Na semana passada, Donald Trump desafiou a orientação de especialistas em três ocasiões ao divulgar evidências anedóticas de que a cloroquina, um medicamento antimalárico, poderia curar a covid-19. “Já existe há muito tempo”, disse o presidente na quinta-feira, “então sabemos que, se as coisas não saírem conforme o planejado, não vai matar ninguém”.

Presidente Trump sobre a hidroxicloroquina: “Já existe há muito tempo, então sabemos que, se as coisas não saírem conforme o planejado, não vai matar ninguém… Os resultados iniciais foram muito, muito animadores, e poderemos disponibilizar esse medicamento quase que imediatamente.”

No domingo, um casal do Arizona que ouviu o presidente descrever a droga na televisão e tinha medo de morrer de covid-19, descobriu em meio aos seus produtos para animais de estimação uma versão não medicamentosa do fosfato de cloroquina, usada para limpar aquários. Acreditando que o produto químico vendido aos donos de animais de estimação, disponível on-line, era o mesmo que o medicamento antimalárico prescrito para humanos – não é – o homem de 68 anos e sua esposa, de 61 anos, tentaram se automedicar misturando uma colher de chá do produto, de sabor amargo, com refrigerante, antes de engolir.

Em 30 minutos, os dois passaram mal e foram levados às pressas para um hospital na região de Phoenix, onde o homem morreu e a esposa permanece sob cuidados intensivos.

A declaração de Trump durante a coletiva de imprensa sobre o possível benefício da forma de cloroquina prescrita pelos médicos para a malária “foi muito repercutida” na mídia, disse a mulher em conversa por telefone com Vaughn Hillyard, da NBC News, direto de sua cama no hospital. “Falaram que foi aprovado para outras coisas, e o Trump ficou dizendo que era praticamente a cura”.

Mulher na UTI: “Trump ficou dizendo que era praticamente a cura.”

NBC: “Qual seria sua mensagem para o público americano?”

Mulher: “Meu Deus, não tomem nada. Não acreditem em nada. Não acreditem em nada que o presidente e seu pessoal fala… liguem para o médico.”

“Eu estava na empilhando comida de cachorro na despensa, vi (o produto) na prateleira de trás e pensei: ‘não é sobre isso que eles estão falando na TV?'”, disse a mulher.

Questionada sobre qual seria a mensagem ao povo americano depois da experiência traumática, a mulher disse: “Não acreditem em nada que o presidente e seu pessoal fala, porque eles não sabem do que estão falando. E não tomem nada, tenham cuidado, liguem para o médico. Eu nunca vou superar essa dor no coração.”

“Com as incertezas a respeito da covid-19, é compreensível que as pessoas tentem encontrar novas formas para prevenir ou tratar esse vírus, mas automedicação não é a maneira correta para isso”, afirmou o doutor Daniel Brooks, diretor médico do Centro de Informações sobre Intoxicações e Drogas Banner, em Phoenix, em um comunicado.

Na quinta-feira passada, a Storyful, agência de notícias de social media, informou que o produto químico normalmente usado em aquários subiu de preço no eBay – de US $9,99 para centenas de dólares cada garrafa.

Aqui está um anúncio de fosfato de cloroquina no eBay. É descrito como sendo “Somente para peixes de aquário”. Em 25 de fevereiro, uma garrafa foi vendida por US$ 9,99 mais frete. Em 2 de março, a mesma garrafa foi vendida por US$ 560,00.

Uma porta-voz do hospital que tratou o casal disse que não sabia de onde haviam tirado a ideia de que o fosfato de cloroquina usado para limpar aquários era seguro para consumo humano, mas uma manchete do New York Post que surgiu no Google na quinta-feira dizia: “Produto para aquário de peixes pode tratar o coronavírus, dizem estudos”. A manchete no site do Post segue informando: “Venda de produto para aquários dispara após estudos indicarem que substância pode tratar o coronavírus”. Uma manchete no site da Fox News na semana passada também foi dúbia ao citar a droga usada pelos médicos e a substância química disponível em lojas de animais. “Droga liberada por Trump e pela FDA para testes de coronavírus também é encontrada em aquários”, disse Fox a seus leitores. A FDA, Food and Drug Administration, é a agência reguladora para alimentos e medicamentos nos Estados Unidos.

