Na semana passada, o Brasil e o mundo se chocaram com a proximidade de um membro do alto escalão do governo com a ideologia nazista. O inacreditável vídeo cheio de referências nazistas e o discurso que plagiou Goebbels, ministro das Comunicações de Hitler, derrubaram o secretário de Cultura Roberto Alvim. Enquanto isso acontecia, evidenciando o total despreparo e o apreço de setores do governo por regimes autoritários – algo que, sabemos, não vem de hoje e não é restrito ao nazismo –, parte da esquerda resolveu defender publicamente… outros regimes autoritários.

Parece inacreditável – e é. O historiador e influenciador marxista Jones Manoel não corou em falar publicamente que matar pessoas em uma revolução “é uma contingência que acontece”. Fuzilar uma família aqui, matar outros tantos milhões de fome ali, torturar e assassinar indiscriminadamente e promover o terror entre os dissidentes. Assim mesmo. É normal, efeito colateral.

Também teve uma ala do Psol que resolveu exaltar Vladímir Lênin nesta semana, em lembrança ao aniversário de 96 anos da morte do comunista, um dos líderes da Revolução Russa de 1917 e o primeiro governante da União Soviética. A deputada Talíria Petrone, do Psol carioca, o elogiou “pelo exemplo e pelos escritos”. Se entregou de bandeja para a direita, que mais uma vez alimentou o fantasma anticomunista que acaba tragando a todos nós.

Esse texto não é uma crítica a correntes teóricas específicas de esquerda. Cada um defende o que quiser e nós defendemos esse direito até o final – não podemos falar o mesmo de partidários de regimes autoritários. O que criticamos é a postura muitas vezes ingênua de parte da esquerda que, imersa em conceitos teóricos e na busca pela pureza ideológica, acaba escorregando nas cascas de banana que a direita joga no caminho. Essa foi uma delas. É importante que a esquerda seja ampla, diversa e comporte diferentes visões de mundo. Mas é importante, também, saber como tudo isso vai ser usado na guerra cultural. Especialmente em um momento em que a popularidade de Bolsonaro cresce, mesmo com todas as tragédias em seu governo, e o presidente fala abertamente que “gente de esquerda não é normal“.

Estamos sob um governo fascista. Ponto. A esquerda é múltipla e comporta alas mais radicais e mais moderadas. Ainda assim, mesmo que tenha gente que siga piamente acreditando que o regime bolsonarista possa ser derrubado com uma revolução do proletariado, o cenário mais pragmático – e evidências de outros países reforçam isso – aponta que o único jeito de derrotar um governo autoritário é formando uma coalizão. Para isso, é preciso que exista gente disposta a abrir mão de certos valores e divergências irreconciliáveis em favor de (muitos) pontos em comum e dar a mão pro amiguinho que não pensa exatamente como nós para disputar o pouco espaço democrático que ainda nos resta.

Alimentar o fantasma anticomunista que traga a todos nós torna a direita mais forte.

Em tempos em que a imprensa segue sendo perseguida, censurada e ameaçada e direitos básicos estão sob ameaça, não faltam elementos para juntar quem está minimamente disposto a lutar pela democracia em torno do maior dos bens – a liberdade de divergir. Saber negociar e se reunir em torno de pautas comuns é fazer política.  Ninguém ganha nada negando-a, pelo menos no regime democrático de coalizão em que (ainda) estamos.

Um exemplo: quando o deputado Marcelo Freixo, também do Psol, votou a favor do pacote anticrime do ministro Sergio Moro, ele foi massacrado por uma parte da esquerda. Para essas pessoas, não importava que a pior parte do pacote havia sido derrubada na votação: importava que um “dos seus” tinha traído seus ideais. São provavelmente as mesmas vozes que, coisa de um ano atrás, aplaudiram o apoio do PT à ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela – o que, vale lembrar, também alimentou a paranoia anticomunista.

O PSDB também é outro partido que, à sua maneira, tem tentado mamar nas tetas do radicalismo – neste caso, de direita. No Twitter, o partido não perde uma chance de relativizar o governo Bolsonaro com o velho “mas e o PETÊ?”, tentando comparar os arroubos antidemocráticos do atual governo à gestão petista. Os tucanos tentam recuperar sua parcela do antipetismo sem se darem conta de que já a perderam para o espectro radical e antidemocrático. Em vez de reconquistar o eleitorado social-democrata e o centro – o que passa obrigatoriamente por algum tipo de aproximação com o maior partido de esquerda do Brasil, que, me desculpem, ainda é o PT –, o partido desliza para a extrema-direita.

Não é só inútil: é contraproducente. Se estendesse uma ponte ao petismo, em vez de tratar o partido surgido de lutas em comum como uma organização criminosa, os social-democratas (eles ainda existem no PSDB?) quem sabe constrangessem a turma de Lula a finalmente sair da covarde – mas até certo ponto compreensível – e eterna negação dos escândalos em série de mensalão e petrolão rumo à necessária autocrítica. Ganhariam, com isso, todos os que ainda acreditam na democracia.

No debate político, marcado pela superficialidade e pelo analfabetismo funcional, tudo vira arma nas mãos do inimigo.

Quando parte da esquerda ou centro-esquerda que tem visibilidade e cargos públicos usa esses pressupostos para defender o extremismo, ela alimenta a polarização. Com isso, fortalece a narrativa que criminaliza e desumaniza a esquerda como um todo, beneficiando mais uma vez o bolsonarismo e a extrema-direita que se alimenta disso.

A sociedade polarizada é o que permite que emerjam governos fascistas. A democracia pressupõe conviver com o diferente e até, em certos casos, fazer alianças com ele. “Quando nós concordamos com os nossos rivais políticos em pelo menos parte do tempo, estamos menos propensos a vê-los como inimigos mortais”, escreveu o cientista político Steven Levintsy no já clássico ‘Como as Democracias Morrem‘. A corrosão de princípios básicos de convivência e respeito às instituições democráticas é o que cimenta a passagem de líderes autocratas e tiranos.

Os modelos políticos têm suas nuances e complexidades. Não há preto no branco, nós sabemos. A esquerda é complexa, heterogênea e a maior parte das pessoas que se classifica nesse espectro político têm total aversão a regimes ditatoriais – nós estamos entre eles. Mas, no debate político, marcado pela superficialidade e pelo analfabetismo funcional – só 30% dos brasileiros não conseguem ler e compreender um texto – tudo vira arma nas mãos do inimigo. Tudo o que eles querem é uma razão para nos jogarem ao extremo e minarem qualquer chance de aliança ou debate – e eles estão conseguindo. Estamos em uma guerra de narrativas e, se não agirmos estrategicamente agora, vamos inevitavelmente continuar perdendo.

ATUALIZAÇÃO: 22 de janeiro, 22h30
O nome do historiador é Jones Manoel, e não Jones Manuel, como estava escrito. A grafia foi corrigida. O texto também informava que 30% dos brasileiros sabem compreender um texto – na verdade, não sabem. A porcentagem havia sido invertida e foi corrigida.