Stacy Passeri queria ser promovida. A empresa de seguros Pacific Life Insurance estava contratando alguém para comandar as vendas de seus produtos de seguros para corretores em todo o país. Passeri considerou que estava numa situação perfeita: era vice-presidente da área na empresa, comercializava esses mesmos produtos para corretoras na região oeste da Califórnia – que se estende da cidade de San Luis Obispo até Eureka – e estava interessada em uma função de maior responsabilidade. Ela tinha ouvido falar que Mike Dahlquist, que ocupava o mesmo cargo que ela, também disputaria a vaga. Mas havia rumores sobre Dahlquist, que tinha a reputação de ser um sujeito festeiro. As mulheres do escritório comentavam que ele já tinha feito investidas sexuais indesejáveis. As colegas de Passeri reviravam os olhos diante dos comentários inadequados que ele fazia no trabalho. Imaginando que um homem com esse perfil não seria cogitado a sério para um cargo gerencial, ela avaliou que tinha boas chances de conseguir o posto.

No fim das contas, porém, ela estava errada. Dali a pouco tempo, recebeu de Mike Bell, um vice-presidente sênior, a notícia de que Dahlquist tinha conseguido a posição, e agora passaria a ser o superior direto de Passeri. Ela relata ter informado a Bell que não se sentiria confortável estando subordinada a Dahlquist, e tentou demovê-lo da contratação com um resumo da reputação do colega, sugerindo que ele reabrisse a seleção. Como posteriormente descreveria em juízo, Passeri relata que Bell dissera para confiar que ele manteria Dahlquist sob controle, e depois dera um conselho sobre o novo chefe: “Dê uma chance a ele”. Ela se recorda que ele ainda teria dito que, em caso de problemas, “fale comigo e eu vou ajudar”.

Quando Passeri entrara na Pacific Life, meses antes, em abril de 2000, mãe solteira de quatro crianças e com uma carreira em ascensão, ela tinha grandes esperanças. Seu currículo incluía cinco anos como corretora de investimentos na Shearson Lehman Brothers e dez anos na área de seguros, e por isso ela conta que era “feita sob encomenda” para um trabalho que envolvia vender seguros para corretores.

O emprego dos sonhos rapidamente perdeu o encanto depois que Dahlquist se tornou seu chefe. Ela conta que o assédio começou, com força total, em março de 2001.

Na ação judicial em curso, ela alega que, durante uma série de reuniões com clientes ao longo de dois dias, em quatro restaurantes de San Francisco, Dahlquist teria acariciado seu joelho e sua coxa e passado o pé nela sob a mesa, algumas vezes sem o sapato. Nos momentos em que travaram contato visual enquanto ele a tocava, ele teria “feito um gesto de erguer as sobrancelhas”, de acordo com a declaração que ela protocolou em juízo. Ainda segundo a documentação dos autos, um cliente posteriormente teria comentado com Passeri que havia reparado em sua “expressão de desconforto” durante uma reunião. Outro cliente se recorda de testemunhar Dahlquist colocando a mão por dentro da saia de Passeri.

Passeri narra ainda nos autos que, enquanto caminhava com ele pelo centro de San Francisco depois de mais um encontro perturbador, Dahlquist teria avisado a ela que a decisão de manter ou não sua contratação estava agora sob influência dele. Quando ela reagiu falando que ele não tinha esse poder, ele esticou o braço e a apalpou, dizendo: “Ops, acho que passei a mão na sua bunda”.

Nem mesmo quando a alta direção estava por perto ela tinha algum alívio do assédio. Durante um intervalo em uma conferência, duas semanas depois, na proximidade do vice-presidente sênior Mike Bell, Dahlquist se aproximou por trás de Passeri e passou as mãos em seus quadris. Em vez de dizer a Dahlquist para manter as mãos longe dela, como havia prometido que faria, Bell, segundo consta dos autos, teria dado outro conselho a Passeri: seja legal com ele.

Quando maio chegou, ela chegou ao limite. Passeri ficou sabendo que, durante uma recente teleconferência com clientes do Morgan Stanley, Dahlquist havia se referido a ela — que ingressara na carreira no mesmo ano que ele — como “novata”. Ela enviou a Bell um relatório de cinco páginas que detalhava o padrão de assédio de Dahlquist e deixava claro que ela não se sentia mais segura de estar subordinada a ele. Ela também solicitava que fosse aberta uma investigação.

A investigação aconteceu: um investigador do setor de RH entrevistou Passeri e várias outras mulheres que haviam tido interações profissionais com Dahlquist. Uma das testemunhas relatou ao investigador que não gostaria de ficar sozinha em uma sala com Dahlquist, e que ele era “pegajoso”. Outra simplesmente se recusou a responder quando perguntaram se Dahlquist teria feito investidas sexuais indesejadas contra ela. A sondagem claramente disparou alguns alarmes dentro da Pacific Life: Dahlquist recebeu uma advertência por escrito e uma determinação para realizar treinamento contra assédio. O investigador, no entanto, não encontrou “nenhuma prova” de que Passeri teria sofrido assédio sexual.

“Eu achava que a empresa estava do meu lado”, disse ela. A investigação, porém, mostrou que a empresa estava mais interessada em defender a si e a seus gerentes homens do que em protegê-la de agressão. Para piorar a situação, como subordinada direta de Dahlquist, Passeri ainda precisava apresentar a ele sua “agenda diária”, onde constavam informações sobre sua movimentação e localização. Nesse momento, a ansiedade e a sensação de vulnerabilidade “vieram com tudo”.

“Eu pensei: ‘Meu Deus, ninguém vai me ajudar aqui.'”

Em junho de 2001, ela entrou com uma ação judicial contra a Pacific Life, Dahlquist e Bell na justiça de San Francisco. A Pacific Life, por meio de sua representante, Jesse Page, declarou por e-mail que não iria comentar o caso, “exceto para reforçar que questões como o assédio sexual são tratadas com muita seriedade, e todas as formas de assédio e discriminação são proibidas.” Bell e Dahlquist não quiseram se manifestar.

Em 2003, um júri considerou Dahlquist culpado por importunação sexual e assédio sexual, que nos EUA é dividido nas modalidades quid pro quo (que exige favores sexuais como condição para benefícios de trabalho) e ambiente de trabalho hostil (quando o assédio cria, ao longo do tempo, uma situação abusiva para a vítima) — Dahlquist foi condenado por ambas. O júri, porém, não considerou que ele teria agido com dolo de causar danos ou ofender. A sentença concedeu a Passeri 2,5 milhões de dólares de indenização.

A fase #MeToo de Wall Street

O caso de Passeri fez parte da onda de processos judiciais e arbitrais movidos contra empresas do mercado financeiro, na década de 1990 e começo dos anos 2000, por mulheres que haviam tolerado uma cultura de assédio sexual desenfreado e discriminação de gênero. Quando ela ingressou com a ação, outras mulheres já haviam processado a Rodman & Renshaw, uma corretora de Chicago; a Olde Discount Corp., uma corretora de Detroit; e outras gigantes do mercado como o Smith Barney e o Merrill Lynch. Essas ações, assim como as demais que logo se seguiram, alegavam a existência de discriminação relativa a salários, promoções e gravidez, e em alguns casos traziam acusações bombásticas sobre ambientes hostis de trabalho, assédio sexual desenfreado, e até mesmo estupro. Os maiores processos daquele período, que atraíram a participação de milhares de autoras em ações coletivas, resultaram em grandes acordos: US$54 milhões contra o Morgan Stanley, US$150 milhões contra o Smith Barney, e US$250 milhões contra o Merrill Lynch.

Essas ações foram um pesadelo de relações públicas para o setor de valores mobiliários, que se apressou em assegurar ao público que importantes reformas estavam sendo postas em curso. Pesquisas e prêmios foram criados para promover a igualdade de gênero, e reformas regulatórias foram implementadas. Inicialmente, houve sinais de que o esforço estava dando resultado. Um alto funcionário do setor de valores mobiliários depôs perante uma comissão da Câmara informando que, em 2005, 44% dos empregados de Wall Street eram mulheres, contra 37% em 2003. Nos bastidores, porém, a demonstração pública de responsabilidade perante as mulheres do setor financeiro na verdade marcou um período sombrio, em que as empresas buscaram novas formas de se proteger de futuras ações.

Num momento em que as consequências de longo prazo do movimento #MeToo sobre as carreiras das mulheres estão em aberto, as lições aprendidas com o caso de Wall Street são preocupantes. Vasculhamos registros judiciais, rastreamos as mulheres nos polos ativos e passivos dos casos de maior projeção, examinamos os registros do banco de dados de arbitragens mantido pela Autoridade Reguladora do Setor Financeiro dos EUA, a FINRA, e conversamos com dezenas de advogados trabalhistas que, considerados conjuntamente, atuaram em milhares de casos de discriminação ao longo dos anos.