Brooks disse ao Arizona Republic que os centros de intoxicação estavam recebendo ligações de pessoas perguntando se podiam usar medicamentos ou produtos domésticos para tratar a covid-19. Algumas das ligações eram sobre cloroquina, motivadas pelo que Brooks chamou de “desinformações vindas da internet e da televisão”.

A Nigéria também relatou dois casos de envenenamento por cloroquina após as declarações de Trump apontarem o remédio contra a malária como uma cura para a covid-19. O Centro de Controle de Doenças do país africano alertou os nigerianos na sexta-feira que a cloroquina não foi aprovada pela Organização Mundial da Saúde como tratamento para a doença.

#FactsNotFear A Organização Mundial da Saúde NÃO aprovou o uso de cloroquina para o tratamento da #COVID19. Os cientistas estão trabalhando duro para confirmar a segurança do uso de diversos medicamentos para esta doença.

Por favor, NÃO pratique automedicação. Isso pode causar danos e levar à morte. #COVID19Nigeria

Quando questionado sobre a cloroquina em uma entrevista coletiva na sexta-feira, Trump disse a repórteres: “temos milhões de unidades encomendadas” da Bayer e de outras empresas – uma aparente referência ao anúncio de doação de três milhões de comprimidos do medicamento Resochin para o governo americano, que a Bayer fez no dia anterior.

O ingrediente ativo do Resochin – desenvolvido em 1934, mas recentemente disponível apenas no Paquistão – é o fosfato de cloroquina. Até a semana passada, o medicamento não havia sido aprovado para uso nos Estados Unidos, mas a Bayer buscava uma autorização de uso emergencial para disponibilizar o produto no mercado americano.

Médicos avaliam o Resochin (fosfato de cloroquina) da Bayer como um tratamento promissor para pacientes graves com #coronavírus.

A farmacêutica suíça Novartis e a israelense Teva Pharmaceutical Industries também planejam doar milhões de doses de comprimidos de sulfato de hidroxicloroquina. Outra fabricante de medicamentos, a Mylan, disse que reiniciaria a produção de hidroxicloroquina em sua fábrica na Virgínia Ocidental para atender ao potencial aumento da demanda.

Na mesma entrevista coletiva, Trump também minimizou as advertências do Dr. Anthony Fauci, o principal imunologista do país. Fauci disse que, embora o medicamento seja usado para tratar a artrite reumatóide e o lúpus, sem ensaios clínicos randomizados de larga escala ainda não é possível ter certeza de que a cloroquina seria eficaz ou segura para pessoas que sofrem de covid-19, a doença respiratória da atual pandemia. Embora a cloroquina raramente se mostre perigosa para as pessoas com malária, “não sabemos se ela é segura quando colocada no contexto de outra doença”, afirmou Fauci.

“Estamos tentando encontrar um equilíbrio entre disponibilizar para o povo americano algo capaz de fazer efeito, mas com garantias de um protocolo de uso baseado em informações capazes de determinar se realmente é seguro e eficaz”, explicou o imunologista.

No sábado, Trump ignorou o alerta e tuitou que o uso combinado de hidroxicloroquina, um derivado menos tóxico da cloroquina, e do antibiótico azitromicina, administrado a seis pacientes que se recuperaram da covid-19 neste mês na França – teriam “chances reais de ser uma das maiores reviravoltas na história da medicina.”

“O presidente está falando sobre esperança para as pessoas”, disse Fauci quando questionado sobre o tweet em uma entrevista no sábado. “Meu trabalho, como cientista, é provar sem sombra de dúvida que uma droga não é apenas segura, mas que realmente funciona”.

A pesquisa preliminar apresentada por Trump foi conduzida pelo professor Didier Raoult, virologista francês que dirige o Instituto Mediterrâneo de Doenças Infecciosas e Tropicais, em Marselha. De acordo com o esboço do estudo – publicado online na semana passada e ainda não revisado por pares –, Raoult e seus colegas começaram a tratar 26 pacientes de covid-19 com hidroxicloroquina no início deste mês. Após seis dias, 14 deles “foram curados virologicamente”, incluindo seis que também foram tratados com azitromicina, em comparação com apenas dois pacientes de um grupo controle de 16 pacientes que não receberam os medicamentos.

