Sábado, às sete da noite, vários canais anunciaram que Joe Biden havia vencido as primárias da Carolina do Sul, soltando um suspiro de alívio coletivo.

Os resultados, disse Rachel Maddow, da MSNBC, colocavam em dúvida a viabilidade da campanha do senador Bernie Sanders. “Se alguém sabe alguma coisa sobre vencer as primárias democratas, e sobre o que é preciso para um candidato democrata vencer as eleições gerais, são os eleitores negros”, disse Maddow. “E se o senador Sanders continuar a ter sistematicamente um desempenho abaixo do esperado entre eleitores negros, e se ele perder feio — não só acabar derrotado, mas perder feio na Carolina do Sul — por sua performance entre eleitores negros, isso é uma questão existencial sobre sua candidatura”.

“Eu quero que cada democrata no país veja como foi hoje: essa é a cara de uma vitória”, celebrou James Carville, um antigo operador político que a MSNBC traz para deixar sua audiência em pânico. “Esse é o trabalho de um partido político. Não fantasias utópicas, mas vencer eleições”.

“A parcela da população mais importante dentro do Partido Democrata falou hoje”, disse Carville na MSNBC, usando um boné dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. Ele disse que Sanders precisa responder por sua falta de apoio no estado: “Ficamos todos apaixonados, e hoje à noite fomos lembrados do que e de quem é o Partido Democrata”.

“Não podemos vencer a menos que provemos que há entusiasmo na comunidade afro-americana”, disse na CNN o ex-governador da Virginia, Terry McAuliffe, ex-dirigente do Comitê Nacional do Partido Democrata, antes de apoiar oficialmente Biden no ar.

O argumento de Maddow, McAuliffe e Carville — que se tornou um tema importante da cobertura dos canais a cabo na noite da primária — é, em resumo, inegável: um candidato democrata à presidência que não consegue o voto negro não consegue ser nomeado. Mas os comentaristas de TV seguiram falando como se a única informação sobre as preferências de eleitores negros viesse da Carolina do Sul. Na verdade, pesquisas nacionais com eleitores negros têm sido feitas regularmente e, recentemente, Sanders passou a liderar as intenções de voto entre eles — um fato que, quando muito, só foi mencionado de passagem.

A audiência da MSNBC poderia concluir que o mesmo problema de conquistar as minorias que atrapalhou a campanha de Sanders em 2016 continua sendo um grande obstáculo. Isso simplesmente não é verdade.

Na semana passada, a pesquisa Reuters-Ipsos descobriu que Sanders supera Biden nacionalmente por três pontos percentuais entre eleitores negros — certamente um dado importante quando se considera se Sanders pode vencer entre os eleitores negros. Uma pesquisa da NBC e do Wall Street Journal registrou Biden dois pontos à frente entre eleitores negros, enquanto a pesquisa Hill/Harris X tinha Sanders liderando por nove pontos. Uma pesquisa da Morning Consult recentemente viu Sanders derrotando Biden por cinco pontos entre todos os eleitores negros das primárias, e batendo ele por uma margem de três votos para cada um entre eleitores negros abaixo de 45 anos.

Em outras palavras, o cenário nacional não pressagia exatamente uma derrota feia entre os eleitores negros — um contexto importante que foi escondido da audiência da MSNBC, que poderia concluir que o mesmo problema de conquistar as minorias que atrapalhou a campanha de Sanders em 2016 continua sendo um grande obstáculo. Isso simplesmente não é verdade.

Aaron Maté: Depois da Carolina do Sul, @maddow diz que se Bernie Sanders “continuar a ter sistematicamente um desempenho abaixo do esperado entre eleitores negros… isso é uma questão existencial”.

Na realidade, entre eleitores negros, Bernie ficou em 2º lugar em Nevada e é 1º nacionalmente! Ele está liderando sistematicamente.

Alguns comentaristas, incluindo a ex-senadora Claire McCaskill, uma crítica pesada de Sanders, reconheceram que os resultados da Carolina do Sul podem não se traduzir necessariamente em uma vitória para Biden em todo o país. “Infelizmente”, disse McCaskill na MSNBC, “não há muitos Jim Clyburns”. Clyburn, um ícone da luta pelos direitos civis e líder inconteste do partido na Carolina do Sul, bem como o número três dos democratas na Câmara, apoiou Biden na semana passada, dando à sua campanha o tipo de impulso que não pode ser replicado em outros lugares.

