Deputado Eduardo Bolsonaro (PSL - SP) na terça-feira, 22 de outubro, no plenário da Câmara.

Deputado Eduardo Bolsonaro (PSL – SP) na terça-feira, 22 de outubro, no plenário da Câmara.

Foto: Mateus Bonomi/AGIF via AP

Na manhã de sexta-feira, um colunista do jornal carioca O Dia publicou um artigo afirmando que fontes no Palácio do Planalto confirmaram que o primeiro teste de coronavírus feito pelo presidente Jair Bolsonaro foi positivo, indicando que o presidente estaria infectado com o vírus.

Nos estúdios da Fox News em Nova Iorque e em Washington, produtores, repórteres e apresentadores rapidamente se atentaram ao assunto, em grande parte porque Bolsonaro e sua comitiva – em particular o secretário de comunicação, Fabio Wajngarten, que havia manifestado sintomas e testado positivo para a doença – haviam se encontrado com o presidente dos EUA, Donald Trump, com assessores próximos ao presidente (incluindo o vice-presidente Mike Pence e Ivanka Trump) e com o âncora e estrela do horário-nobre da Fox News, Tucker Carlson, durante um encontro no resort de Mar-a-Lago, na Flórida.

A Fox, entretanto, não publicaria algo dessa magnitude sem antes obter confirmação própria. Nesse sentido, de acordo com funcionários da Fox News diretamente envolvidos com o episódio, mas que não têm autorização para falar publicamente sobre assunto, foi decidido que seria necessário obter confirmação em primeira mão, seja com o próprio presidente ou com um dos seus três filhos. Para tal, a emissora entrou em contato com Alex Phares, filho de Walid Phares, analista da Fox News e conselheiro próximo à Trump.

Alex Phares se tornou conhecido entre círculos conservadores nos EUA por sua proximidade com Eduardo Bolsonaro e por coordenar aparições midiáticas do deputado, tendo inclusive organizado a presença de Eduardo em três mesas de discussão na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em Inglês), realizada uma semana antes do encontro de Bolsonaro com Trump. A própria CPAC acabou se tornando foco de transmissão do coronavírus, com diversos casos já confirmados, como no caso de Santiago Abascal, líder do partido de extrema direita espanhol Vox.

Por volta das 10h da manhã no horário de Nova Iorque, Phares confirmou à emissora ter ouvido de Eduardo, naquela manhã, que o primeiro teste havia sido positivo. A Fox, porém, não se sentiu confortável em publicar essa informação sem ter falado diretamente com um dos Bolsonaros e perguntou a Phares se seria possível organizar com Eduardo uma entrevista por telefone e uma entrevista para televisão.

Cerca de meia hora depois disso, a Fox conversou diretamente com Eduardo, que afirmou de forma inequívoca que o primeiro teste feito por seu pai havia sido positivo, e que eles aguardavam o resultado de um segundo teste. Foi decidido, então, que Eduardo faria uma entrada ao vivo, por Skype, às 11h30 (horário de Nova Iorque). Pouco antes da entrevista, Eduardo mais uma vez confirmou que o primeiro teste de seu pai foi positivo para a presença do coronavírus.

Tendo recebido duas confirmações distintas e definitivas de Eduardo de que seu pai testou positivo para o coronavírus, o correspondente da Fox News para a Casa Branca, John Roberts, publicou em sua conta no Twitter que o teste para coronovirus do presidente Bolsonaro havia dado positivo, e logo em seguida a Fox publicou um artigo no site e veiculou um vídeo com essa informação. Em todo material publicado, a emissora deixou claro que a fonte foi Eduardo Bolsonaro.

Em uma série de tweets desequilibrados que se estendeu até a manhã de sábado, Eduardo insistiu que nunca disse a nenhum repórter – tampouco da Fox News – que seu pai havia testado positivo para o Coronavírus. 

Em uma entrevista bizarra realizada durante sua entrada ao vivo na Fox News, Eduardo disse a uma perplexa Sandra Smith, âncora da emissora, que ele não sabia de nenhum teste anterior, e constantemente buscava mudar o assunto para o segundo teste, que, àquela altura, o próprio presidente afirmava – sem nunca mostrar o resultado para o público – ter dado negativo.

Respondendo às falsas acusações de Eduardo de que a Fox havia forjado as conversas, a Fox News publicou uma avalanche de negativas claras e enfáticas. Fontes na Fox disseram ao Intercept estarem chocadas e indignadas com as repetidas mentiras de Eduardo Bolsonaro, que insistia na afirmação obviamente falsa de que nunca dissera à emissora que o primeiro teste de seu pai foi positivo.

As respostas públicas da Fox incluíram um artigo, intitulado “Filho de Bolsonaro diz que seu pai testou negativo para coronavírus apesar de reportagens anteriores”, que desde o início deixa clara a mentira de Eduardo.