O que descobrimos foi que, dos homens acusados que conseguimos identificar, a maior parte permaneceu em suas carreiras. Em determinado caso, um executivo sênior permaneceu em um banco por 16 anos, mesmo depois que a empresa saiu perdedora em uma arbitragem envolvendo seu assédio sexual contra uma colega. Também descobrimos que, graças a um sistema falho que permite aos corretores excluir casos de assédio e discriminação de seus registros regulatórios, alguns deles se tornaram ofensores reincidentes, pulando de emprego em emprego na área financeira enquanto continuavam a agredir as mulheres que trabalhavam com eles.

Em um contraste acentuado, as carreiras da maior parte das mulheres que ajuizaram ações contra discriminação e assédio foram prejudicadas.

Os advogados trabalhistas confirmaram esse padrão. Vários deles relataram que, em sua experiência, a maior parte das mulheres de diversos setores que se insurgiram contra o assédio acaba saindo de seus empregos — seja por terem sido demitidas, por pedirem demissão, ou por aceitarem sair como parte de um acordo judicial — enquanto a maior parte dos homens que criaram um ambiente hostil permaneceu na mesma empresa ou logo encontrou emprego em outro lugar.

Douglas Widgor, de Nova York, cujo escritório de advocacia Widgor LLP já representou mulheres em ações contra Harvey Weinstein e a empresa de contabilidade Ernst & Young, disse que é “pouco comum” ver uma mulher permanecer na empresa depois de apresentar uma reclamação. Tammy Marzigliano, sócia do escritório de advocacia trabalhista Outten & Golden, também em Nova York, disse que os resultados para as mulheres podem ser brutais: “as mulheres que têm a coragem de se insurgir contra o assédio sexual muitas vezes terminam no ostracismo e sem emprego”, enquanto os agressores frequentemente “seguem incólumes”. O simples ato de ir a público pode comprometer as chances de uma mulher encontrar emprego no futuro. Segundo Gary Phelan, um advogado trabalhista de Connecticut que representou várias mulheres na ação contra o Smith Barney, uma candidata a uma vaga de emprego em cujo registro conste que ela processou a empresa onde trabalhava “normalmente assusta os empregadores”.

Pesquisas acadêmicas reforçam essas impressões. Um artigo publicado na revista Gender & Society em 2017 descobriu que 79% das mulheres que foram vítimas de carícias indesejadas ou outros tipos de assédio saíram de seus empregos num prazo de dois anos, em contraste com o percentual de 54% no caso das mulheres que não sofreram assédio. O assédio levou as mulheres a sofrer “stress financeiro significativamente maior”, relataram os autores, acrescentando que as vítimas frequentemente sofreram prejuízos substanciais em suas carreiras. Um relatório de 2016 sobre mulheres no setor financeiro, elaborado pela empresa de consultoria Oliver Wyman, verificou que algumas mulheres da geração Y, as “millennials”, ficavam estarrecidas ao descobrir quão raras elas eram nesse campo. As experiências dessas mulheres, afirmava o relatório, “permanecem semelhantes, de forma desanimadora, às de mulheres mais experientes que entraram no setor de serviços financeiros nas décadas de 1980 e 1990″.

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Ilustração: Zoë van Dijk/The Intercept

As portas são abertas à força

Wall Street só abriu as portas para as mulheres, em alguma medida, na esteira de um acordo histórico envolvendo o Merrill Lynch, em 1976, em uma ação ajuizada por uma mulher com um currículo impecável, a já falecida Helen O’Bannon. O’Bannon terminara a faculdade em Wellesley College e fizera um mestrado em economia em Stanford; trabalhara para a Comissão de Assuntos Bancários e Monetários da Câmara dos EUA, para o Departamento do Tesouro, e para o Departamento de Controladoria da Moeda. A despeito dessas credenciais, ela não foi selecionada pelo Merrill Lynch quando se candidatou para um cargo de corretora no escritório de Pittsburgh da empresa, em 1972. Quatro homens, porém, nenhum dos quais tinha ido além da graduação, foram contratados como corretores no mesmo escritório. Um deles tinha abandonado a faculdade por baixo desempenho. Dois deles tinham sido reprovados no teste de comportamento da empresa, segundo foi revelado no acordo celebrado em 1976 entre o Merrill Lynch e a Comissão Federal de Oportunidades Iguais de Trabalho (EEOC). No acordo, o banco aceitou gastar 1,3 milhão de dólares em ações de recrutamento e propaganda para contratar mais mulheres e pessoas não brancas como corretores.

Marybeth Cremin, primeira autora de uma ação coletiva de discriminação de gênero contra o Merrill Lynch, uma geração depois, em 1996, sabia que devia seu emprego ao processo de O’Bannon. Quando ela se candidatou a um cargo na empresa nos anos 1980, “o Merrill Lynch, naquele momento, estava seguindo as orientações da EEOC, e a agência estava fiscalizando os números”. As mulheres subitamente passaram a ter oportunidades em outras corretoras, diante do risco de fiscalização pela EEOC. Em uma entrevista de emprego em uma sucursal da Shearson Lehman – antecessora do Smith Barney – em Garden City, Nova York, em 1985, a corretora Kathleen Keegan se recorda que o então gerente da sucursal, Nicholas Cuneo, foi direto quanto às razões pelas quais ela conseguira a entrevista. Ele disse que estava sendo “obrigado” pela empresa a ter “cotas para mulheres”.

As mulheres daquela época consideravam que a maior batalha estaria vencida quando elas conseguissem atravessar a porta e ter uma chance de provar seu valor. Para muitas, porém, o pior ainda estava por vir.

Em diversas empresas, as mulheres se depararam com uma cultura corporativa leniente com o assédio cruel ou violento, que oferecia proteção para seus figurões abusivos, segundo os advogados que as representaram em ações judiciais. As mulheres que conseguiram atravessar as portas “não eram bem-vindas”, disse Linda D. Friedman, cujo escritório de advocacia sediado em Chicago cuidou de muitos dos primeiros processos de discriminação de gênero contra empresas de Wall Street, incluindo Rodman & Renshaw, Olde Discount, Smith Barney e Merrill Lynch. Seus colegas homens não escondiam isso, e encontravam várias formas de deixar as mulheres recém-chegadas desconfortáveis. Friedman se recorda de uma cliente cujos colegas contrataram um stripper para se apresentar no escritório no aniversário dela. Vestido de policial, o homem disse que estava lá para tratar das multas dela por estacionamento proibido; Friedman conta que ele então algemou sua cliente a uma cadeira e “se despiu diante de todos no escritório”.

O setor financeiro sempre foi conhecido por sua bombástica combinação entre dinheiro e poder, uma mistura tóxica que pode alimentar ambientes hostis de trabalho e assédio agressivo. Uma dupla de neurocientistas da Universidade de Cambridge descobriu, em um estudo conduzido em 2008, que, quando os operadores ganhavam dinheiro, eles apresentavam níveis elevados de testosterona, um hormônio associado à agressividade e a comportamentos irracionais.

Há uma tendência tão forte nesse setor de mimar e proteger suas estrelas fazedoras de dinheiro, que várias seguradoras são cautelosas ao emitir apólices de assédio sexual para empresas de corretagem. Em um relatório elaborado no começo deste ano, o especialista em seguros Richard S. Betterley observou que oito das 32 seguradoras que pesquisou declararam que não emitiriam apólices que protegessem instituições financeiras em caso de acusações de assédio sexual.

Nas décadas de 1980 e 1990, a cultura de misoginia era disseminada. Nancy Thomas, uma das autoras da ação coletiva do caso Cremin, declarou ter recebido, em um dia de 1991 em seu escritório, uma caixa de presente. Ao abri-la, encontrou um vibrador e um tubo de creme lubrificante. Darlene L., uma das vice-presidentes da mesa de títulos municipais na Shearson Lehman Brothers, contou aos árbitros durante as audiências em 1994 e 1995 que seus colegas penduraram um sutiã na mesa de operações, e jogavam bolas de tênis nele. (Estamos omitindo os sobrenomes das mulheres que foram autoras de ações, mas que não conseguimos localizar, ou que preferiram não colaborar com essa matéria.) Quando um colega sugeriu que ela abrisse sua gaveta e desse uma olhada, ela encontrou lá dentro um vibrador. Uma mulher que foi arrolada como testemunha no caso de Darlene L. declarou que dois colegas homens enviaram a ela um calzone no formato de um pênis.

