Lambe-Lambe com a imagem do ministro Sergio Moro segurando um cartaz com a escrita ''Lula Livre'', na rua da Consolação, região central de São Paulo, em 18 de junho.

Lambe-Lambe com a imagem do ministro Sergio Moro segurando um cartaz com a escrita ”Lula Livre”, na rua da Consolação, região central de São Paulo, em 18 de junho.

Foto: Fábio Vieira/FotoRua/Folhapress

Esse não é um texto sobre o tiozão do pavê que acha que um ladrão está solto e que o próximo passo é soltar traficante e estuprador para então, finalmente, liberar a mamadeira de piroca. Este é um texto sobre figuras “sensatas” e “isentas” que pairam acima do bem e do mal. É um texto sobre seu parente, vizinho ou colega, sobre o jornalista famoso que fica quieto diante da soltura de Lula, praticando o que agora se chama de “doisladismos”: o Bolsonaro é ruim, mas o PT também.

No debate político atual, seja na esfera privada ou pública, existe certa dificuldade de se entender que a questão chave do que está acontecendo não diz respeito ao quanto se gosta ou não do PT. Não é sobre simpatizar com o Lula ou aprovar o governo Dilma. Não é sequer sobre uma possível indignação com a corrupção do mensalão à Petrobras.

Há muito espaço – ou deveria haver – para divergência. Pode-se discutir se a soltura de Lula “piora a polarização” como as manchetes da Folha de S. Paulo e Estadão anunciaram. Também é relevante o debate entre aqueles que acreditam que a relação com Lula é messiânica e os que defendem que se trata de gratidão. Pode-se questionar se Lula se beneficiou, ou não, de propina. Essas são muitas das questões onde o contraditório é desejável no âmbito jurídico e democrático.

O ponto fundamental aqui é uma questão de justiça histórica e princípios democráticos. Estamos falando de um circo jurídico que foi armado no Brasil quando juízes e procuradores vaidosos resolveram fazer um grupo no Telegram para condenar Lula antes do julgamento. Eles passaram por cima da constituição, fizeram conchavo entre pares e acionaram a mídia para inflar a população. Tudo isso em nome do ganho pessoal. O resultado do espetáculo da Lava jato foi fama, poder e dinheiro nas mãos de Sergio Moro a Deltan Dallagnol.

Foi um processo ilegítimo – e isso em nada tem a ver com a inocência ou culpa de Lula. A validade dos processos depende da imparcialidade dos juízes. Um julgamento independente e imparcial faz parte do código de ética da magistratura, é uma garantia constitucional e um direito humano universal. Comprovadamente, o julgamento de Lula foi uma farsa. Logo, não há outra postura possível além de considerar positiva a sua soltura – mesmo entre aqueles que entendem que Lula é culpado. Ele tem direito – como qualquer outro indivíduo – a um julgamento imparcial. Afinal, a lógica justiceira de que os fins justificam os meios não é aceitável numa democracia.

Senso de justiça é um valor inegociável e, portanto, o que está em jogo não é nossa avaliação ou interesses pessoais (lógica particularista) sobre tudo que envolve o Partido dos Trabalhadores. O desafio das democracias é justamente fazer com que as partes entendam que preciso ceder suas vontades para o bem-comum.

Nossa avaliação política sobre o lulismo pouco importa neste momento crucial da história. Assim como não importava quando deveríamos ter votado com convicção em Fernando Haddad no segundo turno das eleições de 2018, pois o que estava em jogo era a vitória da extrema-direita.

Recepção do ex-presidente Lula no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC neste sábado, dia 9, em São Bernardo.

Recepção do ex-presidente Lula no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC neste sábado, dia 9, em São Bernardo.

Foto: Agatha Gameiro/FramePhoto/Folhapress

Doisladismo

O anti-petismo precisa ser combatido na luta política – mas também no divã. Não é possível que mesmo diante de tudo que a Vaza Jato mostrou ainda se cale sobre esse processo pela pura lógica de que os fins justificam os meios ou de que se prefere Lula preso para “acalmar os ânimos”.

O doisladismo é uma praga na vida social e esfera pública brasileira, deixando que opiniões, preconceitos e ressentimentos pessoais se sobreponham ao coletivo. Mas mais perigoso ainda é que o doisladismo é praticado com uma aura de superioridade opinativa que vê a si próprio como “neutro”, “sensato” e “democrático”. Mas, na verdade, o que está sendo acionado é uma perspectiva egoísta e anti-democrática – perspectiva esta que ajudou a eleger Jair Bolsonaro.

No fundo, o isentão é fruto do pior do radicalismo que tanto diz repudiar. Ele vê o mundo sem nuance. Ele se cala em momentos chave.

Como disse João Filho em sua recente coluna para o Intercept, existe, entre jornalistas, uma “obsessão em busca de uma falsa imparcialidade. Há um temor constante em ser associado com algum dos lados”. O “isentão” aponta o dedo e torce o nariz para dois lados que seriam supostamente podres e radicais. Mas não são dois lados da mesma moeda: os erros dos governos petistas não se equivalem à prática de governo bolsonarista, que repudia e tripudia as instituições democráticas enquanto exalta torturadores e o AI-5. Ao contrário do que disse o Estadão, em seu famigerado editorial, nunca foi uma escolha difícil para os justos.

O isentão é alguém viciado no elogio que recebe quando é chamado de “sensato”. Ele se nutre dessa vaidade e é refém do próprio personagem, acreditando que está sendo moderado e racional. Mas não está. O isentão é um radical do doisladismo e, na prática, isso significa o oposto de sensatez, porque sensatez refere-se ao bom-senso, discernimento, precaução e resolução de assuntos difíceis.

O que é discernimento num momento histórico crítico como o que estamos vivendo? Acredito que seja a capacidade contínua da esfera pública de avaliar, com nuances, os erros e acertos dos governos e lideranças do PT – e a balança dessa avaliação pode ser negativa ou positiva. O problema da lógica doisladista é que ela só consegue enxergar o PT pela lente do radicalismo extremado. No fundo, o isentão é fruto do pior do radicalismo que tanto diz repudiar. Ele vê o mundo sem nuance. Ele se cala em momentos chave. E isso prejudica a capacidade de avaliação da polarização e até no entendimento básico do direito universal a um julgamento imparcial.

Mas não deveríamos, então, fazer o mesmo discernimento de prós e contras do governo Bolsonaro? Na minha opinião, não. Afinal, trata-se de um presidente que defende a ditadura militar e seu governo é alinhado com a extrema-direita supremacista global. Então, dentro de um campo democrático e princípios de direitos humanos, só existe uma postura aceitável: repudiar a lógica fascista.

À época da prisão de Lula, eu publicamente manifestei minha contrariedade ao que estava acontecendo. Contudo, eu não simpatizava com aqueles que apontavam o dedo para o silêncio de muitos. Eu já tinha dúvidas acerca da legitimidade da Lava Jato, mas a verdade é que não tínhamos todas as evidências que hoje temos na era pós-Vaza Jato. Por toda a sujeira que foi escancarada, hoje eu sou uma dessas pessoas que cobra coragem e posicionamento dos sujeitos na esfera pública e privada. Silenciar é uma atitude que nos custará caro. Para que possamos a exercer o direito de apoiar ou criticar PT, #LulaLivre é um valor inegociável.