Esta história é sobre uma teoria da conspiração que nasceu nos anos 90, hibernou na obscuridade por duas décadas e, em 2019, parece ter enganado os jurados a conceder o Prêmio Nobel de Literatura a Peter Handke, que negou o genocídio de muçulmanos na Bósnia, pelas mãos dos sérvios.

A versão curta é que dois jurados do Nobel, respondendo às críticas globais sobre a escolha do escritor nascido na Áustria, deram um passo incomum no mês passado, divulgando as fontes que consultaram enquanto decidiam. Um dos jurados, Henrik Petersen, citou um livro de um autor pouco conhecido, Lothar Struck, que vive em Düsseldorf e contribui para uma revista literária online. Outro jurado, Eric Runesson, disse ter se baseado em um livro do historiador Kurt Gritsch, de Innsbruck. Nenhum dos livros foi traduzido do alemão para o inglês e eles têm apenas um punhado de citações na versão alemã do Google Acadêmico.

Os livros de Struck e Gritsch defendem o extremo ceticismo de Handke sobre as atrocidades sérvias e endossam o seu argumento de que as notícias da década de 90 eram injustas para os sérvios. Os livros têm um tom confiante e, aparentemente, os jurados do Nobel concluíram que Handke era justificado em sua simpatia escrita e gestual pelo lado sérvio (que incluía um tributo no funeral do líder sérvio Slobodan Milosevic, em 2006, após ele morrer de um ataque cardíaco enquanto aguardava julgamento por acusações que incluíam genocídio).

PETER HANDKE

Handke antes de seu discurso no funeral do falecido líder sérvio Slobodan Milosevic em Pozarevac, Sérvia, em 18 de março de 2006.

Foto: Petar Pavlovic/AP

Mas esses dois livros têm uma falha enorme que os jurados do Nobel aparentemente não reconheceram. Ambos apoiam uma teoria da conspiração que afirma que uma empresa de publicidade americana, a Ruder Finn Global Public Affairs, planejou uma campanha para inflar atrocidades sérvias e, assim, mudar a opinião dos EUA contra os sérvios. De acordo com a fraca teoria sobre a guerra da Bósnia que esses livros adotam, a narrativa aceita das imensas e unilaterais atrocidades por parte dos sérvios foi em grande parte consequência de uma campanha enganosa de publicidade, em vez de eventos reais. Gritsch menciona a agência Ruder Finn cerca de 20 vezes em seu livro “Peter Handke and ‘Justice for Serbia’”, dedicando um breve capítulo a ela. Struck, cujo livro é intitulado “The One With His Yugoslavia”, foi tão tomado pela ideia envolvendo a Ruder Finn que publicou um suplemento digital que consiste em – de maneira surpreendente – documentos de divulgação que a empresa apresentou ao governo dos EUA.

Como escreveu Gritsch: “Devido a vários ressentimentos e uma posição anti-sérvia e pró-muçulmana já existente entre muitos jornalistas, a tese desenvolvia que o lado sérvio (e apenas o lado sérvio) estava operando campos de extermínio no conflito iugoslavo, e depois disso, a agência de relações públicas Ruder Finn divulgou essa teoria, colocando em circulação as notícias dos campos de concentração sérvios.” Gritsch acrescentou que, depois de surgirem as primeiras fotos e vídeos dos campos sérvios, “o uso de termos emocionalmente carregados como ‘limpeza étnica’,” ‘campos de concentração’ etc., pode ser atribuído à agência de relações públicas Ruder Finn”.

Esta é uma enorme reescrita da história. Os primeiros artigos sobre os campos sérvios ganharam a atenção do público por conta própria em agosto de 1992: foi um acontecimento espetacular que não precisava de nenhum empurrão de uma empresa de publicidade. Investigações subsequentes, artigos e julgamentos por crimes de guerra provaram que os campos eram ainda piores do que os primeiros relatórios foram capazes de detalhar. E a frase “limpeza étnica” foi amplamente utilizada desde o início da guerra, em abril de 1992, quando milícias sérvias invadiram cidades da Bósnia e mataram ou expulsaram os muçulmanos de lá.

