Respirator mask

Foto: Ute Grabowsky/Photothek via Getty Images

Há três anos, Mariana*, hoje com 50 anos, descobriu um problema pulmonar incurável. Ela toma remédios para mitigar o avanço da doença. Aos poucos, segundo ela, seus pulmões vão parar de funcionar. A condição de saúde, porém, nunca a impediu de exercer sua profissão – há duas décadas ela é enfermeira. O cenário mudou, porém, quando o hospital municipal em São Paulo onde trabalha tornou-se referência para tratamento de pacientes com coronavírus, que compromete severamente os pulmões.

“Se tivesse equipamento, talvez fosse mais tranquilo”, ela me disse, fazendo referência a uma reportagem publicada pelo Intercept que revela que 62% dos servidores na capital não têm equipamentos de proteção individual – os EPIs – para trabalhar. Mariana comprou, com recursos próprios, máscaras N95. Apesar de pedir insistentemente e apresentar documentação para ser realocada ou afastada, isso ainda não aconteceu. Conforme os dias corriam, a falta de ar aumentava. Não pela doença pré-existente, mas por ansiedade.

A dificuldade de respirar começou a dividir espaço com a insônia e a taquicardia. Ela, então, passou a ter certeza de que morreria. Chegou a ligar para um cemitério para preparar os trâmites de seu enterro. O que os filhos, de vinte e poucos anos, fariam sem ela? Falamos pela primeira vez quando as primeiras denúncias sobre a falta de equipamentos começaram a aparecer. Depois, quando ela conseguiu encontrar uma saída, breve, para a angústia que vivia.

Há quase duas décadas trabalho na saúde pública. Estamos acostumados a trabalhar sob pressão e sem equipamentos. A gente improvisa e dá tudo certo. Sempre gostei do meu trabalho, da vida corrida. Há três anos, descobri ter enfisema pulmonar, uma doença incurável que deteriora a capacidade de respirar. Troquei o cigarro por medicamentos que freiam a velocidade da progressão da doença. Fazia o tratamento e trabalhava normalmente até a chegada do coronavírus.

Quando surgiram os primeiros casos, fiquei muito preocupada, porque faço parte do grupo de risco. O coronavírus ataca os pulmões, e os meus já não estão bons. O enfisema tem cinco graus, sendo o último o pior, e eu estou perto do quatro.

Do dia para a noite, o hospital onde trabalho tornou-se referência em atendimento a pacientes com coronavírus. Naquele dia, segui minha rotina. Falei com meus filhos, de vinte e poucos anos. Saí de casa um pouco depois das 18h e, quase trinta minutos depois, o ônibus parou perto do hospital. Meu turno é o da madrugada, das 19h às 7h. Na primeira noite, três ambulâncias chegaram juntas. Não era acidente, mas covid-19. Nos rostos dos amigos, eu só encontrava medo.

Presenciei cenas horríveis de amigos brigando para trabalhar com equipamentos de proteção individual. Uma guerra por um punhado de luvas.

Na segunda noite lá, alguns já tinham mandado familiares para outras casas com medo de contaminar filhos ou companheiros. Era melhor ficar sozinho do que conviver com a culpa de contaminar quem você ama.

Eu deveria ter sido afastada do trabalho ou da linha de frente dos cuidados com pacientes vítimas de coronavírus. Mas isso não aconteceu, apesar de eu insistir muito e apresentar todo meu histórico médico. Presenciei cenas horríveis de amigos brigando para trabalhar com equipamentos de proteção individual. Uma guerra por um punhado de luvas. Mas se você não brigasse, ficava sem. Fiquei até com dó da supervisora, idosa e cardiopata. Em uma das ocasiões, um paciente chamou a polícia.

Se tivesse material de proteção, acho que trabalharia mais tranquila. Mas nem isso. Tinha certeza de que se pegasse coronavírus, iria morrer. Então, comprei equipamentos com recursos próprios, como máscaras N95, imaginando que, assim, domaria o medo. Não funcionou. Entrava todos os dias no hospital pensando no pior. Quando o medo era insuportável, entrava no banheiro e chorava. Vi colegas contaminados, entubados. Um enfermeiro morreu por covid-19. Também vi os pacientes tristes, sozinhos no leito. E a família sem poder ver. Uma amiga enfermeira pegava um pedaço de papel, fingia ser um bilhete e dizia para o paciente que era um recado da família. Lia mentiras com carinho para confortá-lo.

Primeiro, a ansiedade me deu uma tosse nervosa. Depois, insônia. E, por fim, taquicardia. Passei em consulta com um médico, que me afastou por 12 dias. Sentia falta de ar, mas não era do enfisema. Era do medo.

Uma amiga, enfermeira e diabética, chegou a se despedir dos filhos acreditando que não os veria de novo. Mas eu não tinha coragem. Outra disse que tinha seguro de vida e que até os netos ficariam bem, mas não conseguiu informações a tempo. Comecei a pensar o que poderia fazer para deixar tudo em ordem quando eu morresse, para as pessoas não sentirem tanto a minha falta.

Tinha certeza de que ia morrer a qualquer momento. Mesmo sem estar doente ou ter sintomas, liguei para o cemitério e perguntei se era preciso desenterrar alguém sepultado no jazigo da família para o meu sepultamento. Era o plano para poupar os filhos da minha morte. Depois, liguei para o meu ex-marido e passei tudo o que eu queria que ele fizesse, as pendências…

Meus filhos souberam do meu plano para morrer sem traumatizá-los. A minha filha, mais pragmática, pediu calma e disse que eu estava me cuidando e que nada ia acontecer. Meu menino desmoronou. Pediu que não desistisse de lutar. Por mim e por eles.

Há duas semanas, um psiquiatra me afastou do trabalho por dois meses. Até o retorno, vou tomar um comprimido para a ansiedade quando acordar e outro para conseguir dormir. Meus amigos que seguem na linha de frente no hospital dizem que a enfermaria segue cheia de covid. E de morte.