Até mesmo algumas profissionais de destaque foram vítimas — de formas arrasadoras para suas carreiras. Susan Bell, agora Susan O’Rorke, uma das autoras da ação contra a Olde Discount, declarou que era repreendida frequentemente e em público pelo fundador e CEO da empresa, Ernest Olde, a despeito — ou talvez exatamente em razão — do seu status como estrela da empresa, uma “Super Corretora” no jargão do ramo. Ele teria dito em uma reunião que ficaria feliz de substituir mulheres por computadores, porque computadores “não ficam menstruados”. Em outra reunião, num ano em que ela teve os melhores resultados da empresa, conta que Olde gritou com ela na frente dos colegas e sugeriu que ela procurasse outro emprego. “Ernie deixou muito claro desde a primeira vez que nos reunimos que não gostava de ter mulheres trabalhando em sua empresa”, disse ela, “e essa era simplesmente a culminância de muito ódio acumulado pelo meu sucesso”. No fim das contas, Olde sabotou a carreira de O’Rorke, ao transferi-la para um novo local de trabalho e redistribuir seus clientes entre outros corretores. Ernest Olde já faleceu, e a Ameriprise Financial, que incorporou a Olde por meio de uma cadeia de aquisições, não quis comentar. O banco Morgan Stanley, que incorporou a Shearson Smith Barney, não respondeu às perguntas enviadas para esta reportagem.

Tendo perdido as carteiras de clientes que havia trabalhado anos e anos para montar, O’Rorke foi forçada a sair em 1993, e posteriormente entrou com um pedido de arbitragem em que alegava ter sido obrigada a pedir demissão em razão de condições insustentáveis de trabalho, alegando que fora vítima de assédio sexual e de um ambiente hostil de trabalho. Ela conta que fez um acordo, mas não pode discutir seus termos. Desde então, segundo ela, sua carreira tem sido um grande desafio. Embora tenha trabalhado no setor por mais da metade dos 26 anos que se passaram desde então, foi principalmente em funções que lidam com investidores institucionais, ou como equipe de apoio — não fazendo o trabalho que amava, de lidar diretamente com os investidores individuais.

As ações daquela época, como a de O’Rorke, não tratavam exclusivamente de assédio sexual. No entanto, muitas das mulheres que entraram com ações alegando que suas carreiras haviam sido prejudicadas por remuneração inferior, oportunidades limitadas de crescimento, misoginia ou roubo descarado de suas carteiras de clientes, consideram que o assédio sempre fazia parte do cenário.

Em um relatório que elaborou nos anos 1990, e numa entrevista recente, Keegan, a corretora da Shearson Lehman, se recorda que, no final dos anos 1980, os homens nas salas compartilhadas frequentemente arrotavam alto, soltavam gases e contavam piadas preconceituosas. Certa manhã, quando voltou ao escritório depois de comparecer ao velório de uma amiga, olhou para o quadro-negro da sala e viu que um colega havia escrito com giz: “Kathleen chupa bem”. Furiosa, ela reportou o ocorrido para Cuneo, o gerente da sucursal, que fingiu surpresa por tal comportamento ter ocorrido ali. “Ele começou a me dizer alguma coisa a respeito de como ficara chateado ao saber o que tinha acontecido, e que isso era fora do normal”, declarou ela recentemente. “Eu respondi, ‘Por favor, não venha com essa pra cima de mim'”.

Nunca houve muita empatia entre Cuneo e Keegan, que tinha a reputação de responder à altura. Certa vez, ela disse a seu chefe que uma oferta pública inicial que ele estava pressionando para acontecer — para a empresa de um amigo — era “uma bela merda”. Ela também se recusava a ceder à pressão e inventar transações apenas para embolsar as comissões, preferindo proteger os interesses de seus clientes mais conservadores. Cuneo conseguiu se vingar. Em reuniões matinais, conta ela, “ele me humilhava porque eu não estava impulsionando as comissões.”

Em 1988, depois de meses repreendendo Keegan na frente de seus colegas e perguntando quando ela iria pedir demissão, Cuneo, segundo a própria, colocou um corretor como responsável pela carteira de clientes que ela tinha trabalhado anos para formar, o que na prática a tirou do jogo.

Keegan saiu para estruturar do zero uma operação própria de corretagem, trabalhando de casa. Sua renda despencou. “Foi difícil por muito, muito tempo”, disse ela, até finalmente conseguir reconstruir com sucesso sua carteira. “Eu nunca quis sair da Shearson.”

E ainda assim, sete anos depois que Keegan foi pressionada a sair, Cuneo, que já faleceu, se aposentou com todos os benefícios.

Cremin, autora da ação contra o Merrill, também perdeu sua carteira de clientes, depois de 13 anos trabalhando para formá-la. Quando voltou da licença maternidade em 1995, seu chefe começou a pressionar para que ela deixasse seus clientes. Diante do prognóstico desfavorável, Cremin conta que concordou em ser transferida para uma função de planejamento financeiro, desde que pudesse determinar quem ficaria com sua carteira. Ela passou três meses fazendo a transição de seus clientes para outros corretores; uma vez que todos estavam transferidos, ela foi demitida. Como Keegan, Cremin conta que passou por uma recuperação lenta e difícil, marcada por uma substancial redução de renda. Embora ela agora esteja num bem-sucedido cargo de relacionamento com clientes individuais no Morgan Stanley, conta que levou oito a dez anos para retomar a situação em que estava.

‘Nós sentíamos ter muita sorte’

Na casa de Stacy Passeri, a educação era considerada importante. Sua mãe se formou em Direito com 21 anos, e seu pai era um gestor universitário. Desde muito nova, ela aprendeu que boas notas e um diploma universitário eram os passaportes para uma carreira de sucesso. Mas Passeri também recebeu de sua mãe uma outra mensagem: “Invista na sua capacidade de cuidar de si mesma”, de evitar depender financeiramente de um homem. Passeri estava terminando seu terceiro ano na Universidade da Califórnia, em Berkeley, quando largou os estudos para começar a trabalhar como corretora de imóveis. Em dado momento, um corretor de investimentos para quem vendera uma casa conseguiu para ela entrevistas de emprego no ramo da corretagem financeira. O gerente da sucursal de Larkspur da Shearson Lehman ficou tão impressionado com ela que, em 1986, convidou Passeri para o programa de treinamento de elite da empresa.

A Shearson estendeu para ela o tapete vermelho. A empresa a levou de avião de San Francisco a Nova York para a orientação de trainees. Ela e os outros que também eram de fora ficaram encantados com sua primeira viagem à cidade. Eles foram ao ringue de patinação no gelo do Rockefeller Center, comeram em restaurantes de Little Italy, e se impressionaram com a subida de elevador até o topo do World Trade Center. “Realmente sentíamos que era tudo muito mágico”, conta ela. “Sentíamos ter muita sorte por estar no programa. Estávamos ansiosos e animados.” O CEO da Shearson, Peter Cohen, apareceu na reunião de mais de quatrocentos trainees — Passeri calcula que apenas cinco eram mulheres — para dar as boas-vindas e alertar que o contingente iria diminuir a cada semana, à medida que fosse ficando claro quem iria ou não ser selecionado. Passeri se recorda que Cohen foi recebido “como se fosse Deus entrando na sala”.

Ela sobreviveu à orientação e se tornou uma das duas únicas mulheres na sala compartilhada da Shearson em Larkspur. Mas, a partir daí, presa à expectativa gerencial de que as mulheres deveriam usar saias ou vestidos, ela passou a ser alvo das atenções indesejáveis de um corretor que se sentava perto dela e frequentemente comentava que gostaria de saber o que estava por baixo de sua saia. Alguns colegas homens disseram a ele para parar com aquilo, mas ele nem ligou. “Ele dizia ‘eu tenho os melhores resultados desse escritório, não preciso parar'”, recorda-se ela. Esse bordão se tornaria familiar para as mulheres na Shearson.

Em dado momento, um gerente de nível mais alto encontrou uma função para Passeri em outra sucursal, mais próxima de onde ela morava. Lá, ela cresceu na carreira, chegando ao trabalho antes das 6h30 todos os dias e garimpando a lista telefônica em busca de potenciais investidores para quem ela poderia ligar para tentar persuadi-los a comprar títulos de dívida.

Seu batismo de fogo foi recompensado. Primeiro, a seguradora Connecticut Mutual conseguiu levá-la; em seguida, foi recrutada pelo Ohio National como vice-presidente regional. Depois disso, ela aceitou o emprego na Pacific Life, onde o assédio sexual interrompeu sua carreira no ramo de seguros.

Mesmo num cenário em que as mulheres do setor financeiro estavam sendo empurradas para a acordos extrajudiciais, Passeri conseguiu ingressar com uma ação judicial, e por isso os registros públicos do seu caso são mais robustos que a média — e a decisão do júri foi mais substancial.

Ainda assim, ela considera que sua experiência no Judiciário foi angustiante. A cada manhã, enquanto subia de elevador até a sala de audiência no centro de San Francisco, ela se preparava. Dahlquist “estaria lá quando as portas se abrissem”, ela conta, “e ele me assediava ao longo de todo o trajeto até a audiência”. Ele às vezes tecia comentários sobre sua aparência. Outras vezes, atacava o mérito da ação, dizendo a ela: “Você sabe que não vai sair vencedora disso”. Certa manhã, ele bloqueou seu caminho até a sala para dizer que o que ela tinha passado “não era tão traumático assim”.