“É um completo absurdo”, disse Marshall Harris, especialista sobre a Bósnia no Departamento de Estado quando a guerra eclodiu. Harris, que renunciou ao cargo para protestar contra a falta de ação dos EUA no início do conflito, liderou uma coalizão de ativistas proeminentes na Bósnia e interagiu com a agência Ruder Finn. “Os EUA intervieram nos Bálcãs por causa de Slobodan Milosevic. O objetivo de atribuir grande sucesso em influenciar a política dos EUA nos Bálcãs a uma boa, mas pequena empresa de relações públicas, com alcance político limitado, minimiza a gravidade e o escopo do genocídio.”

A teoria é tão bizarra que é difícil encontrar estudiosos familiarizados com ela. Michael Sells, professor da Universidade de Chicago, autor do livro “The Bridge Betrayed: Religion and Genocide in Bosnia”, publicado em 1996,  notou nacionalistas sérvios mencionando Ruder Finn nos fóruns da internet durante a guerra, mas ficou surpreso ao saber, quando contatado pelo The Intercept, que a empresa estava sendo discutida agora como um fator importante ou mesmo menor no conflito. “As coisas eram tão impressionantes e claras sobre o que estava acontecendo na Bósnia, de tantas fontes diferentes, que não consigo imaginar como a Ruder Finn poderia ter influenciado de qualquer maneira”, disse ele.

A teoria da conspiração sobre a Ruder Finn circula nas entranhas da internet por quase tanto tempo quanto a web existe. Embora um pequeno número de livros e artigos em defesa dos sérvios a destaque, basicamente não há trabalhos respeitáveis que deem crédito à teoria. A proposição de que era injusto definir os sérvios como os principais culpados na Bósnia – e que uma empresa de relações públicas relativamente pequena criou esse mito e fez com que todos acreditassem nele – é totalmente louca. Até Jacques Merlino, o jornalista francês cuja entrevista em 1993 com um executivo da Ruder Finn deu origem à teoria, parece surpreso com o quão longe ela foi. “Eu sei que eles fizeram o trabalho deles, mas não sei se foi particularmente eficaz”, ele escreveu em e-mail ao Intercept.

Ainda assim, dois jurados do Prêmio Nobel de Literatura dizem ter se baseado em livros que vendiam essa teoria da conspiração a serviço da absolvição de Handke.

 

A melhor maneira de contar essa história bizarra é voltando à sua origem, em 24 de abril de 1993. Foi nesta data que Merlino chegou ao escritório de James Harff, executivo da Ruder Finn em Washington, DC.

Harff trabalhou em nome do governo sitiado da Bósnia, que na época tentava impedir a derrota das forças sérvias que haviam atacado o país em 1992 e confiscado 70% de seu território, assassinando ou expulsando muçulmanos em seu caminho. O trabalho de Harff era conversar com jornalistas e políticos sobre a guerra, que em 1993 alcançou um impasse quando as milícias sérvias cercaram a capital de Sarajevo e outras cidades, incluindo Srebrenica.

Conforme Harff lembra, a entrevista não durou muito e não foi gravada. Mas, no final de 1993, Merlino publicou um livro na França, “The Truths From Yugoslavia Are Not All Easy to Tell”, que continha um capítulo sobre a Ruder Finn. O livro mencionava Harff se vangloriando do fato de que sua empresa de relações públicas havia “enganado” três grandes organizações judaicas para apoiar o governo da Bósnia, virando a maré da opinião pública. Segundo o livro de Merlino, Harff disse que a Ruder Finn havia divulgado relatos de campos de concentração sérvios, apesar de os relatórios não terem sido confirmados. “Nosso trabalho não é verificar informações”, afirmou Harff. “Nosso trabalho, como já disse, é acelerar a circulação de informações favoráveis ao nosso lado. (…) Nós não somos pagos para sermos morais.” Os comentários de Harff pareciam ser evidências de que os sérvios haviam sido enquadrados – injustamente e sem evidências – por cometer genocídio na Bósnia.

O livro de Merlino encontrou audiência imediata entre os sérvios e seus apoiadores que estavam tentando impedir a intervenção militar dos EUA no conflito. Finalmente, havia uma prova do que eles estavam tentando dizer ao mundo – que as notícias sobre sérvios matando muçulmanos em uma onda de atrocidades unilaterais não se baseava na realidade, mas em uma campanha manipulativa de uma empresa de relações públicas que agora admitia seu papel. Trechos do capítulo de Merlino sobre Harff foram publicados na mídia pró-sérvia e chegaram a resultar em um punhado de artigos de opinião nas principais publicações americanas e europeias.

