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Vista da rua Monaro, em Pambula, no estado de Nova Gales do Sul, quando a fumaça dos incêndios da região alcança a cidade, em 30 de dezembro de 2019.

Foto: Eric Byler

Quando minha família e eu ainda estávamos em perigo, escrevi um e-mail a um amigo* nos Estados Unidos:

Estamos a salvo, mas cercados pelos incêndios por três lados. O oceano será nossa rota de fuga, se necessário. Em outras cidades costeiras, as pessoas foram evacuadas pelo mar… Se as estradas forem abertas e as autoridades disserem que são seguras, sairemos imediatamente. Mas sabemos que isso não vai acontecer hoje. Então estamos entocados em nosso quarto de hotel, com um cobertor na fresta entre a porta e o chão, para que a fumaça não entre.

Minha esposa e meus filhos (de dois e quatro anos) são cidadãos australianos e norte-americanos. Há um ano nos mudamos para a Austrália, e tudo estava perfeito até a temporada de incêndios.

Nossa casa na capital, Canberra, é uma das mais seguras do país, próxima ao Parlamento e a órgãos equivalentes à CIA e ao Departamento de Estado.
Em 30 de dezembro, pegamos o nosso carro e fomos rumo à tão aguardada praia. O site de Bega Valley informava que a região não tinha sido atingida pelos incêndios e que se solidarizava com as áreas impactadas. Isso era verdade até a última hora da viagem, quando vimos uma enorme coluna de fumaça se erguendo sobre as montanhas à nossa esquerda.

Naquele momento, tínhamos construído castelos de areia. Retornamos ao quarto 9 da pousada Pambula Colonial Motor Inn. A estrada pela qual tínhamos viajado estava interditada devido ao incêndio florestal Wyndham, a apenas 20 km – isso somado às diversas áreas ao norte e ao sul de onde estávamos, que ardiam há semanas, significava que não tínhamos como sair.

A maior parte das queimadas (cerca de 100 até o momento em que escrevo este texto) ocorre em Nova Gales do Sul – a Califórnia australiana, em mais de um sentido. Embora o território da capital australiana esteja localizado nesse estado, acompanhei o processo de impeachment de Donald Trump muito mais de perto do que os incêndios. Havia alguns focos por perto, mas nosso único problema verdadeiro era a fumaça, que nos forçava a escolher entre o calor opressor dentro de casa, com as janelas fechadas, ou então deixá-las abertas permitindo a entrada da fumaça.

Na véspera de Natal, visitávamos nossa família em Berrima (Nova Gales do Sul), quando falei com um bombeiro australiano pela primeira vez. Como muitos que combatem o fogo no país, ele era um voluntário. Alguns dias antes, dois bombeiros – ambos pais, com filhos de mesma idade que os meus – tinham morrido.

Agradeci àquele homem por seu trabalho e sua coragem, e manifestei minha revolta em relação ao governo, que não fazia mais para ajudá-los. Ele disse que a comunidade de Berrima havia doado 30 mil dólares para concluir as obras da sede local do corpo de bombeiros – o governo havia bancado somente a construção das paredes exteriores. Contou-me também que os equipamentos utilizados não estavam à altura do combate às chamas. Relatou ainda que a população demonstrou seu apoio levando comida, água e outros insumos úteis ao local.

“A melhor parte são os lenços para bebês”, disse o bombeiro.

“Lenços para bebês?”

“Sim, porque ficamos cobertos de fuligem, e a água está escassa, então não a usamos para higiene. Os lenços refrescam e são agradáveis quando tocam o rosto. Carregamos minipacotes nos bolsos.”

Ele me disse a temperatura em Celsius que os bombeiros enfrentavam quando estavam perto das chamas. Não consegui calcular direito, mas me lembro de pensar: “Uau, são 10 graus a mais do que o Midnight Oil [grupo de rock australiano] dizia ao cantar que o deserto do oeste vive e respira.” Ou seja, 55 °C.

Modo de sobrevivência

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Rotatória próxima do centro de Pambula, no estado de Nova Gales do Sul, em 30 de dezembro de 2019.

