Para mensurar o tamanho do dano que Donald Trump causa todos os dias, ao se colocar no centro da discussão nas coletivas da Casa Branca sobre a pandemia do coronavírus, distraindo a atenção das atualizações vitais dadas pelos cientistas sobre a emergência de saúde pública, basta ver como outras democracias lidam de forma totalmente diferente com esses eventos.

Pergunta: Que métrica você vai usar para tomar essa decisão?
Trump, apontando para a própria cabeça: essa métrica bem aqui. Essa é a minha métrica.

Na Grécia, por exemplo, o país recebe todos os dias, às 18h, informações de Sotirios Tsiodras, um modesto professor de medicina que estudou doenças infecciosas em Harvard e atualmente comanda a força-tarefa do governo grego contra o coronavírus. Tsiodras, normalmente acompanhado de suas anotações, tem levado crédito por ajudar a mobilizar o país rapidamente a aceitar a quarentena em nível nacional. Até agora, a política de isolamento grega tem sido uma das mais bem-sucedidas, em grande parte por apresentar os dados científicos na voz de uma autoridade calma e racional. Nas raras ocasiões em que perde sua aparência impassível – como o momento, no mês passado, em que implorou aos gregos que protegessem os parentes idosos ficando em casa –, o impacto é ainda mais poderoso.

Diante da pergunta “por que tanto estardalhaço em relação a pessoas velhas e doentes”, o epidemiologista-chefe da Grécia não se conteve.
“São nossas mães e nossos pais; avós e avôs. Essa é a minha resposta: honramos e respeitamos todas as pessoas, especialmente eles. Sem eles, não temos identidade; não existimos.”

Na sexta-feira (10), Tsiodras anunciou 56 novos casos de covid-19 na Grécia, e mais quatro mortes, levando o total de casos a 2.011, com 90 mortes. Ele terminou suas observações iniciais pedindo solidariedade com a minoria roma [chamados em português de ciganos] do país. “Não há espaço para discriminação, ódio, medo, segregação, para segregações em nossa sociedade ou nas demais sociedades do mundo”, disse Tsiodras. “O que o mundo precisa, o que vai nos ajudar a superar essa pandemia é, acima de tudo, a união e a solidariedade entre nós.”
O primeiro-ministro da Grécia, Kyriakos Mitsotakis, tem usado o Twitter, não para atacar autoridades regionais ou reclamar do impacto da quarentena sobre a economia, mas para compartilhar um vídeo mostrando como tem sido bem-sucedido o esforço para esvaziar as ruas do país.

Em outras palavras, os gregos vivem numa espécie de universo paralelo, onde os americanos também poderiam estar se Trump se abstivesse de comentar assuntos sobre os quais não entende nada, e deixasse o imunologista Anthony Fauci – principal nome da força-tarefa contra a covid-19 nos EUA – apresentar atualizações calmas e baseadas em fatos sobre a luta contra o coronavírus, com eventuais comentários empáticos sobre as disparidades na assistência de saúde que a pandemia tem revelado na sociedade americana.

Dr. Anthony Fauci: “Quando tudo isso acabar – e como já dissemos, isso vai acabar, vamos superar o coronavírus – ainda haverá as disparidades na assistência de saúde, com as quais precisamos lidar na comunidade afro-americana.”

Na França, o presidente Emmanuel Macron não aparece em lugar algum enquanto a atualização diária sobre a disseminação da covid-19 é transmitida ao vivo na televisão pelo epidemiologista Jérôme Salomon, consultor-chefe da área médica no departamento nacional de saúde. Salomon também recebe perguntas da imprensa, porque, segundo a L’Obs, uma revista francesa de notícias, Macron quer que o público seja informado por um especialista de confiança, e não um político.

Embora Macron tenha passado a quinta-feira (9) em Marselha, reunido com o professor Didier Raoul, um virologista que pesquisa o potencial uso do medicamento hidroxicloroquina para os pacientes com covid-19, o presidente francês, ao contrário de Trump, se recusou a endossar o medicamento em teste como cura milagrosa.

Os alemães também recebem notícias diárias sobre a batalha para conter a disseminação do vírus de um especialista médico, Lothar Wieler, diretor do Instituto Robert Koch, a agência federal responsável pelo controle de doenças.

Na Irlanda, as notícias são dadas todos os dias pelo Dr. Tony Holohan, diretor médico do departamento de saúde do país, muito embora o atual primeiro-ministro, Leo Varadkar, seja médico também.

Tony Holdan, médico-chefe, relata mais 25 mortes pela covid-19 e 480 novos casos confirmados.

Holohan, como Tsiodras e Fauci, se tornou uma celebridade local desde o começo da pandemia, visto como um homem íntegro que fala em linguagem clara.

Os canadenses recebem atualizações bilíngues sobre o vírus em coletivas de imprensa lideradas por uma política eleita, a vice-primeira-ministra Chrystia Freeland, embora ela passe a palavra aos especialistas médicos, a diretora de saúde pública, Theresa Tam, e seu colega, o epidemologista Howard Njoo.

Em vez de atacar seus oponentes políticos ou resmungar sobre as críticas que sofre da imprensa, o primeiro-ministro Justin Trudeau tem dedicado suas aparições na mídia a defender para o público em geral a necessidade das medidas recomendadas pelos cientistas.