As teorias da conspiração geralmente têm elementos da verdade sobre os quais lançam suas grandes mentiras. O que era verdade no livro de Merlino, e no que foi atribuído a Harff, é que os primeiros relatos de campos de concentração sérvios, em dois relatórios em julho e agosto de 1992 por Roy Gutman, do Newsday, não foram confirmados. Gutman conversou com trabalhadores humanitários e dois sobreviventes dos campos, mas não os havia visitado e não tinha muitos testemunhos em primeira mão. Portanto, a Ruder Finn de fato divulgou relatórios não confirmados.

Mas a teoria da conspiração de Merlino ignora um fato crucial: dias e semanas após os artigos de Gutman, as subsequentes reportagens de outros jornalistas confirmaram seu trabalho, assim como os julgamentos por crimes de guerra que ocorreram anos depois. Gutman ganhou um prêmio Pulitzer por seus artigos no ano seguinte.

Praticamente todos os principais jornais, revistas e emissoras dos Estados Unidos ficaram cheios de reportagens a partir do início de agosto daquele ano. Eles foram exagerados? Como repórter do Washington Post, fui para Banja Luka e visitei dois campos: Omarska e Trnopolje. Eles haviam sido limpados – Trnopolje tinha até uma faixa em inglês na entrada que dizia “Centro de Recepção Aberto de Trnopolje” -, mas continuavam horríveis. Aqui está o que escrevi pouco tempo depois:

“Nunca pensei que um dia falaria com um esqueleto. Foi o que fiz em Trnopolje. Lembro-me de pensar que eles andavam surpreendentemente bem para pessoas sem músculo ou carne… Um prisioneiro esquelético teve tempo suficiente para desabotoar a camisa, exibindo o peito mutilado com algumas dezenas de cicatrizes frescas de sabe-se lá que tortura, antes que um olhar de horror lhe estampasse o rosto. Ele olhava, como um cervo preso nos faróis de um carro, para um ponto logo acima do topo da minha cabeça. Olhei em torno. Um guarda estava atrás de mim.

Um jovem de 18 anos veio até nós. Acabara de chegar a Trnopolje depois de dois meses em Omarska, o pior campo de todos. Sua pele estava esticada como um lenço transparente sobre as costelas e os ombros. “Foi horrível”, ele sussurrou. “Apenas olhe para mim. Para os espancamentos, os guardas usavam mãos, barras, chicotes, cintos, correntes, qualquer coisa. Uma pessoa normal não pode imaginar os métodos que eles usaram. Lamento dizer que foi bom quando novos prisioneiros chegaram. Os guardas batiam neles ao invés de nós.”

Vista externa do campo de detenção de Trnopolje, perto de Banja Luka, na Bósnia-Herzegovina, em 9 de agosto de 1992.

Vista externa do campo de detenção de Trnopolje, perto de Banja Luka, na Bósnia-Herzegovina, em 9 de agosto de 1992.

Foto: Srdjan Sulja/AP

E Trnopolje era o melhor campo. Foi para onde homens e mulheres liberados de Omarska foram enviados e foi para onde alguns refugiados foram voluntariamente porque ficar em suas casas era ainda mais perigoso, devido às milícias sérvias matando e saqueando tudo em seu caminho pela região. Omarska era pura maldade, mesmo em condições melhoradas, e essa não era uma ficção sonhada por James Harff em Washington, DC. Levado a um refeitório onde os prisioneiros haviam entrado, o clima de medo era avassalador quando tentei falar com eles.

“Eles inclinaram a cabeça para baixo, o nariz praticamente dentro das tigelas”, escrevi na época. “Era um lugar onde palavras, quaisquer palavras, podiam matá-los. ‘Por favor, não me faça perguntas’, implorou um deles em um sussurro. Um prisioneiro nos enviou um bilhete. ‘Cerca de 500 pessoas foram mortas aqui com paus, martelos e facas’, afirmou. ‘Até 6 de agosto, havia 2500 pessoas. Estávamos dormindo no chão de concreto, comendo apenas uma vez por dia, às pressas, e éramos espancados enquanto comíamos. Nós estamos aqui há 75 dias. Por favor, nos ajude.’”

