Um tratamento experimental para o covid-19 defendido por Donald Trump e Jair Bolsonaro — no qual os pacientes recebem doses de hidroxicloroquina, um medicamento usado ao lado do antibiótico azitromicina para tratar malária e lúpus — aumenta o risco de que alguns pacientes tenham batimentos cardíacos irregulares que poderiam ser fatais, segundo alertam cardiologistas em uma nova orientação publicada pelo American College of Cardiology.

De acordo com o autor principal do artigo, o Dr. Eric Stecker, professor associado de medicina cardiovascular na Universidade Oregon Health & Science, todos os pacientes tratados com a terapia combinada devem ser monitorados para arritmia ventricular, o batimento irregular das câmaras inferiores do coração, o que pode levar a uma parada cardíaca. “Não sabemos a magnitude do risco”, disse Stecker em uma entrevista no domingo, mas os dois medicamentos podem aumentar as chances de batimentos cardíacos irregulares para alguns pacientes, e o risco é maior quando tomados em conjunto.

O presidente rejeitou repetidas vezes as advertências do Dr. Anthony Fauci, o principal especialista em doenças infecciosas do país, de que os medicamentos podem não ser tão seguros ou eficazes para as pessoas infectadas com o novo coronavírus quanto eles são para outras doenças. No sábado, em uma conferência na Casa Branca sobre a pandemia global, Trump encorajou os americanos a experimentar a hidroxicloroquina e sugeriu que as pessoas infectadas com o vírus não tinham nada a perder com a medicação, desde que seus médicos concordassem.

“O que vocês tem a perder? Tomem. Eu realmente acho que eles deveriam tomar”, disse Trump sobre um tratamento não testado para o covid-19. “Hidroxicloroquina – experimentem”.

Quando o presidente mencionou que pessoas com problemas cardíacos podem precisar abdicar da terapia combinada, ele sugeriu erroneamente que o único risco vinha da azitromicina, não da hidroxicloroquina.

Segundo Stecker, o perigo aumenta pelo fato de que muitas pessoas não sabem que elas têm o problema cardíaco que predispõe aos ritmos perigosos do coração. Isso significa que elas poderiam estar em risco de insuficiência cardíaca induzida pelos medicamentos se forem submetidas ao tratamento de covid-19 com hidroxicloroquina, que é comercializada nos EUA como Plaquenil. Os possíveis efeitos adversos listados no site da FDA incluem insuficiência cardíaca com risco de vida ou fatal, que também foi relatada com a cloroquina, da qual a hidroxicloroquina é derivada.

Na conferência de sábado, Trump também sugeriu que ele próprio poderia tomar a hidroxicloroquina, com base no que chamou primeiro de “boato” e depois de “estudo” que, segundo ele, indicava que pacientes com lúpus que tomam o medicamento não estão contraindo covid-19. Isso, no entanto, é totalmente falso, de acordo com o Dr. Jinoos Yazdany, reumatologista da Universidade da Califórnia em San Francisco.

Assista a Trump passar sem rodeios de dizer que “há um boato” de que as pessoas que usam hidroxicloroquina para tratar lúpus não pegaram covid-19 (na verdade, alguns pegaram) a chamá-lo de “um estudo” a dizer que ele pode tomar o medicamento apesar de ter dado negativo [para o coronavírus] duas vezes.

“Pessoas com lúpus, incluindo aquelas fazendo uso da hidroxicloroquina, pegaram covid-19”, disse-me Yazdany através do Twitter, citando dados coletados pela Aliança Global de Reumatologia. O registro desse grupo compilou informações sobre 167 pessoas com condições reumatológicas, incluindo lúpus, que haviam contraído covid-19 até a última sexta-feira. Mais de 25% dos pacientes do registro que foram infectados com covid-19 estavam fazendo uso de hidroxicloroquina no momento do diagnóstico. “Com base nos dados iniciais atualmente disponíveis em nosso registro, não podemos relatar nenhuma evidência de um efeito protetor da hidroxicloroquina contra o covid-19”, disse a aliança em comunicado.

“Os medicamentos contra a malária podem causar arritmias ventriculares, prolongamento do intervalo QT e outras toxicidades cardíacas, que podem representar um risco particular para pessoas gravemente doentes”, escreveram Yazdany e seu colega Dr. Alfred Kim no periódico The Annals of Internal Medicine. “Dados esses sérios efeitos adversos em potencial, a interpretação apressada e inadequada da literatura por líderes públicos tem potencial para causar sérios danos”.

“Um teste randomizado e controlado seria a única maneira de estudar isso para obter uma resposta confiável a essa pergunta”, concluíram Yazdany e Kim.