Foto: Eric Byler

O sol ficou vermelho, e era difícil diferenciar o que eram nuvens e o que era fumaça. “Nuvens”, eu disse em dado momento, ao fotografar o sol sobre o antigo tribunal de Pambula. Mas posso ter me enganado.

Nos Estados Unidos, diríamos que Pambula é uma “cidade de um semáforo” – se houvesse um por lá. No centro da localidade, há uma rotatória conectada a quatro pequenas ruas, cada uma delas com lojas e restaurantes afastados de 100 a 300 metros um do outro.

O cheiro de fumaça estava espalhado por toda parte, inclusive em nosso quarto de hotel. Antes de colocar as crianças para dormir, eu cobria a fresta embaixo da porta com um cobertor pesado. Também enfiei seis sacolas plásticas no espaço que havia acima da janela do banheiro.

Fui dormir por volta das 2h, mas um de meus filhos me acordou às 3h, então não consegui mais dormir. Usei meu celular para conferir a situação dos incêndios Wyndham, Werri Berri e Kobargo, que bloqueavam nossas rotas de fuga, e do Mallacoota, que poderia nos atingir pelo sul. Também estabeleci diretrizes gerais para incêndios e emergências, e decidi fazer duas coisas assim que amanhecesse: 1) abastecer o carro e 2) comprar água e comida não perecível.

Quando o sol nasceu, às 5h15, eu seguia acordado. Pensei em sair para abastecer o carro, mas fiquei deitado com a expectativa de voltar ao sono. Consegui dormir às 7h. Às 9h30, acordei com meu filho de dois anos pulando sobre o meu peito: “Acorda, papai!”.

Minha esposa, Ariane, estava focada em metas parentais adequadas à uma típica manhã de férias: fazer as crianças tomarem café da manhã e levá-las para brincar fora de casa antes que elas ficassem loucas. Mas, de noite, os incêndios que nos cercavam geraram um acúmulo de fumaça tão elevado que não era possível ver o sol – para ser mais exato, não se enxergava a mais de 50 metros. Ariane decidiu que iríamos a uma piscina coberta.

Ela deu uma última dica: mantenha o rádio sempre ligado para ouvir as notícias.

Saí de casa e encontrei o carro coberto de cinzas. Uma mulher limpava seu automóvel a três vagas de onde eu estava. “Qual sua opinião sobre os incêndios?”, perguntei. Ela rebateu: “Você abasteceu o carro?”. Respondi que não, enquanto lembrava da pesquisa que tinha feito às 4h. “Bem, faça isso imediatamente. Se não conseguimos sair, significa que os caminhões de abastecimento não conseguem entrar. Os postos ficarão sem combustível em breve e daí você não terá como sair, mesmo que você consiga sair”, explicou. Ela estava certa. Nosso tanque tinha pouca gasolina. Embora estivesse ansioso, continuei o papo.

A mulher contou que estava preocupada com os amigos abrigados em acampamentos próximos, incluindo bombeiros que estavam de folga depois de terem combatido o fogo em Melbourne – um deles voltou para a cidade à noite, temendo que ficaria preso onde estava sem poder ajudar os amigos que, em breve, terminariam seu turno. Agradeci e me despedi, ao que ela deu uma última dica: mantenha o rádio sempre ligado para ouvir as notícias.

Nossa filha ainda acreditava que estávamos a caminho da piscina coberta, enquanto eu fechava o seu cinto de segurança na cadeirinha do carro, mas Ariane e eu já tínhamos decidido que iríamos direto ao posto. Ao chegar, encontramos uma enorme fila de veículos que se alastrava por mais da metade da extensão daquela pequena cidade. Essa visão, somada à densa névoa laranja, me lembrou um filme de catástrofe – e nos deu a primeira sensação real de que estávamos em perigo. Ariane informou as crianças: nada de piscina.