Era tão ruim assim? Em 1997, os dois comandantes sérvios responsáveis por esses campos foram indiciados pelo Tribunal Penal Internacional da antiga Iugoslávia. Um deles, Simo Drljaca, foi morto quando as tropas da OTAN tentaram prendê-lo. Drljaca havia levado eu e os outros jornalistas para Omarska e Trnopolje. O outro comandante, Milan Kovacevic, com quem havíamos discutido para obter permissão para visitar os campos infernais, foi levado para Haia, mas morreu de causas naturais durante seu julgamento por genocídio e crimes contra a humanidade.

Quando o livro de Merlino foi lançado, a Ruder Finn fez o possível para corrigir suas falácias e erros, me disse Harff em entrevista por telefone no mês passado. Mensagens por fax foram enviadas a Merlino – uma delas, que Harff me enviou por e-mail, tinha a linha de assunto “Citações erradas, imprecisões, cinismo” – e cartas legais foram enviadas aos meios de comunicação que citavam o livro de Merlino. Nada foi corrigido ou retratado (Merlino me disse que não recebeu nenhum fax da Ruder Finn), mas à medida que a guerra prosseguiu, o livro de Merlino não parecia importar tanto porque as evidências de atrocidades sérvias se tornaram esmagadoramente reais.

No verão de 1995, o ataque culminou com um massacre de mais de 7 mil homens e meninos muçulmanos em Srebrenica – um novo ato de genocídio que finalmente desencadeou a intervenção militar contra os sérvios pelos EUA e seus aliados da OTAN. Mais tarde, o tribunal de crimes de guerra em Haia indiciou importantes políticos sérvios – não apenas Slobodan Milosevic, mas também o líder sérvio bósnio Radovan Karadzic e seu comandante militar, Ratko Mladic. A morte de Milosevic poupou-lhe um veredicto, mas Karadzic e Mladic foram considerados culpados de genocídio e sentenciados à prisão perpétua. A evidência era irrefutável.

Ainda assim, o livro de Merlino teve uma sobrevida surpreendente. Um quarto de século depois, ele ajudou a entregar o Prêmio Nobel a Peter Handke.

Parentes bósnios das vítimas de Srebrenica se reúnem para protestar contra o vencedor do Nobel de Literatura de 2019 Peter Handke em frente à Embaixada da Suécia em Sarajevo, na Bósnia, em 5 de novembro de 2019.

Parentes bósnios das vítimas de Srebrenica se reúnem para protestar contra o vencedor do Nobel de Literatura de 2019 Peter Handke em frente à Embaixada da Suécia em Sarajevo, na Bósnia, em 5 de novembro de 2019.

Foto: Samir Yordamovic/Anadolu Agency via Getty Images

A teoria da conspiração sobre a Ruder Finn é tenaz nas páginas iniciais do extremismo à esquerda e à direita, mas permanece obscura em outros lugares. Apesar de ter coberto a guerra e ter escrito um livro sobre isso, eu não tinha ouvido falar da Ruder Finn até entrar em contato com Kurt Gritsch no mês passado.

Entrei em contato com ele porque Eric Runesson, o jurado do Nobel, mencionara o livro de Gritsch como o que parecia ser sua principal fonte para decidir, antes de conceder o Nobel a Handke, que as críticas a ele estavam erradas. “Kurt Gritsch, a meu ver, chega à conclusão de que as críticas não são inteiramente factuais”, disse Runesson ao jornal sueco Dagens Nyheter no mês passado. Enviei um e-mail a Gritsch para perguntar se ele poderia ter uma tradução não oficial de seu livro para o inglês porque não sei ler alemão. Gritsch disse que não havia tradução, mas ele forneceu uma explicação de quase 2 mil palavras de sua pesquisa. Ele escreveu que “Belgrado e os sérvios da Bósnia desempenharam um papel importante – e provavelmente o mais importante – em muitos aspectos do conflito”, mas também citou a milícia croata da Bósnia e o que descreveu como “a milícia bósnia-muçulmana” –que é uma maneira provocativa de se referir ao Exército da Bósnia, a única força militar no país que possuía uma posição legal.