A alegação de Raoult de que o estudo comprova a eficácia da hidroxicloroquina na covid-19 foi questionada por sua amostragem muito pequena e por algumas escolhas estranhas na forma como foi conduzido. Depois, há o fato de que seis dos pacientes tratados com hidroxicloroquina tiveram reações adversas em três dias: um morreu, três foram removidos do estudo quando foram transferidos para terapia intensiva, um apresentou resultado negativo para o vírus e um interrompeu o tratamento devido às náuseas. Esses casos foram simplesmente retirados das estatísticas do estudo.

O CDC, Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos, descreveu o trabalho de Raoult como “um pequeno estudo” que mostrou como “a hidroxicloroquina sozinha ou em combinação com a azitromicina reduziu a detecção do” coronavírus “em amostras do trato respiratório superior em comparação com um grupo controle não randomizado, mas não avaliou o benefício clínico”.

Como explica Matthew Herper, da Stat News, “em três quartos das vezes, os medicamentos contra doenças infecciosas que pareciam promissores em pequenos estudos, ou se mostraram ineficazes, ou tinham efeitos colaterais que impediam seu uso” após ensaios clínicos maiores.

Os resultados na França foram contraditórios com os de outro pequeno estudo realizado na China, que mostrou a hidroxicloroquina como não mais eficaz que outros tratamentos para a covid-19. Como a AFP informou na quarta-feira, o estudo chinês, publicado no Journal of Zhejiang University, envolveu o tratamento de metade de um grupo de 30 pacientes covid-19 com hidroxicloroquina por sete dias. Após uma semana de tratamento, 13 dos 15 pacientes que receberam o medicamento contra a malária apresentaram resultado negativo para o coronavírus; mas 14 dos 15 pacientes da covid-19 que não receberam hidroxicloroquina também testaram negativo.

Raoult, que se define como um “rebelde” e tem uma aparência que lembra o Dr. Harold Bornstein, ex-médico pessoal de Trump, baseou seu trabalho em pesquisas feitas na China no início deste ano.

Pesquisadores do Instituto de Virologia e do Laboratório Nacional de Biossegurança de Wuhan relataram que a hidroxicloroquina pode inibir infecções do novo coronavírus em laboratório. Como observa o CDC, os pesquisadores na China “indicaram que o tratamento com cloroquina em pacientes com covid-19 teve benefício clínico e virológico em relação ao um grupo de controle”, o que levou o medicamento a ser recomendado como tratamento antiviral na região.
Segundo a revista semanal francesa Le Nouvel Observateur, apesar de Raoult ser o microbiologista mais influente do país, sua personalidade extravagente e sua atração por conflitos acabam por influenciar na maneira como seu trabalho é percebido por colegas e funcionários de saúde pública. Além de ser negacionista em relação à mudança climática, Raoult criticou a resposta global à pandemia, dizendo que o vírus “não justifica medidas dignas de uma catástrofe atômica”.

Seu desprezo por essa abordagem às pandemias não é novo. Epidemiologistas que projetam os modelos de alastramento do vírus, como aqueles cujo trabalho levou às medidas de paralisação social no Reino Unido e nos Estados Unidos, são “charlatões”, disse ele à revista Science em 2012. “Não há exemplos de doenças infecciosas capazes de serem previstas por um modelo”, acrescentou.

Raoult inclusive lançou um novo livro sobre o coronavírus nesta semana, “Epidemias, Perigos Reais e Alarmes Falsos“, no qual argumenta que “esse pânico se deve em grande parte aos exageros da imprensa, que sabe que ‘o medo vende'”. Em vez de confinamento universal, Raoult sugere que uma resposta melhor seria imitar a Coréia do Sul – e a Alemanha – intensificando os testes a ponto de fazer com que os indivíduos infectados possam ser identificados e isolados, reduzindo o número de mortos.

Como observou a correspondente do Irish Times Lara Marlowe, Raoult “compartilha certa arrogância” no estilo de Trump e do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que no sábado ordenou a produção pelo exército brasileiro de grandes quantidades de cloroquina. “No meu campo, sou uma estrela mundial”, disse ele ao jornal La Provence. “Não dou a mínima para o que os outros pensam. Não sou um outsider. Estou muito à frente dos outros.”

