BRASIL-POLITICA-MEIO-AMBIENTE-INDIGENAS

Indígenas protestam na frente da Esplanada dos Ministérios, Brasília, em 26 de abril de 2019.

Foto: Sergio Lima/AFP via Getty Images

O texto abaixo integra o último capítulo do livro recém-lançado “Amanhã vai ser maior”, de Rosana Pinheiro-Machado, editado pela Planeta.

Quando Noam Chomsky foi questionado se ainda era possível ser otimista sobre o futuro da humanidade, ele respondeu que podemos ser pessimistas, desistir e esperar que o pior aconteça. Outra opção – a dele – é aproveitar as oportunidades que de fato existem e ajudar a fazer o mundo um lugar melhor para se viver. Assim como a raiva e a agressão são expressões da natureza humana, a simpatia, a solidariedade, a gentileza e preocupação com os outros também são. Há muita resistência contra a brutalidade humana e contra o autoritarismo. Tal resistência, segundo ele, precisa crescer e se tornar uma fonte de esperança para a nossa espécie.

No Brasil de hoje, o derrotismo tende a tomar conta de todas as esferas da vida social. Lamentamos a vitória da extrema-direita, não enxergamos saídas e deixamos que essa angústia nos imobilize. Outra alternativa – para a qual este livro convida – é transmutar a dor em luta, e fazer da esperança uma opção política.

A sensação de derrota é inevitável, porque é real, e necessária para a reflexão de como chegamos até aqui. Este livro tentou fornecer algumas pistas sobre uma tragédia que já estava em curso. Todavia, o que ocorreu no Brasil não se deu em função de um surto coletivo, mas de um não rompimento com nosso passado autoritário e com as estruturas que perpetuam a desigualdade. Não fizemos o debate necessário sobre memória e justiça das atrocidades da ditadura e não diminuímos a brutal distância que separa pobres e ricos no país (apesar de termos avançado de maneira significativa na redução da pobreza e na mobilidade social).

A esperança é o único antídoto contra o que nos sufoca. Como colocou o filósofo Ernst Bloch na abertura de sua obra “The Principles of Hope” (Os princípios da esperança), a esperança é algo que precisa ser aprendido. Ao contrário do medo, ela é apaixonada pelo sucesso de uma causa, não pelo fracasso. É superior ao medo, pois não é passiva. A emoção da esperança, ao invés de confinar, amplia os sujeitos.

Um dos intelectuais que melhor falou sobre esse tema foi aquele cuja memória é hoje atacada, cujo legado gigante se tenta apagar e criminalizar. “Pedagogia da Esperança” é uma das últimas obras escritas “com raiva e com amor” por Paulo Freire (em 1992). No livro, ele se recusa a se acomodar aos discursos pragmáticos da economia e se adaptar aos fatos, especialmente diante daqueles que diziam que sonho e utopia eram inúteis e inoportunos. Quando perguntado como ter esperança num mundo que nos asfixia, ele respondeu que a democratização da sem-vergonhice que tomava conta do país – e que desrespeita a coisa pública – produzia o efeito reverso: jovens começavam a protestar por todos os lados, tomando as praças públicas. Ele era capaz de ver esperança nas ruas, nos corpos e em cada um de nós.

Amanha-vai-ser-maior-1574714481

Para ele, é preciso reconhecer a desesperança como algo concreto, bem como entender as razões históricas, econômicas e sociais que a produzem: os abusos de poder, extorsões, os ganhos ilícitos, os tráficos de influências, o uso do cargo para satisfação de interesses pessoais. Mas Freire segue lembrando que a esperança é uma necessidade vital. A existência humana e a luta por uma sociedade melhor não podem ocorrer sem esperança e sem sonho. A desesperança é esperança que perdeu o rumo. Como programa, a desesperança imobiliza e faz sucumbir no fatalismo, impossibilitando de juntar as forças indispensáveis ao embate político.

Paulo Freire, nesse livro, falava da juventude nas ruas como um sinal de uma nova geração mais comprometida. Como ele escreveu em 1992, é possível supor que se referia às manifestações pelo impeachment de Fernando Collor. A conclusão mais óbvia que podemos tirar disso é que uma juventude progressista por si só não é suficiente para mudar o conservadorismo. Ou seja, os jovens crescem e muitas vezes se ajustam às estruturas dominantes do país. Isso não é uma inverdade. Estamos aqui, quase três décadas depois, vivenciando as consequências de um golpe que depôs a primeira presidenta a governar o país, culminando em um dos governos mais reacionários de nossa história.