Ele defendeu Handke juntando vários temas desmentidos que giravam em torno da Ruder Finn. Um deles envolvia uma declaração controversa emitida pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha em 1992, em resposta aos artigos de Gutman sobre os campos sérvios. O CICV, tentando permanecer um árbitro neutro, sugeriu falsamente que todos os combatentes tivessem campos de prisioneiros de igual brutalidade. A declaração foi refutada pelo fluxo de notícias subsequentes, investigações e julgamentos de crimes de guerra, mas os teóricos da conspiração citam isso como prova de que os abusos nos campos de prisioneiros na Bósnia eram aproximadamente equivalentes em todos os lados. Os conspiradores escolhem um dado prestes a ser desacreditado e ignoram tudo que o desacreditou posteriormente.

A seguir, o que Gritsch escreveu em seu e-mail, com a gramática corrigida conforme solicitado por ele (“Você pode citar isso, mas … por favor, corrija a gramática, vocabulário e ortografia quando necessário”):

“A razão para tudo isso pode ser encontrada em uma campanha de relações públicas de 1992. Em agosto de 1992, a Ruder Finn Global Public Affairs estava trabalhando para os governos croata e bósnio-muçulmano. Eles publicaram que campos haviam sido encontrados na Bósnia e que sérvios os administravam. Os fatos foram, como o CICV (a Cruz Vermelha) deu provas no mesmo mês, de que todas as três partes do conflito na Bósnia – croatas, muçulmanos e sérvios – estavam administrando campos de prisioneiros. O CICV foi muito claro sobre isso e ficou muito preocupado com as terríveis condições desses campos, onde violações de direitos humanos aconteciam todos os dias, até estupros e assassinatos. O CICV confirmou que havia muitos campos administrados pela Sérvia, mas … explicou que isso estava dentro da proporção das partes no conflito – a milícia sérvia era o maior grupo da época e administrava a maioria dos campos. No entanto, os outros dois grupos também tinham seus campos de detenção.

Mas ignorar isso não foi a única coisa que a Ruder Finn Global Public Affairs fez. Eles tornaram tudo ainda maior ao declarar que campos de detenção eram campos de extermínio e ao comparar os muçulmanos bósnios aos judeus. Isso foi possível com a ajuda de três grandes organizações judaicas americanas que apoiaram publicamente os muçulmanos da Bósnia (ignorando o fato de que seu líder, Alija Izetbegovic, tinha suas próprias ideias de um Estado islâmico, publicadas em livro muitos anos antes). O próximo passo foi combinar os autores, e lá estava: se os muçulmanos da Bósnia eram os judeus do nosso tempo, os sérvios tinham que ser os nazistas.”

Assim como ele faz em seu livro, Gritsch repetiu outra teoria desacreditada que vem de um artigo de 1997, há muito desmentido, de um jornalista freelancer alemão, Thomas Deichmann. Entre os teóricos da conspiração, o trabalho de Deichmann é frequentemente citado ao lado de Merlino; são partes fundamentais do cânone extremista que tenta reescrever o que aconteceu na Bósnia. E, no que pode ser uma das reviravoltas mais reveladoras e menos notáveis de toda a controvérsia de Handke, Deichmann foi um dos companheiros de viagem mais próximos de Handke nos Bálcãs – eles fizeram pelo menos quatro visitas à Sérvia e Bósnia nas décadas de 1990 e 2000. Embora suas viagens conjuntas sejam pouco conhecidas, não são um segredo; elas foram mencionadas em vários livros e sites.

Deichmann apareceu pela primeira vez em público quando atuou como testemunha de defesa no julgamento de 1996 de um sérvio chamado Dusko Tadic, acusado de cometer crimes de guerra em Omarska e em outros lugares. Deichmann, testemunhando como especialista em mídia, disse que os muçulmanos da Bósnia que identificaram Tadic no tribunal poderiam tê-lo conhecido apenas por meio de fotos ou reportagens de TV sobre ele. Deichmann estava sugerindo que a identificação de Tadic era uma mentira ou um caso de identidade equivocada. Não foi um argumento persuasivo: Tadic foi condenado por crimes contra a humanidade e sentenciado a 20 anos de prisão.

Em um ano, Deichmann estava de volta aos holofotes, escrevendo um longo artigo intitulado “A imagem que enganou o mundo”. Seu artigo foi publicado por uma revista de extrema esquerda chamada LM, que anteriormente se chamava Living Marxism, e lançada uma década antes pelo Partido Comunista Revolucionário da Grã-Bretanha. Deichmann escreveu que uma equipe de televisão britânica da ITN, a primeira a visitar Trnopolje, tinha feito de propósito uma cena em que os detidos estavam atrás de uma cerca coberta de arame farpado, para exagerar as condições ali. O artigo de Deichmann se transformou em um complemento perfeito para o livro de Merlino publicado alguns anos antes – não era apenas uma empresa de publicidade dos EUA que tentava difamar os sérvios, mas os jornalistas no campo também estavam criando ficções.

