O professor Jason Stanley foi a primeira pessoa que eu não cumprimentei com um aperto de mãos em muito, muito tempo. Nos encontramos na última sexta, 13, no Instituto Moreira Salles em São Paulo. Ele veio a convite da revista Serrote, que organizou o Festival Serrote para debater o mais importante, que é o de sempre: cultura, política e sociedade. Naquele dia, o Ministério da Saúde havia confirmado o primeiro caso de transmissão comunitária — de um morador local para outro — do novo coronavírus no Brasil.

Havia um clima ainda de normalidade na Avenida Paulista, mas já começava a aparecer alguma ansiedade sobre cancelar ou não eventos no fim de semana. O Ministério da Saúde recomendou o “cancelamento ou adiamento de eventos com grande participação de pessoas”, enquanto o presidente Jair Bolsonaro tentava ao mesmo tempo um golpe contra o Congresso e o STF, e contrair e espalhar o vírus que sua comitiva importou dos EUA.

Entre uma dose de álcool gel e outra, conversamos sobre o livro, Como Funciona o Fascismo, de 2018, em que o filósofo e professor de Yale busca as similaridades entre as diferentes experiências históricas com o totalitarismo de direita para categorizar métodos e instâncias do mecanismo político. Para Stanley, o fascismo envolve uma disposição dos cidadãos “a falar sobre seus semelhantes de maneiras incompatíveis com a democracia. Eles estão aprendendo a falar sobre pessoas como se não fossem seus concidadãos, mas inimigos mortais, mal puro, ameaças que devem ser enfrentadas e eliminadas para que a tradição seja salva”.

O aparente colapso das forças institucionais políticas do Brasil, que já naquela sexta 13 se revelava, foi assunto também. O professor ressaltou que esse mesmo colapso também tem a sua função estratégica. “A política fascista sempre tenta usar crises, porque ela quer alimentar a ideia de que você precisa de um líder forte para protegê-lo. Esse líder precisa ser competente, para projetar que eles são as pessoas certas para protegê-lo. O que eles vão fazer é inverter qualquer crise a seu próprio favor, a favor de sua ideologia”, explica.

Stanley também comentou sobre as raízes fascistas dos EUA e do Brasil, e como seus atuais presidentes as usam e as distorcem para alimentarem uma máquina geradora de mitos antidemocráticos. “Acho que Bolsonaro não é um intelectual como alguns dos integralistas — [Plínio] Salgado é o exemplo mais óbvio. Mas se você tirar o anti-semitismo de Salgado e [Gustavo Dodt] Barroso por exemplo, você terá um Bolsonaro”, compara. “O anticomunismo é o que mantém o fascismo unido, pintando seus oponentes como comunistas. O fascismo representa democracias não comunistas como comunismo, e depois diz que você precisa de um líder fascista forte para acabar com isso.”

Entre a nossa entrevista e o debate no sábado (14), a comoção em volta do coronavírus começou a tomar forma. Stanley, no sábado, participou do debate, que teve o seu público reduzido já por conta das medidas de contenção. Na entrevista, pedi para que ele arriscasse uma visão sobre os possíveis desdobramentos da pandemia. Missão ingrata, mas ele aceitou: “O objetivo de muitos desses governos é mostrar que governos são incompetentes, que o setor privado tem que fazer tudo. Então, se você falir o governo, surgir uma crise, e o governo for incompetente, na verdade eles estão provando as suas próprias ideologias. Receio que tenhamos chegado nesse momento. O que vai acontecer é que, se o vírus sair do controle, algo que temo que vai acontecer, espero que alguns de seus apoiadores percebam que fechar as fronteiras, ultra-nacionalismo, China, nada disso é relevante para resolver o problema.”

Assista a entrevista completa acima.