Eu comecei a ir às ruas sem a presença de meus pais em 1992. Penso que a geração pós-Junho de 2013 é muito mais politizada e radical do que a que marchou comigo em minha adolescência. Se antes tínhamos um grêmio estudantil por escola e um Diretório Central dos Estudantes (DCE) por universidade, hoje temos uma quantidade infindável de coletivos em cada instituição de ensino. Via organização on-line e off-line, os jovens de hoje são mais sensíveis e mobilizados nas questões de raça, gênero e sexualidade. Eles também são mais radicalmente afetivos, contestando as estruturas de opressão que se reproduzem entre os próprios aliados, colegas e companheiros. Contudo, como já comentei, a pura fé na próxima geração não se sustenta. De um lado, grupos organizados como o MBL disputam espaço de maneira feroz nos grêmios estudantis do Brasil. De outro lado, o próprio processo de ajustamento à vida adulta – o trabalho e a família – é alienante. Por isso é tão importante que todos lutemos em todas as frentes para garantir o futuro desses jovens em uma democracia.

O que ocorreu no Brasil não se deu em função de um surto coletivo, mas de um não rompimento com nosso passado autoritário e com as estruturas que perpetuam a desigualdade.

Nao tenho a pretensão de apontar caminhos únicos de saída neste livro. Parabenizo os quase profetas que acreditam ter respostas prontas, absolutas e totalizantes. Minhas direções, na verdade, não são minhas. Elas são inspiradas na prática, no concreto, no que já existe – e que não é pouco.
Para dar lugar à ação, diria Hannah Arendt no ensaio “A mentira na política”, é preciso se remover, de maneira mental, de onde estamos fisicamente colocados e imaginar que as coisas poderiam ser diferentes. Não se cria um mundo novo sem reverter a pane de imaginação que o neoliberalismo e o autoritarismo provocam, para usar a expressão de Pierre Dardot e Christian Laval no livro “A nova razão do mundo”. E imaginação não é procurar no nada uma forma de vida diversa, mas tentar encontrar inspiração, reconhecer e fortalecer o que já existe na busca do bem comum e da vivência democrática que se colocam como alternativas à conduta hiperindividualista neoliberal.

Minha forma de traduzir o pensamento sobre esperança para o Brasil de hoje é fincando o pé na terra firme, e, tudo que já existe em forma de luta e de arte. É fortalecendo e articulando os antigos movimentos e os novos coletivos, mas também criando novos espaços para reforçar o cordão de resistência democrática. Não é preciso reinventar a roda, mas é crucial rever nossas vanguardas.

Frequentemente, eu escuto que o Brasil já deveria ter tomados as ruas, que estamos imobilizados. Eu não concordo com essa afirmação. Grandes marchas, ainda que fundamentais, não são a única forma de resistir. Professores, estudantes, artistas, movimentos camponeses, quilombolas, indígenas, coletivos de favelas, funcionários públicos…

Por todos os lados, encontramos atos, protestos, indignação, reação e renovação. Em plena aliança de Bolsonaro com os grandes proprietários rurais, a Marcha das Margaridas de 2019 reuniu 100 mil mulheres camponesas em Brasília. Quando a prefeitura do Rio de Janeiro censurou os livros de temática LGBT na Bienal do Livro de 2019, uma multidão de jovens reagiu e – com a ajuda do youtuber Felipe Neto, que comprou 14 mil exemplares – transmutou um ato de censura em um ato de protesto, afeto e amor aos livros. A iniciativa #TinderDosLivros, de Winnie Bueno, já doou cerca de 1000 livros a estudantes negros em uma rede descentralizada e autogestada movida exclusivamente pela solidariedade.