Reportagens publicadas no Brasil inicialmente indicaram que Bolsonaro havia testado positivo, e seu filho pareceu confirmar essa informação à Fox News mais cedo na sexta-feira, acrescentando que mais testes seriam realizados para confirmar o diagnóstico e que os resultados do segundo teste sairiam no fim do dia.

Entretanto, numa aparição no programa “America’s Newsroom”, Eduardo negou que seu pai houvesse testado positivo. 

A Fox então enviou para o Jornal Nacional as mensagens de texto trocadas entre seus jornalistas e Phares, nas quais Phares confirma ter falado com Eduardo sobre o teste positivo do presidente.

Já no Twitter, o correspondente John Roberts disse explicitamente – contrariando as negativas de Eduardo – que o filho do presidente “dissera à Fox que o teste preliminar de seu pai fora POSITIVO para o coronavírus”. 

Em seguida, Roberts foi ao ar e, falando em frente à Casa Branca, enfatizou que Eduardo mentia em suas negativas:

Outro repórter da Fox, Chris Irvine, deixou claro que Eduardo estava mentindo, tuitando na sexta-feira: “Hoje cedo, Eduardo Bolsonaro confirmou para a Fox News relatos de que seu pai havia testado positivo para coronavírus e disse que estava aguardando mais testes. Mais tarde, ele apareceu na FOX News e afirmou que seu pai havia testado negativo para coronavírus.”

O comportamento dos Bolsonaro tem sido extremamente suspeito em relação às especulações que o presidente pudesse ter o Coronavírus. Agora que 14 membros da comitiva que foi aos EUA testaram positivo para o Coronavírus, a situação permanece mais nebulosa do que nunca. Quando a repórter da Folha de S.Paulo Monica Bergamo publicou que o secretário de comunicação Fabio Wanjgarten voltou dos EUA apresentando sintomas de COVID-19 e estava sendo testado, Wejngarten publicou ataques contra ela no twitter, insinuando se tratar de uma invenção da “banda podre da imprensa”. No dia seguinte, seu teste positivo foi confirmado.

Logo depois de afirmar que seu teste teve resultado negativo – apenas horas depois de seu filho dizer à Fox que o presidente havia testado positivo –, Bolsonaro se recusou a publicar o resultado do teste em si e tampouco publicou validação por um médico, e mais tarde o gabinete do presidente anunciou publicamente que Bolsonaro ficaria em isolamento por 14 dias e faria um terceiro teste.

Porém, ontem, durante protestos incialmente incitados por Bolsonaro contra o Congresso e o STF, mas que Bolsonaro eventualmente desestimulou devido ao risco de grandes aglomerações durante a situação de pandemia, o presidente chocou a todos ao deixar o palácio – violando o isolamento ao qual ele deveria estar submetido – e se juntar a um grupo de manifestantes. Ele teve contato físico com 272 dos manifestantes, entre apertos de mão, cumprimentos e trocas de celulares para selfies. Antes disso, no Twitter, o presidente incentivou implicitamente seus apoiadores a participar dos protestos de rua – contrariando os pedidos do ministro da Saúde – ao postar fotos e vídeos dos protestos em diferentes cidades.

A saída do presidente – que desde o começo vem desdenhando da pandemia, que ele trata como uma “fantasia” e uma invenção da mídia – de seu isolamento, colocando em risco a saúde de seus próprios apoiadores ao ter contato físico com eles, chocou e revoltou o país. As ações do presidente foram especialmente irresponsáveis considerando que a conduta de Bolsonaro passa a mensagem oposta a que os oficiais de saúde do país estão tentando passar: se deve evitar aglomerações e praticar distanciamento social na medida do possível. Essas medidas se tornam ainda mais urgentes quando se considera os altos números de brasileiros, principalmente pobres, que moram em áreas de alta densidade populacional, e que o sistema de saúde do país já é inadequado mesmo sem as pressões de uma pandemia.

A questão da saúde de Bolsonaro permanece cercada de mistério. E esse mistério só aumentou agora que seu filho, inadvertidamente, iniciou uma guerra com a Fox News. O que parece ter acontecido é que os Bolsonaros empregaram sua tática padrão contra a mídia brasileira: acusar falsamente a imprensa de inventar informações negativas. A diferença é que, dessa vez, a estratégia foi usada contra a Fox News, veículo que a família Bolsonaro ensinou seus apoiadores a confiar e respeitar. Eduardo Bolsonaro essencialmente obrigou seu veículo favorito a provar que os Bolsonaros são mentirosos quando acusou a emissora de inventar as conversas que teve com ele, conversas essa em que Eduardo confirmou o resultado positivo do teste de seu pai.

Atualização: 16 de março, 22h

Uma versão anterior desse texto dizia que nove pessoas da comitiva que acompanhou Bolsonaro em sua viagem aos EUA que testaram positivo para o coronavirus. Desde que o texto foi publicado, o número aumentou para 14. O texto foi atualizado. Esse número pode aumentar mais nos próximos dias.