Os jornalistas que foram acusados por Deichmann o processaram por difamação em um tribunal de Londres e ganharam danos de 375 mil libras. Isso tirou a LM de circulação – mas não o artigo de Deichmann. Como a teoria de Merlino, ele foi mantido vivo por livros e publicações revisionistas no Stormfront e outros sites da extrema direita e esquerda. Como observou o historiador da fotografia David Campbell em um estudo minucioso, o artigo de Deichmann era “parte de um argumento geral que tenta revisar o entendimento da guerra da Bósnia, negando a natureza, extensão e objetivo da violência na estratégia de limpeza étnica dos sérvios da Bósnia.” Campbell acrescentou: “O que importa para a LM e outros é a maneira como essa disputa permite cortar o elo potencial entre a Bósnia e o Holocausto, diminuir o significado da guerra na Bósnia e negar a responsabilidade daqueles que perpetraram as campanhas de limpeza étnica.”

Gritsch trata o artigo de Deichmann como fato em seu livro e no e-mail que me enviou. “Quando mais tarde Penny Marshall e a ITN filmaram um campo de refugiados em Trnopolje e colocaram a equipe de filmagem atrás do arame farpado, a fim de parecer que as pessoas estavam presas, o mundo inteiro a interpretou como evidência de ‘novos campos nazistas’ na Europa”, escreveu Gritsch. “A imagem, como você certamente sabe, foi analisada mais tarde (em 1996/97) e o jornalista alemão Thomas Deichmann descobriu que era uma construção (‘A imagem que enganou o mundo’).” O livro de Gritsch tem pelo menos 30 referências a Deichmann, incluindo passagens sobre o trabalho de Deichmann que variam em tom, entre neutro e favorável.  Em uma reviravolta interessante, a foto de capa do livro de Gritsch, que mostra Handke olhando um corpo de água ao longo da costa montenegrina, foi tirada por Deichmann.

Fiquei surpreso ao ouvir essas ideias desacreditadas vindas do autor de um livro que aparentemente era um fator crucial nas deliberações do júri do Prêmio Nobel. Mas o e-mail de Gritsch era consistente não apenas com seu livro, mas com artigos que ele escreveu, incluindo um de alguns meses atrás na revista online Telepolis, onde descreveu os esforços da Ruder Finn como “determinantes do discurso” –  referindo-se especificamente, em nota de rodapé, ao trabalho de Merlino. Como Gritsch escreveu em seu livro de 2009 sobre Handke, “o relatório de Jacques Merlino sobre o trabalho da agência de relações públicas norte-americana Ruder Finn coloca com urgência a questão de saber em que medida a representação oficial da perspectiva croata ou muçulmana pode ser acreditada.”

Quando entrei em contato com Gritsch para comentar essa história, ele respondeu educadamente em outro e-mail com cerca de 2 mil palavras que traziam novamente as linhas gerais de seu livro. Sua resposta incluiu estas falas: “A ciência e a busca da verdade não é algo fácil. … Não pretendo saber a verdade sobre as guerras iugoslavas ou o debate sobre Peter Handke, mas qualquer pessoa disposta a mergulhar nos debates e discursos pode identificar a narrativa principal e a contra-narrativa. E isso já pode ajudar a entender um pouco melhor todo o debate.”

Membros do Comitê Nobel de Literatura, da esquerda, Presidente Anders Olsson, Per Wästberg, Rebecka Karde, Mikaela Blomqvist e Henrik Petersen anunciam os vencedores do Prêmio Nobel de Literatura de 2018 e 2019 na Academia Sueca de Estocolmo, na Suécia, em 10 de outubro de 2019.

Membros do Comitê Nobel de Literatura, da esquerda, Presidente Anders Olsson, Per Wästberg, Rebecka Karde, Mikaela Blomqvist e Henrik Petersen anunciam os vencedores do Prêmio Nobel de Literatura de 2018 e 2019 na Academia Sueca de Estocolmo, na Suécia, em 10 de outubro de 2019.

