O Amazonas deve ser o primeiro estado a entrar em colapso por causa do novo coronavírus – e o epicentro da crise será em Manaus. Nesta segunda, 95% das 293 vagas disponíveis em UTIs de hospitais públicos e privados estavam ocupadas, me disse o secretário estadual da Saúde, Rodrigo Tobias de Sousa. Ontem, o governador Wilson Lima, do PSC, disse que a capacidade de atendimento nas UTIs deve se esgotar em uma semana.

Manaus concentra mais da metade dos 4 milhões de habitantes do estado, espalhados por 62 municípios. E também todos os leitos de UTI, o que significa que 100% dos doentes graves terão de ser levados até lá. De avião, porque quase não há rodovias na floresta amazônica.

Desde 26 de março, os casos confirmados de covid-19 na capital saltaram de 63 para 560, um crescimento de 788%. Na cidade de São Paulo, recordista em doentes, por exemplo, o aumento foi de 373% no mesmo período.

A cada 100 mil habitantes de Manaus, 25 foram diagnosticadas com covid-19. É a terceira maior taxa de contaminação entre as capitais brasileiras, atrás apenas de Fortaleza e São Paulo com 39 e 34 casos por 100 mil moradores, respectivamente.

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Fonte: Secretaria Estadual de Saúde do Amazonas

O levantamento do Intercept foi feito a partir dos dados compilados pela plataforma de dados Brasil.io, que reúne boletins divulgados diariamente pelas 27 secretarias estaduais da Saúde. O Ministério da Saúde não divulga as informações por município.

Até ontem, dia 7, o Amazonas tinha registrado 636 casos do novo coronavírus e 23 mortes. Pelo menos 13 cidades já foram atingidas pelo vírus. Segundo informações do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, Manaus tem 293 leitos de tratamento intensivo para adultos (69% no SUS). A Sociedade Brasileira de Infectologia estima que cinco de cada 100 pacientes com covid-19 irão precisar de internação em UTI.

Para agravar a situação, esta é a época do ano em que aumentam de chuvas na região amazônica, fazendo crescer o número de internações por problemas respiratórios. Esses pacientes irão disputar espaço nos hospitais com infectados pelo coronavírus. “Nos próximos dias, a gente atinge a capacidade de 100% de leitos de UTI”, projetou o secretário Sousa.

Ele vê um cenário sombrio pela frente e projeta o ápice de casos de covid-19 por volta de 15 de maio. “Se a gente no começo [da epidemia] está sem leitos de UTI, me preocupa muito quando chegar em meados de maio. É um cenário preocupante, que merece um olhar cuidadoso do governo federal”.

Para o prefeito de Manaus, o ex-senador tucano Arthur Virgílio Neto, a rede estadual de saúde já entrou em colapso. Ele cobra do governador Wilson Lima, do PSC, medidas para ampliar as vagas hospitalares.

Sousa prometeu entregar, em uma semana, 400 leitos do hospital da universidade Nilton Lins para atender pacientes com covid-19. Ele me disse acreditar que seria possível adaptar cerca de 350 desses leitos para tratamento intensivo, mas para isso conta com a chegada de respiradores e monitores encomendados pelo governo estadual de empresas chinesas.

Só que a compra, iniciada há três semanas, naufragou. Segundo o secretário, os fabricantes repassaram os produtos para os Estados Unidos. “Eles desistiram de vender para a gente para poder vender para outro comprador com o dobro do preço e recebendo à vista”, justificou-se.

Além da infraestrutura, também faltam equipes treinadas para trabalhar em unidades de terapia intensiva. Para o médico sanitarista Claudio Maierovitch, coordenador e pesquisador do Núcleo de Epidemiologia e Vigilância em Saúde da Fiocruz em Brasília, a escassez que atinge o Amazonas é fruto da desigualdade que assola o país e vai além do covid-19. “A distribuição dos recursos da saúde no Brasil é muito desigual – tanto dos hospitais, como dos equipamentos e dos próprios profissionais”.

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O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto disse na segunda que o sistema estadual de saúde estava em colapso. Ontem, o governador Wilson Lima disse que as UTIs lotam em uma semana.

Foto: Alex Pazuello/Secretaria Municipal de Comunicação da Prefeitura de Manaus

Avião é ambulância

Como em todo o Brasil, no Amazonas também há subnotificação de casos do novo coronavírus. O estado faz exames apenas em grupos de risco, profissionais da saúde e pacientes com sintomas mais graves da covid-19. O secretário de Saúde afirma que 10 mil testes deveriam chegar a Manaus ainda nesta terça. Na semana que vem, a expectativa é receber mais 30 mil kits. “Aí, a gente vai estender para pacientes que têm sintomatologia branda. Esse é o planejamento para a gente segregar, separar aqueles que têm corona daqueles que não têm”, me disse.

Além disso, os moradores de cidades do interior do Amazonas – maior estado brasileiro, com quase 20% da área do país – também enfrentam dificuldades para chegar na capital. Boa parte dos municípios é cercada por rios e florestas. Assim, o avião é a única solução para que muitos dos pacientes que irão precisar de tratamento intensivo cheguem a Manaus.

O governo do estado aluga permanentemente três aviões para transportar doentes em estado grave para a capital. Por causa da epidemia, ampliou o contrato para seis aeronaves. Segundo o secretário, é possível transportar entre três e quatro pacientes por viagem.

De alguns lugares, o percurso pode ser feito por terra. Caso de Manacapuru, segunda cidade com o maior número de doentes de covid-19 no Amazonas – 42, com três mortes. Há uma rodovia asfaltada que liga a cidade à capital, num trajeto de 93 quilômetros.

O secretário de Saúde de Manacapuru, Rodrigo Balbi, me contou que já enviou dois pacientes que precisavam de tratamento intensivo de ambulância para Manaus. Enquanto isso, ele luta para tentar achatar a curva de transmissão do coronavírus na cidade. “A população ainda tem dificuldade de cumprir essa questão do isolamento”, lamentou.