A equipe de Bernie Sanders foi informada, em uma teleconferência na manhã desta quarta-feira, de que ele está encerrando sua segunda candidatura à presidência, segundo fontes ligadas à campanha.

A desistência de Bernie Sanders acontece um dia após o estado do Wisconsin decidir seguir em frente com uma polêmica eleição presencial, que Sanders havia pedido que fosse adiada. O senador de Vermont foi momentaneamente o líder da indicação democrata para as próximas eleições, após vencer o voto popular em Iowa, conquistar um triunfo em New Hampshire e obter uma vitória decisiva em Nevada. Suas chances começaram a desmoronar na Carolina do Sul, onde o líder do partido no estado, o deputado Jim Clyburn, concedeu um apoio apaixonado ao ex-vice-presidente Joe Biden. Uma corrida que estava se estreitando se transformou em uma lavada a favor de Biden.

Os moderados do partido então se uniram em torno de Biden, que subiu nas pesquisas, obtendo a maior virada no menor tempo, de acordo com as pesquisas, desde que o processo moderno de eleições primárias começou, em 1972. Biden venceu na maioria dos estados na Super Terça e continuou acumulando vitórias ao longo de março.

Alguns membros do círculo mais próximo de Bernie Sanders — incluindo, de maneira mais vocal, Larry Cohen, líder trabalhista e presidente do movimento Our Revolution — pediram a ele que continuasse na corrida para aumentar seu total de delegados de modo a fazer pressão para impulsionar suas políticas dentro do Partido Democrata. Outros argumentaram que a plataforma é praticamente sem sentido e que a maior influência de Sanders está no Senado, onde a economia está sendo remodelada por uma série de pacotes de socorro históricos tanto pelo escopo quanto pela escala. Ele optou pelo meio-termo, dizendo aos seus apoiadores em uma live na manhã desta quarta-feira que continuaria a reunir delegados, permanecendo nas cédulas de votação das primárias dos demais estados. “Embora o vice-presidente Biden vá ser o candidato, devemos continuar trabalhando para reunir o maior número de delegados possível na convenção democrata”, disse Sanders, “onde poderemos exercer uma influência significativa sobre a plataforma do partido e outras funções”.

A campanha de Sanders levantou US$ 182 milhões até o final de fevereiro, com cerca de US$ 19 milhões em caixa, de acordo com os registros da Comissão Federal de Eleições. A campanha de Biden, por sua vez, havia levantado US$ 88 milhões e tinha US$ 12 milhões em caixa naquele momento da campanha.

A saída de Bernie Sanders é um impulso a mais para Biden, principalmente no que se refere ao financiamento da campanha. Sem um oponente nas primárias, ele pode passar mais rapidamente para a fase da eleição geral, na qual ele pode gastar o dinheiro arrecadado para esse fim. Se a disputa tivesse seguido até a convenção em agosto sem que Biden obtivesse o número necessário de delegados, ele só poderia utilizar os seus escassos fundos levantados para as primárias. Não está totalmente claro quando Biden poderá recorrer aos fundos das eleições gerais e, segundo fontes, os advogados estão trabalhando para antecipar a data o máximo possível.

Sanders e Biden conversaram nesta quarta-feira após o senador de Vermont suspender sua campanha.

Com Sanders fora da corrida, o esforço progressista agora muda para pressionar Biden a assumir certos compromissos políticos e, mais importante ainda, direcionar sua equipe para um caminho mais progressista e distante dos seus aliados empresariais. Em uma carta, oito organizações lideradas por jovens — Justice Democrats, March for Our Lives Action Fund, Alliance for Youth Action, NextGen America, Student Action, Sunrise Movement, If Not Now, e United We Dream Action — pediram que Biden trabalhasse para corrigir sua falta de popularidade entre eleitores com menos de 45 anos. “Embora você agora seja o candidato democrata presumido, está claro que não conseguiu obter os votos da grande maioria dos eleitores com menos de 45 anos durante as primárias”, observa a carta. Os grupos, em uma declaração anexa, detalharam o fracasso:

Como documentado em extensas pesquisas e em várias primárias, Biden tem problemas para conquistar o apoio de eleitores com menos de 45 anos, enquanto a base de Bernie Sanders é composta principalmente por eleitores abaixo de 45 anos. Na Super Terça, Biden obteve apenas 17% dos votos de quem tinha menos de 45. Bernie Sanders conquistou 76% dos votos abaixo de 30 anos no Michigan e 57% deles no Missouri, segundo pesquisas de boca de urna. Os eleitores democratas abaixo de 45 anos tendem a ser mais progressistas que seus correligionários mais velhos.

No que diz respeito à equipe, a coalizão pediu que Biden se comprometa a nomear como co-presidentes de sua equipe de transição alguns políticos que haviam apoiado os senadores Bernie Sanders ou Elizabeth Warren, como os deputados Pramila Jayapal, Ro Khanna, Ayanna Pressley e Katie Porter. Também pede a Biden que contrate conselheiros das equipes do governador Jay Inslee, de Sanders, de Warren, e os líderes sindicais Bonnie Castillo, Mary Kay Henry e Sara Nelson, além de líderes do movimento de reforma da justiça criminal.

Ao mesmo tempo, recomenda a rejeição de executivos atuais ou antigos de Wall Street ou lobistas corporativos, ou qualquer pessoa ligada às indústrias de combustíveis fósseis, de seguros de saúde ou de prisões privadas. Também pede um Departamento de Segurança Interna cuja liderança esteja comprometida a desmantelar, na forma em que estão atualmente constituídas, as agências de Imigração e Fiscalização Aduaneira e de Proteção Aduaneira e de Fronteiras.

Na frente das políticas, as solicitações dos grupos de jovens incluem um pacote de estímulo de US$ 10 trilhões ao chamado New Deal Verde, um plano para reduzir as mortes por armas de fogo pela metade em 10 anos, permitindo ao governo federal a fabricação de medicamentos genéricos, um imposto sobre a riqueza, o término da colaboração entre o ICE e os órgãos policiais locais, a legalização da maconha e a abolição do obstrucionismo parlamentar.

A carta deixa claro que há uma vantagem para Biden se ele puder conquistar os jovens. “As organizações abaixo gastarão mais de US$ 100 milhões em comunicação com mais de 10 milhões de jovens membros, apoiadores e potenciais eleitores nesse ciclo eleitoral”, diz a carta. “Somos particularmente adequados para ajudar a mobilizar nossas comunidades, mas precisamos de ajuda para garantir que nossos esforços sejam apoiados por uma campanha que fale com a nossa geração. Nossa geração é o futuro desse país. Se você pretende motivar, mobilizar e nos receber, trabalharemos incansavelmente para alinhar essa nação com os seus ideais mais elevados”.

Tradução: Maíra Santos