O stress do julgamento, juntamente com os meses de ansiedade que o antecederam, cobrou seu preço. “Em dado momento, eu me lembro de andar pela rua chorando, simplesmente chorando, porque eu me sentia tão isolada e sozinha”, conta Passeri. Os advogados assumiram o caso com honorários contingentes ao resultado, mas ainda assim o processo custou caro. Ela conta que quase perdeu sua casa para pagar mais de cem mil dólares em despesas de depoimentos (no sistema norte-americano, esse custo é das partes) e outras custas processuais. “Eu dizimei minha aposentadoria”, diz. E a indenização de 2,5 milhões de dólares nunca se materializou completamente. A Pacific Life ameaçou recorrer, pressionando Passeri a aceitar negociar um acordo que se encerrou com uma resolução confidencial cujos termos ela está proibida de revelar.

Os proponentes desse tipo de ação, segundo os advogados trabalhistas, normalmente aceitam acordos com valores reduzidos.

Um regulador pouco transparente

Desde 1972, existem regras que determinam que todas as disputas entre as instituições financeiras e seus corretores sejam resolvidas por arbitragem extrajudicial. Ao obter uma licença de corretagem, ou qualquer outra função do mercado financeiro em que lide com o público, você não pode mais usar a via judicial. Os acordos de arbitragem compulsória não atingiram todos os empregados de Wall Street — apenas os que precisam de uma licença para exercer suas funções. O total de empregados em Wall Street nessas condições era de pouco mais de meio milhão em 1995, o ano que antecedeu o ajuizamento da bombástica ação de assédio sexual contra o Smith Barney.

Uma das mais drásticas mudanças institucionais desencadeadas pela fase #MeToo de Wall Street nos anos 1990 foi uma decisão da Comissão de Valores Mobiliários (SEC) dos EUA: os documentos de licenciamento de corretores emitidos pela Associação Nacional de Negociadores de Valores Mobiliários, antecessora da FINRA, deveriam incluir uma exceção para as demandas relativas à discriminação, o que abria uma via para que mulheres conseguissem levar seus casos a um júri.

A maior parte das mulheres, porém, nunca teve essa oportunidade. As empresas revisaram ou criaram suas próprias políticas de arbitragem compulsória para manter esses casos fora dos tribunais, uma manobra que não apenas limita os gastos com indenizações — as sentenças arbitrais, historicamente, concedem indenizações muito mais baixas — mas também mantém os casos de assédio sexual longe dos olhos do público. Passeri só conseguiu entrar com uma ação judicial porque a Pacific Life demorou a entrar nessa onda.

Assim que as corretoras começaram a implementar amplas políticas internas de arbitragem, acusações públicas de assédio sexual em Wall Street se tornaram cada vez mais raras. Em procedimentos arbitrais, a imprensa e o público são excluídos, não há livre acesso aos documentos, e os corretores considerados culpados pelo assédio não precisam listar a condenação no banco de dados de acesso público, o BrokerCheck. Embora a FINRA exija que os corretores e outros licenciados divulguem as ações “relativas a investimentos” ajuizadas por clientes, não há uma exigência semelhante da associação para os casos em que um licenciado tenha sido processado por assédio ou agressão. Mesmo quando um corretor é processado criminalmente por uma conduta não relacionada aos investimentos, a FINRA só exige divulgação caso se trate de uma acusação por crime doloso considerado grave.

Os únicos documentos públicos na arbitragem são as ementas das sentenças de cada caso, elaboradas pelos árbitros. Com base nesses documentos, o The Intercept e a Type Investigations vasculharam 30 anos de processos de assédio julgados pelos árbitros da FINRA. Nossa análise desses processos, no período de 1988 a 2018, confirma o padrão: neles, também, as carreiras da maior parte das mulheres parecem ter estagnado, enquanto os perpetradores, em regra, simplesmente seguiam adiante sem consequências públicas.

Dentre as mais de 55 mil arbitragens realizadas nesse período, conseguimos, com a ajuda dos termos de busca, identificar um total de 97 acusações de assédio. As mulheres só saíram vencedoras em 17 dessas, uma média de uma a cada dois anos em um setor conhecido por fomentar ambientes hostis ao trabalho feminino. Pesquisas acadêmicas mostraram que a maior parte das arbitragens trabalhistas termina em acordo antes mesmo de começarem as audiências, o que significa que a grande maioria das disputas sequer chegou ao restrito registro público de arbitragens da FINRA.

Dentre os 17 casos em que as mulheres tiveram êxito, encontramos apenas nove ofensores nomeados, todos eles homens. Desses, nenhum revelava no BrokerCheck a existência de decisão contra si — até chamarmos a atenção da FINRA para um desses casos. Além disso, encontramos apenas dois possíveis ofensores que teriam perdido o emprego em consequência direta do assédio sexual praticado. Um deles, George Tamborello, ex-corretor no Empire Financial Group, recebeu, em fevereiro de 2007, “autorização para pedir demissão do Empire durante uma investigação interna” sobre violações às políticas da empresa, incluindo duas acusações de ex-funcionárias, de acordo com o registro de valores mobiliários do Estado.

Tamborello não quis comentar. Diante de nossa solicitação para comentar essas descobertas, uma representante da FINRA, Michelle Ong, disse que a FINRA considera que “não há lugar [para o assédio] no ambiente de trabalho”, mas aponta que sua supervisão do setor “se baseia em nosso mandato estatutário e está focada na proteção aos investidores e à integridade do mercado”.

Naquele mesmo ano, outro corretor acusado, Douglas A. Potter, e sua empresa, A. G. Edwards & Sons, foram condenados pelos árbitros a pagar 3,5 milhões de dólares a uma mulher, corretora, em decorrência de assédio sexual e retaliação — a maior indenização arbitral por assédio sexual que consta do banco de dados da FINRA, que incorporou os registros dos dois órgãos que a antecederam.

Em dezembro de 2005, enquanto a acusação de assédio sexual ainda estava em arbitragem, Potter recebeu “autorização para pedir demissão” em razão de uma “violação das políticas da empresa” não relacionada aos valores mobiliários, de acordo com os registros públicos. Uma divulgação assim é um sinal de alerta para um potencial caso de assédio.

No entanto, apenas três meses depois, Potter foi contratado pela Raymond James Financial, onde trabalhou até o ano passado, segundo os registros regulatórios, muito tempo depois que sua recordista sentença arbitral condenatória por assédio se tornou de conhecimento público, em 2007.

Potter permaneceu na Raymond James até março de 2018, quando foi dispensado apenas dois dias depois que o The Intercept e a Type Investigations enviaram à empresa perguntas sobre o histórico de assédio de Potter. A empresa se recusou a comentar, mas relatou aos órgãos regulatórios que Potter teria sido demitido simplesmente por “redução da força de trabalho”.

Nem Potter, nem a mulher que foi vencedora da arbitragem, e que hoje é corretora no Wells Fargo, responderam às perguntas enviadas — embora ela, diferentemente de muitas das mulheres cujos casos analisamos, tenha permanecido empregada como corretora na mesma empresa onde o assédio ocorreu. Um representante do Wells Fargo, que adquiriu a A. G. Edwards, confirmou que a indenização foi paga pela empresa antecessora, e declarou que “nenhuma forma de assédio é tolerada” no Wells Fargo.

Pela nossa pesquisa, boa parte dos corretores homens permaneceram empregados depois de perder um caso de assédio na FINRA. A Sutro & Co., sediada em San Francisco, teve um gasto tão grande para honrar o acordo num caso de assédio praticado por um de seus corretores, Raymond K. Bramer, contra sua assistente comercial, que a empresa ajuizou uma ação contra Bramer para tentar recuperar parte do valor. Nem nesse caso, porém, o assédio representou o fim da carreira. Os registros mostram que, em 1995, ele fez uma transição suave da Sutro para o Wells Fargo, onde permaneceu por mais de duas décadas. Seu único hiato profissional desde então durou seis semanas, entre o período em que saiu do Wells Fargo e entrou para a Securities America, em 2017. Ele foi um dos poucos corretores acusados que aceitou conversar; quando perguntei sobre o caso Sutro, ele respondeu: “Não sei nada sobre isso. Foi há muito tempo. Fizemos um acordo e resolvemos tudo.”

“Eu não assediei ninguém”, ele insistiu, e acrescentou que “se uma mulher diz qualquer coisa sobre alguém, você está fora”. Então, quando perguntei se ele estava alegando que nunca a teria assediado, ele disse: “Não acho que tenha assediado. Quem tem como saber?”

A Sutro foi adquirida pelo Royal Bank of Canada, que se recusou a comentar.