A defesa repetida e apaixonada de Trump pela hidroxicloroquina criou uma corrida global pelo medicamento, elevando os preços e dificultando que pacientes com lúpus e artrite reumatoide encontrassem a dose prescrita. Isso também levou alguns observadores a pensar se o presidente, que ainda se recusa a liberar suas declarações fiscais ao público, pode ter algum tipo de interesse financeiro em promover a droga.

“Um dos problemas de saber muito pouco sobre as finanças da família Trump”, escreveu o colunista Jamelle Bouie, do New York Times, “é que, quando o presidente se apaixona por algo como a hidroxicloroquina, não sabemos se isso reflete sua obsessão por soluções rápidas e curas milagrosas ou se ele está tentando fazer bombar um investimento”.

Outra possibilidade é que Trump esteja fazendo algo que já fez no passado: posicionando-se sobre uma questão de interesse nacional e apostando em ter escolhido o lado certo. Dessa forma, se o medicamento for eficaz, ele poderá receber o crédito por isso. Se for ineficaz, ele simplesmente mudará de assunto como se nunca tivesse falado nisso (ele fez exatamente isso com a intervenção militar dos EUA na Líbia: pedindo por ela em seu canal “Aprendiz” no YouTube em 2011 e, depois que deu errado, culpando Hillary Clinton pela intervenção durante a campanha de 2016 e removendo o vídeo do YouTube).

No sábado, Trump descartou a necessidade de dados de ensaios clínicos, imediatamente depois de seu consultor médico mais antigo, Fauci, dizer que ainda não havia evidências de que pacientes fazendo uso da hidroxicloroquina para tratar lúpus estivessem protegidos da infecção por covid-19.

Trump desfaz a resposta racional de Fauci sobre a hidroxicloroquina com uma recomendação do tipo “o que você tem a perder” sobre o medicamento

Qualquer pessoa que esteja se perguntando onde Trump está obtendo suas informações pode recorrer a uma provável suspeita: a Fox News. Desde que o presidente começou a promover a hidroxicloroquina como um “presente dos céus” em potencial, seu canal favorito promove incansavelmente evidências anedóticas de que o medicamento pode ajudar pacientes do covid-19 e subestima a necessidade de ensaios clínicos.

Uma análise da Media Matters na semana passada concluiu que “personalidades e convidados da Fox News promoveram o uso dos medicamentos mais de 100 vezes entre 23 e 25 de março”.

Como a Fox News convenceu Trump de que encontrou uma cura milagrosa para o coronavírus.

O canal deu cobertura particularmente acrítica e positiva às afirmações do Dr. Vladimir Zelenko, um apoiador de Trump que usou a terapia combinada para tratar membros da comunidade judaica hassídica em um vilarejo ao norte de Manhattan.

Na noite de sexta-feira, o cardiologista Dr. Ramin Oskoui afirmou erroneamente que “não estamos vendo pacientes com lúpus que tomam Plaquenil, o nome de marca da hidroxicloroquina, não estamos vendo esses indivíduos desenvolverem o covid. Não conheço nenhum caso relatado.”

Uma pergunta de Kilmeade nesta manhã foi revisitada quando um médico na Fox News afirmou que não estamos vendo pessoas com lúpus que tomam hidroxicloroquina desenvolvendo coronavírus.

Até que ensaios clínicos randomizados possam ser concluídos, os médicos só podem conjecturar se a hidroxicloroquina pode ou não ser um medicamento antiviral eficaz contra o novo coronavírus que causa o covid-19. Os poucos e pequenos ensaios clínicos não randomizados realizados até o momento produziram resultados contraditórios, mas a intensa defesa de Trump pela droga antimalárica como um potencial “divisor de águas” politizou profundamente a conversa pública sobre o tratamento.

Enquanto Oskoui diz aos telespectadores da Fox News que ele acha que o medicamento é promissor e apresentadores da Fox, como Laura Ingraham, provocam Fauci com todos os sinais anedóticos de que o tratamento pode funcionar, muitos médicos concordam com Fauci de que não há evidências suficientes para apoiar a aposta do presidente de que funcionará e se preocupam com os possíveis efeitos colaterais do medicamento.

“A pesquisa em andamento é um tanto encorajadora, mas muito preliminar”, disse Eric Stecker, cardiologista do Oregon. “O nível de evidência é muito pequeno para dizer com confiança que vai ajudar as pessoas”.