Julian chorou quando sua mãe saiu do carro, mas era necessário. Enquanto esperávamos para abastecer, Ariane caminhou até um solitário mercadinho de Pambula e encheu um carrinho com comida, água e fraldas. Em seguida recebi uma mensagem dela dizendo que a fila para pagar ocupava metade do estabelecimento e que ela nos encontraria no quarto do hotel em uma hora. Mais tarde, ela contou que a corrida por comida – da mesma que forma que a corrida por gasolina – tinha sido cordial e organizada. Mas também disse que ver a fila serpenteando pelo mercado lhe provocou um pânico inesperado.
Trinta minutos depois, a poucos carros de distância da bomba, vi um homem se dirigir ao caminhão que estava à nossa frente. Ele falou à janela com a mulher que estava ao volante. Ela mandou tudo às favas e acelerou, saindo da fila. Baixei o vidro quando ela parou para conferir se havia carros vindo em sua direção. Perguntei se havia terminado a gasolina. “Acabou o diesel”, ela respondeu.

Minutos depois, enchi o tanque com gasolina sem chumbo. Perguntei ao gerente quando o combustível ia acabar. “Em breve”, me disse. De volta ao hotel, Ariane passou o resto da tarde focada em diferentes aparelhos tentando saber mais informações sobre os incêndios e os bloqueios. Também se martirizou um pouco por ter planejado a viagem. Eu falei o que qualquer pessoa diria.

Tínhamos prometido férias na praia, agora estávamos refugiados em um hotel. Ariane então me pediu para sair e comprar brinquedos que ocupassem as crianças. “O suficiente para que possamos dá-los aos poucos”, ela disse, pois podemos seguir confinados no quarto por dias.

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Eric Byler distrai o filho no quarto de hotel enquanto sua filha, à esquerda, assiste televisão, em 30 de dezembro de 2019.

Foto: Cortesia de Eric Byler

Pambula é tão pequena que, em poucos minutos, consegui ir a uma farmácia, uma padaria e uma loja de artigos artísticos que vendia brinquedos. Na padaria, havia uma longa fila e um cartaz na janela dizendo: “Devido às condições atuais, estamos fechando mais cedo. Agradecemos a compreensão”. A empada vegetariana que Ariane pediu estava em falta, então comprei sete tortas de carne e uma rosquinha de chocolate.

Não seria a última vez que eu gastava de forma exagerada (naquela noite, uma comida tailandesa me custou US$ 83). Mas estávamos preparados para um período extenso de isolamento, e sentia um alívio quando encontrava o que levar para a minha família.

A névoa na rua era tão espessa que doía para respirar. Ao voltar para o hotel, tive uma ideia mórbida. Quando lia sobre mortes relacionadas a incêndios, sempre procurava as palavras “inalação de fumaça” e, ao encontrá-las, me confortava ao pensar que as vítimas não tinham morrido queimadas. Agora me dava conta de que esse tipo de óbito tampouco seria muito agradável.

Fiquei ainda mais preocupado quando retornei ao hotel, e Ariane disse que havia fumaça em nosso quarto. Eu pensava que o ar condicionado sobre a cama fazia circular o ar que já estava dentro do cômodo, mas talvez estivesse enganado. Liguei para a recepção. Steve, que mais tarde descobri ser o proprietário do estabelecimento, parecia estressado. “Tenho algumas perguntas, se você tiver um minuto”, disse a ele. “Já falo com você, um minutinho”, respondeu.

Julian estava tirando uma soneca. Quando Steve bateu, o convidei para entrar e lhe pedi que falasse baixo. Steve explicou que o ar frio vinha de uma unidade externa.

“Então é possível que o ar-condicionado traga fumaça para dentro?”, perguntei.

“Bem, é possível que isso aconteça”, ele disse.

Ariane falou em seguida: “Caso o fogo se aproxime, o que você… Ahm…”.

“Bem, se o fogo se aproximar, vou bater em todas as portas e dizer que precisamos sair. Estou monitorando a situação e aparentemente estamos bem no momento.”

“E para onde iríamos?”, perguntei.

“Eu iria à praia, é melhor do que ir a qualquer outro lugar.”