Frederick A. Hessler, ex-sócio administrador da Smith Barney, perdeu uma arbitragem por assédio sexual, movida pela analista de planos de saúde Alicia DeGaetano. Ela declarou em uma entrevista que Hessler a teria agarrado e beijado, e prometido avanços na carreira se ela aceitasse sair com ele. Hessler, que não respondeu aos pedidos de entrevista por telefone ou e-mail, permaneceu na Smith Barney por mais 16 anos, até se aposentar em 2013 e passar a compor o conselho de administração de diversas organizações sem fins lucrativos. A carreira de DeGaetano, por outro lado, acabou. Ela hoje tem uma padaria especializada em produtos sem glúten no sul da Califórnia, e vende seus produtos em feiras especializadas.

Em entrevista, declarou que ama sua vida atual, mas que a experiência “a deixou no chão”. Por algum tempo, depois de sair da Smith Barney, ela viveu de seguro-desemprego e do trabalho como caixa em um mercadinho local. Depois de anos de renda perdida, ela hoje tem “muito medo de como vai se cuidar quando ficar velha”.

Ouvimos esse tipo de arrependimento de autoras de outras ações. “Nunca atingi meu potencial completamente”, disse O’Rorke, a ex-corretora da Olde. “Eu só queria ser corretora. Eu realmente amava meus clientes. Amava meu emprego.” Outra mulher que perdeu sua carreira de corretora depois de protocolar uma reclamação se sentiu humilhada por admitir que agora se sustenta como motorista de Uber.

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Ilustração: Zoë van Dijk/The Intercept

‘Você não sabe com quem está se metendo’

Um outro corretor de destaque da A. G. Edwards, chamado Mario Ferrari, também manteve sua carreira na sequência de alegações prejudiciais — no caso dele, assédio sexual e retaliação. Sua assistente comercial, Sandra D., processou a empresa num tribunal federal de Orlando em outubro de 2001, alegando que Ferrari teria, “de forma contínua e constante”, tecido comentários sexualmente vulgares, tocado nela de forma inadequada, e a convidado a ter relações sexuais com ele. De acordo com a petição inicial, a empresa a demitiu em retaliação, depois que ela protocolou uma reclamação interna de 10 páginas contra Ferrari. O caso foi mandado para a arbitragem, onde os árbitros ao final concederam a ela uma indenização de 1,8 milhão de dólares — a despeito das alegações de A.G. Edwards de que Sandra D. teria cometido erros em seu trabalho e de que o próprio Ferrari “adorava” sua esposa. Contactado por telefone, Ferrari se recusou a comentar. O Wells Fargo, que atualmente é proprietário da A.G. Edwards, também não quis comentar o caso de Ferrari.

Uma transcrição das alegações finais da arbitragem, protocolada juntamente com o recurso apresentado pela empresa contra a sentença arbitral, oferece um raro vislumbre das histórias que permanecem escondidas atrás das portas fechadas da FINRA. O advogado de Sandra D., Bradford Gucciardo, fez um retrato bastante desfavorável da A.G. Edwards, acusando a empresa de chegar a extremos para proteger sua estrela da corretagem – bem como a cultura corporativa de abusos. Na realidade, relatou Gucciardo, a A.G. Edwards sequer entrou em contato com Sandra a respeito da investigação sobre a reclamação que ela havia enviado à alta gerência. Ainda segundo Gucciardo, a empresa tampouco tomou quaisquer medidas quando Kimberly L., outra das mulheres no escritório, também reclamou do assédio de Ferrari. Gucciardo afirma que a sucursal estava tão fora de controle que os empregados que tinham reclamações a fazer costumavam apresentá-las a representantes de outros escritórios, presumindo que não conseguiriam uma resposta satisfatória em uma sucursal que dependia tanto das vultosas comissões de Ferrari. A gerência da sucursal chegou até mesmo a tentar pressionar Kinberly L. a se retratar de sua queixa. Gucciardo declarou que no dia seguinte, depois que Kinberly L. apresentou ao RH sua reclamação sobre Ferrari, o próprio a interpelou dizendo “Você não sabe com quem está se metendo”.

Quando Kimberly, que não quis comentar, reclamou sobre Ferrari para um gestor do escritório, recebeu, segundo Gucciardo, uma resposta ríspida: “Não há nada que possamos fazer. O Mario é o Mario. Melhor se acostumar com isso.”

A despeito do histórico de Ferrari, uma pessoa que tenha acesso aos seus registros regulatórios estaduais hoje só irá descobrir que ele recebeu “autorização para se demitir” da Edwards em outubro de 2001, o mesmo mês em que Sandra D. ajuizou sua ação, em razão de “práticas comerciais inaceitáveis”. (Ferrari também havia acumulado três reclamações de clientes nos meses anteriores, por questões como a realização de transações não autorizadas.) Ele conseguiu um novo emprego em uma corretora apenas cinco dias depois de ser colocado para fora da Edwards, e permaneceu no mercado de valores mobiliários por mais 13 anos.

Sandra D., contactada por meio de seu advogado, não quis comentar. Os registros da FINRA, porém, não trazem nenhuma indicação de que ela tenha permanecido no setor. As transcrições do procedimento arbitral indicam que a experiência foi arrasadora para ela. Seu advogado descreveu o assédio como tão traumático que, para tentar evitar abusos futuros, ela acabou fazendo uma cirurgia de redução de seios. Ela também enfrentou uma avalanche de acusações durante o procedimento: Edwards alegava que ela teria sido demitida por falta de etiqueta ao telefone, por se trajar de forma inadequada e por navegar em sites pornográficos. Segundo seu advogado, essa acusação se baseava no simples fato de que uma janela pop-up com anúncio pornográfico tinha aparecido em sua tela enquanto verificava preços de ações em um site gratuito.

Depois que Edwards recorreu, Sandra D. aceitou um acordo por um valor não divulgado, possivelmente inferior.

Impunidade extrema

As carreiras de outros assediadores em série prosperaram. Tome-se o caso de Mark Grant, que foi alvo de reclamações de diversas mulheres em duas empresas diferentes nos anos 1990.

Grant era vice-presidente executivo e chefe do departamento de títulos do tesouro na Rodman & Renshaw Inc., sediada em Chicago, em 1992, quando Susan Jaskowsi, hoje Susan Mendelson, ex-chefe do departamento de recursos humanos, processou a corretora, afirmando que teria sido demovida ao retornar da licença maternidade, substituída por um homem que recebia 40% a mais. Ela não incluiu Grant como requerido, mas alegou que, enquanto trabalhava no RH, ele a teria instruído a selecionar apenas “mulheres jovens e atraentes” como candidatas às vagas de emprego, e, durante sua gravidez, teria tocado em sua barriga e comentado que os seios das mulheres aumentam de tamanho quando ficam grávidas.

No ano seguinte, em meio a relatos de que várias outras mulheres haviam apresentado reclamações de assédio contra a Rodman na EEOC, autoridades do Estado de Illinois decidiram que a empresa estaria excluída da participação em uma emissão de títulos estaduais, um revés constrangedor para a corretora.

Poucos dias depois, surgiu uma nova acusação contra Grant. Jeannine F., assistente comercial na empresa, ajuizou uma ação cível, alegando que Grant teria direcionado a ela comentários sexuais indesejáveis e se referido a ela como “lixo”. Não conseguimos entrar em contato com Jeannine F., que à época descreveu um incidente em que teria se abaixado para colocar um protetor no pé da mesa de Grant, e percebera que ele estava olhando seu decote. “Você vai ser uma boa esposinha e dona de casa um dia”, ela se lembra de ouvir dele.

Um ano depois dessa ação, outra assistente comercial da Rodman, Caroline B., também ajuizou uma ação incluindo Grant como réu. Em sua petição inicial, ela alegava que Grant teria dito que a descrição de seu trabalho seria “deitada de barriga pra cima” e que ele “lançava olhares e comentava a respeito” dos seios de mulheres grávidas. Caroline B. deixou o setor e hoje é corretora de imóveis no Estado de Washington; ela não respondeu aos nossos pedidos de entrevista.

A despeito da crescente lista de reclamações a respeito de Grant, a Rodman informou aos reguladores que ele tinha sido demitido por motivo de “reestruturação gerencial”, e dali a um mês ele já tinha conseguido um novo emprego em uma corretora de Nova York, Josephtal Lyon & Ross. Os processos de Mendelson e de Jeannine F. terminaram em acordo quando ele já estava no novo emprego.

Em seis meses e meio na Josephtal, Grant já era alvo de nada menos que seis acusações de assédio sexual, segundo uma ação que a empresa ajuizou contra ele na Associação Nacional de Negociadores de Valores Mobiliários, antecessora da FINRA. Os documentos mostram que a Josephtal demandou US$387.596 para cobrir os gastos com o acordo e as custas judiciais relativas à campanha de assédio de Grant. Embora ele negasse ter assediado uma das requerentes e dissesse que não teria praticado “nenhuma conduta inadequada” em relação às demais, o painel da FINRA considerou que ele era responsável e deveria pagar uma “indenização compensatória” à empresa – restrita a meros 22 mil dólares. Uma vez que a ementa fazia referência a outras acusações contra Grant, como quebra de contrato, essa indenização modesta pode nem ter sido relativa ao assédio sexual. Os registros de Grant mostram que ele saiu voluntariamente da empresa, e ingressou na Prudential Securities logo depois.

