Sede do Banco Nacional do Desenvolvimento Social (BNDES), na região central do Rio de Janeiro.

Sede do Banco Nacional do Desenvolvimento Social (BNDES), na região central do Rio de Janeiro.

Foto: Lucas Tavares/Folhapress

Quando Michel Temer nomeou o economista Paulo Rabello de Castro para a presidência do BNDES, o historiador e comentarista da Jovem Pan Marco Antonio Villa lançou um desafio: que o novo presidente passasse um pente fino em todas as operações do banco e apresentasse um relatório em três meses que mostrasse a roubalheira.

Assim como outros figurões da grande mídia brasileira, Villa estava obcecado pela certeza de que o banco foi sistematicamente surrupiado pelas gestões petistas — os resultados de uma busca por “Villa + BNDES” no YouTube dão uma ideia do tamanho dessa obsessão. Sobravam convicções, mas faltavam fatos.

O então presidente do BNDES aceitou o desafio. Após os primeiros 45 dias de gestão, ele foi à Jovem Pan prestar contas para Villa. Para o espanto do comentarista, Rabello elogiou a organização, o rigor ético e a competência que encontrou no banco. Disse ainda que não houve empresas privilegiadas e que todas as operações foram aprovadas depois de passar por mais de 30 técnicos de carreira. Villa permaneceu incrédulo, mas ao final da entrevista, um dos apresentadores disse que mudou de ideia: “a gente tinha quase certeza que o BNDES era o financiador daquele amontoado de manchetes dos jornais brasileiros. Hoje, com suas explicações, a gente vê que não é bem assim”.

Naquele ano pré-eleitoral, o “assalto ao BNDES” era um mantra no noticiário. O banco era acusado de estar aparelhado pelos petistas e era visto como o maior foco de corrupção daqueles governos. A farra da corrupção no BNDES virou senso comum. O Antagonista chegou a noticiar que o PT comandou “o maior assalto a banco da história”.

Durante a campanha, o assunto foi explorado fortemente pela candidatura Bolsonaro e viralizou através de memes e mensagens no WhatsApp. Uma delas dizia: “se o povo brasileiro acha que o ‘petrolão’ foi o maior escândalo de todos os tempos no país, esperem até ver o que fizeram no BNDES”. Abrir a caixa-preta da estatal foi uma das principais promessas da candidatura bolsonarista.

Eleito, o presidente escolheu Joaquim Levy para presidir a estatal, mas mandou um recado antes mesmo de tomar posse: “a caixa-preta vai ser aberta na primeira semana! Não tenha dúvida disso. Se não abrir a caixa-preta, ele (Levy) está fora, pô. Alguns falam que não tem caixa preta… Eu quero a suspensão de todos os sigilos, sem exceção.”

Após seis meses, Bolsonaro passou a exigir a demissão de funcionários do banco, insinuou que Levy não quis abrir a caixa-preta e ameaçou demiti-lo — tudo isso publicamente. A obsessão por revelar corrupção das gestões anteriores é o que norteia a gestão Bolsonaro no BNDES. Propor novas políticas públicas de financiamento, que deveria ser o foco de um governo que acredita estar tudo errado, está em segundo plano.

Essa agenda alucinada paralisou o funcionamento da estatal.

É justo que o governo discorde das políticas adotadas pelas gestões anteriores e as altere. Ele foi eleito e tem autonomia para tal. Isso é diferente de achincalhar uma estatal fundamental para a economia brasileira, tratando-a como se fosse uma espelunca tomada por bandidos. Não é preciso dizer que tudo isso é contraproducente para a geração de empregos, desenvolvimento e inovação. Quais empresas ficarão tranquilas em saber que sigilos contratuais podem ser quebrados a depender do humor do presidente?

Essa agenda alucinada paralisou o funcionamento da estatal. Derrubou um presidente, atravancou o trabalho dos funcionários e travou o maior banco de fomento de um país em plena crise econômica. Esse é o estrago que uma mentira impulsionada por setores da imprensa e explorada pelo bolsonarismo nas redes sociais pode fazer.

Depois de ser fritado em público, Levy pediu para sair. Gustavo Montezano, um amigo de Eduardo Bolsonaro, foi escolhido para o lugar. Há quatro anos, Montezano arrombou os portões do prédio onde morava porque o zelador não permitiu que ele entrasse durante a madrugada com 30 convidados para uma festa em seu apartamento. Entre eles estava Eduardo Bolsonaro, que assistiu ao arrombamento dos portões. Segundo o juiz que o condenou a pagar indenização, as cenas do arrombamento registradas pela câmera do prédio eram “similares a um ‘arrastão’”. Esse é o perfil do playboy convocado para abrir uma caixa-preta que nunca existiu.

Essa semana, o Estadão revelou que o governo gastou uma bagatela de R$ 48 milhões na contratação de uma auditoria para analisar as operações do banco com as empresas JBS, Bertin e Eldorado Celulose. O valor é equivalente a 24 triplex no Guarujá. Ao tentar justificar a fortuna gasta, Montezano disse que o contrato foi firmado durante a gestão Temer. É verdade, mas ele omite que na sua gestão o valor do contrato aumentou em R$ 15 milhões.

No fim das contas, o governo Bolsonaro torrou dinheiro público para conseguir um atestado de honestidade para o BNDES e seus funcionários.

O BNDES já foi alvo de uma CPI e de operações da Polícia Federal como a Bullish, a Greenfield e a Lava Jato. Se há algo que não faltou no BNDES foi investigação de corrupção, mas nada disso aplacou o espírito justiceiro do bolsonarismo. Além disso, qualquer irregularidade que pudesse haver nos financiamentos certamente não seria encontrada na burocracia do banco. O corpo de funcionários do BNDES é formado por técnicos de carreira reconhecidamente sérios, qualificados e que precisam obrigatoriamente atender a rigorosos requisitos para aprovar um financiamento. Não é nos contratos formais que vai se encontrar corrupção.

Como já se imaginava, o relatório de oito páginas da empresa auditora confirmou não haver caixa-preta a ser aberta. Nenhuma irregularidade ou evidência de corrupção de funcionários foram encontradas. Milhões de dinheiro público foram jogados pela janela na tentativa de comprovar uma alucinação da extrema-direita.

No fim das contas, o governo Bolsonaro torrou dinheiro público para conseguir um atestado de honestidade para o BNDES e seus funcionários. Com base numa convicção forjada no WhatsApp e confirmada pelo antipetismo inconsequente de importantes setores da imprensa, o bolsonarismo iniciou uma cruzada inócua — e cara! — contra o banco estatal. Gastou dinheiro, mobilizou funcionários e recursos públicos, demitiu um presidente e atacou sistematicamente a credibilidade da estatal por causa de uma pistolagem eleitoreira. O presidente agora não quer mais falar sobre esse que sempre foi um dos seus assuntos favoritos. Agora ele encerra as entrevistas quando jornalistas tocam no assunto. Essa mamadeira de piroca já não lhe interessa mais.