Uma mulher visita o Memorial dos Veteranos do Vietnã vazio, em 14 de abril, em Washington.

Uma mulher visita o Memorial dos Veteranos do Vietnã vazio, em 14 de abril, em Washington.

Foto: Drew Angerer/Getty Images

Nascido em meio a controvérsias, o Memorial dos Veteranos do Vietnã é agora o monumento mais tocante no National Mall de Washington D.C. Projetado em 1981 por uma estudante de Yale chamada Maya Lin, o memorial consiste em painéis de granito preto polido que formam um ângulo de 125 graus e levam inscritos os nomes dos militares dos EUA mortos no conflito. Os dois murais, baixos nas extremidades e altos onde eles se encontram no meio, listam os mortos cronologicamente – uma contagem individual, dia após dia, de cada vida americana perdida.

Foram necessários 20 anos, de 1955 a 1975, para os EUA perderem 58.220 homens e mulheres – 47.434 em combate – no conflito que mais dividiu o país desde a Guerra Civil. Em menos de quatro meses, o mesmo número de americanos morreu na pandemia de coronavírus – a cifra total foi superada pela pandemia nesta terça-feira. Em pouco tempo, os EUA passaram por essa marca assustadora. Se isso é realmente uma guerra, como o presidente Donald Trump descreveu – nas palavras dele, “estamos travando uma guerra contra o inimigo invisível” – uma pergunta pode ser feita: onde e como serão recordados os mortos deste conflito?

Será que um presidente que apostou seu legado em um “grande e belo muro” ao longo da fronteira com o México vai acabar sendo lembrado por um muro muito diferente, que traz os nomes das dezenas de milhares de americanos que morreram sob seu olhar? Esse muro poderia trazer os nomes de todos aqueles que pereceram no front dessa pandemia, como Vitalina Williams, uma imigrante de 59 anos vinda da Guatemala que trabalhava em um supermercado em Massachusetts; Ferdi German, de 41 anos, um veterano do Exército que trabalhava como inspetor dos vagões do metrô da cidade de Nova York; Craig Franken, 61 anos – casado há quase 20 – que trabalhava no frigorífico da Smithfield Foods em Sioux Falls, na Dakota do Sul; e quatro membros da família Franklin de Nova Orleans, Antoinette, de 86 anos, e seus filhos Herman, 71, Timothy, 61, e Anthony, 58, que sobreviveram a um cataclismo prévio – o furacão Katrina, associado (e exacerbado por) um presidente anterior – apenas para sucumbir a outro desastre, 15 anos depois.

Também há os profissionais de saúde, os médicos, enfermeiros, paramédicos e outros trabalhadores do setor que – como tantos médicos do Exército e da Marinha cujos nomes aparecem no Memorial dos Veteranos do Vietnã – correram em direção ao perigo e sacrificaram suas vidas em um esforço para salvar outros americanos. Essas pessoas corajosas incluem Celia Yap-Banago, de 69 anos, uma imigrante das Filipinas que passou quase 40 anos trabalhando como enfermeira no Centro Médico de Pesquisas em Kansas City, no Missouri, e ficou doente depois de um paciente suspeito de estar com covid-19. Também inclui Madhvi Aya, 61 anos, uma imigrante indiana que trabalhou como assistente de um médico no Hospital Woodhull, no Brooklyn, em Nova York, e tratou pacientes com coronavírus usando apenas uma máscara cirúrgica.

A cerca de 100 metros do Memorial dos Veteranos do Vietnã existe uma escultura feita por Glenna Goodacre, que morreu, aos 80 anos, em 13 de abril. Inspirada na “Pietà” de Michelangelo, ela representa três mulheres de uniforme ao redor de – e uma delas embalando carinhosamente – um soldado ferido. “A ênfase dessa homenagem está centrada em suas emoções – compaixão, ansiedade, fadiga e, acima de tudo, dedicação”, disse Goodacre quando a estátua foi inaugurada. Poderia haver um modelo melhor para uma escultura honrando os esforços de profissionais de saúde como Yap-Banago e Aya para acompanhar um muro em memória dos mortos dessa pandemia?