Escondida na ementa estava uma afirmação perturbadora. Os árbitros destacaram que o presidente da Josephtal teria discutido as acusações anteriores com Grant quando ele foi contratado, em 1994, e que “Grant concordara em ter cuidado para que acusações semelhantes não surgissem”, o que significava que a empresa sabia muito bem dessas acusações anteriores relativas a seu comportamento quando o contratou.

A despeito desse histórico, a carreira de Grant progrediu bem. Em janeiro de 2018, depois que ele já havia trabalhado por algum tempo em seis empresas diferentes desde 1975, quando se tornou corretor, a corretora de investimentos B. Riley Financial, de Los Angeles, anunciou que acabara de contratá-lo como diretor administrativo e estrategista-chefe global. Um comunicado à imprensa citava o CEO da empresa: “Estamos empolgados com a chegada de Mark”, e alardeava que Grant teria sido selecionado como um dos 15 “Profetas da Bloomberg” – gurus de Wall Street que ofereciam conselhos sobre os mercados.

Grant se recusou a comentar, dizendo “Não tenho nada a dizer, obrigado. Não volte nunca mais a me ligar.” A Oppenheimer & Co., que incorporou a Josephtal, também se recusou a comentar, assim como o Wells Fargo, que incorporou a Prudential Securities. A Rodman & Renshaw hoje está sob controle conjunto com a H.C. Wainwright, que não respondeu às tentativas de contato. A B. Riley Financial também não respondeu.

Mendelsohn, porém, me contou que, desde então, abandonou sua carreira no mercado financeiro, e passou a trabalhar como captadora de recursos para universidades. Ela disse que fica triste por saber que uma série de processos de assédio sexual não teve qualquer impacto sobre a carreira de Grant. “Dinheiro é poder”, disse ela, “e o poder é recompensado”. Das cinco outras mulheres identificáveis que entraram com ações contra a empresa ou contra Grant – Jeannine F. e Caroline B. na Rodma, e três outras mulheres cujos processos foram mencionados na ação da Josephtal – não há indício nos registros da FINRA de que nenhuma tenha permanecido no setor.

Em outro caso, um operador preso sob acusação de estupro conseguiu se safar e manter sua carreira intacta.

Nas semanas que se seguiram ao colapso do Lehman Brothers, os operadores de Wall Street saíam bastante para beber. Num dia de muito stress, uma funcionária da equipe de apoio da mesa de vendas do Merrill Lynch, em Nova York, se reuniu a um grupo de colegas para relaxar no P.J. Clarke’s depois do horário de fechamento do mercado. Ela e mais três colegas tomaram alguns drinques no bar, dividiram uma garrafa de champagne no apartamento de uma delas, e seguiram até o Fanelli’s Cafe, no SoHo. Depois que o grupo decidiu encerrar a noite, ela convidou um colega de trabalho de outra mesa, Ken S. Kim, para ir ao apartamento dela fumar um baseado. Enquanto estavam lá, ele a estuprou, conforme o depoimento posterior dela à polícia.

Kim foi preso sob acusação de estupro, segundo os registros da FINRA, e o Merrill o demitiu. Kim, porém, pleiteou o enquadramento como uma simples contravenção de “coação de segundo grau”. Ele levou apenas cinco meses para encontrar outro emprego, como diretor do escritório de Nova York da Samsung Securities, onde permanece até hoje. Não foi possível localizar a vítima de Kim para entrar em contato, mas os registros da FINRA não trazem qualquer indicação de que ela tenha voltado ao mercado financeiro depois de sair do Merrill Lynch, em 2011. Perguntas enviadas a Kim por e-mail certificado para a Samsung Securities, seu atual empregador, não receberam resposta; a própria Samsung não respondeu às perguntas enviadas por e-mail; e o Merrill Lynch se recusou a comentar.

Você nunca mais vai trabalhar nesse mercado

Seja depois das arbitragens da FINRA ou das grandes ações coletivas dos anos 1990 e 2000, foi incrivelmente raro encontrar um homem que tenha sofrido consequências duradouras por assediar mulheres. Encontramos, porém, espantosas situações de homens que pagaram um preço alto por defenderem as mulheres assediadas.

É por esse motivo que o operador Jay Hohmann afirma ter perdido seu emprego na DLJ Securities em 1998. Hohmann testemunhou em um caso de arbitragem em favor de sua colega Marlene Jupiter, uma vice-presidente sênior que conta que seus colegas homens zombavam dela constantemente, chamando-a de “vaca” e de “lésbica”. Jupiter se recorda de um operador que disse a ela que, ainda que fosse a única mulher em um navio de guerra da Marinha, e chegasse nua com notas de cem dólares coladas nos seios, nem assim “conseguiria transar”. Vencedora do cobiçado prêmio “Super Achiever” (“Super Realizadora”) da DLJ, ela deixou sem alarde o emprego onde ganhava 850 mil dólares por ano. Só tempos depois, quando estava prestes a conseguir um emprego dos sonhos em outra empresa e seu chefe anterior, respondendo a um pedido de referências, a teria descrito como absolutamente incompetente, foi que ela se enfureceu e decidiu entrar com um pedido de arbitragem.

Hohmann, que disse ter ouvido o tal gerente desmerecendo Jupiter naquela ocasião, acabou sendo uma testemunha-chave do caso. Porém, em uma reunião a portas fechadas na sede da DLJ, Hohmann conta que dois advogados da empresa foram “muito hostis e beligerantes” e se colocaram diante dele, “encostando pé com pé, joelho com joelho, tão perto que, se eu tivesse tentado levantar do sofá, eles estariam no mesmo espaço”. Sentindo-se intimidado, ele mentiu quando perguntaram se ele tivera qualquer contato com Jupiter; na verdade, ele diz que havia ligado para ela para relatar os comentários depreciativos feitos pelo gerente. A DLJ o demitiu e incluiu em seus registros regulatórios que ele teria “dado declarações intencionalmente falsas”.

Jupiter perdeu a arbitragem. Uma única árbitra divergente, a única mulher no painel de três árbitros, considerou que Jupiter teria sido humilhada e diminuída por seus colegas, e observou que ela assumiu uma redução de 600 mil dólares em sua renda para sair da DLJ, acrescentando que “desafia o bom senso acreditar que qualquer pessoa razoável deixaria uma situação tão economicamente favorável a não ser que as condições de trabalho tivessem se tornado dolorosas demais de suportar”. Karina Byrne, representante do Credit Suisse, que adquiriu a DLJ, declarou por e-mail que o banco não pode comentar uma arbitragem de vinte anos atrás relativa a alegações contra uma empresa antecessora “uma vez que nenhum dos indivíduos envolvidos trabalha atualmente para o Credit Suisse”.

Vinte anos depois, Jupiter mora na Flórida e está envolvida com duas iniciativas de private equity. Ela diz que recordar o que aconteceu com ela e com Hohmann “ainda me embrulha o estômago”. Os assediadores não são prejudicados, avalia Jupiter, “e as mulheres são destruídas”.

Hohmann relata que também saiu do setor, e não conseguiu mais encontrar emprego no mercado financeiro desde que a anotação sobre a “declaração falsa” foi incluída em seu registro regulatório. Atualmente, ele depende da renda do aluguel de um apartamento e de serviços de faz-tudo para sobreviver.

Um homem que defendeu Stacy Passeri teve o mesmo destino. Jim DeMuynck, executivo da área de seguros da New York Life Insurance Co., tornou-se amigo de Passeri quando os dois se conheceram em uma conferência; ele tinha também contatos comerciais esporádicos com ela. Numa das vezes em que se encontraram com Dahlquist para uma reunião de negócios em um restaurante, DeMuynck conta que viu Dahlquist “colocar a mão para baixo da mesa e começar a deslizá-la para dentro da saia de Passeri” – um episódio que ele posteriormente relataria ao júri.

Ele se recorda que ela subitamente pediu licença para ir ao banheiro.

Nas semanas que antecederam o julgamento, o nome de DeMuynck apareceu na lista de testemunhas, e ele relata que recebeu várias ligações anônimas assustadoras em seu telefone comercial. Um interlocutor teria dito que, se depusesse no caso, ele não ficaria vivo até o fim de semana. Outro disse que a “bela gravata azul” que ele estava usando naquele dia podia acabar ficando vermelha. Um outro, ainda, fez a ameaça de que, se depusesse, ele nunca mais trabalharia nesse mercado. Às vezes as vozes eram alteradas mecanicamente. “Chegou a um ponto em que eu não queria mais sair de casa depois que escurecia”, conta ele.

A despeito das ligações, ele depôs no julgamento, afastando uma tentativa do advogado de defesa de desacreditá-lo com a falsa alegação de que ele teria uma relação amorosa com Passeri. Pouco depois, ele foi demitido da New York Life. DeMuynck considera que estava sendo retaliado, num mercado tão restrito, por depor. “Eu nunca tinha feito nada de errado, ou nada que pudesse arruinar meu nome”, ele conta, “mas de repente era como se eu tivesse lepra”.

