O mais recente comício de campanha de Donald Trump, disfarçado de briefing da sua força-tarefa do coronavírus, deu uma virada fora do comum na quarta-feira, dia 1º de abril, quando o presidente foi surpreendido por uma pergunta difícil de (logo quem) John Roberts, da Fox News.

Trump seguia, elogiando a si mesmo (“Você sabia que eu era o número um no Facebook?”) e negando qualquer responsabilidade pela catástrofe quando Roberts perguntou ao presidente sobre o enorme erro de ter dissolvido a equipe de preparação para pandemias criada pelo seu antecessor, o ex-presidente Barack Obama.

Roberts trouxe o assunto à tona após Trump soltar sua desculpa familiar, ainda que sem sentido, de culpar Obama pelo erro abjeto de seu próprio governo, de não testar os americanos em números suficientes para detectar o novo coronavírus, que surgiu na China há quatro meses.

“Lembre-se disso: nós herdamos – a palavra é herdamos – testes ruins”, afirmou Trump, absurdamente, sobre testes para um vírus que não existia quando Obama deixou o cargo há três anos.

Trump está culpando Trump pelos testes ineficientes para detectar o coronavírus.

“Nós realmente herdamos testes ruins, esses testes são horríveis”, acrescentou Trump, negando os testes que foram, na realidade, criados em janeiro pelos Centros de Controle de Doenças, os CDCs, sob a liderança de um diretor que ele indicou.

Isso levou Roberts a observar que autoridades do governo anterior atribuíram a resposta lenta do governo federal ao surto de covid-19 ao fato de que a Casa Branca dissolveu em 2018 o Conselho de Segurança Nacional para segurança global e biodefesa, que se dedicava à preparação para pandemias.

“O senhor falou sobre as falhas do governo Obama em deixá-lo com prateleiras vazias e sem planos”, começou Roberts, repetindo de forma acrítica as falsas alegações de Trump de que ele não tem responsabilidade pelo mau estado do estoque nacional de equipamentos médicos que ele supervisionou nos últimos três anos. “Eles disseram que você se livrou do escritório de pandemia no Conselho de Segurança Nacional” – ele acrescentou, antes de ser cortado por Trump.

“Nós não fizemos isso. Isso acabou se mostrando uma história falsa”, afirmou Trump, falsamente. “Por acaso você está trabalhando para a CNN?”, perguntou sarcasticamente o presidente.

Na quarta, 1º de abril, John Roberts, da Fox News, perguntou a Trump sobre ter eliminado a equipe de pandemias. Trump não soube como lidar.

“Não, não, não”, respondeu Roberts, recuando rapidamente. “Estou apontando o que eles disseram e o que você disse, só isso”.

“Pensei que você estivesse com a Fox”, interrompeu Trump. “Mas a Fox também não é tão fácil, não se iluda”, aparentemente esquecendo que deveria ser um segredo que o papel do canal é facilitar as coisas para ele e evitar criticar os meses que o governo falhou em se preparar para a pandemia.

Enquanto Roberts se opunha – “Não se trata da Fox ou CNN” –, Trump o interrompeu novamente. “Olha John, deixe-me contar uma coisa. Você sabe que é uma história falsa”, insistiu o presidente. Trump parecia ofendido que o correspondente da Fox não tivesse, como muitos de seus apoiadores, simplesmente aceitado como verdade as afirmações de um ex-funcionário da segurança nacional, Tim Morrison. Ele argumentou mês passado que, embora a equipe global de segurança de saúde tenha sido, de fato, dissolvida, uma nova unidade do Conselho de Segurança Nacional com responsabilidade conjunta pelo controle de armas e biodefesa teria sido uma substituta perfeitamente adequada.

“O que você acabou de dizer é uma história falsa”, disse Trump. “Este médico”, continuou ele, gesticulando na direção do Dr. Anthony Fauci, o principal especialista em doenças infecciosas do país, “sabe disso melhor do que ninguém”.

