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Foto: Arquivo Pessoal/Celmi Castilho da Silva

Meses atrás, uma amiga me disse que, em seus mais de 30 anos como assistente social, nunca havia ouvido uma frase tão impactante como aquela: “a hanseníase salvou minha vida”. Não é algo comum de se escutar, mas o contexto da frase dita por Celmi Castilho da Silva, 38 anos, torna tudo mais impactante. Ouvi a Celmi por mais de 2h, em setembro, a fim de entender o que a levou a dizer isso. Como uma doença, que voltou a crescer no país e afeta cerca de 30 mil brasileiros por ano, com inúmeras consequências que podem levar à amputação ou perda de sensibilidade de membros do corpo, pode salvar alguém?

No passado, a hanseníase era conhecida como lepra. Por ser uma doença conhecida há milênios e cujos registros remetem a narrativas bíblicas, até hoje os infectados sofrem com a estigmatização e o preconceito. Até 1986, por exemplo, o Brasil aprisionava os infectados em ‘leprosários‘ para separá-los do resto da população e ‘evitar’ contaminações – medida que se sabe hoje não ter base científica. Atualmente, avanços médicos permitiram que a doença crônica causada por uma bactéria seja controlada com antibióticos e acompanhamento médico regular.

Conversei com Celmi outras vezes, enquanto eu escrevia este texto. Ela questionou, em três momentos, qual importância de contar uma história como a dela. Não entendia como alguém se interessaria em saber o que ela estava contando. Teve medo, mas também teve momentos em que riu das coisas que precisou aprender na vida para sobreviver.

Celmi viveu a infância e parte da adolescência na zona rural de Nova Xavantina, em Mato Grosso, que conta com cerca de 20 mil habitantes. Morava em uma casa de aluguel, pequena, de apenas um quarto, que ela dividia com seus seis irmãos e os pais.

Sua trajetória encarna um Brasil que a gente desconhece, escondido entre quatro paredes. E, ainda assim, ela teve coragem de contar sua história de abusos, doença e liberdade ao Intercept.

 

Eu nasci em São Félix do Araguaia, no Mato Grosso. Morava na roça com meu pai, minha mãe e meus outros seis irmãos. Vivíamos sob rédea curta. Meu pai era um homem grosseiro, violento. Até pra comer tínhamos de pedir autorização. Ele comprava a quantidade de comida que achava que era suficiente, mas nunca dava. Minha mãe tinha que dar o jeito dela para nos alimentar. Ele tinha bananal, horta, animais. Se minha mãe quisesse comprar comida, só podia ser a dele, com o dinheiro que ela ganhava trabalhando para ele.

Por anos, minha mãe sofreu inúmeras violências. Ele batia muito nela. Até que um dia ela resolveu dar um basta e foi embora. Nesta ocasião, já estávamos em outra cidade do estado, Nova Xavantina, porque meu pai havia matado um homem em uma briga de bar. Ele nunca foi preso por esse crime – nem por nenhum outro que cometeu.

Quando minha mãe fugiu, levou apenas meus dois irmãos mais velhos de 11 e 12 anos. Por serem mais velhos, eles davam conta de correr com ela. Eu fiquei e passei a ser a responsável em levar meus outros irmãos mais novos que eu, de nove meses, um ano e de quatro anos, para creche, e minha irmã, Celma, para a APAE– ela tinha problemas neurológicos, consequência de uma surra que levou do meu pai, aos quatro anos. Nessa época, Celma já tinha oito, e eu seis anos.

Foi nessa época que começaram os abusos sexuais. Depois que minha mãe foi embora, ele pegou eu e Celma, as mais velhas da casa, como esposas. Foram anos nessas condições. Não podíamos falar nada se não éramos espancadas. E, no meio disso tudo, começaram a aparecer manchas no meu corpo. Foi quando veio o diagnóstico: hanseníase.

Levaram meses para descobrir o que era. Enquanto eu aguardava uma resposta, as manchas foram se espalhando pelo meu braço esquerdo e perna direita. Era 1993, eu tinha nove anos. Na escola, as crianças não queriam mais ficar perto de mim. As manchas brancas no meu corpo denunciavam que havia algo de errado acontecendo comigo.

Fiquei sabendo do meu diagnóstico em meio a mais uma tragédia. Celma tinha sido levada às pressas para o hospital. Ela teve um aborto espontâneo. Descobrimos que minha irmã, então com 12 anos, havia engravidado do meu meu pai.

