Senador Bernie Sanders fala durante comício em Cedar Rapids, Iowa, no dia 1º de fevereiro.

Senador Bernie Sanders fala durante comício em Cedar Rapids, Iowa, no dia 1º de fevereiro.

Foto: John Locher/AP

Adeus, Joe Biden.

Bernie Sanders agora é o líder indiscutível da corrida para se tornar o candidato democrata à presidência dos Estados Unidos.

Na semana passada, na convenção partidária de Iowa, Sanders venceu a votação popular por uma clara diferença tanto no primeiro quanto no segundo turno.

Na última segunda-feira, ele assumiu a liderança em uma pesquisa eleitoral nacional, conduzida pela Universidade Quinnipiac, pela primeira vez desde o início da campanha.

E, na terça, em New Hampshire, Bernie Sanders obteve uma vitória apertada sobre Pete Buttigieg, ex-prefeito de South Bend, Indiana. Joe Biden ficou em quinto lugar.

Quanta coisa muda em um ano. Quando lançou sua segunda campanha presidencial, em fevereiro de 2019, o senador independente do estado do Vermont foi ridicularizado e visto como um nome sem chances por grande parte dos analistas políticos. Henry Olsen, do Washington Post, disse que Bernie era um “one-hit wonder”, alguém cujo sucesso anterior não poderia se repetir, acrescentando: “Após alguns shows que atraem públicos cada vez mais ‘seletos’, ele provavelmente vai desistir da campanha e se aposentar, com sua influência relegada à história” (na segunda à noite, um público impressionante de 7.500 pessoas compareceu a um comício de Sanders encabeçado pela deputada Alexandria Ocasio-Cortez, além da banda de rock The Strokes, em Durham, New Hampshire).

No Twitter, a colunista Jennifer Rubin, também do Washington Post, descreveu Sanders como “notícia velha” e sugeriu que ele encontraria uma “dura concorrência pelo voto jovem” em Beto O’Rourke (que acabou desistindo da campanha em novembro, enquanto Sanders levou quase metade dos votos de Iowa na faixa entre 17 e 29 anos, e mais votos jovens em New Hampshire que “todos os outros candidatos somados”).

David Von Drehle, outro colunista do Washington Post, escreveu que Sanders veria “que seu momento passou, seus projetos foram absorvidos por candidatos mais plausíveis e seu futuro está às suas costas”.

E também havia Chris Matthews, âncora da MSNBC, afirmando que a senadora Elizabeth Warren iria “arrasar Bernie muito cedo na campanha. Bernie vai perder seus votos para ela” (Warren, que fique claro, acabou em terceiro lugar em Iowa e em quarto em New Hampshire).

Jason Johnson, comentarista político da mesma MSNBC, foi além: “eu vejo Bernie Sanders lançando sua campanha e, em agosto, após perceber que não vai ficar nem entre os cinco mais votados em Iowa, desistindo”.

Será que eles não aprendem nunca? Pelo segundo ciclo presidencial consecutivo, os analistas políticos tiveram que engolir sapo. Durante a corrida eleitoral de 2016, o ex-estrategista de Obama, David Axelrod, minimizou Sanders como um candidato com quem os eleitores democratas apenas teriam um “flerte” ou uma “aventura”. O senador de Vermont acabaria conquistando 13 milhões de votos e liderando em 23 estados.

Quatro anos depois, Sanders começou atrás e acabou dominando as duas primeiras disputas democratas de 2020. Em Iowa, ele declarou vitória enquanto pedia por uma recontagem parcial dos caóticos resultados. Vale lembrar: nas últimas quatro décadas, nenhum político que venceu Iowa e New Hampshire juntos deixou de ser nomeado o candidato democrata daquele ano.

Sanders derrotou Buttigieg por uma diferença apertada em New Hampshire — especialmente quando comparado à vitória por 22 pontos percentuais sobre Hillary Clinton naquele estado em 2016. Ainda assim, uma vitória é sempre uma vitória, especialmente na campanha cheia de nomes de 2020, e o único democrata socialista na corrida agora tem o que o New York Times definiu corretamente como “o mais precioso e nebuloso dos ativos: embalo”. A seguir virão as convenções de Nevada, em 22 de fevereiro, onde um único ponto percentual separa Biden de Sanders. Na Carolina do Sul, que vai às urnas em 29 de fevereiro e onde Biden um dia liderou por enormes 31 pontos de diferença, Sanders diminuiu a distância para o ex-vice-presidente para apenas 8 pontos na última pesquisa realizada pela Zogby Analytics.

Biden, porém, está em queda livre: um embaraçoso quarto lugar em Iowa e um humilhante quinto lugar em New Hampshire. Em dezembro, eu defendi na CNN que a grande mídia estava ignorando a possibilidade de Sanders vencer três dos quatro primeiros estados. Agora, na realidade, ele pode até acabar vencendo todos os quatro.

Não é por acaso que as elites do Partido Democrata estão em pânico. Ouvimos agora os velhos argumentos de sempre de que Sanders não seria um candidato capaz de vencer, que não seria “elegível”. Esses argumentos ignoram, convenientemente, o fato de que Sanders supera Trump nas pesquisas diretas; que o senador de Vermont é o membro mais popular do Senado norte-americano; e que este autoproclamado socialista tem tanto a “avaliação líquida favorável” mais alta na visão dos eleitores democratas quanto a base de apoiadores mais mobilizada.

Além disso, a única maneira de testar “elegibilidade” é através de eleições de verdade, e até aqui Sanders venceu as duas disputadas.

Iowa e New Hampshire, no entanto, não foram as únicas vitórias para Bernie; elas também foram vitórias para a sua principal bandeira de campanha, o Medicare for All. Questionados na semana passada sobre como encaravam “substituir todo o seguro de saúde privado por um plano único do governo para todos”, 57% dos frequentadores da convenção de Iowa disseram ser favoráveis, e apenas 38% se opuseram.

Em New Hampshire, na terça, novamente seis em dez eleitores disseram que apoiavam o Medicare for All como um substituto ao atual sistema de seguros privados, segundo uma pesquisa boca de urna.

Novamente, os analistas e fazedores de previsões estavam errados. “Os democratas de Iowa temem que o ‘Medicare for All’ ameace uma indústria-chave”, dizia uma manchete da agência Associated Press em dezembro. “Em Iowa, o ‘Medicare for All’ perde terreno”, declarou a Forbes em agosto. “O Medicare for All não é tão popular assim — mesmo entre os democratas”, proclamava Nate Silver, do FiveThirtyEight, um mês antes.

“Nós ouvimos muito sobre como Bernie Sanders é tão ‘radicalmente desconectado’ do eleitorado democrata”, observou o comentarista Kirsten Powers, da CNN, na terça à noite. “Bom, isso não é verdade”.

A mensagem que vem de Iowa e New Hampshire é clara. Foi um erro muito, muito grande desconsiderar Bernie Sanders e sua principal proposta política. Então, daqui para a frente, será que seus críticos vão cometer o mesmo erro de novo?

Tradução: Maíra Santos