Foto: Karin Wesslen/TT News Agency/AFP via Getty Images

Pelo testamento de Alfred Nobel, a Academia Sueca é encarregada de selecionar o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. O processo de duas etapas foi alterado este ano devido a um escândalo de abuso sexual em 2017 que minou a confiança nas habilidades da academia. Este ano, cinco especialistas externos se juntaram ao subcomitê de quatro membros da academia que escolhe uma lista de finalistas. A decisão final é tomada pelo grupo de 18 membros. Este ano, o subcomitê nomeou apenas uma pessoa para o prêmio de 2019 – Peter Handke – e a academia completa o aceitou.

Eric Runesson, que disse confiar na absolvição de Handke elaborada por Gritsch, é membro da academia. Henrik Petersen, um crítico literário, foi um dos especialistas externos do subcomitê. Em artigo de 17 de outubro, Petersen defendeu a seleção de Handke dizendo que “um programa político não é propagado” em seu trabalho, embora ele reconhecesse que “a maneira na qual Handke articulava sua crítica era precária, desajeitada e às vezes levava a comparações absolutamente absurdas.” Aparentemente, a falta de jeito era um fator pouco importante para Petersen e outros jurados.

Petersen escreveu que, em 50 anos, Handke seria considerado “um dos laureados mais óbvios já premiados pela Academia Sueca” e sugeriu que “se você gostaria de saber mais sobre o que Handke realmente disse sobre a Iugoslávia, recomendo os comentários de Lothar Struck em ‘The One With His Yugoslavia’.”

O livro de Struck parece ter recebido relativamente pouca atenção nos círculos literários desde que foi publicado há cerca de sete anos. Seu livro é mais cuidadoso que o de Gritsch e não se aprofunda tanto em outras teorias da conspiração. Struck tem algumas menções passageiras a Thomas Deichmann e sua história desacreditada sobre o campo de Trnopolje, mas ele não se aprofunda da mesma maneira que Gritsch o faz. No entanto, o livro de Struck abraça a teoria geral de que os sérvios foram injustamente transformados no principal culpado da guerra na Bósnia por uma campanha publicitária manipuladora, e não por suas próprias ações.

“A opinião sobre as facções em guerra foi parcialmente determinada, desde o início, por agências profissionais de relações públicas”, escreveu Struck. Como evidência, ele apontou para o que descreveu como a entrevista “quase lendária” que Merlino, o jornalista francês, havia realizado em 1993 com James Harff, da Ruder Finn. Esta é, obviamente, a mesma entrevista e a mesma teoria da conspiração sobre a qual Gritsch escreveu extensivamente. Struck continua citando uma passagem da entrevista de Harff que Merlino publicou. “Para os padrões da indústria, a campanha de Harff foi certamente uma excelente manobra”, escreveu Struck. “Acima de tudo, era sustentável, já que a partir de então os sérvios não eram simplesmente os agressores, mas poderiam ser classificados como assassinos genocidas.”

O livro de Struck tinha um longo suplemento digital, com quase 600 páginas, que ele descreveu como seu “volume de material de origem”. Cerca de um terço dele consiste em documentos de divulgação que a Ruder Finn apresentou ao governo dos EUA nos anos 90, listando seus contatos com jornalistas e políticos, entre outras coisas. O interesse de Struck pela influência da Ruder Finn não desapareceu desde que seu livro foi publicado. Depois que o Prêmio Nobel foi anunciado, Struck postou uma longa defesa de Handke na revista literária em que ele contribui, Glanz & Elend (“Esplendor & Miséria”). Argumentando que Handke foi manchado por uma campanha enganosa de publicidade contra os sérvios e seus apoiadores, ele escreveu que a Ruder Finn e outras empresas que representavam croatas e kosovares desde a década de 1990 “têm trabalhado com o público dos EUA e fizeram um bom trabalho, seu veneno ainda está lá, está sendo pego por comentaristas e injetado no mundo sem verificação.”

Aqui está o que mais me choca nesse desastre no Prêmio Nobel. Não é que os jurados do Nobel tenham se apaixonado por teorias da conspiração. Isso já é terrível o suficiente, é claro. O pior é que a elevação de Peter Handke também levantou dos quase mortos uma reescrita desacreditada da história e do genocídio. Estamos voltando no tempo.