Preparamos nossos pertences caso tivéssemos que sair correndo – itens essenciais, como fraldas, foram colocados nas mochilas, para que nossas mãos ficassem livres. Depois de dar a primeira rodada de novos brinquedos para uma garotinha cética e um menino sonolento, Ariane me pediu para sair de novo. A Brigada Rural de Incêndios de Pambula tinha anunciado que o centro esportivo local estava disponível como “um lugar aonde se pode ir”. O espaço se tornaria o centro oficial de evacuações, caso fossem necessárias. Ariane queria que eu conferisse se estaríamos mais seguros naquele local. Disse a ela: “Se você pensar nas coisas que vamos compartilhar lá… Água, banheiros…”.

“O conforto não me importa”, ela disse. “Os bombeiros podem proteger um lugar grande, mas não conseguem proteger mil lugares pequenos. Por isso, todas as mortes são de pessoas que ficaram em suas casas.”

O Complexo Esportivo de Pambula ficava 2,6 km a oeste, na mesma estrada que pegaríamos, 24 horas antes, para ir à praia de Pambula, situada a 3,6 km.

Sugeri que Ariane assistisse ao vídeo que eu tinha gravado no local, mas ela disse que minha análise negativa havia sido suficiente. Ficaríamos no hotel aquela noite.

Depois de dar o meu melhor para comer US$ 83 de comida tailandesa, de repente me senti cansado e precisando muito dormir. Acordei um tempo depois com meu filho de dois anos novamente escalando meu peito. Abri os olhos e vi que ele tinha uma moeda de um dólar na boca. “Não!”, falei com veemência, e ele imediatamente tirou a moeda – o doce favorito de Julian, uma das delícias que Ariane tinha comprado para nos ajudar a atravessar o dia. Quando ele começou a se engasgar, eu não conseguia ver seu rosto. Naquele momento o som que ele fez não me preocupou. Talvez por eu estar tão grogue.

“O que ele tem na boca?”, perguntou Ariane.

“Uma moeda.”

Ela pegou nosso filho e o colocou sobre seus joelhos. Depois de alguns tapas nas costas, ele cuspiu a moeda.
Vieram então um trovão e um relâmpago, acompanhados de uma chuva leve. “Isso pode ser bom”, eu disse, olhando pela janela e sabendo que também poderia ser o contrário. Aprendi em minha pesquisa às 4h que incêndios são capazes de criar seus próprios sistemas climáticos, e que aquilo não era um bom presságio, e sim um mau sinal, pois os raios poderiam provocar novos incêndios. O relâmpago seguinte parecia ter caído na direção de três árvores do outro lado da rua, seguido de um trovão que balançou o teto. Por sorte não era um raio.

The remains of burnt out buildings are seen along main street in the New South Wales town of Cobargo on December 31, 2019, after bushfires ravaged the town. - Thousands of holidaymakers and locals were forced to flee to beaches in fire-ravaged southeast Australia on December 31, as blazes ripped through popular tourist areas leaving no escape by land. (Photo by SEAN DAVEY/AFP via Getty Images)

Ruínas de construções incendiadas na avenida principal de Cobargo, Nova Gales do Sul, em 31 de dezembro, depois que incêndios florestais devastaram a cidade.

Foto: Sean Davey/AFP via Getty Images

A chuva não seguiu por muito tempo. Às 21h, soubemos o seguinte: pai e filho tinham morrido tentando proteger sua casa do incêndio Cobargo, 70 km ao norte de onde estávamos, que destruiu a cidade de Wandella. Em Mallacoota, cerca de 80 km ao sul, as chamas forçaram centenas de pessoas a fugir em direção à praia, onde as evacuações eram realizadas pelo mar. O dia seguinte seria o mais frio da semana. A partir de então, as temperaturas aumentariam de forma constante. Além disso, o incêndio Wyndham, cerca de 20 km a oeste, havia sido contido e, portanto, a estrada Mount Darragh seria – ou estaria prestes a ser – reaberta.

“Se ficarmos presos em uma porra de praia como eles, uma hora ao sul de onde estamos, seria realmente traumático para as crianças”, Ariane disse.

“Ficar do lado de fora, respirar aquele ar horrível.”

“Você pensa no pânico que sente quando sua família está em uma situação de risco, e o quanto a população mundial vive aquilo diariamente.”