Como Trump e Bolsonaro, o negacionismo de Raoult também se estende às previsões de catástrofe climática. Além disso, sua postura como chefe não é tão boa: uma carta de reclamação assinada em 2017 por uma dúzia de subordinados no instituto que ele administra indicava que eles eram “frequentemente menosprezados, ridicularizados, humilhados, sujeitos a conversas machistas, atitudes inapropriadas e altercações verbais”. Uma entrevista em vídeo postada no canal de seu instituto no YouTube começa com Raoult exibindo sua posição no ranking de um site chamado Expertscape.

Ainda assim, Trump e Bolsonaro não são os únicos ansiosos para descobrir se a cloroquina pode funcionar.

No domingo, o governador de Nova York, Andrew Cuomo, anunciou que o estado havia obtido 750 mil doses de cloroquina, 70 mil doses de hidroxicloroquina e 10 mil doses de azitromicina, para realizar seu próprio teste com as drogas.

Em meio às informações de que as pessoas já estão fazendo estoques do medicamento, Cuomo emitiu uma ordem executiva na segunda-feira, proibindo qualquer uso experimental do medicamento para além dos testes aprovados pelo estado. “Nenhum farmacêutico deve fornecer hidroxicloroquina ou cloroquina, exceto quando prescrito conforme indicação aprovada pela FDA, ou como parte do estudo clínico aprovado pelo estado para o paciente que apresentou resultado positivo para a covid-19, sendo o resultado do teste documentado como parte da receita”, dizia o pedido. “Nenhum outro uso experimental ou profilático será permitido, e qualquer prescrição permitida é limitada a uma dose de quatorze dias, sem recarga.”

Nevan Krogan, biólogo da Universidade da Califórnia, em São Francisco, que estuda possíveis tratamentos medicamentosos para a covid-19, disse ao New York Times que os médicos “precisam ter cuidado” com a cloroquina porque o medicamento parece ter como alvo muitas proteínas das células humanas, o que pode causar diversos efeitos colaterais nocivos.

Fauci, o diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, concedeu uma entrevista no domingo à revista Science, descrevendo a dificuldade de impedir que Trump falasse coisas que não são verdadeiras durante os briefings. “Não posso pular na frente do microfone e empurrá-lo”, disse Fauci.

Na noite de domingo, o imunologista mais graduado do governo foi atacado pela Fox News por Steve Hilton, ex-consultor de David Cameron, o primeiro ministro britânico responsável por duras medidas de austeridade. Hilton, que apoiou cortes maciços em programas sociais na Grã-Bretanha quando estava no governo, acusou Fauci e outras autoridades de saúde pública de “nos empurrarem para outra Grande Depressão”.

Suspeito que o tweet de Trump em maiúsculas seja uma transcrição ao vivo da Fox na noite de hoje (embora @MattGertz obviamente possa confirmar). O apresentador Steve Hilton usou linguagem semelhante. (Trump certamente não leu aquele artigo no Medium)

“Conhece aquela famosa frase, a cura é pior que a doença?” Hilton perguntou, argumentando que a paralisação total da economia foi uma reação exagerada.

Pouco tempo depois, Trump tuitou em letras maiúsculas: “NÃO PODEMOS DEIXAR A CURA SER PIOR QUE O PRÓPRIO PROBLEMA”. Ele então sugeriu que poderia sobrepor sua decisão à das autoridades de saúde pública, e encerrar a suspensão das atividades econômica em 30 de março. “AO FINAL DO PERÍODO DE 15 DIAS, TOMAREMOS UMA DECISÃO SOBRE QUAL CAMINHO QUEREMOS SEGUIR!”

Fauci foi uma ausência notável na sala de reuniões da Casa Branca na segunda-feira, quando Trump disse que a paralisação poderia ter que terminar em breve, e citou outra evidência anedótica, uma história do New York Post sobre um homem com covid-19 na Flórida que está se recuperando após convencer um médico a lhe receitar cloroquina.

Depois que Trump repetiu sua intenção de retomar as atividades econômicas com o relaxamento das medidas de distanciamento social, mesmo que isso ajude o vírus a se espalhar, o presidente foi perguntado sobre onde estava Fauci, e se ele concordava com a medida.

“Não. Ele não discorda”, diz o presidente Trump, quando perguntado se o Dr. Anthony Fauci concorda com ele sobre a necessidade de retomar as atividades econômicas em breve, relaxando a orientação de distanciamento social em meio à crise da covid-19.

“Eu estive com ele há pouco, por um bom tempo”, disse Trump. “Ele não discorda.”

Tradução: Antenor Savoldi Jr.