Há outras razões para suspeitar que a campanha de Biden não vai conseguir manter esse ritmo depois da Carolina do Sul. O estado é um dos mais velhos demograficamente. Segundo pesquisas boca de urna da CNN, 6% dos eleitores tinham entre 17 e 24 anos, e 5% tinham entre 25 e 29. Cerca de 28% dos eleitores tinham menos de 45 anos na Carolina do Sul, comparados a 45% em Iowa, 35% em New Hampshire e 36% em Nevada.

Além disso, Biden gastou uma proporção enorme dos seus recursos na Carolina do Sul, algo que ele não fez nos estados da Super Terça ou nos que virão depois, e seu dinheiro está acabando.

Em 2016, Sanders realmente perdeu feio na Carolina do Sul, ficando quase 50 pontos atrás de Hillary Clinton em uma corrida de apenas dois concorrentes. Ela o derrotou por 86% a 14% entre eleitores negros, segundo pesquisas boca de urna. A pesquisa deste ano mostrou que eleitores negros representavam 57% do total do eleitorado, com Biden conquistando 64% deles contra 15% de Sanders e 13% de Tom Steyer (Steyer, que só teve uma performance tão boa graças aos milhões que investiu em campanha no estado, desistiu de concorrer tão logo os resultados foram divulgados).

Todos os outros perderam feio: a senadora Elizabeth Warren levou 5% do voto negro, Pete Buttigieg fez 3%, e a senadora Amy Klobuchar ficou no zero. Felizmente para eles, os três mal foram mencionados durante a cobertura da TV.
Enquanto a MSNBC omitiu em maior ou menor medida as perspectivas da corrida eleitoral para os próximos estados, a Fox News acreditava menos nas chances de Biden. Ari Fleischer, ex-secretário de imprensa do presidente George W. Bush, minimizou o que a vitória poderia significar para Biden em outros estados. Apenas um dos 14 lugares onde Biden vai competir na Super Terça tem uma demografia similar à da Carolina do Sul: o Alabama. “Se ele não conseguir vencer em lugar nenhum sem um grande número de votos afro-americanos, as próximas batalhas não serão favoráveis a ele”, disse Fleischer.

A ex-presidente interina do Comitê Nacional do Partido Democrata, Donna Brazile, disse à Fox News que Biden e outros candidatos agora precisavam mostrar que poderiam montar uma coalizão diversificada e trazer recursos para competir em estados grandes e pequenos, para reunir os delegados de que precisam para a convenção de julho. “O nome do jogo são os delegados”, disse Brazile. “Para Joe Biden, claramente, a Carolina do Sul foi uma vitória de que ele desesperadamente precisava”.

No geral, Biden está atrás de Sanders em várias pesquisas nacionais recentes da Morning Consult, Fox News e Yahoo/YouGov. O mesmo acontece na Califórnia, o estado com mais delegados, onde uma pesquisa da Universidade Monmouth divulgada na semana passada mostrou Sanders com apoio de 24% dos prováveis eleitores das primárias da Califórnia e Biden com 17%. Uma pesquisa do Los Angeles Times/Berkeley divulgada na última semana mostrou Sanders liderando com 34% entre os prováveis eleitores das primárias da Califórnia, com Warren tendo 17% e Biden, que liderava em junho do ano passado, 8%. “Baseado em seu apoio de 34% na enquete, esse estado sozinho daria a Sanders mais de 10% dos 1.991 delegados que ele precisaria para ser nomeado candidato na convenção nacional”, escreveu o Los Angeles Times.

Biden obteve uma vitória de cerca de 29 pontos de diferença na Carolina do Sul, e só ele e Sanders levarão delegados para a convenção nacional; nenhum dos outros conseguiu vencer a barreira de 15% necessários para conquistar delegados.

Para Biden, foi uma primeira grande vitória nesta corrida presidencial — em qualquer das suas três corridas presidenciais, na verdade: ele nunca havia vencido uma primária ou uma convenção partidária antes. “Nesse dia bissexto, ele precisava voltar à corrida”, disse o ex-estrategista de campanha de Obama, David Axelrod, na CNN. “Essa pode se tornar muito rapidamente uma corrida entre Bernie Sanders e Joe Biden”.

Tradução: Maíra Santos