A fim de saber o que estava acontecendo, o Conselho Tutelar bateu na casa dele, acompanhado da polícia e do padre da cidade. Fomos retirados de lá. Meus irmãos foram levados para a casa da minha mãe. Eu, graças ao padre que desconfiou das marcas na minha pele, fui levada para o Hospital São Julião, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. O lugar já era uma referência no tratamento da hanseníase. O padre disse às autoridades que lá os médicos cuidariam de mim.

Quando eu cheguei fiz vários exames. Descobriram que, além da hanseníase, havia ferimentos internos em mim, consequência dos constantes abusos do meu pai. Passei cinco anos em um lar para crianças, dentro do hospital. Éramos cuidadas pelas freiras, tinha assistente social, psicóloga, escola. Não faltava nada. Foi lá que eu descobri o que é felicidade e afeto.

Costumo dizer que a hanseníase me salvou, porque foi ela que me levou para o São Julião e me afastou do meu pai. E também foi ela que me fez conhecer a Zena e o Lino Villachá – chamo eles de meus pais adotivos – e a irmã Silvia. Foram eles que me apresentaram o amor de família durante todo o tempo em que estive lá. Cuidavam de mim, me davam atenção, ajudavam com as tarefas da escola. Com eles aprendi a lidar com o preconceito devido à doença e com a dor que ela causa.

Aos 15 anos, voltei para a casa da minha mãe no Mato Grosso, em Nova Xavantina. Me envolvi com um garoto enquanto estava no abrigo do hospital, e, como namoros não eram permitidos, decidiram que eu voltaria pra casa. Segui com o meu tratamento no posto de saúde. Meu pai descobriu que eu havia voltado à cidade e foi me buscar. Enquanto eu estava no hospital, minha mãe não entrou com um processo de guarda. Ainda traumatizada das violências que viveu, ela cedeu e deixou que ele me levasse. Meus outros irmãos e irmãs ficaram com ela.

Eu não acreditava que estava vivendo aquilo de novo. Estupros, espancamentos. Eu era prisioneira dele. Quando fui pra casa dele, perdi o contato com as pessoas do hospital São Julião. Foi quando eu tentei me matar pela primeira vez. Eu tentei me enforcar, mas um vizinho conseguiu evitar. O quintal da casa do meu pai ficava de fundo para a casa dele, era separada por ripas de madeira. Acredito que ele tenha me visto desacordada, por algum vão entre uma madeira e outra.

Na ocasião, a infecção pela hanseníase já havia atingido o nervo da minha perna direita, que me deixou sem sensibilidade alguma no pé. Eu tinha de usar um aparelho que me auxiliava a andar. Em uma das surras que levei do meu pai, ele me deu um pisão e quebrou o meu pé afetado pela hanseníase. O médico indicou uma cirurgia, mas meu pai não permitiu. Fiquei usando uma tala e muletas, já que não podia ir ao hospital.

Quando completei 18 anos, eu já não suportava mais tanto sofrimento. Foi quando tentei suicídio pela segunda vez. Tomei soda cáustica. Meu pai conseguiu me levar a tempo para o hospital e me salvaram, outra vez. Quando tive alta, segui com o tratamento no posto de saúde, único lugar que ele permitia que eu fosse. A enfermeira já havia notado que eu chegava com hematomas no corpo. E um dia resolveu perguntar o que estava acontecendo. Foi, então, que venci o meu medo e contei toda a história. Disse que a minha mãe havia voltado para Goiás, para viver com os parentes dela e que eu queria ir pra lá. Ela prometeu me ajudar. Consegui contato com um tio, em Goiânia, que disse que me pegaria na rodoviária. Avisei a enfermeira, que se dispôs a comprar a minha passagem e me ajudar a fugir.

Combinamos o dia. Ela estacionou o carro em frente à casa do meu pai, pulei o muro e fui para a casa dela. Minha ideia era ficar escondida até outro dia pela manhã, e então ir a rodoviária comprar a passagem e partir. Eu não sei dizer como, mas ele descobriu onde eu estava e foi atrás de mim.

Consegui fugir sem que ele me visse. O marido da enfermeira me ajudou a pular o muro e saí pelo quintal da vizinha. Acho que eu corri quase 3h sem olhar para trás. Eu só queria ir o mais longe possível. Costumo dizer que foi neste dia que eu aprendi a correr de muletas. Quando achei que já tinha me afastado o bastante, me escondi em um matagal. Não sei que horas eram, mas o sol já tinha se posto e passei a noite lá. Ao amanhecer, voltei para a estrada e consegui uma carona até a rodoviária da cidade mais próxima, em Barra do Garças.

