O presidente Jair Bolsonaro enviou pelo WhatsApp uma mensagem de áudio em que diz querer “parabenizar” moradores de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, que foram às ruas no último domingo se manifestando pelo fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal.

Além de incentivar um movimento de claro caráter golpista, Bolsonaro mostra que não leva a sério as recomendações de especialistas em combate a epidemias e de seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, para evitar a propagação do novo coronavírus. Na sexta, o ministério havia recomendado “a redução do contato social o que, consequentemente, reduzirá as chances de transmissão do vírus, que é alta se comparado a outros coronavírus do passado”.

O áudio foi enviado a grupos bolsonaristas no WhatsApp quando as manifestações ainda ocorriam.

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“Olá, amigos de Volta Redonda, aqui é o presidente Jair Bolsonaro. Quero parabenizar todos vocês, que de forma espontânea estão nas ruas, lutando por um Brasil melhor. É um movimento que sai da alma do povo e que visa mostrar para todo o Brasil que nós, do poder Executivo, do poder Legislativo e do poder Judiciário, devemos lealdade absoluta aos interesses do povo brasileiro. É um movimento que é não contra as instituições, é a favor do nosso Brasil. Então, [a]os amigos de Volta Redonda, meus parabéns a todos vocês. Está em nossa alma, né? Está em nossa garganta aquele grito de sempre, Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

 

Ainda no domingo, o próprio Bolsonaro postou, no Facebook, um vídeo que mostra dezenas de pessoas aglomeradas em volta de um carro de som que veiculava sua mensagem.

É exatamente o contrário do que recomendam todas as autoridades de saúde do mundo. Hoje, a chefe clínica da Organização Mundial da Saúde, Maria Van Kerkhove, disse que é “importante que as pessoas não participem dessas manifestações”. Ela respondeu a uma pergunta do jornalista Jamil Chade sobre os protestos deste domingo no Brasil.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, também pediu “compromisso político de mais alto nível” contra o coronavírus. Ao que parece, não poderá contar com o governo brasileiro.

Contra o plano de contingência

Volta Redonda tem um caso suspeito de Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus. Em Barra Mansa, a menos de 12 quilômetros dali, há um caso confirmado. A região sul do estado, em que está a cidade, tem 16 suspeitas de infecção pelo vírus.

Também na sexta-feira, a prefeitura de Volta Redonda anunciou um plano de contingência contra o novo coronavírus. “Decidimos pela suspensão temporária de atividades que tenham aglomeração de pessoas”, disse o prefeito Samuca Silva, eleito pelo PV e atualmente no PSC. Silva disse não apoiado Bolsonaro em 2018, mas o PSC é o partido ao qual o presidente foi filiado durante anos e que ainda abriga o vereador Carlos Bolsonaro. O PSC apoiou o então candidato a presidente em 2018 e segue alinhado ao governo do presidente de extrema direita no Congresso.

Na quinta-feira passada, Bolsonaro fez jogo de cena e disse, em rede nacional de rádio e televisão, que as manifestações deveriam ser repensadas. “Nossa saúde e de nossos familiares devem ser preservadas”, justificou-se.

Só que era mentira. A saúde – mesmo a de seus apoiadores – não importa ao presidente. A agenda política dele, claramente golpista, está acima de tudo e de todos.

 

Correção: 16 de março, 19h20

Uma versão anterior deste texto informava que o prefeito de Volta Redonda, Samuca Silva, foi eleito pelo PSDB e apoiou Jair Bolsonaro em 2018. Na verdade, ele se elegeu pelo PV e não apoiou ninguém no segundo turno após fazer campanha por Alvaro Dias, do Podemos, no primeiro. O erro foi corrigido.