“Qualquer alegação de que o Sr. DeMuynck tenha sofrido uma retaliação é completamente falsa”, disse Jacqueline Meere, representante da New York Life, que acrescentou que a empresa tem “políticas fortes contra assédio sexual e retaliação”.

Mas Nancy Erica Smith, uma advogada trabalhista de New Jersey que já representou mulheres de alto escalão, como Gretchen Carlson, em processos de assédio, diz que é assim que o sistema funciona. “Um funcionário de determinada empresa que apoie ou auxilie um funcionário de outra empresa vai sofrer retaliação”, diz ela. “Isso viola o código deles”.

DeMuynck acabou se tornando um paramédico do serviço de emergência, e depois conseguiu um emprego na área de vendas em outro setor. Ele calcula que sua perda de renda, no total, foi de mais de um milhão de dólares.

Um clube de campo de Long Island

O caso mais lendário da era #MeToo de Wall Street foi o que ficou conhecido como o processo da “Sala Bum-Bum”, ajuizado mais de duas décadas depois do histórico acordo de O’Bannon com o Merrill Lynch que permitiu às mulheres ingressarem no mercado financeiro.

O caso envolvia a sucursal de Long Island do Smith Barney, onde as festas eram frequentes, e que era chamada por seu todo-poderoso gerente, Nicholas Cuneo, de “o maior bordel de Garden City” – além disso, ele informava rispidamente às candidatas a vagas de emprego que não pagaria a elas o mesmo salário que pagava aos homens. No sombrio porão da sucursal, Cuneo e seus comparsas haviam instalado uma sala de festas, onde havia um vaso sanitário pendurado no teto e um balde de lixo de plástico para gelar a cerveja. Os corretores, homens, diziam que “lidariam” com as mulheres no espaço de festas, que eles apelidaram de “Sala Bum-Bum”.

Pamela Martens, uma das corretoras da sucursal, entrou uma vez na tal Sala Bum-Bum, onde Cuneo a agarrou e a beijou nos lábios. Martens vinha questionando a discriminação de gênero na sucursal desde 1988, quando a empresa ainda era conhecida como Shearson Lehman Brothers, antes de ser comprada pelo Smith Barney, e já tinha escrito ao CEO da época, dizendo que as mulheres “não eram bem-vindas” e que um corretor homem havia recentemente dito a um visitante que eles iriam se livrar de todas as mulheres porque elas “não estavam dando certo”.

Seis anos depois, sem nenhuma intervenção relevante da administração, as coisas haviam piorado ainda mais, e Martens decidiu procurar o novo diretor de operações do Smith Barneys, um promissor executivo chamado Jamie Dimon. Em 3 de outubro de 1994, ela enviou a Dimon uma carta de seis páginas. A carta começava dizendo: “escrevo para solicitar sua avaliação sobre o problema sistêmico de assédio sexual, discriminação sexual e conduta lasciva” de Cuneo. Depois de enviar a carta a Dimon, que orientou o RH e o departamento jurídico do Smith Barney’s a analisar as alegações, Martens começou imediatamente a sofrer retaliação. Ela ficou sabendo que Cuneo teria dito a vários corretores que quebraria o pescoço dela caso as reclamações prejudicassem sua carreira.

No fim das contas, a administração enviou uma carta a Martens, dizendo a ela para parar de arrumar confusão, e então encontrou um motivo para demiti-la – ela havia se recusado a comparecer a reuniões obrigatórias onde estariam presentes colegas que tinham praticado assédio contra ela. Embora tenha se tornado a principal autora na histórica ação de 1996 contra a empresa, ela se opôs aos termos do acordo e abandonou o processo. O Smith Barney terminou pagando 150 milhões de dólares, mas Martens nunca recebeu um centavo.

Ela acabou conseguindo reconstruir seus negócios; hoje aposentada como corretora, escreve um blog que expõe os podres de Wall Street. Das outras três requerentes originais da ação, uma se demitiu e nunca mais trabalhou no mercado financeiro. Só uma outra conseguiu manter seu emprego na sucursal.

E Cuneo? Sete anos depois que Martens se insurgiu pela primeira vez, dezenas de estrelas do Smith Barney brindaram à saúde de Cuneo em sua festa de aposentadoria. Em um clube de campo de Long Island, com um luxuoso campo de golfe ao fundo, o alto escalão da sede de Nova York e os gestores de Long Island festejaram as décadas de Cuneo na empresa. A administração já havia concluído o que a empresa descreveu como “avaliação intensiva” de Cuneo e de sua sucursal. Mas a partida dele, segundo consta dos seus registros regulatórios, foi uma “aposentadoria normal”.

“Eles o protegeram até o fim”, diz Keegan.

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Ilustração: Zoë van Dijk/The Intercept

Um rastro de abuso

Se não fosse pela extrema falta de transparência acerca do assédio sexual nas instituições financeiras, talvez Passeri nunca tivesse encontrado Mike Dahlquist em seu caminho.

Dez anos antes que Dahlquist assediasse Passeri nas reuniões com clientes em San Francisco, uma colega, Erin R., ajuizara contra ele uma ação cível. Os dois tinham trabalhado juntos numa empresa de seguros, a Equitable Life Assurance. O advogado de Erin R. descreveu a petição inicial como tão explícita que “precisava ter sido entregue em um saco lacrado”.

Como Passeri, Erin R. tinha sido subordinada de Dahlquist, que no final dos anos 1980 era gerente regional da empresa em San Francisco, onde Erin R. era agente de vendas. Como Passeri, ela precisava acompanhar Dahlquist em visitas de campo aos clientes.

Erin tinha acabado de concluir seu MBA, em meados de 1989, quando foi entrevistada pela Equitable. Em 7 de agosto, ela assinou um contrato de trabalho de três anos.

Em sua ação, ela relatava que, duas semanas depois de ser contratada, enquanto estava no banco do passageiro do carro de Dahlquist, voltando de uma reunião de negócios, ele saiu da rodovia 101, parou seu carro numa via lateral, e tirou de dentro da calça seu pênis ereto. Depois de trancar portas e janelas pelo lado do motorista, ele esticou o braço “e empurrou a cabeça dela sobre seu pênis ereto para tentar forçá-la a manter cópula oral com ele”, segundo a petição inicial. Ele então ejaculou.

O horrendo relato de Erin R. sobre a violência sexual se estendia por páginas e páginas. Houve a carona de volta para o escritório depois de uma visita a um cliente, dois dias depois, em que Dahlquist mais uma vez tentou forçá-la a tocar seu pênis e “quase colidiu com um caminhão de dezoito rodas”. Outra vez, também no carro, dessa vez num engarrafamento, ele tirou o pênis ereto da calça e esfregou a mão esquerda dela sobre ele, num movimento de vai e vem – e ejaculou novamente. Na ação, ela diz que tentou libertar sua mão, mas “não conseguiu vencer a força dele”. Em outro incidente, ele a chamou em sua sala, trancou a porta atrás dela, e tentou forçá-la a manter relações sexuais. Dessa vez, segundo consta dos autos, ela “conseguiu escapar do seu alcance”.

Um mês depois desse incidente assustador, Erin R. foi demitida por Dahlquist, supostamente por “problemas de temperamento, aversão a seguir ordens, resistência e ressentimento”. Ela contou das agressões de Dahlquist ao supervisor do escritório, e sugeriu que o tal “problema de temperamento” a que Dahlquist havia se referido era sua resistência aos avanços dele. Consta dos autos que o supervisor então teria dito que esse tipo de conduta no lugar de trabalho era considerado “normal”.

Dahlquist negou as acusações de Erin R. no processo, mas eles acabaram chegando a um acordo confidencial, que também envolveu a Equitable.

Embora Erin não tenha respondido aos pedidos de entrevista, a ação descreve o impacto traumático que a experiência teve sobre ela. Segundo a petição inicial do caso, ela “não conseguia dormir à noite e frequentemente acordava gritando por causa dos pesadelos”, e ainda sofria de depressão, irritabilidade, náusea, enxaqueca e paranoia na sequência das agressões.

Dahlquist permaneceu na Equitable por 17 meses depois do ajuizamento da ação, e conseguiu um novo emprego na Transamerica Financial Resources imediatamente depois de sair.

O acordo foi confidencial, e a ação movida por Erin R. não foi incluída nos registros regulatórios de Dahlquist. Nem a Equitable, nem a Transamerica responderam às perguntas enviadas.

Quando, tempos depois, Passeri soube que estaria subordinada a Dahlquist na Pacific Life, ela só teve notícia de rumores sobre ele no escritório, e de sua tendência a fazer comentários inadequados. Foi só depois de ajuizar sua própria ação que o advogado de Passeri teve acesso aos diversos depoimentos que os advogados de Erin R. tinham obtido, e o histórico completo de Dahlquist como predador sexual veio à tona.

