No domingo de manhã, a campanha de reeleição de Donald Trump enviou a milhões de assinantes um e-mail com um terrível alerta na linha de assunto: “Invasão socialista: Bernie Sanders e AOC percorrem Iowa.”

A nota começava assim: “Esqueça Joe Rogan. Um endosso de Alexandria Ocasio-Cortez é realmente um problema.”

O restante do e-mail era uma pouco surpreendente recitação dos horrores de um regime socialista liderado por Sanders nos Estados Unidos, ressaltava a mudança nas preocupações eleitorais de Trump, com Sanders crescendo na última semana antes da primeira reunião em Iowa.

De acordo com pessoas de seu círculo próximo, Trump expandiu suas preocupações de reeleição do foco de longa data no ex-vice-presidente Joe Biden para a nova ameaça dupla de Sanders e Mike Bloomberg, ex-prefeito de Nova York que está concorrendo à indicação mas se comprometeu a gastar pelo menos US$ 1 bilhão de sua fortuna para derrotar Trump, independentemente de quem for indicado. O interesse de Trump por Bloomberg e seu dinheiro é descrito por seus consultores como “uma obsessão”, mas ele também teme há muito tempo que o populismo adotado por Sanders, bem como pela senadora Elizabeth Warren, tenha um desempenho imprevisível em uma eleição geral.

Na semana passada, o New York Times informou que alguns dos conselheiros de Trump acreditam que Sanders é um candidato derrotável nas eleições gerais e trabalharam para fazê-lo crescer. A reportagem foi usada pela campanha de Pete Buttigieg, ex-prefeito de South Bend, para argumentar que Sanders é um candidato de risco. Mas o mesmo artigo sugeria que o próprio Trump discorda disso e tem trabalhado para minar Sanders em seus comentários públicos. “Os assessores do presidente dizem que ele precisa de um objetivo claro há meses e acredita que na realidade esteja prejudicando Sanders. Esta opinião não é necessariamente compartilhada pelos conselheiros de Trump”, relatou o jornal. As opiniões divergentes entre Trump e seus assessores levam a uma sincronicidade estratégica divertida: Trump acredita estar prejudicando Sanders ao atacá-lo, enquanto os conselheiros do presidente consideram que ele esteja ajudando o democrata com os mesmos ataques. Assim, pela compreensão deles, Trump atacar Sanders serve tanto aos interesses de Trump quanto aos de seus conselheiros.

Nos discursos feitos em janeiro, Trump mencionou Sanders – ou, como Trump se refere a ele, “Bernie louco” – oito vezes mais do que Biden.

Embora apenas um desses prognósticos possa estar correto, os temores de Trump no privado também surgiram publicamente, de acordo com uma análise dos comentários públicos de Trump sobre a corrida desde o início de 2019. Trump tuitou mais vezes sobre Sanders nas primeiras semanas deste ano do que desde meados do ano passado para cá, ao passo que tuitou um pouco menos a respeito Biden, mesmo que o ex-vice-presidente tenha sido central à narrativa de Trump sobre o impeachment. Nos discursos feitos em janeiro, Trump mencionou Sanders – ou, como Trump se refere a ele, “Bernie louco” – oito vezes mais do que Biden. Isso marca uma mudança drástica em relação ao final de 2019, quando Biden era alvo frequente de Trump em comícios de campanha, com Sanders mal sendo mencionado.

Menções públicas mensais de Donald Trump aos candidatos democratas.

Menções públicas mensais de Donald Trump aos candidatos democratas.

Gráfico: Soohee Cho/The Intercept

Quando Warren cresceu em meados do ano passado, as menções de Trump a ela também aumentaram e depois diminuíram, assim como o desempenho dela nas pesquisas no final de outubro e em novembro. Buttigieg mereceu algumas menções de Trump em dezembro, quando ele subiu nas pesquisas, mas desapareceu rapidamente.

De modo geral, pesquisas realizadas durante o ano passado mostravam que Biden tinha a maior vantagem sobre Trump, seguido de perto por Sanders (que tem uma vantagem de 3 pontos sobre Trump na média da Real Clear Politics). Warren e Buttigieg geralmente ficam em terceiro e quarto lugar contra Trump. Uma análise do New York Times que identificou que Warren se sairia mal contra Trump nos principais estados do cinturão da ferrugem foi um duro golpe para a campanha dela durante o outono. Quando Bloomberg é considerado na comparação, ele tende a ficar à frente de Trump, quase que nem Sanders, mas não tanto quanto Biden.

A referência no e-mail da campanha de Trump a Rogan – “Esqueça Joe Rogan” – veio sem explicações ou contexto, refletindo a conscientização da campanha sobre o alcance do controverso apresentador de podcast na cultura popular. Na semana passada, Rogan, uma das figuras midiáticas mais populares nos Estados Unidos, disse que provavelmente votaria em Sanders. A campanha de Sanders compartilhou um vídeo com seus comentários no Twitter, uma ação amplamente controversa entre alguns segmentos da esquerda, que acusaram Sanders de elevar uma figura considerada transfóbica, sexista e racista.

No privado, há tempos Trump tem se mostrado nervoso por causa de Sanders, como explicou em 2018 durante uma conversa particular com Lev Parnas, personagem central na saga do impeachment, cujo áudio vazou.

“Acho que Bernie como vice-presidente teria sido mais difícil”, disse Trump, referindo-se à escolha de Hillary Clinton em 2016 do senador Tim Kaine para ser seu companheiro de chapa. “Ele era o único que eu não queria que ela escolhesse.”

“Eu tive 20% dos votos de Bernie. As pessoas não percebem isso, por causa do comércio. Porque ele é ótimo nisso. Ele diz que estamos nos ferrando no comércio, e tem razão. Eu sou pior do que ele, mas podemos fazer algo a respeito. Não sei se ele poderia ter feito”, falou na época, supostamente dando a entender que ele próprio é pior para os defensores do livre comércio do que Sanders seria. “Mas se ela tivesse escolhido Bernie Sanders, teria sido mais difícil”, continuou Trump. “Agora, vocês dizem… as pessoas dizem que não, que teria sido mais fácil porque, no caso dela, os democratas normais teriam vindo até mim, e aí ela teria perdido muitos votos.”

Trump, no jantar de abril de 2018, acrescentou, corretamente, que pensava que Sanders concorreria em 2020, mesmo quando as pessoas à mesa discordavam. “Eu acho que ele pode concorrer, porque faz muita televisão. Quando fazem muita televisão, geralmente significa que vão concorrer.”

Depois que Sanders anunciou sua candidatura em fevereiro passado, de forma parecida, Trump disse durante uma coletiva de imprensa do Salão Oval que a posição de Sanders no comércio era comparável à dele. “Ah, Bernie Sanders vai concorrer. É isso mesmo. Pessoalmente, acho que ele perdeu o momento. Mas eu gosto de Bernie porque ele é uma pessoa que, sabe, no comércio, ele meio que concordaria com o comércio. Eu estou sendo muito duro com o comércio. Ele era duro com o comércio. O problema é que ele não sabe o que fazer a respeito. Nós estamos fazendo algo espetacular no comércio.”

Se ele quiser levar Sanders a sério, talvez Trump precise criar um apelido mais eficaz para o senador independente não ortodoxo de Vermont. “Bernie louco”, como o “Nancy louca” de Trump para a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, é o apelido a que Trump recorre para rivais políticos com quem ele não sabe como lidar.

Tradução: Cássia Zanon