Já eram 22h30, 90 minutos após eu e ela termos concordado que, tão logo amanhecesse, escaparíamos pela estrada Mount Darragh. Mas Ariane gosta de rever decisões, e com frequência ela compartilha argumentos interessantes que resultam de suas deliberações internas.

Na mesma linha, comentei: “Acredito que se avançarmos antes do aumento da temperatura, há muito menos chances de um novo incêndio surgir no nosso caminho”. Pelo menos Ariane tinha compartilhado um novo pensamento. Eu já tinha dito a mesma coisa com outras palavras.

Enquanto nossos filhos dormiam, terminamos nossos preparativos. Ariane disse: “Você pensa no pânico que sente quando sua família está em uma situação de risco, e o quanto a população mundial vive aquilo diariamente”. Isso me fez lembrar que uma das razões que motivou nossa mudança dos Estados Unidos para a Austrália foi nossa incapacidade de lidar com a violência do uso de armas. No meu primeiro dia de cobertura do massacre de Sandy Hook, fui à coletiva de imprensa dos pais, mais ou menos uma semana após terem perdido os filhos. Também cobri seus esforços incansáveis e implacáveis depois da tragédia. Estive nas ruas de Charleston (onde um atirador matou nove pessoas em uma igreja). Na Austrália, pelo menos, nossas crianças estariam mais seguras, pensei naquela época.

Mas em 31 de dezembro de 2019 esse não era o caso – fora da linha de fogo, mas dentro do fogo. Durante as 12 horas que passamos digerindo esse fato, também precisávamos fazer todas as tarefas de pais, tais como proteger um menino de dois anos de se engasgar e confortar uma menina de quatro anos depois de ouvir o choro deles porque “Não fizemos nada divertido hoje!”. Como não se deixar abater? Constantemente minha esposa e eu tínhamos que fazer isso de forma imediata. Nos agarrávamos à normalidade de diferentes formas, enquanto entrávamos no modo de sobrevivência.

“De manhã, vou mexer nas comidas na geladeira, porque sei o que precisamos levar e o que podemos abandonar. Você pega os itens de higiene”, disse Ariane, 33 minutos antes do Ano Novo na Austrália.

“OK”, respondi. “E vou tentar encontrar Skye”, referindo-me a essa destemida cachorrinha que pilota um helicóptero no desenho Patrulha Canina, da Nickelodeon. À tarde, para sua tristeza, Julian tinha perdido seu bonequinho amado.

“A bebê Skye? Pensei que você estava com ela.”

“Nós trouxemos a bebê Skye e a Skye. Não sabemos onde a Skye está”, eu disse.

“Não é importante o bastante para perdemos nosso tempo”, insistiu Ariane. “Posso comprar um novo por UU$ 4.”

“Quatro, não”, eu disse. “Trinta e dois minutos para 2020”.

“Ótimo”, disse minha esposa.

Tinha estacionado o carro quando voltei com o jantar, antes de que soubéssemos em que direção o vento soprava e que não veríamos chamas no futuro a nossa frente. Terminei de fazer as malas às 23h58. Estávamos prontos para pegar as crianças e sair correndo.

Quando entrei de volta no quarto, Ariane se aproximou e, sussurrando, me explicou seu plano para a água. Em resumo: embora já tivéssemos duas garrafas d’água de 1,5 litro no carro, uma delas precisava ser trazida de volta e deveríamos bebê-la inteira de noite. A garrafa vazia e as outras duas do dia anterior deveriam ser enchidas com água da torneira e levadas na viagem.

Com essa questão clara, Ariane virou-se e foi em direção à única pia do quarto. “E não pise na comida”, acrescentou. Olhei para baixo e, aos meus pés, para minha surpresa, havia uma embalagem plástica com arroz e massa com frango satay.

“Não vou pisar na sua comida. É meia-noite”, eu disse. Ariane girou e me deu um abraço e um beijo. “Desculpa por ter nos forçado a fazer essa viagem”, disse.

“Ahm?”

“Bem, fui eu que fiz as reservas. Queria tanto ir para algum lugar.”