Os programas educacionais Rede Emancipa e o Emancipa Mulher atraem milhares de alunos que buscam formação pré-vestibular ou feminista e antirracista. Há slams surgindo em todas as quebradas. A Escola Comum em São Paulo é uma escola de governo progressista e de excelência internacional para jovens de periferias. A mobilização dos estudantes do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), no Rio de Janeiro, tem conseguido barrar a atuação do interventor. A Associação Mães e Pais pela Democracia nasceu para defender o pensamento livre e crítico nas escolas e se opor ao projeto Escola Sem Partido. Em pouco tempo, a organização alcançou 12 mil associados – número que cresce exponencialmente – atuando em 100 escolas gaúchas. O Coletivo Morro da Cruz, de minha colega Lucia, se formalizou em 2019 e hoje conta com a mobilização autônoma dos moradores da área que estão engajados em um processo de alfabetização e formação cultural de crianças e jovens, que hoje transformam a realidade da periferia.

Não se cria um mundo novo sem reverter a pane de imaginação que o neoliberalismo e o autoritarismo provocam.

Há algo muito potente – e inspirador – na rejeição dessas mulheres à figura do presidente. Intelectuais como Patrícia Hill Collins e Angela Davis, entre muitas outras, vem chamando atenção para a importância da articulação com as mulheres negras, por exemplo, porque são elas as mais vulneráveis e oprimidas pelo sistema dominante. Na mesma direção, a pesquisadora e ativista Winnie Bueno defende que os processos de resistência constituídos por estas mulheres são fundamentais para a construção de mudanças sociais eficazes para a transformação social. Portanto, é junto a elas que precisamos resistir em tempos de profunda crise.

O mesmo pode ser dito sobre os indígenas – que hoje são os grupos tidos como inimigo número um de Bolsonaro. A ex-candidata a vice-presidente da república pelo PSOL, Sônia Guajajara, ao mesmo tempo em que têm alertado para o crescente extermínio dos povos indígenas no atual governo, reforça sempre a importância de renovar estratégias de lutas, como articular apoio internacional e incentivar boicote à produtos do agronegócio.

Diante de todos esses exemplos, penso que a esquerda institucional precisa de um horizonte para sonhar e, consequentemente, construir. Talvez falte à essa esquerda investir na potencialidade das minas dos slams, nas novas lideranças eleitas, nos frutos de Marielle. Talvez falte ceder lugar a novas práticas políticas e figuras da política que estejam conectadas com as formas de luta emergentes do século 21. Talvez falte simplesmente deixar que o novo assuma seu lugar.

A deputada federal, do PSOL de Minas Gerais, Áurea Carolina em uma coluna para o Nexo em agosto de 2019 escreveu que o movimento vira-voto nas eleições de 2018 foi um exercício de cura da pulsão bolsonarista. Com humildade, saímos às ruas para uma conversa desarmada com as pessoas. Rompemos com a lamentação e assumimos nossa responsabilidade de ação. Não foi suficiente para reverter a vitória de Jair Bolsonaro, mas algo se criou na própria disposição ao diálogo. Áurea Carolina reflete sobre a importância de sair da lamúria e do adoecimento a partir de um comprometimento prático e propositivo, que deve ter o espírito do “vira-voto”, que rompia com a ordem individualista e competitiva e restabelecia o princípio democrático de amor e convivência na diversidade.

Mataram Marielle, é verdade. E nada pode ser, simultaneamente, tão concreto e simbólico da mais opaca e brutal realidade de nossos tempos. Mas sua irmã, Anielle Franco, e sua família estão incansavelmente, todos os dias, resistindo em plena dor para resgatar e dar continuidade ao seu legado de lutas. Quais razões temos para não fazer o mesmo? As acadêmicas feministas e ativistas Lola Aronovich e Debora Diniz são todos os dias perseguidas e ameaçadas de morte da forma mais vil que se pode imaginar por grupos masculinistas de extrema-direita. Elas seguem na luta mais do que nunca. Quais razões temos para não fazer o mesmo?

Em tempos sombrios de avanço conservador, de alienação, de medo do autoritarismo e de individualismo atroz que causa uma crise de autovalor e de sentido nos indivíduos, estar no coletivo é uma forma de resistir, de lembrar que, apesar de tudo, somos animais sociais. Juntos nos fazemos vivos e lutamos contra a vontade de morte, arma e tortura. Estamos respirando, com nossos sentidos e senso de justiça aguçados. Do colapso, reconstroem-se mundos e modos de vida. Enquanto estivermos em pé, nossa utopia se chamará esperança, a esperança se transformará em luta e a luta será o próprio amanhã maior e melhor.