos, líderes sociais e mesmo jornalistas identificados de alguma forma com o governo passaram a ser abertamente perseguidos. José Aramayo, diretor da rádio ligada à Confederação de Trabalhadores Campesinos, foi amarrado em uma árvore e torturado por grupos ligados à oposição.

Em Vinto, cidade de 60 mil habitantes do departamento de Cochabamba, a prefeita Patricia Arce – indígena e correligionária de Evo – foi humilhada por um grupo de homens da oposição. Além dos insultos, Arce foi coberta com tinta vermelha, arrastada pelas ruas da cidade e teve os cabelos cortados à força. Ao estilo miliciano, a turba só parou quando a polícia chegou. Finalmente, no dia da queda do governo, os ataques chegaram também às casas de Evo e sua irmã, Ester Morales.

Em um país com 55% da população composta pelas etnias quéchuas e aimarás (a mesma de Evo), o racismo de setores radicais da oposição também é latente. Desde os primeiros dias dos protestos já havia imagens de manifestantes retirando e queimando a wiphala, bandeira que representa os povos indígenas dos Andes. Adotada como símbolo nacional boliviano durante o governo Evo Morales, a bandeira passou a ser associada ao próprio presidente e seu partido. Nos últimos dias, policiais de Santa Cruz de la Sierra – a “capital” da oposição radical – foram filmados recortando a wiphala que traziam em suas fardas.

Santa Cruz de la Sierra é a mais populosa e rica cidade da Bolívia, e concentra a elite branca de um país onde a maior parte da população é indígena. Numa comparação algo grosseira, está para a Bolívia como São Paulo para o Brasil. A resistência a Evo historicamente se concentrou em Santa Cruz de la Sierra. E era alimentada por racismo: os brancos que historicamente governaram a Bolívia nunca se conformaram em ver um indígena no comando do país. O presidente do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz é Luis Fernando Camacho.

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Camacho, presidente do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz, foi recebido em maio pelo chanceler Ernesto Araújo.

Foto: Aizar Raldes/AFP via Getty Images

O 10 de novembro

Se o apoio da OEA inicialmente deu uma chance ao governo de se explicar à oposição, o relatório da organização caiu como uma bomba em um país já em convulsão. No último domingo, 10 de novembro, a entidade resolveu antecipar os resultados da auditoria por conta dos sérios indícios de irregularidade que afirma ter encontrado no processo, incluindo assinaturas falsificadas. A conclusão: “é estatisticamente improvável que Morales tenha obtido os 10% de diferença para evitar um segundo turno”.

A oposição já fervilhava, pedindo a renúncia do então presidente. Sem perder tempo, Evo respeitou a auditoria da OEA e anunciou que convocaria novas eleições sob a tutela de um tribunal eleitoral totalmente renovado. O gesto, um último esforço de pacificação, poderia ser suficiente para o lado mais moderado da oposição, mas àquela altura o país já estava corroído pelo radicalismo, com motins de policiais nas principais cidades. A proposta de Evo foi recebida com indignação pelo movimento liderado pelo ultraconservador Camacho.

Católico fervoroso e apelidado de “Macho” Camacho pelas falas misóginas e sexistas, o empresário nutre um ódio antigo por Evo Morales. Ainda que pertença nominalmente ao mesmo partido de Carlos Mesa, o radical de 40 anos está bem distante dos posicionamentos do candidato que apoiou. Membro da elite empresarial boliviana, é conhecido por andar com a Bíblia e evocar Deus em quase todos os seus atos públicos.

Camacho prometeu que a Bíblia voltaria ao Palácio Queimado e assim fez: chegou a estender o livro sobre a bandeira boliviana na sede do governo – agora desocupada – em La Paz, dizendo que “sua luta é com a fé”. O caráter messiânico de Camacho é forte, sobretudo em seu reduto anti-evista. Nas ruas de Santa Cruz de la Sierra, o opositor já é chamado de “presidente moral” por conta de seus valores conservadores.

Dias antes de o golpe se consumar, ele já havia dado um “ultimato” a Evo, prometendo tirar uma carta de renúncia do então presidente à força. Nos primeiros dias de novembro, além de Deus, clamava por uma ajuda das Forças Armadas para acabar de vez com a era Morales na política boliviana. Em 10 de novembro, o relatório da OEA deu margem para seu pedido ser ouvido.

Evo renunciou às 16h51 de La Paz, 17h51 de Brasília, no domingo, encerrando o mandato mais longo da história de seu país: 13 anos e 9 meses no cargo. Se tivesse a reeleição confirmada, ele permaneceria até 2025. Uma hora antes de sua fala, em que se dissevítima de “um golpe cívico-político-policial”, Evo havia ouvido o pronunciamento do general Williams Kaliman: as Forças Armadas “sugeriam” que o presidente deixasse o cargo para permitir “a pacificação” e a “manutenção da estabilidade” da Bolívia.

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Depois que Evo assinou a renúncia, milhares de manifestantes favoráveis ao agora ex-presidente saíram às ruas em protesto por sua saída do governo.