“Nossa vida no ano passado foi como essas férias; as férias foram como o apocalipse”, brinquei.
Nós dois rimos. “Feliz Ano Novo”.

Fuga

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Ariane olha pela janela do Colonial Motor Inn enquanto a fumaça segue se espalhando por Pambula, em 30 de dezembro de 2019.

Foto: Eric Byler

Saímos do hotel pouco depois das 7h. Julian estava acordado e comeu um punhado de cereais. Audrey foi carregada de sua cama para o seu assento e gradualmente abriu os olhos. Eu estava no volante e Ariane, a meu pedido, gravava vídeos.

Pambula, estava envolta em fumaça. Ainda que fosse um pouco menos densa, parecia uma forte neblina. Havia poucos carros na estrada.

Começamos a subir a montanha, retomando o caminho que tínhamos percorrido 36 horas antes. Cinco minutos depois, Ariane detectou que eu tinha entrado na estrada errada. Na pressa e fora dos meus hábitos, confiei totalmente no iPhone, que nos conduzia novamente para a estrada Snowy Mountains. Essa era a principal rota de Canberra para a costa sul, pela qual tínhamos ido rumo ao sul, próxima do incêndio de 68 mil hectares de Bega Valley, que ainda não tinha sido contido. As últimas notícias informavam que a autoestrada tinha sido reaberta, apesar do fogo, e que havia patrulhas policiais oferecendo assistência. Mas Ariane e eu tínhamos concordado em não desviar do nosso objetivo: a estrada Mount Darragh, próxima do incêndio Wyndham – muito menor, de 65 hectares, que embora ativo, estava controlado.

“Devo voltar?”, perguntei.

“Não sei”, disse Ariane segurando três iPhones.

Decidi sair da estrada. Uma SUV enorme estava na minha cola, mas consegui virar à esquerda e parar próximo a uma cerca de madeira atrás da qual dois cavalos pastavam calmamente.

“Sim, vamos voltar”, disse Ariane.

Fizemos isso e em seguida cruzamos novamente pelo nosso hotel.

O contraste era chocante. Ao contrário do caminho para a estrada Snowy Mountains, onde pelo menos havia alguns poucos carros, éramos os únicos que iam em direção ao Wyndham. Isso por si só pode não ter nos tranquilizado, mas ainda por cima vimos que a fumaça piorava à medida que avançávamos. A Mount Darragh era pequena, remota e ventosa. A maioria dos acostamentos não tinha guarda-corpos. E o pior de tudo, perdemos o sinal dos telefones.

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Vacas pastando em meio à fumaça, ao lado da estrada Mount Darragh, em 31 de dezembro de 2019.

Photo: Eric Byler

Embalados pela trilha sonora do desenho animado Daniel Tigre, Ariane retomou os motivos pelos quais ela recomendaria aquela estrada. Os argumentos seguiam fazendo sentido para mim. Incêndio menor, controlado, estradas prestes a serem abertas e sem notícias de problemas. Mas a perda do sinal de telefonia levou Ariane a sugerir que déssemos meia volta. “Se algo acontecer, não teremos como pedir ajuda”, ela disse.

Seguimos em frente. A fumaça ficou mais espessa. As placas indicavam diferentes limites de velocidade, dependendo do ângulo das curvas. Ariane lia os números, acrescentando, a cada vez, “em condições normais”, implorando para que eu reduzisse a velocidade.

“A fumaça não impacta as condições da estrada, somente a visibilidade, que é sempre limitada pelas curvas”, disse a ela.

Nossa fuga dos incêndios na Austrália.

Decidimos que nossa melhor rota de fuga era atravessar a montanha. Isso significava ir em direção ao fogo mais próximo, mas evitaríamos um maior ao norte. A história da #AustralianFires será publicada no @theintercept em breve.

Pouco tempo depois, um carro pequeno passou a nos seguir, o que fez nos sentirmos melhor. Não éramos os únicos. E agora, se algo acontecesse, pelo menos alguém ficaria sabendo.