Durante anos, os presidentes americanos elogiaram o progresso durante a desastrosa guerra no Vietnã. “Podemos julgar com razão … que o progresso dos últimos três anos teria sido muito menos provável, se não completamente impossível, se os filhos da América e outros não tivessem feito sua parte no Vietnã”, disse o presidente Lyndon Johnson em março de 1968. Em agosto de 1972, seu sucessor, Richard Nixon, disse: “eu prometi buscar um fim honroso para a guerra no Vietnã. Fizemos um grande progresso nesse sentido”. Trump reviveu repetidamente a frase manchada pela Guerra do Vietnã que se refere à “luz no fim do túnel” durante esta pandemia e, de forma semelhante, disse que avanços estavam sendo feitos apesar do número crescente de mortes. “Enquanto continuamos nossa batalha contra o vírus, os dados e os fatos sugerem que estamos obtendo um grande progresso”, ele disse recentemente durante sua versão particular das loucuras das 5 da tarde.

Na semana passada, Trump sugeriu que o número de mortos da pandemia de coronavírus poderia chegar a 50 mil vidas americanas perdidas. “Fizemos a coisa certa, porque se não tivéssemos feito, você teria um milhão, um milhão e meio, talvez 2 milhões de pessoas mortas”, disse ele. “Agora, estamos indo para 50, pelo que dizem, ou 60 mil pessoas”. Uma previsão de 50 mil mortos feita em 20 de abril era tão irreal quanto a infundada alegação de Trump, em janeiro, de que “temos [a covid-19] totalmente sob controle”, e suas ficções de fevereiro de que o vírus “desaparecerá em abril”, e que, “dentro de alguns dias [o número de americanos com covid-19] será reduzido a quase zero”.

No início deste mês, em uma das suas coletivas de imprensa, Trump também elogiou os frutos de seus esforços na fronteira com o México. “Já temos cerca de 270 quilômetros de muro”, gabou-se. Mas, ao dedicar muito mais tempo e energia a esse projeto do que à preparação para uma pandemia, o número de mortos pela covid-19 durante seu governo ultrapassou, em quatro meses, duas décadas de conflito armado no sudeste asiático (o número de civis vietnamitas mortos durante esses anos é estimado em cerca de 2 milhões, quase o mesmo número de mortes previstas nos EUA para o pior cenário da pandemia, sem medidas para retardar o avanço do coronavírus através do distanciamento social).

Foram necessários dois muros de 60 metros, feitos por 70 painéis independentes, para listar os mais de 58 mil mortos no Memorial dos Veteranos do Vietnã. Quantos nomes – funcionários de mercados, de armazéns, motoristas de telentregas, zeladores, trabalhadores de frigoríficos, médicos, enfermeiros e paramédicos – aparecerão em um memorial da covid-19 é algo que não saberemos por anos. Algumas projeções colocam o número total em mais de 67 mil mortes por coronavírus em agosto. A Casa Branca alertou anteriormente sobre a possibilidade de até 240 mil mortes. Algumas estimativas apontam o número de 300 mil americanos perdidos para a doença nos próximos anos.

Por enquanto, precisamos continuar contando os mortos e começar a pensar em como registrar a memória de toda a dor, todas as mortes enfrentadas em solidão, todos os corpos entregues às valas comuns, todas as vidas perdidas cedo demais. Já sabemos que um muro para homenagear as vítimas do coronavírus nos EUA seria grande, muito grande. E sabemos que, por mais comovente que seja o design, por mais que mexa com a alma, por mais icônico que ele venha a se tornar, nunca haverá nada de bonito nele.

Nick Turse, colaborador do Intercept, é autor de “Kill Anything That Moves: The Real American War in Vietnam” (em tradução livre “Mate tudo que se move: a verdadeira guerra americana no Vietnã”, sem edição brasileira).

Tradução: Maurício Brum