O primeiro-ministro Trudeau alertou que pequenos surtos podem ser a “nova normalidade” para os canadenses até que seja desenvolvida uma vacina para a covid-19.

Ainda no Canadá, no âmbito das províncias, as atualizações diárias na Colúmbia Britânica são comandadas pela médica Bonnie Henry, uma autoridade pública com humildade suficiente para admitir que parte do sucesso da região até agora se deve à “sorte”.

Por que a Colúmbia Britânica está tendo mais sucesso em achatar a curva da #COVID19 do que Ontário e Quebec? Sorte, preparação e o timing das férias de primavera mais tardias na província, diz a médica Bonnie Henry.

Na Espanha, ministros apresentam as notícias, mas ao lado de um especialista médico, o Fernando Simón, diretor do centro de emergência médica da Espanha, que foi inclusive infectado pelo coronavírus em março. O médico, que se tornou uma espécie de celebridade, recentemente voltou a participar das coletivas, em quarentena, por chamada de vídeo.

Mesmo nos países em que os políticos tomam a dianteira na apresentação das atualizações, como a
Áustria e o Japão, as autoridades, diferentemente de Trump, dão o exemplo do comportamento adequado em público, observando o distanciamento social e usando máscaras.

O primeiro-ministro tcheco Andrej Babiš, um magnata populista anti-imigração, tem semelhanças superficiais com Trump, mas abraçou a ciência o suficiente para declarar estado de emergência antes da primeira morte por covid-19 no país. Babiš permite que as coletivas de imprensa sobre coronavírus sejam conduzidas por seu ministro da saúde e, depois de tornar o uso de máscaras em público obrigatório no mês passado, também usa uma quando vai se dirigir à nação.

As atualizações diárias no Reino Unido, comandadas por um político experiente, têm sido criticadas por observadores como excessivamente políticas – até mesmo no modelo Trump de “bobagens defensivas de veja-como-estamos-indo-bem”. Em uma coletiva de imprensa antes de ser contaminado pela covid-19, o primeiro-ministro Boris Johnson inclusive se gabou, ao estilo de Trump, de ter continuado a apertar as mãos dos eleitores, mesmo durante uma visita a um hospital com pacientes de coronavírus.

“Estive em um hospital uma noite dessas onde acho que havia alguns pacientes de coronavírus, e apertei a mão de todos.”

Boris Johnson diz que não se recusou a apertar as mãos das pessoas durante a epidemia de #COVID19
Ainda assim, a cada coletiva em Londres, o governante eleito aparecia acompanhado de dois especialistas médicos com liberdade para responder perguntas dos jornalistas depois dos comentários políticos iniciais.

Diante da pergunta de @Peston sobre o que o Reino Unido poderia aprender com a Alemanha, o professor Chris Whitty, diretor médico, respondeu: ‘sabemos que a Alemanha tomou a dianteira em sua capacidade de testar a presença do vírus, e há muito a aprender com isso’.

Mesmo a contragosto, dois dos líderes mais semelhantes a Trump no planeta, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, têm permitido que os especialistas falem, na maior parte do tempo, sem muitos impedimentos.

Erdogan foi inicialmente criticado por minimizar a ameaça que o vírus representava, mas permite que seu ministro da Saúde, Fahrettin Koca, apresente atualizações diárias, com forte base científica, no esforço de combater a disseminação.

Bolsonaro se opõe ao distanciamento social, ao contrário do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, demitido nesta quinta-feira (16). Ainda assim, permitia que o médico conduzisse atualizações diárias ao público. O novo ministro, Nelson Teich, também defende a necessidade de isolamento social, embora se diga alinhado ao presidente Bolsonaro.

Na quinta-feira passada (9), Mandetta alertou o público para se precaver contra os “falsos profetas” que prometem curas, e debochou dos anti-vacina, alegando que assim que uma vacina contra a covid-19 for desenvolvida, serão os primeiros da fila para tomar.

Bolsonaro compartilha a fixação de Trump com a possibilidade de que a hidroxicloroquina, medicamento antimalárico, possa ser uma cura milagrosa para a covid-19. Ambos são impacientes com os especialistas médicos que querem provas de que o medicamento seja seguro e eficaz em estudos clínicos randomizados antes de recomendá-lo aos pacientes. No mês passado, o Facebook e o Twitter apagaram vídeos de Bolsonaro dizendo que o medicamento estava “funcionando” em outros lugares para curar a covid-19, considerando que se tratava de uma violação às políticas contra a disseminação de informações falsas sobre o coronavírus.

Como resultado disso, Mandetta teria resistido à pressão do presidente do Brasil para aprovar o uso de hidroxicloroquina para pacientes de covid-19 ao primeiro sinal da doença. O ex-ministro da Saúde disse no começo da semana passada que os médicos poderiam prescrever o medicamento para pacientes ambulatoriais, mas precisarão assumir a responsabilidade pelos possíveis efeitos adversos, caso o façam. Nas duas últimas semanas, houve 43 casos de problemas cardíacos relacionados ao tratamento com hidroxicloroquina em pacientes de coronavírus na França, segundo a agência de segurança de medicamentos do país.

Tradução: Deborah Leão

Atualização: 16 de abril, 21h40
A versão anterior do texto foi publicada antes de Luiz Henrique Mandetta ser demitido do Ministério da Saúde. Por isso, o trecho que tratava da “ameaça de demissão” foi retificado.