O horário do ônibus era à noite. Fiquei o dia todo escondida no banheiro da rodoviária, por medo de meu pai ter chamado a polícia ou alguém me achar. O único dinheiro que eu tinha era o da passagem. Foram quase três dias sem comer nada, até conseguir desembarcar em Goiânia. Só quando cheguei na casa do meu tio, que dei conta que meu pé estava em carne viva. O aparelho da perna também estava quebrado. Eu não sentia dor devido à hanseníase, mas confesso que mesmo se tivesse sentido eu nem me importaria. Só conseguia pensar que estava longe do meu pai.

Fui morar na mesma cidade que a minha mãe, em Nova Crixás, no interior de Goiás. Foi onde tive o meu primeiro relacionamento, aos 20 anos. Dois anos depois, após um tratamento, consegui engravidar da Kayllane, minha única filha – creio que a minha dificuldade em engravidar evitou que eu engravidasse do meu pai, como a minha irmã. Anos mais tarde, aos 25 anos, amputei minha perna direita, devido a uma trombose. E escutei do pai da minha filha que não servia mais pra ele. Foi quando eu pensei em tirar a minha vida, outra vez.

Estar sozinha, com uma criança, sem uma perna e trabalho me deixou desesperada. Além de tudo, me negaram a aposentadoria e auxílio-doença. Mas resisti pela minha filha, a razão da minha vida. Fiz meu tratamento. Seis meses depois da cirurgia, já havia me adaptado à prótese. Um ano depois, consegui trabalho em um frigorífico. Hoje, sou formada em Serviço Social.

Meu pai retornou a Goiás, em 2009. Não nos víamos há nove anos. Tinha tido um AVC e estava com câncer. Velho e sozinho, veio até nós para pedir ajuda. Primeiro, ele ficou na casa de uma das minhas irmãs. Até que ela não quis mais ficar com ele. Mesmo acamado, continuava ignorante. Então ele foi pra casa da minha mãe, e ela me disse: Celmi, alguém tem que cuidar desse homem!

Aos 28 anos, saí do frigorífico para cuidar dele. Foi quando percebi que apesar da dor que eu ainda sentia, não havia mais rancor. Dei banho nele, lavei suas partes íntimas, troquei fraldas, dei comida na boca dele, até o dia em que ele morreu em meus braços. Ele nunca me pediu perdão, mas, nos últimos dias de vida, quando não conseguia mais dizer nenhuma palavra, olhava pra mim e chorava.

Há três anos, estou sendo acompanhada por uma psicóloga, a Rozimeri Coletti. A terapia é a parte boa da minha vida. Aos 35 anos, eu consegui ser uma mulher feliz. Passei por vários processos que me ensinaram desde confiar em alguém a dizer um muito obrigada. Inclusive, foi ela que me incentivou a contar a minha história aqui. Dizer sobre tudo o que me aconteceu é um desafio pra mim, porque muita coisa ainda dói. Nunca imaginei que contaria o que vivi para outras pessoas. Tive dúvidas e medo. Costumo dizer que a Rose foi a única a se interessar pelo que vivi.

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Exposição de Celmi durante a internação no hospital São Julião: “Como eu era muito ansiosa, a Dra. Laura disse para eu fazer artesanato”.

Foto: Arquivo Pessoal/Celmi Castilho da Silva

Atualmente, sou casada. Com meu marido fui percebendo os meus traumas. Apesar disso, com ele me senti amada. O abuso é uma ferida que já cicatrizou por fora, mas por dentro ela ainda sangra. Graças ao tratamento, pela primeira vez, consegui sentir e entender o carinho de um homem. Superar tantos traumas é desafiador. Às vezes, me olho no espelho e ao ver meu corpo sinto ódio e nojo. Ainda lido com crises de ansiedade. Mas conheci a felicidade e sou uma mulher de muita fé. Deus tem me ajudado, apesar de já ter questionado ele por tudo o que aconteceu comigo.

Tenho também buscado aprender coisas novas, há pouco tempo comecei a fazer artesanatos. Quando as más lembranças vêm, respiro fundo e penso em tudo de bom que ainda posso viver pela frente.