Oficialmente, Passeri venceu. Com o tempo, porém, ela começou a ver essa vitória como uma espécie de “letra escarlate”. Ela se viu desempregada ou atuando como consultora na maior parte do tempo, ao longo de 11 anos depois do julgamento, e só retornou ao ramo de seguros em 2013, para então deixar completamente o mercado financeiro. Ela atualmente é analista de negócios em uma empresa que dá consultoria a pequenas e médias empresas sobre questões financeiras e administrativas. A interrupção de sua carreira e de seu bem-estar foi “imensa”, ela disse, com uma perda de rendimentos bem superior a um milhão de dólares. “Eu estaria numa situação muito melhor hoje”, considera ela, caso nunca tivesse sofrido o assédio de Dahlquist.

A traumática experiência de trabalho na Pacific Life ainda a assombra. Até hoje, quando alguma viagem de trabalho a leva a aeroportos perto da região onde Dahlquist mora, ela fica nervosa. O medo é tão constante que, quando nos encontramos em um restaurante perto de sua casa, ela pediu que eu não revelasse a localização na matéria.

A despeito de ter sofrido dois processos, a carreira de Dahlquist aparentemente segue intacta. Ele se recusou a comentar essa matéria, mas os registros mostram que, fora um período de nove meses de desemprego logo depois do julgamento de Passeri, ele continuou em empregos bem remunerados no mercado financeiro. Ele saiu da Pacific Life em maio de 2003, um mês e meio depois do veredito desfavorável do júri. Em fevereiro de 2004, ele estava trabalhando novamente no setor, e desde então tem estado vinculado a corretoras, consultorias de investimento e seguradoras nos estados de Georgia, Maryland, Connecticut e Colorado. Ele está atualmente registrado como corretor no Leaders Group do Colorado, que não respondeu às perguntas enviadas.

Ainda hoje, o dossiê público da FINRA sobre ele não traz qualquer menção ao seu primeiro acordo com Erin R., nem ao veredito do júri no caso de Passeri. Segundo seus registros regulatórios, sua saída da Pacific Life foi voluntária.

Obstinadamente homens

O mercado financeiro criou o padrão de silenciamento contra as ações de empregados ofendidos. Wall Street venceu disputas judiciais na Suprema Corte sobre arbitragem compulsória três décadas antes que o The New York Times e a New Yorker revelassem, em 2017, as angustiantes histórias das mulheres vítimas do comportamento predatório de Harvey Weinstein. Nos anos que se seguiram às decisões favoráveis à arbitragem, em 1987 e 1991, ambas envolvendo corretoras, o mercado financeiro teve bastante tempo para desaparecer com os processos de discriminação de gênero em um sistema de arbitragem nada transparente, onde os nomes dos agressores raramente aparecem, e os precedentes não são completamente vinculantes. Em 20 de setembro, a Câmara americana aprovou o FAIR Act, que proibiria as empresas de incluir cláusulas de arbitragem compulsória em contratos que envolvam consumidores ou empregados. O projeto de lei, porém, agora precisa superar os entraves do Senado.

Houve um Harvey Weinstein em Wall Street? Se houve, suas vítimas já há muito tempo foram encaminhadas para arbitragens privadas, ou silenciadas por acordos de confidencialidade. Embora Michael Steinhardt, o fundador aposentado de fundos de investimento, tenha sido manchete no começo do ano por seu “padrão de assédio sexual”, as acusações partiram de mulheres em organizações que buscavam suas contribuições filantrópicas. Não surgiram acusações de dentro do mundo fechado do mercado financeiro. (Em uma declaração ao New York Times, Steinhardt disse que, embora tenha feito comentários “grosseiros e desrespeitosos”, ele nunca teria “tentado tocar de forma inadequada nenhuma mulher ou nenhum homem”.)

Quarenta e três anos depois do acordo no caso O’Bannon, os advogados trabalhistas relatam que os casos flagrantes de assédio e agressão sexual das primeiras décadas agora são bem mais raros. “É fácil esquecer de onde partimos quando vamos avaliar até onde ainda precisamos chegar”, reflete Linda Friedman, a advogada que teve um papel tão relevante nos primeiros casos contra Wall Street. “Minhas clientes veem a luz no fim do túnel e se orgulham de seu papel na batalha. Como em qualquer movimento, você obtém algum progresso e estabelece um novo padrão de normalidade. A partir daí, passa a querer mais progresso. Mas já estamos bem distantes da época das passadas de mão.”

No entanto, vários advogados trabalhistas entendem que o assédio sexual ainda não desapareceu completamente. Ele se tornou mais disfarçado, afastado dos olhares públicos no escritório e direcionado a encontros privados em que os assediadores conseguem evitar testemunhas.

No que se refere à discriminação de gênero de forma mais ampla, é difícil defender que Wall Street tenha implementado mudanças drásticas. Dei aos responsáveis pelo setor uma chance de apresentar dados que comprovassem o progresso das mulheres na carreira de corretagem financeira, mas não tive resposta. Quando perguntei à SIFMA a proporção de mulheres entre os corretores em 1996, o ano em que a ação da “Sala Bum-Bum” foi ajuizada, e como essa proporção teria mudado ao longo do tempo, a representante Katrina Cavalli disse por e-mail que não tinha esses números, e me encaminhou para a FINRA. Entrei em contato com a FINRA, que supervisiona os registros dos corretores, e uma representante disse que eles também não tinham esses números – e sugeriu que eu entrasse em contato com a mesma SIFMA. Tentei falar em seguida com o Merrill Lynch, que tinha uma meta, estabelecida em sua extensão de acordo com a EEOC no caso O’Bannon, de que 25% das novas contratações de corretores seriam mulheres. Diante da pergunta sobre quantos corretores do Merrill atualmente são mulheres, o representante Bill Halldin se recusou a comentar.

Um palestrante em uma conferência do setor, em maio, citou dados da pesquisa de diversidade da SIFMA de 2018, que relatam que apenas 17% dos corretores no mercado são mulheres. Essa proporção está 8 pontos percentuais abaixo do nível estabelecido como meta pela EEOC para o Merrill Lynch, 39 anos atrás.

Em um dos processos judiciais mais importantes dos anos 1990, o acordo do Merrill Lynch de 1998 com as mulheres do caso Cremin, a empresa se comprometeu a realizar mudanças substanciais em seus procedimentos de distribuição das carteiras de clientes dos corretores que saíam da instituição. Quando um corretor se aposenta, pede demissão, ou é demitido, os colegas que permanecem podem se beneficiar bastante ao assumir as carteiras de quem está saindo. As mulheres que processaram o Merrill alegaram que os gerentes de sucursal, a maioria deles homens, favoreciam os corretores, também homens, na hora de distribuir essas carteiras. No acordo, a instituição concordou em começar a distribuir as carteiras com base em “padrões não discriminatórios”.

Porém, da mesma forma que as instituições financeiras encontraram uma forma de contornar a decisão da FINRA de permitir que as ações de discriminação fossem ajuizadas judicialmente, alguns corretores homens encontraram uma forma de burlar as reformas na distribuição de carteiras. Muitos deles agora trabalham em equipes, segundo Friedman, e várias dessas equipes são compostas apenas por homens. Se um corretor se aposenta ou sai da empresa, sua carteira simplesmente fica com os membros restantes da equipe – e não é disponibilizada para outras pessoas da sucursal. “É por essa razão que precisamos entrar com várias ações”, considera ela. “Precisamos nos manter vigilantes.”

As falhas na responsabilização deixaram marcas. Uma pesquisa com consultores financeiros feita no começo deste ano pela Investment News verificou que cerca de 80% consideram que o assédio sexual continua um problema no setor. A ampla maioria das mulheres que responderam à pesquisa – 60% – declarou ter sofrido experiências pessoais de assédio sexual no trabalho.

Enquanto isso, as pessoas em posições de liderança, de onde poderiam promover mudanças institucionais, continuam sendo obstinadamente homens. Dados da GAO constroem um retrato preocupante das possibilidades de avanço gerencial para mulheres em Wall Street. Relatórios da GAO mostram que a proporção de mulheres em posições gerenciais no setor de valores mobiliários permanece estagnada. Um desses relatórios verificou que as mulheres ocupavam 32,4% das funções gerenciais do setor em 2015; um relatório anterior havia apontado que eram 33,8% em 2004.

Da mesma forma, as mulheres que entram hoje com ações contra o assédio enfrentam as mesmas estratégias de retaliação que os empregadores usavam nos anos 1990 e no começo dos anos 2000, de acordo com os advogados trabalhistas. “Não vejo mudança nenhuma”, disse Nancy Erika Smith, a advogada trabalhista de Nova Jersey. “O que eles fazem ainda é atacar a vítima, obstruir a produção de provas e adiar o julgamento. Esse é o manual de instruções.”

Tradução: Deborah Leão