Fiquei abismado quando chegamos à pequena cidade de Wyndham tão rápido. Na minha cabeça, tinha imaginado que o incêndio mais próximo não estaria tão perto. Estávamos passando pelo incêndio, não conseguíamos ver muita coisa, que dirá as chamas. Ao contrário dos focos maiores e mais ferozes da região, o fogo do Wyndham esmorecia e não tinha destruído a localidade homônima.

Dirigimos cerca de uma hora sem sinal de telefone, mas Ariane tinha feito capturas de tela da rota, e erramos o caminho somente uma vez. Quando isso aconteceu, o carro atrás de nós fez o mesmo. E quando os dois veículos retornaram, nós passamos a seguir o outro automóvel.

Na rotatória da cidade seguinte, nossos companheiros de viagem sem rosto tomaram uma direção diferente. Mas foi mais ou menos nessa hora que recuperamos o sinal do celular e fomos nos sentindo melhor a cada curva. Tínhamos saído das montanhas. Sem mais precipícios ao lado da estrada. Mais e mais carros foram aparecendo e, depois de aproximadamente duas horas de viagem, começamos a ligar aos nossos familiares para avisar que estávamos a salvo.

#AustralianFires = a visibilidade da estrada em meio ao fogo. Eu estava com meus filhos, com idades entre 2 e 4, e minha esposa comigo no carro. Nossa história será publicada em breve – siga @theintercept para vê-la primeiro. @RyanGrim

Para nosso espanto, a fumaça nunca desapareceu. Após mais de quatro horas de viagem, chegamos a Canberra para encontrar (soubemos mais tarde) as piores condições de ar já registradas. Escapamos dos incêndios da costa sul, mas não da fumaça que eles provocaram. Depois de algumas horas de normalidade – na qual Audrey e eu fomos às compras e adquirimos uma nova Skye para Julian –, Ariane e eu começamos a voltar ao modo de sobrevivência. Aprendemos que é melhor não resistir a ele.

Ariane e eu começamos a voltar ao modo de sobrevivência. Aprendemos que é melhor não resistir a ele.

Escrevo este texto às 3h do dia 2 de janeiro, na Austrália. Há mais de 100 incêndios em Nova Gales do sul e Victoria, os dois estados com maior população no país. Mais cinco pessoas estão desaparecidas ou foram consideradas mortas no incêndio de Cobargo. Enquanto estávamos em Pambula, um bombeiro morreu em serviço, na cidade de Jingelic, Nova Gales do Sul. No mesmo estado, o incêndio Mallacoota, em Victoria, juntou-se ao Weir Road – o incêndio que resultou desse encontro foi chamado de Border. Não há limites de contenção. Navios e helicópteros militares foram mobilizados para resgatar milhares de pessoas – muitas das quais, passando férias no litoral – que seguem impedidas de se deslocar.

A prefeita de Bega Valley Shire, Kristy McBain, cujas informações e liderança nos ajudaram a escapar, declarou em uma reunião virtual de emergência, algumas horas atrás, em Eden: “Se você está se preparando para sair, saia cedo. Se você vai ficar e defender o seu lar, assegure-se de que está totalmente preparado.”

Ela orientou a quem desejasse fugir que viesse para Canberra.

Enquanto isso, tapei todas as portas e muitas das janelas da nossa casa, mas o cheiro de fumaça segue presente em todas as peças. Não sabemos o quão pior vai ficar. Mas os próximos dois meses normalmente são mais quentes do que os dois anteriores. Hoje de noite, mais cedo, Ariane e eu conversamos sobre levar as crianças a Sidney, em um voo para Darwin (a cidade mais ao norte da Austrália), e comprar uma máquina para filtragem do ar – esse tipo de equipamento está esgotado em todos os sites australianos e provavelmente em todas as lojas.

Ariane me mostrou o rascunho de um post para o Facebook em que ela expressa gratidão pelos bombeiros e pesar por aqueles que hoje perderam suas vidas. Ela termina com algo do tipo: “O presente da Austrália é o futuro do planeta. O aquecimento global continua e é assustador”.

*O amigo é um editor do The Intercept de quem fui colega quando vivia nos Estados Unidos trabalhando como produtor e repórter do The Young Turks.

Tradução: Ricardo Romanoff