“Se a hidroxicloroquina funciona in vivo é algo que não está comprovado para nenhum vírus e, de fato, em ensaios clínicos randomizados contra vários vírus, incluindo a gripe, ela não funciona”, disse Dr. Douglas Richman, virologista e especialista em doenças infecciosas da a Universidade da Califórnia, em San Diego, à The Lancet, uma importante revista médica, na semana passada. “Minha inclinação pessoal é que este também será o caso do coronavírus”, acrescentou Richman.

No domingo, a Fox News continuou a apoiar o conselho médico divulgado pelo presidente dando tempo no ar ao seu advogado, Rudy Giuliani, que atacou as autoridades de saúde pública “em uma torre de marfim” que querem evidências de que a hidroxicloroquina é segura e eficaz para pacientes infectados com o covid-19. Mostrando seu nível de ignorância com a ciência, Giuliani começou com a falsa alegação de que a hidroxicloroquina tem efeitos colaterais, “nenhum dos quais é a morte”.

Rudy Giuliani defende a hidroxicloroquina

Ele continuou argumentando que não havia razão para esperar pelos ensaios clínicos para decidir se deveria ou não usar o medicamento contra o covid-19. Giuliani insistiu que a escolha de experimentar ou não o medicamento não testado em pacientes infectados com o coronavírus “deveria ser dada aos médicos, não ao burocrata de Washington, que deseja passar por três testes cegos. Quando terminarmos os três testes cegos, você sabe, a maior parte da América pode não existir mais.”

Mais tarde, no domingo, quando Jeremy Diamond, da CNN, desafiou Trump sobre o motivo de estar dando aconselhamento médico: “por que não deixar a ciência falar por si mesma? Por que você está promovendo este medicamento?” Diamond perguntou — Trump ecoou o argumento anticientífico de Giuliani. “Não temos tempo para dizer: ‘Nossa, vamos demorar alguns anos e testá-lo, e vamos testar com os tubos de ensaio e os laboratórios’”, disse Trump — entendendo completamente errado que ensaios clínicos em pacientes (conhecidos como testes “in vivo”) não são conduzidos em tubos de ensaio de laboratório (conhecidos como “in vitro”). “Não temos tempo, eu adoraria fazer isso, mas temos pessoas morrendo hoje”, disse Trump.

Quando Diamond pediu a Fauci que avaliasse a questão da hidroxicloroquina — na sequência de uma reportagem em que o beligerante consultor comercial de Trump, Peter Navarro, confrontou intensamente o médico sobre sua recusa em endossar o tratamento não testado no sábado — o presidente se adiantou e se recusou a deixar o médico especialista responder à pergunta.

Depois que Trump disse que o governo havia comprado 29 milhões de doses de hidroxicloroquina, ele ficou furioso com um repórter da Associated Press que perguntou sobre as evidências descobertas pela agência de notícias de que agências federais esperavam até meados de março para começar a fazer pedidos em massa das máscaras N95, de ventiladores e outros equipamentos médicos necessários para os profissionais de saúde. Trump interrompeu para repreender o questionador e dizer que o governo federal “havia feito um trabalho incrível”.

Trump explode com o repórter que pergunta sobre o novo relatório de que as agências federais não começaram a encomendar máscaras até metade de março.

“As pessoas que você está vendo — FEMA, os militares — o que eles fizeram é um milagre. O que eles fizeram é um milagre, ao conseguir tudo isso. O que eles fizeram pelos estados é incrível, e você deve agradecê-los pelo que fizeram, não ficar fazendo perguntas sabichonas”, disse Trump, antes de encerrar abruptamente a conferência. Ele então saiu, tendo perdido o controle do que ele aparentemente esperava ser um evento totalmente autopromocional, disfarçado de conferência de imprensa sobre a emergência de saúde pública que ele piorou com meses de negação e inação.

Na segunda-feira, a apresentadora da Fox News, Dana Perino, foi repreendida pelo Dr. William Haseltine, ex-professor da Escola de Medicina de Harvard que ajudou a desenvolver o primeiro tratamento para o HIV/AIDS, por afirmar que alguns pacientes de covid-19 vivenciaram um “efeito Lázaro ao usar esse medicamento”.

Âncora da Fox: Você pode me falar sobre a droga que é normalmente usada para tratar malária.

Dr. Haseltine: É triste para mim que as pessoas estejam promovendo esta droga.

Âncora: Mas e as evidências anedóticas?

Haseltine: São total e completamente sem sentido. Irresponsáveis.

“São sem sentido, total e completamente sem sentido”, disse Haseltine. “Sempre haverá pessoas para promover uma e outra cura milagrosa e que há ‘efeito Lázaro’. Em todas as epidemias que presenciei, sempre há algo assim.”

Tradução: Maíra Santos