Ao sugerir que Fauci o apoiaria em sua falsa alegação de que o escritório não havia sido dissolvido, a versão de Trump esteve brevemente por um fio. Em depoimento ao Congresso há apenas três semanas, Fauci foi questionado pelo deputado Gerald Connolly, democrata da Virginia, se havia sido um erro “desmantelar o escritório do Conselho de Segurança Nacional encarregado da saúde e segurança globais?”

Questionado em 11 de março se havia sido um erro desmantelar o escritório de preparação para pandemias do Conselho de Segurança Nacional, o Dr. Fauci disse: “Eu não caracterizaria necessariamente como um erro. Eu diria que trabalhamos muito bem com esse escritório. Seria bom se ele ainda estivesse lá”.

“Eu não caracterizaria necessariamente como um erro”, respondeu Fauci, diplomaticamente. “Eu diria que trabalhamos muito bem com esse escritório. Seria muito bom se ele ainda estivesse lá”.

Antes que Roberts pudesse desmentir Trump pedindo para Fauci comentar, o presidente repreendeu o correspondente mais uma vez – “Você não deveria estar repetindo uma história que sabe ser falsa” – e rapidamente terminou a conversa chamando outro repórter para fazer uma pergunta.

Naquele momento, Trump estava encurralado, vulnerável a ter sua mentira exposta se o repórter que ele chamou simplesmente tivesse dado sequência à pergunta de Roberts, pedindo para Fauci esclarecer as coisas. Mas os repórteres na sala de conferências da Casa Branca não são conhecidos por esse tipo de comparação, e Trump conseguiu escapar com uma pergunta sobre outro assunto.


Duas semanas atrás, quando Trump foi questionado em um briefing anterior sobre o corte da equipe de preparação para pandemias, ele disse que nada sabia sobre isso, e alegou não ter ideia se isso havia sequer acontecido. Sua ignorância declarada quanto a uma questão importante suscitou especulações sobre se ele havia sido consultado e, se não, qual o papel do presidente em seu próprio governo.

Nas últimas semanas, Trump também professou ignorância sobre a ameaça iminente de uma pandemia global – dizendo repetidamente que ninguém poderia imaginar uma possibilidade tão aterrorizante. Na verdade, as consequências de fechar o escritório da pandemia eram claras para muitos observadores na época. “Quando a próxima pandemia ocorrer (e, não se iluda, ela ocorrerá) e o governo federal não puder responder de maneira coordenada e eficaz para proteger as vidas de cidadãos dos EUA e outras pessoas, essa decisão de John Bolton e Donald Trump será o motivo”, tuitou Stephen Schwartz, do Boletim dos Cientistas Atômicos, em 10 de maio de 2018.

Em depoimento ao Congresso em 2018, Fauci disse que ele e outros especialistas haviam imaginado exatamente isso. “Quando um vírus respiratório que pode se espalhar através de gotículas e em aerossol e… houver um grau de morbidade associado a isso, você pode ter uma catástrofe”, testemunhou Fauci. “O que sempre falamos é da pandemia de 1918, que matou entre 50 e 100 milhões de pessoas”, acrescentou. “O vírus da influenza em primeiro lugar, ou algo como ele, é o que me tira o sono”.

Embora Fauci tenha recebido elogios, e ameaças, por sua disposição de corrigir Trump delicadamente sobre a ciência em torno da resposta ao coronavírus nos briefings, alguns observadores pediram que ele fosse ainda mais longe. Assistindo à conferência diária na terça-feira, o músico e ator Stevie Van Zandt explodiu no Twitter quando Fauci se recusou a criticar Trump por não pedir aos governadores que emitissem ordens de isolamento social nos estados que ainda não o fizeram.

Sinto muito, mas estou cansado desses filhos da puta que deveriam ser heróis se acovardando com suas malditas respostas. O Dr. Fauci foi perguntado se todos os estados deveriam estar em quarentena! Por que esse bosta não pode dizer que SIM! Ele começa a falar alguma besteira sobre as diretrizes! DIGA SIM, SEU FODIDO! SIM!

Na quarta-feira, Van Zandt esclareceu que estava desapontado com Fauci porque “ele é cem vezes o homem que eles são”.