Foto: Ronaldo Schemidt/AFP via Getty Images

O futuro a Deus pertence?

Evo era o único presidente remanescente da “onda rosa” que esteve presente na posse de Jair Bolsonaro, em janeiro deste ano. Mesmo oposto à agenda de extrema direita do brasileiro, o líder boliviano sempre adotou uma postura pragmática. No entanto, a relação entre os dois vinha sofrendo desgastes, principalmente por conta dos incêndios na região amazônica. No auge das queimadas, Bolsonaro chegou a criticar Evo, sem citá-lo diretamente.

Pouco após a renúncia forçada de Evo, o chanceler Ernesto Araújo se precipitou em afirmar que “não houve golpe” e que Evo tomou “a atitude correta de renunciar diante do clamor popular”. Araújo, o mais bem acabado terraplanista que o Itamaraty já produziu, recebeu em maio passado uma comitiva de opositores a Evo que incluída Luis Fernando Camacho. Ele foi levado ao chanceler pela deputada federal Carla Zambelli, do PSL de São Paulo, para discutir a situação política de seu país. À época, era um nome relativamente obscuro mesmo dentro da Bolívia. Camacho pediu ao governo brasileiro apoio para denunciar a situação eleitoral de seu país na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. Em um vídeo, cita Evo Morales e o vice dele, Álvaro García Linera.

Derrubado o governo, a Bolívia ainda vive um grande vazio de poder, com a queda de sucessivas lideranças. A autoproclamação de Àñez, celebrada por Mesa e Camacho e denunciada por Evo, não será reconhecida pela oposição, trazendo um dilema internacional similar ao que vive a Venzuela com Juan Guaidó e Nicolás Maduro.

A posse de Áñez se baseia em uma decisão do Tribunal Constitucional. Segundo a corte, não haveria a necessidade de lei ou resolução do legislativo – que estava vazio no momento da autoproclamação. O tribunal justificou sua decisão “considerando a grave situação social e política pela qual o país está passando” e que “a operação do executivo regularmente não deve ser suspensa”, lançando mão para isso de um entendimento que data de 2001.

A presidente do tribunal eleitoral, María Eugenia Choque Quispe, foi presa, a exemplo de seu vice e outros 36 membros do tribunal. O comandante da polícia, Yuri Calderón, deixou o cargo, pressionado por todos os lados – foram precisamente os seus subordinados que levantaram armas contra o governo antes mesmo de o Exército se pronunciar. Por falta de garantias de segurança e ataques aos seus profissionais, pelo menos um jornal já deixou de circular.

Como a promessa de Áñez é de rapidamente convocar o povo às urnas, ainda não se sabe quem herdará a Bolívia pós-Evo Morales, que ainda deve estar entre os países latino-americanos de melhor desempenho econômico em 2019. O partido dele, o MAS, detinha a maioria absoluta do Congresso, mas a chuva de renúncias e ameaças indica não haver clima para que seus membros continuem legislando. Os parlamentares sequer puderam acompanhar o juramento da senadora. Pela Constituição, novas eleições presidenciais devem obrigatoriamente ser convocadas em até 90 dias a partir do último domingo.

 

O que acontecerá daqui para a frente, no entanto, é incerto. Apoiadores de Evo Morales garantem uma reação aos episódios de violência da última semana e têm ido às ruas aos gritos de “guerra civil”. Não seria exatamente uma novidade na história latino-americana que os militares começassem com o que anunciavam como uma intervenção pontual e seguissem por tempo indeterminado para “manter a ordem”.

Apesar da posse polêmica da terça-feira, neste momento, o homem mais poderoso da Bolívia é o general Williams Kaliman, responsável pelas Forças Armadas e que garantiu a união com os policiais para “velar pela segurança dos cidadãos”.

Se os militares saírem de cena e permitirem novas eleições no prazo previsto em lei, abre-se também o questionamento de qual caminho será viável pelas urnas na Bolívia radicalizada e com o MAS fustigado pelas milícias de oposição. Ainda haverá espaço para Carlos Mesa, o candidato mais votado abaixo de Evo? Ele terá que abandonar o discurso relativamente moderado que manteve nas eleições originais e se associar aos setores ultraconservadores e religiosos?

Talvez, pouco mais de três semanas após o pleito anulado, Mesa já seja assunto do passado e o “Bolsonaro boliviano” acabe vestindo a faixa presidencial. Luis Fernando Camacho, que sitiou Santa Cruz de La Sierranunca falou abertamente sobre uma candidatura, mas emerge como o nome mais provável para aproveitar a onda conservadora que ganhou força no país vizinho. De todo modo, com Áñez ou Camacho, “a Bíblia volta ao Palácio”.

 

Atualização: 13 de novembro de 2019, 10h35

Este texto foi publicado no início da noite de terça-feira, 12 de novembro, poucas horas antes da vice-presidente do Senado Jeanine Áñez se autodeclarar presidente da Bolívia. Com a notícia da posse, ele foi atualizado.